#16. Breviário dos grandes inícios
Tão importante quanto o mundo da literatura é a porta de acesso ao mundo da literatura
LI NALGUM LUGAR CERTA VEZ que o sonho de nove entre dez romancistas seria iniciar o seu livro como Tolstói o faz em seu Anna Kariênina* (1878):
“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
Este início famoso é repetido mesmo por gente que jamais abriu o volume do grande escritor russo, e que talvez nem saiba onde se encontra a frase originalmente. Com efeito, mais que capacidade, é preciso um verdadeiro poder para elaborar um provérbio tão simples, verdadeiro e eterno, algo que ultrapasse as cercanias da obra e salte ao imaginário público sem a necessidade de ser lido. Pouquíssimos autores conseguem tal façanha, e de nenhum modo é exigível que romances alcancem um feito desses. Não seria justo.
Contudo, o início lapidar de Anna Kariênina serve de modelo para ilustrar a importância que os começos de romance têm para o ato de ler romances. Na ficção, todo início funciona como porta de entrada para o mundo da obra e do espírito do autor ao escrever aquela obra. Se é verdade que o romance é mais vivido do que lido, a entrada para esta vivência se dá dramaticamente desde o começo, embora nem todo grande romance precise ter um início grandioso e vice-versa. Por exemplo, Auto de Fé, de Elias Canetti: belo romance, mas que começa com um diálogo inócuo de travessão abaixo de travessão. Na outra ponta está A Consciência de Zeno, de Italo Svevo, cujo início interessantíssimo não é seguido de uma obra tão interessante quanto, muito embora seja boa, mas não ótima.
Defendo a idéia de que a leitura de ficção é questão de afeição. Para além da rima pobre, explico: a afeição ocupa o lugar da necessidade que uma outra leitura, a compulsória, tem. Digamos, se operadores do direito – juízes, promotores e advogados – precisam ler os códigos legais, ou se um contador precisa ler as normas contábeis; se um médico precisa ler novos estudos para se atualizar em sua medicina, estas todas são leituras compulsórias, isto é, sem as quais não se exerce bem a profissão. Logo, tais leituras cumprem uma função útil direta, e isso nada tem que ver com afeição, a rigor. De resto, leituras instrumentais devem ser lidas, não há escapatória; e a negligência a elas tem implicações variadas. Já com a literatura não é assim.
A leitura de ficção guarda certo caráter de lateralidade que, de um modo positivo, serve de agradável apêndice para ampliar o imaginário e o horizonte da consciência individual; e de um modo negativo (ou pretensamente negativo), traz uma falsa idéia de irrelevância e fugacidade, especialmente por não-leitores e leigos em geral: estes ignoram o quanto o escape artístico é benfazejo e necessário para o lado de dentro, para suas respectivas alminhas.
Justamente essa lateralidade, longe de ser defeito, é uma qualidade intrínseca da ficção. Porque ela tem a propriedade de permear a vida como a água permeia o tecido: as fibras absorvem as gotículas e as conduzem lentamente ao resto do pano, umedecendo-o. Assim, basta um pouco de água para que aquela absorção lenta se espalhe pela trama dos fios.
Ainda na metáfora, se imaginarmos a vida como aquele pano, seria possível afirmar que a leitura da grande ficção tem essa propriedade osmótica de permear áreas da imaginação que, num primeiro momento, não se deixavam umedecer e permaneciam “secas” – sem a água da literatura a ampliá-la formidavelmente, melhorando-a pouco a pouco.
Ao pensar neste tema, é inevitável que venham à mente alguns inícios memoráveis, para além do Tolstói mencionado (o qual fez outros inícios memoráveis). De fato, há muitos começos de romance irresistíveis, e certamente muitos outros por se descobrir. Pessoalmente, em minha trajetória de leitor, cedo me dei conta de que o início era um dos quesitos que mais me cativavam na ficção, mais que as sinopses (não raro mal ajambradas pelos editores). Logo de cara não resisto a um texto bem escrito, é meu ponto fraco; algo como um dar de braços a uma bela dama, receber um convite irrecusável, banhar-se numa cachoeira, enfim. E o melhor: tudo por escolha livre e espontânea.
