#13. Bartleby não vai ao shopping: uma crônica de costumes
Como o escrevente de Melville, incluo o templo do consumo em minha listinha de ‘nãos’
CHEGA A FASE MAIS CONSUMISTA DO ANO e, em plena segunda década do século 21, não entendo como ainda podem existir os shopping centers. Não faz muito sentido, acho. Nada contra o empreendimento em si mesmo (um pouco sim), sei o quanto geram de empregos e tudo o mais, e particularmente gosto que as pessoas tenham empregos e tudo o mais.
Mas o shopping center como modelo me deprime, essa é a verdade. Não sei, aquele ambiente artificial todo pensadinho para a experiência de compra, a manjada arquitetura de corredores com trajetos programados para se ver o máximo possível de vitrines, como se o frequentador fosse um ratinho num experimento de laboratório, aquilo tudo me angustia um pouco.
No fundo os shoppings me parecem sutilmente hostis. Há sempre um não-tão-simpático vigilante em cada pilastra, orientado a detectar morenices em excesso e pobrezas indesejadas. O preparo desses profissionais consiste em garantir que moças alvíssimas de cabelos sedosos gastem em paz seu dinheirinho eletrônico (shoppings são pensados para moças alvíssimas de cabelos sedosos: mire em Gabi Prioli e diga se ela não tem o mais autêntico ar-de-shopping-center).
Por falar em ar: na atmosfera shoppinesca pairam aquelas essências de eucalipto, malva, lavanda e similares, e por todo lado impera uma assepsia ligeiramente desumana, mantida por aquelas pobres senhoras cabisbaixas em uniformes tristes, cujas existências são inimagináveis fora dali.
Depois, quem já tentou fazer uma refeição decente numa (tente não detestar o nome) numa praça de alimentação? Pessoas arfantes com sacolas quadradas estacionam ao lado de sua mesinha e te olham feio e bufam, numa cena digna de um Curb Your Enthusiasm; mas às vezes é você o Larry David arfante ao lado de desconhecidos a esperar que desocupem a mesa. Uma coisa indigna em toda a linha. Já passei por angústias e palpitações desnecessárias em praças de alimentação, e por isso as rejeito só de pensar nelas. Faço como Bartleby, o escrevente: prefiro não; não pode haver muita dignidade em lugares cheios, com aquele tráfego intenso de gente.
Falo assim hoje, mas já frequentei os ditos-cujos com certa regularidade, embora nunca entusiasmado. Em certo momento, aquele foi o lugar ideal para se ir com a namoradinha da adolescência, posto que ao menor de idade não há muitas opções de passeio com a namoradinha. Se bem que havia também os parques temáticos, mas aquelas filas lotadas regadas a sudorese inspiravam no máximo a manter-se distância segura. A quilômetros, de preferência.
Assumo, não sou referência quando o assunto é entretenimento urbano, fazer o quê. Multidões a fervilhar dão-me agonia, como também davam a Ortega y Gasset nos idos de 1920: ia desavisadamente o pobre Ortega por sua bela Madri quando é surpreendido com multidões a porejar. Vai ao café preferido e muitos sorvem ruidosamente, em rodas, falam alto; vai à chapelaria e cavalheiros não muito dignos provam modelos, gritam, esbravejam; vai ao restaurante, à tabacaria, ao alfarrábio: gente, gente que não acaba mais. Apavorado, nosso Ortega dá uma escapulida ao hotel para almoçar, “oh, ali estará vazio, restaurantes de hotel são sempre vazios.” Não acha mesa, tudo lotado. Então, revoltado, Ortega medita, toma notas, decide: fará um livro chamado A Rebelião das Massas, no qual escrutina pela primeira vez o ente homem-massa, que até hoje persiste e resiste.
Voltando aos shoppings e à ex-colônia, especialmente na Pauliceia Desvairada, queria evitar o chavão “praia de paulistano” aplicado a eles, algo que todo telejornal diz em época de Natal; se bem que dizem menos hoje em dia. Os templos do consumo foram mesmo febre em certa época, uma novidade que hoje parece banal. Mas já foi bem diferente.
Minha frequência aos shoppings começa nos anos 80 e atinge o ápice nos 90. Conto um pouco. Íamos com meu pai ao recém-inaugurado Shopping Center Norte, na Marginal Tietê. Isso foi 1986, 87? Lembro dos corredores lustrosos e iluminadíssimos, das lojas com neons e fachadas atraentes. As pessoas que ali aportavam pareciam saídas do banho, e trajavam sportswear novinhas compradas na Sport Spada. O visual era diferente e contrastava muito com o centro da cidade e aquele mundaréu de gente digamos não muito bela e simpática. O shopping, não; estar ali dava a sensação de exclusividade, de diferenciação (pfui) de público. Mesmo se a grana fosse meio curta.
