#15. Os livros clássicos e os outros livros
Afinal de contas, ler apenas as grandes obras da literatura é uma boa ideia?
TODOS OS QUE LEEM LIVROS sabem mais ou menos o que é um clássico: uma obra famosa e importantíssima, há muito indicada por suas qualidades artísticas, literárias, por sua importância na opinião especializada e coisa e tal. Quando nascemos, o clássico já caminhava pela terra e constava nas listas mais especializadas e respeitadas do dito cânone literário.
Essa, porém, é uma definição vaga e breve, e certamente pobre, de clássico. Sem dúvida, há muitas considerações a se fazer a respeito desses grandes livros, e disso se ocupa a crítica literária: existe um sem-número de tratados excelentes a respeito da grande literatura, para usar um termo solene.
A designação tem um peso enorme, impõe autoridade: clássica, portanto, será a obra literária da qual ninguém ousa declarar o oposto, ou seja, simplesmente dizer “que nada, todo mundo chama de clássico, mas isso é um equívoco.” Uma vez estabelecida a categoria, categorizada está. Ao atingir o status de clássica, a obra literária torna-se uma espécie de montanha; e ninguém ousa mover uma montanha ou nega à montanha a propriedade de montanha.
Clássico é edificação montanhosa, erigida sobre um consenso histórico de dimensões desconhecidas, algo que nem um Hércules poderia derrotar. Nunca se ouviu falar de um clássico que deixasse de sê-lo.
Carrego as tintas na solenidade apenas para marcar a ordem de importância de certas obras em relação a todas as demais. Mas o que pretendo tratar aqui, ao rés-do-chão, é do seguinte: ler só clássicos versus ler outros livros.
“Clássico é clássico e vice-versa”
Nosso futebolista dono da frase acima estava certo. Se uma obra ostenta o selo dourado de clássico, isto se dá por motivos importantes e todos significativos, muito acima de preferências particulares. Óbvio. No entanto, isto não quer dizer que sua leitura seja agradável e digestiva ou que conquiste a afeição de cada leitorzinho ao lê-la, de modo automático. Mentir neste particular é o que se chama afetação, ou seja, dizer que gosta sem gostar realmente, para ficar bonito na foto.
Embora o prazer da leitura também possa ocorrer na leitura dos clássicos, e ocorre muito, nem sempre isso acontece. O livro será clássico se atender a uma série de requisitos que o tornam universal, pertencentes a certo ideal de humanidade, mas nem por isso ele será agradável de se ler; ao menos, não à primeira vista, na primeira leitura, nem a todos os leitores.
Diante disso, seria correto ler somente clássicos e desprezar os demais, ainda que por uma espécie de exercício ascético?
Há quem defenda isto, por boas razões. A principal delas: a vida é curta, e não há tempo para perder com obras irrelevantes; então, se paramos para abrir um volume qualquer, que seja de um monumento literário de preferência. Afinal, se alguém se dispuser a ler apenas clássicos sem variar, ainda assim passará por toda a vida sem ter lido grande parte deles. Então, por que piorar a situação e desperdiçar tempo com leituras desimportantes?
Tudo bem, vamos ver.
Imagine um restaurante muito sofisticado, com uma cozinha fabulosa, haute cuisine. Uma casa elogiadíssima de fato, campeã do Guia Michelin. A melhor que há. Apenas imagine esse restaurante e seus pratos inigualáveis, com chefs os mais renomados e tudo o mais.
Bem, então lá vai você acompanhado da pessoa mais especial de sua vida, ou talvez só, não importa. Você tem ali uma experiência gastronômica incrível e mesmo inesquecível. Você conferiu in loco que todos aqueles elogios que geraram tanta expectativa e o levaram até lá eram todos justificados. E, mesmo após pagar o devido preço – salgado decerto –, saberá que valeu cada centavo, pois descobriu por si mesmo que aquelas recomendações eram todas verdadeiras.
Pois este restaurante é o livro clássico.
Pergunto: você iria a esse restaurante todo santo dia? Talvez alguém diga “sim, iria lá todo santo dia se pudesse.” Hum... posso apostar que ninguém frequentaria este maravilhoso restaurante todo dia, nem toda semana.
Por um lado, o que torna o restaurante tão especial são suas qualidades intrínsecas – das quais você ouviu tanto falar e motivaram sua ida até lá. Por outro lado, a experiência maravilhosa que você teve se deveu, acima de tudo, ao contraste: a diferença daquela comida em relação às demais comidas que você experimenta todo dia, do feijão com arroz caseiro ao Big Mac que você mastiga apressado e na correria de um dia cheio.
Ou seja, o que torna o tal restaurante tão especial é a exclusão de todos os demais, a sua excepcionalidade. Disso não decorre que outros restaurantes não prestem, claro. O fato daquele restaurante ser excelente não implica que outros mais modestos devam ser descartados, ainda que não tenham tamanha qualidade e excelência. É possível conciliar – e é até melhor que assim seja.
