#10. Escritor é gente como a gente
Só que com algo mais, um poder misterioso que os levou a escrever
COMO VIVIAM OS ESCRITORES CLÁSSICOS NO DIA A DIA? Romancistas, poetas, ensaístas, filósofos... à parte todas as coisas muito maravilhosas que escreveram — com todo esmero, sensibilidade, força, enfim; de que modo cada um se portava na lide diária, na vida comum? Quero dizer, no lavar das louças, nas minudências da vida comezinha, como agiam? Que temperamento tinham? Quais manias ou cacoetes?
Foram gente exemplar ou gente moralmente manca? Eram bons cidadãos (pfui)? Cada um emanava diariamente aquele mesmo brilho de seus textos ou evitavam o perigo como uns covardões, reservando a coragem para a pena, única vingança contra o mundo atroz que os pressionava ou intimidava? (Seu Ernest aí na foto certamente não era assim, sabemos.)
Poderia aquele filósofo daquela obra tão sublime ter sido um cafajeste na vida real? Olha, não é difícil; duvido, aí sim, que fosse um rematado canalha ou criminoso: um nível tão baixo de vida não poderia corresponder à sabedoria na pena.
Entretanto, não é difícil conceber um sujeito que cometesse pequenos deslizes ou que fosse um safo cujas leves trapaças fossem um recurso útil quando não tinha outra saída. Pois bem: se acaso tais atitudes fossem registradas e amplamente divulgadas, isso não lhes tiraria a credibilidade das obras?
Claro, sem generalizar. Há o extremo oposto, autores que fizeram grande literatura e viviam uma vida normalzinha e ordinária, que batiam o ponto e pagavam os impostos, que davam o exemplo e cumpriam os horários, tudo nos conformes. Mas trato aqui dos fora da curva, e não foram poucos.
Entramos nesse assunto e é inevitável nos depararmos com a dita moral burguesa, que tem lá seu aspecto positivo para transações comerciais e registros contábeis, tem sua utilidade para cláusulas contratuais e a boa-fé dos carimbos, mas que passa ao largo da arte e da personalidade artística. A moral burguesa e seus codigozinhos requerem certa renúncia do espírito para o bem da civilidade, algo com que muito artista ou intelectual simplesmente não conseguiu lidar muito bem, por motivos variados.
Então, a vida comum dos autores mais clássicos são um mistério na maior parte dos casos, salvo uma biografia aqui e outra ali. Sobretudo porque no passado não havia — ao menos não com tanta abrangência — o maravilhoso jornalismo para informar-nos a respeito. (Parêntese: jornalismo não muito querido por escritores ilustres; Stendhal o chamava ordinário e Karl Kraus rogava-lhe pragas aforismo sim, aforismo não. Haverá outros exemplos. Fecha parêntese).
Conviver com um Nietzsche, imagine só: aquele bigodão sugeria de cara alguém não muito normal. Entabular conversa com Kafka, então? Bate bem da cachola esse sujeito franzino e esquisito? Até as professorinhas do ginásio acham-no meio esquisito.
Há exemplos mais recentes e conhecidos: Doris Lessing deixara os filhos na Rodésia com o ex-marido para dedicar-se à literatura em Londres. Sem julgar, mas cá pra nós, uma mãe largar dois filhos num fim de mundo não é lá muito usual. Depois ela ganha um caminhão de prêmios literários, inclusive o Nobel. No fim das contas deu certo, no assunto literatura.
E Somerset Maugham (escritorzinho do coração, aqui)? Dizem as más línguas que em plena terceira idade o velhinho deu de engraçar-se com rapazotes imberbes. Justo ele, que toda a vida foi tão discreto nestes particulares de alcova? Fofoca da braba, certeza.
O fato é que para nós, leitores, tantas intrigas mais realçam do que desabonam a personalidade dos autores. Que importa o homem? Importa o mito. E, se alguém hoje se disser ofendido por julgá-los inescrupulosos e indignos da leitura, está fingindo, dá licença: no fundo, o medíocre só quer uma boa desculpa para não ler, não os leria de qualquer modo.
Mas falar é fácil. Para quem conviveu proximamente daqueles sujeitos não deve ter sido moleza não. Pense num Hemingway, de novo: tinha toda pinta de ser intragável o sujeito. Já se mostrava insuportável numa antiga entrevista na Paris Review, nos anos 50, sem qualquer nesga de simpatia.