No Center Norte tinha até uma Sears igualzinha a dos americanos, além de uma Mesbla e uma Sandiz do Abílio Diniz, tudo caro e projetado para os brasileiros melhorzinhos na vida. E tinha também o McDonalds (ainda novidade no Brasil dos 80), e eu queria degustar o tal Big Mac graças à infernal musiquinha da tevê. O sanduíche que eu supunha gigantesco vinha numa caixinha de isopor meio brilhante e nada sustentável (nem havia a palavrinha).
Anos depois, nos anos 90, a voz engrossa e as espinhas chegam. Vem o Plano Real, a tal estabilização da moeda, e os shoppings centers explodem São Paulo e Brasil afora. Pela primeira vez, o país descobre uma coisa chamada poder de compra – circula muito a expressão. Nessa década, começo a trabalhar, aos 14 anos, e nos shoppings eu podia suprir o senso de importância que o ato de gastar o próprio dinheiro confere. Os shoppings se espalham pelos bairros menos centrais da cidade e ficam cada vez mais pertinho de se frequentar, a um pulinho de casa; ou podia-se aventurar em logradouros mais distantes da cidade e comparar as características de cada um. Mas tudo isso ficou na história.
Hoje em dia, por nenhum motivo que eu consiga identificar, não aguento muito entrar em lojas, ser atendido, experimentar, aquelas coisas. Será da idade? Teria o zeitgeist do século 21 baixado em mim? Não digo que seja nenhuma virtude, não acho que seja; mas por alguma razão não me identifico e tenho certa aversão àquele artificialismo de fisgar freguês. Sabe como é, estudei a baixa ciência do marketing, sem qualquer orgulho, e sei o mecanismo por trás da manipulação bobinha para bobinhos, bobinha pois perceptível.
Nas raríssimas vezes em que acompanho a senhoria aos estabelecimentos, passo e olho disfarçado para alguns atendentes nas lojas e noto, por trás do uniforme descolado e o ar de quem trabalha por esporte (nunca o é), a mãe solteira que deixa o filho com a avó todos os dias, ou o pai de família que se ajoelha com dez caixas de sapatos para provar em dondocas que lhe dirigem a palavra em modo imperativo.
Pior é entrar num banheiro: eis ali outro uniformizado a esfregar pisos e latrinas, e a dizer cabisbaixos com-licenças aqui e acolá. Imagine o que é gastar anos da vida confinado naquele lugar sem janelas, respirando aquele ar e a limpar imundícies de estranhos para ganhar um quase-nada no fim do mês. Se de fato há um Deus, dos tais é o Reino dos Céus.
A última vez em que estive num shopping center fui assistir o Oppenheimer. Fui ao Bourbon (zero vínculo com a realeza, presumo), na zona oeste paulistana. Chego minutos antes da sessão e pergunto a um segurança onde é o banheiro, pois o filme era longo. Melhor prevenir. Ele me informa e lá vou eu, mas volto e lhe digo “você não aguenta mais responder essa pergunta, hein, meu amigo?”
Arranco-lhe um sorriso inesperado: “normal, tô acostumado”, diz. Peguei o sujeito no contrapé. E essa resposta simples do vigilante despertou-me para a arte da resignação dos profissionais de shopping, pois só o dom da resignação permite aguentar as contingências do capitalismo pequeno-burguês que a necessidade impõe. Trocando em miúdos, é preciso ganhar a vida.
Enfim, tudo é aprendizado, não? Talvez eu mesmo devesse ser mais resignado com certas coisas. Tenho o estranho vício da intensidade em besteiras, de desperdiçar veemências e ponderar minudências. Vai ver é porque, aos quarenta e uns, descubro que aceitei demais. Feita as contas, o resultado daquela humildade toda foi necas, nadica, nem um Chicabon. Então, numa resolução tardia, resisto como posso ao que me é possível: no caso, aos shoppings centers. Feito um Bartleby subtropical digo a eles “obrigado, mas prefiro não”.
Retrocesso indesejado
Na vida há muitas situações estranhas que, se mal não fazem, bem não devem fazer, mas incomodam um bocado. E acho até que algum mal faz sim, pois a sensação residual é sempre ruim.
Direto ao ponto: experimente a sensação desconcertante de reencontrar alguém do passado, uma antiga amizade ou velho conviva. Incomoda, constrange; aperta o peito.
Isso não se dá por acaso: é que, naquele exato instante, descobrimos que mudamos, ou seja, que nossos gostos, interesses, idéias etc. ganharam novos contornos e feições, embora não nos déssemos conta até ali. Com efeito, não registramos a data precisa de nossa mudança de pensamento, nem sabemos bem as circunstâncias que nos levaram a mudar. Mudamos, apenas.
A situação piora mais se a antiga convivência parece não ter mudado, apenas nós mudamos. Então, nos vêm aquela sensação de retrocesso existencial, de regressão indesejada da personalidade: temos de relembrar coisas, relembrar situações e reavivar sentimentos que nos têm feito bem esquecer, e agora reacendemos na memória um passado no mínimo indesejado e vergonhoso, até. Aquilo nos humilha por dentro.
