#12. A literatura no Brasil estomacal
Por que há sempre mil coisas mais importantes do que livros por aqui?
POR QUE RAIOS ALGUÉM AINDA SE METERIA com literatura no Brasil? Digo, além de ler, escrever literatura? Seria ela uma necessidade básica para alguém? Sim e não: para quem consome ou produz literatura, sim, sem dúvida; porém, para o Brasilzão big picture, para a massa, decididamente, não. É algo que nem lhe passa pela cabeça, infelizmente. E por quê?
Porque o Brasil é um país eminentemente estomacal, isto é, onde as demandas são sempre básicas e urgentes, por exemplo, comida e moradia – e os itens subjacentes a ambas. Parece haver mil coisas mais importantes do que literatura por aqui e, se ampliarmos o leque, do que cultura, sobretudo a alta cultura ou, ao menos, uma cultura pop com camadinhas extras de significado.
Afirmar que o Brasil é estomacal não é pejorativo, nem significa que o povo esteja famélico como o termo sugere. Sim, vimos a trágica fila do osso há coisa de meses, e frequentamos os mapas da fome vira e mexe, para nossa vergonha. Mesmo assim, sejamos francos, a coisa já foi bem pior. Há anos o país não está na completa miséria, o que sem dúvida é uma boa notícia.
Atualmente, quando há favelas a reivindicar mais wi-fi que cestas básicas, o termo estomacal remete a outra coisa: que passamos por tantos períodos de escassez e carências que isso criou uma espécie de sensação permanente de falta a nos rondar, de modo que nunca conseguimos nos sentir atendidos nas necessidades primárias. Nunca nos brota uma noção de suficiência, de um abastamento, mesmo quando as carências estão minimamente supridas.
De modo que estomacal não designa uma mazela social, mas certo desarranjo. Por causa do espectro da escassez, paira uma avidez popular por devorar itens de consumo com urgência (que até num passado recente não eram acessíveis), e isso faz com que o senso das prioridades estacione na aquisição de itens de subsistência aliado a certo conforto.
Trocando em miúdos: compra-se de comida a tecnologia, de roupas a acessórios, e incrementa-se esse mesmo consumo ciclicamente, às vezes de modo desproporcional. Uma vez o básico suprido e uns leves caprichos atendidos, nós os brasileiros partimos para a segunda etapa: abrigar uma enorme televisão led à sala e o smartphone com plano de dados, não necessariamente nessa ordem. Depois quem sabe até se arranje um carro e um canto qualquer onde guardá-lo. Mas leitura, nada.
Note que certos itens de consumo – tevê led, smartphone, carro – são itens relativamente caros, dependem de renda e crédito para se adquirir, mas curiosamente estão vinculados de certo modo à pobreza brasileira atual, o que demonstra o quanto a evoluímos nos últimos anos.
Por outro lado, uma vez neste novo patamar, é curioso ver que praticamente ninguém busque hábitos mais salutares e escandalosamente mais baratos como a leitura. O influencer digital e neto do seu Felipe está errado quando diz que livro é caro no Brasil. Quis polemizar e sair-se bonito, mas entre usados e novos, um livro custa entre R$ 5 a R$ 50 o exemplar, ficando no mais das vezes ali pelos R$ 30. Caro?
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Diz a ciência econômica que o índice de leitura do país aumenta conforme a prosperidade de uma população. Aqui, não: vide o declínio das bancas de jornais e revistas nas grandes cidades, que entraram em decadência justamente quando a base da pirâmide social mais prosperou, ou seja, no período 2005-2012. Em nenhum país ocorreu algo assim, ao que se saiba. Situação ilógica, esquisita.
Então, deparamo-nos com o problema cultural: não damos bola à vida do espírito, ao cultivo da mente e do intelecto, eis a verdade. Não se faz a ponte entre melhorar por dentro primeiro para melhorar por fora depois.
Já ouvi editores dizerem que o público consumidor de livros no Brasil parece o mesmo, é estanque: as mesmas pessoas compram os livros, só que uma parte faz isso hoje e outra faz amanhã. Ou seja, varia apenas o timing do consumo e não o tamanho relativo da demanda.
O mercado editorial não se amplia substancialmente, faltam leitores entrantes em escala. Se uma fatia do gráfico de pizza compra livro agora, a outra fatia compra depois, mas trata-se da mesma pizza, do mesmo gráfico. Sim, as bienais do livro e os grandes eventos livreiros batem recordes de venda, mas mais por concentração, e não por ampliação, de público.
Tentei desenvolver um raciocínio a esse respeito algures¹, mas adianto que isso nada tem a ver com o batido falta escola, o governo devia isso e aquilo. Óbvio, o governo que sua obrigação; mas ele não entra na cabeça de nenhum cidadãozinho para formá-lo leitor (graças a Deus!).