In medias res
Certa feita, fiz um curso online chamado “A Formação do Romance”, ministrado por um famoso professor brasileiro muito respeitado na área. O mestre abordava os elementos que compõem o romance e tudo o mais, e lá pelas tantas ele comenta que inícios descritivos (não lembro se ele usou essa expressão exatamente), de tipo ab ovo (do ovo, desde a origem) está em desuso no ficcionismo contemporâneo. Mas, prudente, ressalvou: “o que não significa que não pode ser feito”. Ufa. De todo modo ficou a sensação, se não de proibição (ele é muito cordato para fazer censuras do tipo), restou uma impressão de desaconselho. Melhor evitar, parecia dizer.
Meses depois, no Instagram, uma moça oferecia um cursinho online de escrita de ficção. Não a conheço, sinceramente. Num carrossel (aquela sequência de passar o dedinho pro lado), ela dizia: “comece sempre seu texto no meio da ação [in medias res], pois o leitor quer ser capturado de início, senão ele vai largar o livro”. Algo assim, sem nuances nem firulas.
Pois aqui da minha choupana discordo de ambos, embora não no todo, nem com azedume. Quer dizer, tenho a boa vontade de compreendê-los, pois ambos se propõem, cada qual a seu modo, a ensinar uma escrita que os leitores supostamente querem, como num encontro de retas num gráfico do tipo oferta x demanda. Como se dissessem “o melhor é dar logo à freguesia o que ela deseja”. Tem lá seu sentido, mas...
In medias res, no meio da ação, em plena ação: a expressão latina já denota a não-novidade do recurso literário. Ela descreve aqueles inícios que já partem duma espécie de gerúndio situacional, de algo que está ocorrendo naquele momento exato, de modo flagrante. Algo como o escritor dizer “espera aí leitor, a gente já se fala, mas olha o que está acontecendo agora, ao vivo.”
Nada contra o recurso, tudo contra a regra. Ora, cito a frase de Tolstói “todas as famílias se parecem” acima, e depois dela, o que vem na sequência é justamente in media res: a tremenda confusão que acontece na casa dos Oblónski naquele momento.
Note que tanto o início in medias res quanto o ab ovo (seja este de tipo descritivo, de fluxo de consciência ou aforístico etc.), todos são igualmente válidos na escrita, desde que bem manejados – óbvio, como toda verdade é óbvia após relembrada.
Significa que não há um molde preferencial ou tempo certo para se usar, ainda que algum leitor supostamente possa pedir esta ou aquela forma no balcão de um fast-food literário. Sinceramente, não conheço um caso desses, mas enfim.
De minha parte, prefiro ser apresentado à obra com gentileza e não levar um pescotapa logo ao abrir o livro. Nada contra, de novo, mas não sou lá muito de me assustar, detesto gritos, escândalos e adrenalinas. Não sinto que combinem com leitura. Talvez com cinema, e mesmo assim…
Lovecraft, por exemplo, embora escrevesse suspense e terror, não recorre tanto à tática do susto e do impacto, mas se utiliza de uma introdução lenta que desnovela a situação medonha, de modo a causar expectativa e palpitação no leitor, como se este entrasse num túnel escuro e ali fosse tomado de sensações horripilantes e claustrofóbicas após ouvir uns ruídos, sentir uns cheiros, ver uns reflexos e ter impressões perturbadoras. Já explosões vulgares como dos filmes Marvel, por outro lado, num segundo momento já se tornam enfadonhos, vão fácil como vêm fácil. Por isso, não vejo muito sentido em tornar o in medias res uma regra fixa do ficcionismo no segundo milênio. Parêntese: ficção atual que aliás não tem muito a ensinar, mas a aprender. Fecha parêntese.
