#11. O estilo, a alma do escritor
Naturalidade e técnica ao mesmo tempo, o estilo literário torna a leitura cativante
“As qualidades do estilo podem ser explicadas em tantos artigos quantos se quiser. Tudo se pode traduzir, acredito eu, nestas três palavras: verdade, individualidade, simplicidade, a menos que se prefira resumir-se nessa única expressão: escrever com verdade.”
— A. D. Sertillanges, A Vida Intelectual
DIA DESSES EU ME FIZ A SEGUINTE PERGUNTA, pois falo sozinho: o que em primeiro lugar me cativou, seduziu, provocou em mim o prazer da leitura?
Bem, lá no início eu não sabia responder que era o estilo literário e pensava da maneira mais simples “puxa, que bem escrito”. Não estava errado exatamente, mas dizer que um texto está bem escrito soa vago. Uma placa na parede pode estar bem escrita e ter estilo nenhum.
Se pensarmos que cada texto traz uma mensagem – do edital de licitação do jornal ao poema épico, numa ampliação exagerada do leque – veremos que o prazer de ler decorre justamente de um certo jeito agradável de encadear as palavras, na construção interessante e instigante de uma frase que leva a outra frase. Evidente que o edital do exemplo não se propõem a encantar leitores. O objetivo ali não é nenhum lírico e belo mas formalizar contratações públicas sob a forma da lei (credo-em-cruz). Espera-se o prazer da leitura, porém, do poema, do conto, do romance, do ensaio e por aí afora – da literatura, enfim.
De modo que a função do estilo – muito embora seja algo deslocado falar em função ao se tratar de literatura – o fim do estilo está em dar gosto e prazer de ler. O toque especial decorre da personalidade de quem escreve, com tempero próprio e autêntico, camuflado sob a habilidade e a técnica.
Quanto à prosa, não por acaso ela também é sinônimo de conversa, de onde se depreende o verbo prosear. A prosa literária não deixa de ser uma boa conversa com quem lê, e se a conversa é boa nos abandonamos a ela sem perceber. Assim também com o bom estilo: a gente entra na leitura e esquece que lê; participa, dialoga interiormente, reflete a partir dela sem notar. Simplesmente acontece.
O estilo também está na forma, no jeito com que as palavras e frases se combinam, mas vai além: nele há vida, seiva, sangue nas veias. Imagine uma fotografia profissional, tirada em estúdio: nela há uma luz correta, um enquadramento ideal, cores bem ajustadas, foco perfeito; mas tudo isso é percebido no rosto e no corpo da modelo retratada, e a partir dela depreende-se a beleza da fotografia. Ou seja, embora esteja presente na fotografia, a técnica empregada não é percebida enquanto tal. Mas ela está lá e por isso a foto funciona.
O estilo expressa a personalidade, a alma do escritor – com o talento e a técnica aplicada na medida ao texto, medida que cada autor consegue alcançar, evidentemente. De sorte que não se trata apenas de um vestido bonito na vitrine, mas de haver por baixo dele um corpo bonito a preenchê-lo. Escrever com verdade, interessado antes em ser do que parecer, isso cativa e seduz a nós, leitores. Ainda que bela num primeiro momento, a mera forma sem conteúdo funcionará no máximo como vestir manequins de vitrine.
Há a imitação intencional (cf. Prosaica #9), seja para homenagear ou parodiar, e ainda que tenham lá sua utilidade circunstancial, ela não se propõe a substituir a expressão da interioridade, matéria que afinal o leitor busca no ato de ler.
O texto verdadeiro, portanto, vive e pulsa. O falso simula, é artificial: se o escritor da vez insiste na pura fórmula espertinha que aprendeu, será apenas o mala que entra numa rodinha sem ser solicitado, o intruso que vai à festa por auto-convite. Não será do ramo pra valer, mas forçará uma entrada pela janela ou telhado, e não pela porta, com mérito e dignidade.
Mas e quanto à imitação dos mestres, o clássico conselho? De fato há essa recomendação a nós, iniciantes: eleja seus preferidos e os imite. Particularmente, acho esse conselho meio mal colocado, porque apenas imitar feito papagaio não dará ao imitador a mesma consciência dos meios empregados pelo imitado. Fará no máximo caricaturas, e mal feitas.
Nessa coisa de absorção do estilo, prefiro modestamente acreditar numa assimilação gradual e imperceptível, adquirida no conjunto das muitas leituras e no treino posterior. Pode ser que, nesse processo, um texto se assemelhe a este ou àquele autor em particular, mas será sem intenção direta e imediata, a menos que se declare a intenção.
Como diz o padre Sertillanges, o assunto estilo literário é vasto e, acrescento euzinho, um tanto labiríntico, do tipo em que há inúmeras considerações a fazer e nunca se chega a uma saída muito clara e definida. Requer teoria e prática, modéstia e afinco, performance e comedimento, e o principal, um certo modo de ver para então escrever.
Ou seja, escrever com estilo demanda aplicação e muita mão na massa. Não se trata de performance. Não se trata de apenas copiar e fingir-que-é, com efeito. É fruto de reflexão e treino e vice-versa, algo constante. A porta da literatura é estreita e poucos conseguem passar por ela. Sem aperto, não há valor no que se escreve.
Notas:
Inspirei-me a falar do assunto estilo depois da newsletter da Ana Galvan (link abaixo), cujo estilo acaricia as palavras. Ler a Ana é muito agradável, para além do temas interessantes que ela traz.