Seu William Faulkner, bem, seria preciso sorte para encontrá-lo sóbrio: suas respostas na mesma revista soavam meio papo de bar. E por falar em bar, Fitzgerald, doce rapaz, sorvia whisky atrás de whisky por causa da sua problemática Zelda (suas amigas diziam o oposto, que seu probleminha de cabeça era tudo culpa do Scott).
Volto à filosofia. É consabido o rabicho incestuoso de Nietzsche com a pobre irmãzinha, fora a loucura toda do sujeito. E a sífilis? Moléstia certamente não contraída por comer apfelstrudels em cafés. Malgrado tudo isso, sua filosofia é maravilhosa.
Num outro caso, um jovem Schopenhauer confessa, cara de pau: “agradeço a papai que proporcionou-me renda suficiente para dedicar-me ao ócio e aos assuntos do espírito.” Olha, Arthur, isso tem nome e não é pessimismo.
Para que ninguém falasse mal de si, Henry Miller promoveu a auto difamação em sua literatura, na qual desnuda-se (literalmente): não falem mal de mim, deixa que eu mesmo falo (do verbo falar). Outro que se difama (e exagera) nos escritos é Jean Genet, ao relatar suas peripécias de mendigo, ladrão e bicha com requintes escatológicos. Quis épater le bourgeois o Jean, chocar mocinhas melindrosas nos vestidos e senhores vetustos nos capotes.
Quanto a nós, cidadãos-médios atuais, que acharíamos de voltar ao passado e conviver intimamente com aqueles homens e mulheres quando ainda caminhavam na terra, na flor da idade e no auge da criatividade? Será que, ao saber-lhes tantas idiossincrasias — ou erros cabeludos e pecados capitais — nutriríamos o mesmo respeito por suas obras? Diríamos como dizemos hoje, que são clássicos?
Arrisco um palpite: respeitaríamos nada. Alguns os endeusariam pelos motivos errados, e a maioria pretensamente letrada logo os cancelaria nas rodas de debate: “são antiéticos, machistas, misóginos” e o pacote todo. E quanto ao jornalismo, tão desprezado por Stendhal e Karl Kraus, certamente os moeria vivos. No fim, todos os enterraríamos sob uma montanha de desculpas cínicas e lhes viraríamos as costas, como uns bons medíocres.
Mas também pouco importaria para muitos deles. Enfrentaram coisas piores em seu próprio tempo e sobreviveram. Desprezaram a máxima do “viver o que apregoa”. Passaram ao largo dos pruridos e muxoxos da burguesia metida à besta. Sabiam que literatura é matéria humana e demasiado humana, e que assepsia ostensiva é para hospitais.
Não vai aqui, entretanto, um elogio do desvio proposital de caráter ou da personalidade tortuosa per se. Defeitos humanos são acidentes, naturais ou de formação, resultados do destino e da Queda. No fundo, a literatura daqueles autores representa uma busca sincera, um expurgo do próprio mal, um desejo pela essência mais pura e central do ser, por uma origem incontaminada de onde tudo deve partir.
Nesse sentido, os desvios habitavam apenas a exterioridade da personalidade e por isso foram visíveis aos seus contemporâneos. De novo, pode não ter sido fácil a convivência com muitos deles, sem dúvida.
Para nós, hoje, permanece aquela busca registrada nas obras, busca também nossa, que nos ajuda a olhar para dentro e pensar a respeito. Não que devamos copiar seus modos de viver, claro. Mas sem dúvida somos feitos da mesma massa, e descobrimos que o escritor clássico foi gente como a gente — sujeitos aos mesmos defeitos que a gente. Eles, porém, tiveram certo poder misterioso que os levou a escrever, e como escreveram.
O livro e a escova
Há coisa de dois anos e pouco, no auge da pandemia, eu vagava pelo centro de São Paulo em meio aos zumbis, já que os citadinos se isolavam com medo do corona. Então, por acaso passo por uma banca de jornal na Praça da República e noto uma pilha de livros de encalhe vendidos ali. Um deles chama-me a atenção pela capa, pelo título e preço, só dez pratas. Levei.
O livro chamava-se A terrível intimidade de Maxwell Sim (2010)¹, do escritor inglês Jonathan Coe², publicado pela Record em 2012. Até àquela altura, nunca ouvira falar do autor. Depois vou à Wikipedia e descubro que o sr. Coe é um escritor prolífico – com outros títulos traduzidos em território nacional.