Arte e liberdade
Não sei, vou na contramão. Ainda acredito nos inícios mais gentis, sejam eles descritivos, psicológicos ou aforísticos: creio que ajudam a tirar o leitor de sua circunstância imediata, comezinha e indesejada (já que este abre o livro para “escapar”, não?) e o fazem pousar suavemente no novo mundo que a obra apresenta. Como uma sinfonia ou ópera, a grande obra literária vai do diminuendo ao crescendo, para então descer, para depois subir novamente etc.
O professor do curso explicava que, no conjunto, os romances se assemelham muito ao Bolero¹, de Ravel. Achei muito interessante a comparação e depois fui escutar o Bolero com calma. De fato, o ritmo ficcional é igual, golaço do mestre. Mas o Bolero não começa gentil e calmo para crescer em intensidade depois? Professores são muito idiossincráticos às vezes.
No entanto, há também in medias res na música erudita: O Fortuna², início da ópera Carmina Burana, de Carl Orff, começa numa torrente vocal para depois abaixar e criar expectativa e palpitação. Depois, explode de novo o caos e a fúria da Fortuna incontrolável à qual todo humano é submetido. O latim da maravilhosa letra complementa o efeito perene a que está submetida a humanidade: fortuna, sorte e destino atingem a todos com seus caprichos imprevisíveis.
Pois ambos, o Bolero de um lado e O Fortuna de outro – ab ovo e in media res emparelhados – são uma maravilha de ritmo e intensidade, pois manejados de forma excepcional, cada qual à sua maneira. De sorte que não há uma só regra, mas regras, e elas podem ser até combinadas se o objetivo for surpreender ao público espectador.
De resto, o “freguês” da arte deseja ser surpreendido por ela, que a busca justamente para isso, pela novidade que enleva e enriquece o interior, e não por um presumível sanduíche artístico de gosto bem conhecido. A arte é constituída de surpresa, não de pedidos num balcão. Para ser digna desse nome, ela conduz o leitor-espectador e não o contrário. Pois que graça teria se não fosse assim?
Nota: uso a grafia Kariênina, da tradução de Rubens Figueiredo para a editora Cosac Naify (2005), e que hoje é publicada pela Companhia das Letras (link abaixo)
O segundo trono
Na pobre Londres de Dickens, as crianças brincavam chapinhando em dejetos, enquanto baldes deles eram despejados nos fundos das casas. Não é difícil imaginar que brincassem de atirar neve uma às outras, muito embora aquilo que pegavam ao chão não fosse bem neve, mas o extremo oposto de neve, conforme cheiro e coloração denunciavam.
Mas não há mal que dure cem anos, diz o consolador adágio.
Um dia, vi um documentário que falava da invenção do sistema de esgotos de Londres. Entre muitas informações instigantes, lá dizia que a privada de louça, este indispensável apetrecho no qual a amiga e o amigo inscritos talvez sentem-se majestosamente para ler esta newsletter, pois ele foi um artigo luxuosíssimo em certa época.
Ora, mais que luxuoso, aristocrático: de início, a privada foi um aparato exclusivo da realeza britânica. Sua Majestade a Rainha da Inglaterra³ foi a primeira a sentar-se no trono dois para ali depositar o número dois. A louça era artigo caríssimo à época, consta, e os testes desse maravilhoso invento passou primeiro à realeza ungida antes de chegar à plebe ignara.
O documentário dizia que Sua Majestade ficara satisfeitíssima em não precisar mais deixar penicos constrangedores para os serviçais retirarem: agora, bastava depositar os resíduos indecorosos e virar uma válvula estrategicamente posicionada para que a água limpa fizesse desaparecer a imundície como pecados redimidos.
Depois, a revolução industrial tratou de difundir as louças para o populacho geral, e o resto é história.
Por isso, chamar a amiga privada de todos os dias de trono não é absurdo nem pejorativo. Porque a providencial louça nasceu mesmo para a realeza, depois espalhou-se, e olhem só que privilégio temos.
* * *
Código masculino para moças
Um dia, uma amiga (acho que é amiga) disse que mesmo quando mulheres tem óbvios méritos em campos tipicamente masculinos, os homens não as reconhecem.