Só leitor forma leitor, porque todo hábito se adquire por afeição. Simpatiza-se com outro que tem certo hábito e depois experimenta-se o mesmo hábito, depois pratica-se sozinho o hábito, toma-se gosto pela coisa e caminha-se com as próprias pernas.
O fato é que, em sentido amplo, leitura é produto da civilidade, e civilidade é coisa de sociedades amadurecidas. Imagine só: enquanto a seleção brasileira ganhava o tri em 1970, via satélite e a cores, a maior parte do território vivia sem luz elétrica. Por aí tem-se uma ideia de como estávamos até anteontem.
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De fato, o Brasil estomacal continua aí, sem prazo para acabar. Por isso vemos tantos episódios lamentáveis e até bárbaros a ofender a civilidade mais básica: fruto da ignorância, efeitos da não-leitura: por não cuidar de dentro, piora-se por fora. País que não lê é mesmo pobre, violento, atrasado e o pacote todo.
Contudo, este não é um apelo à desesperança. Existe um outro lado, bem pequeno, mas existe. A internet cobre praticamente todo o território hoje em dia e, via redes sociais, tem ajudado muita gente a descobrir os livros.
Ainda assim, a literatura ainda guarda certo caráter idealista por aqui, uma pontinha hermética, em nada comparada ao big business da América. Aqui, o ramo beira um pouco o sacerdotal às vezes, uma coisa de levar a palavra aos quatro cantos.
A ser assim, resta levar a palavra, irmãos. Levar machados e tolstóis aos portões, “aceita uma crônica, senhor? só um poeminha hoje, senhora”.
A maioria dirá não, certamente; mas duzentos milhões é gente pra chuchu. Pela mera lei da probabilidade, uma mínima fração pode se interessar, e isso já dá um público enorme de “convertidos”. Continuemos.
Nota: reescrevi este artigo publicado num blog que tive há anos, que só uns russos misteriosos liam (?). O que me motivou a fazê-lo: na última Feira do Livro da USP, passei pelo estande de uma pequena editora que dividia a mesa com outras para rachar o aluguel do espaço. Conheço o dono por rede social e não esperava vê-lo por lá atendendo. Notei-o tristonho, como quem trava uma batalha. Deve ser mesmo, imagino. Torço pela editorinha dele, que faz um trabalho importante e meritório: revelar novos e bons, boas ficcionistas do território.
O verdureiro Ruy e a mulher-maravilha
Imaginem se este escribinha ganhasse de graça uns conselhos literários de ninguém menos que Ruy Castro, direto de sua coluna de jornal: emolduraria a publicação e a colocaria na melhor parede, feliz da vida.
Infelizmente não ocorreu comigo, mas à mulher-maravilha. Foi em 2019.
Bem, Ruy não sabia que conversava com a mulher-maravilha. Sabia que ela disfarçava-se de jornalista no mesmo jornal, e o desavisado colunista inventou de ler a colega. (Não carecia: há nulidades que mandam o texto ao editor e nem dão bola às cercanias da página. Mas Ruy – grande biógrafo, escritor, romancista premiado, jornalista de escol etc. etc. – veja só, lê os companheiros de firma.)
Pois a mulher-maravilha queixava-se numa resenha como ela tentava em vão biografar o sr. Francisco Buarque de Hollanda, cognominado Chico Buarque. Dizia como seu ídolo desautorizava uma biografia que lhe seria lisonjeira, tudo indicava, e que, ao pedido, o ilustre evacuava e caminhava.
Tocado, Ruy Castro – que de resto biografou Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmen Miranda e toda a Bossa-Nova – acenou à filha de Hipólita² e, prestativo, trocou umas figurinhas, num tom algo paterno, dadas as diferenças de idade e cancha. Mas a incentivou, deu-lhe uns macetes de veterano, meio “se precisar estamos aí”, tal.
Pois a amazona ficou ofendidíssima. Oferecer ajuda, que negócio é esse? Aplicou uma bofetada no descarado³: “você fez mansplaining comigo” e daí pra pior, acenando às outras amazonas da ilha. Mania de homem ajudar mulher, coisa horrorosa.
Segundo a dona, Ruy não passava de mais um homem igual o verdureiro ou algo que o valha, as mesmas manias. Décadas de estrada profissional, milhares de exemplares, dezenas de títulos, ene reedições, várias premiações? Que nada. Ruy é só homem e do tipo que homensplica, pior ainda.
Mas a picuinha passou. E o tempo, também.
Bem, vejo os indicados ao Jabuti desse ano e lá está Ruy Castro novamente entre os finalistas. Então pesquisei: a mulher-maravilha que dispensa conselho-de-homem anda a dever uma singela brochurinha desde a bofetada impressa. De 2019 pra cá, necas; ainda promete ao mundo seu grande début editorial.