Tanto o restaurante clássico como o livro clássico não são ordinários – no sentido de comuns, convencionais – mas extraordinários, fora do comum. De modo que a mágica em frequentá-los está no fato de que permaneçam assim, extraordinários, elevados. Senão, perdem a graça.
O corriqueiro tira a graça de qualquer coisa na vida, seja gastronomia, literatura, e o que for. Isto significa que se você for àquele restaurante supimpa todo dia, em poucos dias descobrirá que ele não é tão bom assim. Não demora e você se dará conta de que ele nem é bom, na verdade. E, finalmente irá achá-lo ruim, e por extensão, achará todos os restaurantes uma farsa decepcionante, difundida por pessoas muito interessadas ou muito ingênuas.
Assim também ocorre com a leitura exclusiva de clássicos. A monotonia mata a vontade e o espírito. A letra mata, diz o apóstolo São Paulo.
Então, o que fazer? Tenho para mim que o melhor não está em ler somente clássicos, mas jamais deixar de ler os clássicos. A chave está em intercalar, variar e retornar: o leitor maduro sabe combinar obras importantes com as menos importantes – mas não menos aprazíveis, ao contrário. Talvez até muito agradáveis.
Na prática
Ler os clássicos, seguir indicações importantes; mas também procurar, explorar, desbravar. Leitor de verdade é curioso e investigador. O título chama a atenção? Vale conferir. Fica uma pulga atrás da orelha a respeito de certa obra? Leia a sinopse e início da obra: se isso o “prender”, leia, o livro pode ser bom. E se não for, é largar e partir para outro.
Lembro uma brincadeira (julgo brincadeira), o teste da página 69 para romances¹ proposto pelo teórico canadense Marshall McLuhan. Funciona assim: você abre o livro bem na página 69 e lê, sem antes nem depois. Se o que vai ali parece interessante independentemente de contexto, provavelmente o livro é bom. Claro, professor McLuhan brinca, mas por que não? Fiz algumas vezes, é interessante.
Também sugiro outro jeito, este sim um esqueminha muito sério (brincadeira; nunca vi igual e afirmo que inventei, avisem a comissão do Nobel): o Fabuloso Sistema MW®, o qual alterna livros clássicos e comuns.
Segue protótipo de alta tecnologia:
A intercalação de leituras visa não deixa se perder na ordem de importância. Sei que é frustrante, algo culposo até, passar um ano inteiro a se levar por nulidades enquanto nenhum livro importante é lido. Quase um pecado. Daí, no ano seguinte, vem a pesada lista de clássicos sem variação, como um açoite nas costas. E periga ocorrer tudo o que foi dito acima.
Os finalmentes
Ler é um exercício de liberdade. É bom que a leitura seja voluntária e parta da boa vontade, livre e leve, do desejo de experimentar. De explorar e garimpar vive a graça dessa brincadeira chamada leitura. Ora, se todos lessem somente clássicos duma listinha fechada, a coisa emperraria e em breve não haveria mais nenhum clássico novo. Todo livro um dia virou clássico porque alguém o leu só por ler, por motivo algum. Daí gostou, mostrou a outro, e o outro a mais outro, e depois outro... depois a obra chegou a um estudioso que a divulgou num veículo importante, e daí em diante a coisa pegou: pimba, clássico.
Uma coisa é certa, os tesouros da Terra não foram todos descobertos e desenterrados. Há muito ainda por descobrir e, para encontrá-los, é preciso escavar e escavar, sem parar. É procurar que cedo ou tarde eles aparecem.
Nota: em “Por que ler os clássicos”, mestre Italo Calvino diz algo parecido, mas quilometricamente melhor. Depois de escrever o artigo, fui ao ensaio de 1981 ver se falei bobagem. Noto que concordei com ele sem querer numas coisas. Que honra sem tamanho... e que coincidência, e sorte.
* * *
Escrever diários
É tradição que escritores e até zigotos de escritores tenham um diário. Não raro, tais diários são publicados postumamente, no tempo em que finalmente escritores podem ganhar importância: quando larvas e vermes alimentam-se dele. (Sim, também é tradição admirar escritores quando estes estão com o corpo devidamente frio a descarnar-se. Não que seja problema: o senhor Brás Cubas riu-se disso e escreveu suas memórias enquanto as minhocas se lhe corroíam as carnes, famintas.)
Mas o diário, eu dizia. Pessoalmente, ainda não sei se devo ter um diário e se devia escrever tudo que se passa em minha mente num diário. Quero dizer, não sei se devia deitar ao papel (ou à tela que seja) cada frivolidade que me passa na cabeça e que calar ao vivo e a cores me poupa de muitos infortúnios.
Donde se conclui, e não é difícil concluir, que escritores de diários – sobretudo estes que escrevem uns tão bonitos e corretos e profundos – na verdade são um pouco de mentirinha, não se revelam pra valer. E não sou eu quem digo.