Bem, o livro conta a história de certo Maxwell Sim, um sujeito de quarenta e tantos anos, pacato, banal e mediano, como qualquer outro. E, na sua idade, passa pela crise de quem nem é velho nem moço, a famosa crise da meia-idade.
Num belo dia ele chega em casa e acha um bilhete à mesa. Sua mulher, uma escritora tentando a sorte, pegou a filha, juntou os trapos e se mandou para a casa da mãe, longe dali, sem explicações. Pede para que o marido não lhe procure.
O tal Sim vai morar com o pai idoso, todo sem graça pelo fracasso, e arranja um novo emprego, como representante de vendas de uma novíssima marca de escovas dentais cujo diferencial em relação à concorrência é ser feita de madeira e ter cerdas biodegradáveis, que não poluem o meio-ambiente.
E daí segue a história de Sim, as reviravoltas todas, o reencontro com a vida amorosa, lojinha que ele tinha fechado há tempos dentro de si. O livro é divertido, bonito até, especialmente para homens mais ou menos na mesma faixa etária. Faz parte, imagino, daquela tradição inglesa de livros despretensiosos, feitos para se ler à hora do chá. Quem dera tivéssemos uma literatura dessas por aqui.
Mas eu queria falar do poder da literatura. A questão é a seguinte, às vezes há escritor que se lamenta em segredo, acha que ninguém o lê. Alguém te lê sim, amigo escritor. Quer ver?
Pois veja: o sr. Jonathan Coe imagina um produto-paródia em seu livro (a tal escova natural) e dias atrás descubro que a toda poderosa Colgate lhe toma emprestada a idéia: a escova descrita no livro de Coe está lá, igualzinha, manufaturada e disponível ao público, lançamento mundial. Quando vi, ri na mesma hora, vê se pode.
De modo que é certo afirmar que a literatura tem poder, até a mais despretensiosa delas, como a do sr. Coe. Está comprovado.
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Transforma-se o amador na cousa amada
Gosto se desenvolve, mas a propensão é inata. Gosto se desenvolve na pessoa se nela houver propensão, e lógico que não há como saber quem tem propensão.
Como não há como saber quem tem propensão, cabe divulgar o objeto do gosto tanto quanto for necessário e para o máximo de pessoas possível.
É preciso apresentar e disponibilizar o objeto, falar do objeto, trazê-lo à convivência e à proximidade das pessoas. Daí em diante, quem tiver a predisposição quererá aquilo, e cada vez mais.
Com a leitura é assim, acredito: um afeto que se encerra em nosso peito juvenil. A potência do gostar de ler vem antes do gosto em si, como um solo fértil. Depois, há uma absorção lenta do gosto via emulação (que é a imitação baseada na admiração), e depois caminha-se com as próprias pernas, toma-se posse do objeto.
Daí em diante, com o gosto estabelecido, o objeto do afeto pode se emancipar gradativamente de modo a atrair as propensões de outras pessoas, e a roda do gosto continua a girar. Forma-se leitores assim.
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O bom é inimigo do melhor
Prendam quem inventou esse ditado. O bom é o melhor e ponto, não há melhor além do bom. O bom é suficientemente bom, oras.
Todas as vezes que troquei o bom efetivo pelo melhor hipotético, com base nesse dito empulhador, quebrei a cara lindamente: o melhor revelou-se pior que o bom anterior, e eu me arrependi ao fel por ter cometido a besteira.
Então, o bom é inimigo do melhor coisa nenhuma. O bom é o único melhor que há, e tudo além do bom é ruim – variando apenas o grau de ruindade da coisa.
O inventor desse ditado não é de Deus, não. Vox diabolus, isso sim.
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Quem disse
“Mas essa é exatamente a virtude da linguagem: é ela que nos lança ao que ela significa; ela se dissimula a nossos olhos por sua operação mesma; seu triunfo é apagar-se e dar-nos acesso, para além das palavras, ao próprio pensamento do autor, de tal modo que retrospectivamente acreditamos ter conversado com ele sem termos dito palavra alguma, de espírito a espírito.”
— Maurice Merleau-Ponty
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“Por outro lado, o conhecimento prático não pode ser ensinado nem aprendido, apenas comunicado e adquirido. Ele existe única e exclusivamente na prática, sendo possível sua aquisição através do relacionamento com um mestre.”
— Michael Oakeshott
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“O homem pode significar muito para si próprio, e quanto mais ele significa para si, mais significa para os outros.”
— Jacob Burckhardt
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Direto do almoxarifado:
A difícil relação do Brasil com os livros
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