Já Ruy, apenas homem que nem o verdureiro, nesses quatro anos lançou cinco livros cuja soma perfaz um total de 1656 páginas impressas, sendo dois deles finalistas do Prêmio Jabuti (um nesse ano). Também tornou-se imortal da ABL no intervalo, depois de esperar na fila as vezes de MC Marcinho e Tupãzinho do Corinthians. Isso aos 75 anos.
Em sua obra mais recente, Ruy ensina a escrever biografias, passa o legado à posteridade. Eu mesmo paguei para aprender consigo certa feita, num curso online. Não sou o super-homem.
Já a filha de Hipólita, imagino-a lendo o manual de Ruy na longínqua ilha das amazonas, quietinha: aprende com o homem que nem o verdureiro, pra daqui a pouco dizer ao mundo que nasceu sabendo.
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Nostalgia da modernidade
O incontornável Lobão tinha um disco intitulado Nostalgia da Modernidade: boa expressão. Agora percebo que a coisa existe mesmo para além de qualquer efeito, pois sinto umas nostalgias da modernidade às vezes.
Uma delas é da velha internet (já existe uma velha internet): saudade de ficar as noites da semana e as tardes de sábado no velho PC beginho e sem graça a conectar, acessar o browser e digitar: dáblio, dáblio, dáblio, ponto, endereço, ponto-com-ponto-bê-erre (ou só ponto-com, ou ponto-org). Entrava num mundo inteiramente novo e interessante a cada acesso.
Para não esquecer o website, salvava nos Favoritos, e tinha aquele botão RSS que eu sempre tentei mas nunca soube usar.
Saudade daquele tempo dos blogs, daquele tempo em que a internet era chata e sem graça para a maioria, muito difícil: tinha que saber mexer-com-computador. Era bom.
Mas a alegria durou pouco. Acabou assim que o sr. Orkut Büyükkökten abriu as comportas.
Alguns sobreviventes daquela época ainda acompanho: no Brasil, o sr. Alexandre Soares Silva* é um deles; no mundo, o sr. Brett McKay e seu também incontornável Art of Manliness**, que reputo o melhor blog old school da web (hoje, falar web, site e website entrega a idade).
A internet atual é bem diferente, dispensa o cérebro: pode-se deixar a massa cinzenta na gaveta e apenas passar os dedinhos suados na tela do smartphone — gesto pelo qual tudo acontece sem ter de pensar.
Também faço uso o dito-cujo compulsoriamente. Ainda prefiro navegar (navegar, sim) num computador grandão em cima da mesa, como agora: monitor, teclado, mouse, tec tec tec click click. E uma impressora do lado.
Nem sou tão velho assim, mas a bordo do meu novíssimo computador modelo 2012 pareço um vovô com sua Caravan brilhante a desfilar pelo bairro, e a garantir, sem ninguém perguntar: “não troco por essas porcarias de hoje em dia.”
Nem eu, vovô. Nem eu.
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Floresta do Copan
É uma intimidade muito grande dizer o café que se toma, quase um defloramento. Bem, sábios e entendidos que me perdoem, mas tomo café torrado e moído de almofada, da marca Floresta: o mesmo da velha cafeteria do Copan (famoso predião em curva do Niemeyer; acho que até o velho bebericou umas xícaras ali, entre um arrependimento e outro).
Cafeteria Floresta que, até onde sei, recusa quizumbas eletrônicas e só aceita dinheiro como pagamento. Soube disso porque, ao pedir um cafezinho certo dia, passei o vexame de só ter cartão de débito e por isso pendurei um fiado, desonrando o bom nome da família.
O sr. proprietário do Floresta, deveras simpático, disse um generoso “você acerta depois”, mas não, que é isso: fui ao Bradesco ao lado, saquei um róseo dez reais e paguei-lhe a devida importância.
Já não trabalho ali perto, de modo que não passo tanto no Floresta. Mas achei um mercado aqui no bairro que vende a almofada da marca, de maneira que o aproveito, coado e gentilmente adoçado com açúcar mascavo, toda manhã.
Sim, ó sábios e entendidos: adoçado.
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Quem disse?
“Quem deseja seriamente se tornar livre perderá a inclinação para erros e vícios, sem que nada o obrigue a isso; também a raiva e o desgosto o assaltarão cada vez menos. Pois sua vontade não deseja nada mais instantemente que o conhecimento e o meio de alcançá-lo, ou seja: a condição duradoura em que ele está mais apto para o conhecer.”
— Nietzsche
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“Sempre somos propensos a considerar-nos pessoas de cultura, com base numa competência, quando somos não só falto de outras, mas cegos às que nos faltam.”
— T. S. Eliot
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“O poeta é a criança; o romancista é o adolescente; o ensaísta é a madureza; o crítico é a velhice.”
— Paulo Mendes Campos
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Do almoxarifado:
Links: ¹ A difícil relação do Brasil com os livros ² Ruy Castro ³ A bofetada * Alexandre Soares Silva ** Art of Manliness
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Belo texto