Não que se tente esconder ou negar o passado. Tudo que passamos foi absorvido, metabolizado e é parte do que somos hoje. Na vida, há muitos rituais de passagem necessários; porém voltar, remexer e forçar sentimentos superados aborrece a alma.
Não entendo, por exemplo, como antigos colegas de faculdade reencontram-se em almoços e jantares, todos os anos: ver a velhice chegar, comparar êxitos e fracassos de modo contábil, a mulher que cada um arranjou ou perdeu e a escala toda de comparações aburguesadas.
Talvez seja esse um dos piores embaraços da vida, algo que os melhores conselhos e reflexões recomendam evitar. E, se não for possível driblar a agenda, que o encontro seja breve, o mais rápido, e de preferência que não se repita mais.
Como faz bem ao corpo a comida fresca e não a passada, assim é a vida, a existência. Somos o que comemos, diz o provérbio, e aquele alimento metabolizado nos trouxe até aqui. Mas remexer o bolo alimentar de novo, entende a comparação?
Uma sensação nojenta, no fim das contas.
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Schopenhauer e as mulheres
Schopenhauer tem um livrinho chamado A arte de lidar com as mulheres, que certa vez folheei no terceiro piso da já saudosa Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Lembro de ter lido uma pérola mais ou menos assim (perdoem, senhoras e senhoritas, mas usem à guisa de reflexão): “mulheres não enxergam passado ou futuro mas apenas o presente”, algo do tipo. Será?
Parece veraz. Mulher vê o imediato, o diante-do-nariz, e se move em função do já. Dificilmente retroage ou prospecta. Vê e age conforme o aqui e agora. Enfim, uma característica natural, nem sempre desvantajosa.
Talvez por isso elas sejam tão voluntariosas e não se preocupem muito com o fruto do trabalho mas com o trabalho enquanto tal, por exemplo. Lidam com o puro ato no momento do ato. Depois passa, acaba, e outra coisa sucede outra e mais outra. Há apenas a sucessão de presentes, o que o olho vê e não o que o olho viu, muito menos verá.
Por isso, falar do passado as irrita, percebo; ou não as toca, na melhor das hipóteses. E o futuro, bem, elas trocam pela recompensa imediata, mais à mão: preferem-na a um possível benefício muito à frente, pois o muito à frente é indetectável.
É da natureza; constatar não é condenar. De resto, certamente incorro em imprecisão, pois o chão do feminino é escorregadio. Temo, porém, que essa peculiar disposição delas plantada no já não serve como luva a engenheiros sociais poderosos e espertos: quem não examina o passado nem projeta o futuro sofre o presente tal como apresentado, e não nota manipulações e espíritos de época.
De modo que, se quase tudo na sociedade pode ser perfeitamente manipulado, melhor trabalhar a partir de quem não nota isso de modo algum, não? De sorte que o velho Schop tem lá sua razão.
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Quando só resta o otimismo
Quando desanimamos o suficiente, lamentamos o suficiente e com tantas coisas, quando enfrentamos tantos sentimentos amargos e vaticinamos o mal a nós mesmos à guisa de prevenção, e portanto por medo, depois de passarmos por tudo isso e sobrevivermos, só nos resta o otimismo.
Não o otimismo pueril ou irracional, panglossiano. Um otimismo sereno do caminhar apesar de tudo, e de constatar que, tudo posto na balança, o saldo afinal é positivo.
Cá chegamos, ora. Perdas e retrocessos e tropeções chegarão, certamente; mas se tanto mal foi vencido, tanto mal se há de vencer.
Avante, pois – e o mais é com Deus.
(Escrevi a notinha e tive vontade de escutar Man in the mirror, de Michael Jackson. Alta cultura que chama.)
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Na próxima edição, trarei um conto não exatamente natalino, todo bem divididinho, para ler e escapar das contingências dezembrinas. Nos vemos na próxima quinzena, com todos os melhores votos. De resto, quem dera nevasse nos trópicos. Xô, calorão.
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Quem disse?
“Lealdades de grupos são necessárias, e no entanto são um veneno para a literatura, uma vez que a literatura é o produto de individualidades. Assim que se permita a elas exercer qualquer influência, mesmo que negativa, sobre a escrita criativa, o resultado é não apenas falsificação, mas muitas vezes o esgotamento efetivo das faculdades inventivas.”
— George Orwell
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“O homem não consegue viver sem uma confiança duradoura em algo indestrutível nele mesmo, muito embora tanto o indestrutível como a confiança possam permanecer-lhe ocultos de maneira contínua. Uma das possibilidades dessa ocultação permanente é a crença em um Deus pessoal.”
— Franz Kafka
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“Não é comunicável a sabedoria. A sabedoria que um sábio tenta comunicar soa, antes, como loucura.”
— Hermann Hesse
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Do almoxarifado:
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