Deu o que pensar. Primeiro, é verdade, e isto pode ser indiretamente cruel: homens não reconhecem o talento feminino como o talento dos outros caras, ao menos não nas mesmas bases.
Não defenderei os marmanjos e aliás os acho bem burros no geral, mas explico: ali não se trata de não reconhecer no sentido de recusar, de sonegar reconhecimento. É que o homem ainda vive com a cabeça de setenta anos atrás e alimenta arquétipos femininos muito fixos e arraigados de setenta anos atrás. Quero dizer, eles reconheceriam méritos femininos em papéis tipicamente femininos ali de meados do século 20, por exemplo.
Não que eu ache certo. Então digo à amiga (acho que é amiga): quer ser reconhecida por seus méritos? Experimente reconhecer antes o mérito de algum homem com sinceridade. Pode ser o Steve Jobs, não precisa ser o Kauê do Facebook. Também não precisa admirar qualquer homem e qualquer mérito, mas só aquele que de fato você admira e que se pudesse o teria para si (o mérito, digo).
Sabe por quê?
Porque antes do sr. George Soros atuar no globo terrestre, a educação masculina remontava aos códigos de cavalaria (de cavalheiro, não de cavalo; em inglês é chivalry⁴) e um desses muitos princípios é: quem honra será honrado. Pois veja, não raro os homens dizem a superiores a si nalgumas áreas: isso aí mestre, mandou bem e coisa e tal. Bem medieval.
Ao longo da história, as mulheres não tiveram acesso aos códigos de cavalaria pois se ocupavam do lar e das prendas, e portanto não tiveram de cultivar aquela importância e aqueles valores. Note, moças: não cultivá-los poderia ser mortal, no limite. A desonra era lavada com sangue.
Mas agorinha, atirada à mistura social que o sr. Soros aplicou ao Ocidente antes de partir às profundezas, a pobre moça chega desequipada para os respectivos códigos vigentes. De modo que deixo então anotada esta dica à amiga (acho que é amiga), para que dela faça bom uso e seja reconhecida como merece.
* * *
Dosimetria delas
Por falar em mulher, me lembrei dessa. O Brasil ainda estava em choque pelo crime bárbaro de Elize Matsunaga, que esquartejara o marido dono do grupo Yoki, recolhera suas partes corporais em sacos plásticos e os distribuíra pelo litoral paulista.
Comentava com uma conhecida:
— A perícia apontou que ela decapitou o marido com ele ainda vivo, você viu?
Ao que a colega:
— Ah, mas ele traiu ela, né?
* * *
Quem disse
“Nossa vida não é um continente. Cada dia é uma ilha que emerge do mar da noite. Férteis ou improdutivas, áridas ou irrigadas, planas ou montanhosas, ermas ou povoadas, guardando em grupos enganosas similitudes, formam o descosido arquipélago da nossa louca geografia, sujeito a terremotos, a maremotos, à fatal submersão e é através de imaginárias pontes e aterros que podemos ligar algumas e nelas tentar um plantio ilusório, um viveiro de sonhos.”
— Marques Rebelo, O Trapicheiro
*
“Sabe que existem duas espécies de homens: os simplórios e os iniciados. Os primeiros são os escravos; os segundos, os senhores. Bem, onde está a diferença? Muito simples: duas grandes leis regem o universo, o acaso e a necessidade. Lembre-se bem disso, não existem outras leis além dessas duas. Os escravos são governados pelo acaso; e os senhores governam o acaso. No seio do exército de cegos anônimos existem alguns espíritos que enxergam.”
— Ernst Jünger, Heliópolis
*
“Por primeiro, com referência à mente ou o entendimento, é óbvio que a ficção tem consideráveis vantagens sobre a verdade; e a razão disso está logo à mão; porque a imaginação pode construir cenas mais nobres e produzir revoluções mais notáveis do que a natureza ou a sorte terão condições de fornecer.”
— Jonathan Swift, Panfletos Satíricos
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