Para essa edição fiz exatamente três textos e esse é o de número três. Tentei um jeito de aglutinar os outros mas não foi possível, o assunto é amplo e merece que se volte a ele mais vezes.
Quando ler faz mal
Livros nem sempre fazem bem. Ler muito não torna ninguém melhor a princípio. Não é culpa da literatura, coitadinha. O problema é o mau uso, pois ela convence, tem esse poder: ser convincente é uma das muitas propriedades da literatura, seja de ficção ou não-ficção.
Para a leitura de literatura fazer bem (digamos literariamente, ser benfazeja), é preciso haver antes no indivíduo que lê uma abertura na alma, uma disposição interior ao aprendizado e ao constante auto-exame, se necessário for, das próprias opiniões e convicções (que no mais das vezes não são bem convicções mas atavismos; outro tópico). Numa palavra, é preciso abrir mão dos pré-conceitos. E não, não se trata aqui da listinha de conscientizações marteladas na mídia, que é isso.
Ocorre que ler a melhor literatura demanda em primeiro lugar um coração aberto e uma mente aberta, além um leve e salutar desprezo por si mesmo a princípio, para deixar-se ensinar. Só então a leitura colocará espelhos à nossa frente e nos veremos como realmente somos.
No entanto, se vamos à ela cheios de si feito uns fariseus, ocorrerá o falso milagre da confirmação: num passe de mágica, só encontraremos nas leituras escolhidas aquilo que nos for conveniente, que nos afaga de modo mesquinho. Depois, acharemos mil porretes para dar em quem não faz parte de nosso círculo afetivo e social, “eles”, “aqueles”. É como se as leituras que deviam nos melhorar embotassem nosso amor ao semelhante e legitimassem um drible esperto no segundo mandamento.
Leitura em demasia também pode estabelecer falsos patamares à medida em que os livros lidos se acumulam. Trata-se da tal afetação, o pedantismo, velhos conhecidos. Alimentamos falsas impressões de nós mesmos de tanto ler (sob a condição descrita acima), apenas para nos resguardar de estranhos e novatos que nos disputam os privilégios – sempre entendidos como meritórios e nunca como obtidos apenas por antecipação cronológica, e, vá lá, alguma sorte.
Em casos assim, e certamente em outros, a leitura fará mal, pois acentuará ainda mais um caráter presunçoso e enfatuado preexistente a ela. Mas a culpa não é da literatura em si, de novo.
Fatuidade, eis uma palavra que espremi do dicionário e que define bem o caso: vale checar o significado. De resto, qualquer admoestação serve primeiro a quem admoesta.
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Trilogia americana
1. O psicólogo
Psicólogos das séries e filmes americanos são sempre profissionais sapientes: olham perscrutadores para o paciente e, cem por cento profissionais, fazem sempre perguntas incisivas. No fim, confirmam o que sabiam de antemão e o pobre analisado tropeça em si mesmo.
Vem à cabeça a psicóloga de Charlie Harper, da série Two and a Half Men. A mulher é um polígrafo, exala argúcia e sarcasmo em cada poro. A psicóloga de Donnie Darko além de analista é detetive informal, e muito comprometida com o bem da comunidade.
O Dr. Kroger, da série Monk: um santo, o homem mais compreensivo que já pisou na terra. Já o boa-praça Dr. Huff estrela a própria série (de nome Huff, 2004; por sinal ótima e passa em nenhum streaming).
Americanos parecem gostar de terapeutas e psicólogos, da figura deles. Há exceção: o analista da série After Life, de Rick Gervais (Netflix), sujeito assumidamente escroto e cafa. Porém a série não é americana, mas inglesa.
2. O sexo
O sexo dos americanos é meio diferente (nas telas ao menos): pinta o clima e o sujeito ainda luta com o zíper, enquanto ela, devidamente na horizontal, já suspira fundo e vira o pescoço, quem sabe pra dar apoio moral ao rapaz antes do serviço.
E os bravos que empinam a pobre mulher contra a parede? Incrível, não só sustentam o apetrecho requerido ao ato como todos os quilos da moça no apetrecho requerido ao ato. O ianque é antes de tudo um forte.
3. O bom mexicano
As telas do Tio Sam não são benévolas com mexicanos, coitados, mas há exceção. E se há exceção, lá estará ele: o ator Michael Peña. Ele foi designado como o bom mexicano oficial de Hollywood e só ele fará papel de bom mexicano em Hollywood, hispano honesto com os documentos todos em dia, que apenas trabalha pra viver, tal.
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Quem disse
“Não há dever que subestimemos tanto quanto o dever de ser feliz. Quando felizes, semeamos benefícios anônimos para o mundo, que permanecem desconhecidos até para nós e, quando divulgados, não surpreendem ninguém mais que o benfeitor.”
— Robert Louis Stevenson
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“Trate de compreender a última palavra do que dizem as obras de arte, os grandes artistas, os mestres mais sérios, e verá Deus ali dentro.”
— Vincent Van Gogh
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“Não se cria nada com um texto que se compreende com demasiada exatidão.”
— Miguel de Unamuno
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Direto do almoxarifado:
Gorjeios literários [ https://tinyurl.com/27jx6345 ]
*Link: - Periódico da Ana [ https://tinyurl.com/yrz5exm3 ]
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