O escritor mineiro Eustáquio Gomes é quem diz isso em seu próprio diário. Lá, ele elogia o de Amiel, o dos irmãos Goncourt; mas diz sem peias que o grande Josué Montello fez firula e escreveu o seu visando apenas a publicação. Bem, tenho os diários do sr. Montello, imortal morto da ABL, e atesto que se trata de uma obra excelente. Mas aqui de Barbacena, não duvido do Eustáquio, que já encara o seu Josué tête-à-tête no outro plano.
Um diário realmente sincero, digo, cem por cento sincero – isso é possível? –, acarretaria muitos problemas, acho, mesmo depois da carne fria do “diarista”. Imagine colocar no papel as coisas que se me passam na cabeça a respeito de minha mulher num momento de estresse. Ou de certas mulheres num momento de muita calma, digamos assim.
Como não há nada de novo debaixo do sol, alguém fez algo do tipo: um dia, o sr. Arthur Miller resolveu bancar o transparente e sincero e escreveu umas verdades em seu caderninho a respeito de sua senhora, a sra. Norma Jeane Mortenson, mais conhecida como Marilyn Monroe.
O sr. Miller jurava que sua digníssima não era lá muito de ler e deitou a pena à página, escondidinho. Pois Marilyn, que lia sim muitos roteiros, fuçou e achou o tal caderno. Leu tudinho que o marido escreveu a seu respeito, e quando este surge em casa, ela lhe dá um chute nos fundilhos. E no ano seguinte ocorre o pior.
Certo, sem exagero. Mas concordemos que esse negócio de diário pode ser complicado. Quem disser que não, há de esconder a verdade no seu próprio diário, se realmente tiver algum.
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Noção do tempo
O ano 2021 passou-se há três anos. Pois é: em minha mente, 2021 foi ano passado, e assim será todo ano. A noção temporal neste século está completamente amalucada. Um ano vale por cinco, no mínimo.
Dias desses eu dizia no X-twitter (virou nome de sanduíche o que foi uma boa rede social) que o século 20 era dividido por décadas, e esse século 21 é só século mesmo, não há década. O que foi a década de 10? A mesma que a de zero, a mesma que a de 20. É tudo ano 2000 e estamos conversados.
Daí lembrei de 1993, quando, dos 13 para 14 anos, iniciei no maravilhoso mercado de trabalho: a firma teve de carimbar “aprendiz” para não ser multada, pois no século 20 era proibido ao menor de 14 trabalhar em tempo integral. Eu faria 14 dali a seis meses. Hoje, consta, a proibição estende-se até os 22 anos e meio.
Bem, mas quando aos 13 anos cheguei ao fabuloso escritório, contente por ter meu próprio dinheirinho dali a alguns dias, fiquei preocupado quando descobri o expediente. Disseram que ia das 9 às 18, perfazendo nove longas horas todo dia. Pensei, “meu Deus, o que vou fazer em tanto tempo, todo dia? Como as pessoas conseguem?”
(Lembre-se, não tinha internet ou smartphone em 1993. Tinha apenas o telephone.)
Felizmente, meu medo cessou rápido. Descobri (descobriram) como me ocupar todas as nove horas comerciais, e ainda faltava hora, pois eu tinha de correr para não perder o ônibus e não chegar atrasado à aula noturna, para então babar de sono na carteira escolar. Como o saudoso Kid Vinil, eu fui boy, boy, eu fui bo-oy.
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Depois da vida
Uma definição de felicidade: trabalhar num empreguinho mediano, ganhar um dinheirinho mediano, morar numa casinha mediana num bonito bairrinho mediano, e curtir o mais banal e tedioso anonimato de quem no máximo vê televisão, toma uns goles de vinho e cuida de um cachorro. Tudo isso num país lindinho e floridinho e com gente comum ao redor que aparenta ser muito mais interessante e inteligente do que se supõe.
Acho que eu queria morar na série After Life do sr. Rick Gervais, é isso. Na Netflix.
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Quem disse
“Se queres progredir, resigna-te a parecer externamente um insensato e um estúpido, e nem queiras ostentar que possuis qualquer conhecimento; e se gozares de alguma boa reputação, desconfia de ti mesmo. Com efeito, saiba que não é fácil conservares tua vontade em conformidade com a natureza e manter externamente as aparências: pelo contrário, é inteiramente inevitável que aquele que se ocupa de uma dessas coisas venha a negligenciar a outra.”
— Epicteto
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“O hipócrita costuma tirar mais vantagem de sua virtude fingida do que o verdadeiro virtuoso. Pululam homens respeitados porque não são desmascarados; bastaria penetrar na intimidade de seus sentimentos, um só minuto, para perceber sua hipocrisia e trocar a estima pelo desprezo.”
— José Ingenieros
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“Deveras bom é o homem raro que nunca censura as pessoas pelos males que lhes acontecem.”
— Paul Valéry
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Errata: onde consta “A intercalação de leituras visa não deixa se perder”, o correto é “deixar”, o belo infinitivo.