#2. Pastoral Americana, de Philip Roth
Umas impressões de leitura à guisa de resenha
CERTOS LIVROS PODEM FICAR INTOCADOS EM CASA por um longo tempo, quietinhos, esperando sem pressa a hora de serem lidos. Já outros nos transmitem certa inquietação desde a prateleira, uma sensação de dívida por não lê-los. Não sei explicar, mas, de forma recorrente isso me ocorre com a ficção séria — termo que eu desconhecia e ouvi pela primeira vez pelo escritor Jonathan Franzen, em entrevista recente ao Roda Viva.
Bem, livros assim parecem nos convocar para entrar em seu mundo e, enquanto não o pegamos logo de uma vez, não sossegamos. Não sei se é apenas comigo que acontece.
Pois foi o que ocorreu com Pastoral Americana, de Philip Roth. Levei quase um ano para tirá-lo da estante, até que não pude mais adiar, de algum modo o livro me cobrava para tirá-lo da mudez. Puxo então o dito-cujo e o carrego comigo. Li por três ou quatro meses, sem pressa, intercalando entre outras leituras.
Nas primeiras páginas me dou conta de que devia mesmo tê-lo lido há tempos, embora já tivesse assistido ao filme homônimo baseado na obra, anos antes, no Telecine. Chovo no molhado para dizer que o romance é muito melhor: sem exagero, centenas de sutilezas e complexidades são limadas do roteiro adaptado, espremido em duas horas e pouco de duração. O filme não chega a ser ruim, mas nem de longe julgue-se o livro por ele. A obra é muito mais densa. Tanto assim que este texto não esgota todas as suas camadas de significado, para usar uma expressão meio batida.
O fato é que entro na história e me pego discutindo com as situações apresentadas ali, a atitude dos personagens. Durante a leitura digo mentalmente coisas como “pô, esse cara é burro?” ou “não, não é isso, tá na cara!” ou “eu responderia assim e assado a essa fulaninha”. Eis o efeito de qualquer romanção que se preze, como é o caso de Pastoral Americana.
Eis como li a história — sem spoiler, prometo.
Reprodução/The New York Times (link abaixo)
Narrado em terceira pessoa pelo alter ego de Roth, o escritor Nathan Zuckerman (que aparece em outras obras do escritor, como o Complexo de Portnoy, de 1969), a obra narra a vida de Seymour Irving Levov, amigo de infância do escritor fictício. Depois de algumas páginas some o narrador e ficamos com Levov, cujo apelido é Sueco, devido a seu porte e aparência nórdicas, meio viking. A despeito de ser judeu, Levov destoava da aparência média dos demais garotos judeus da vizinhança, nas palavras do narrador Zuckerman.
Seymour Levov era um sujeito invejável, exemplar, campeão em toda a linha: nos estudos, nos esportes, na compleição física. O típico cara por quem as garotas suspiravam. Bem-remediado, também: o Sueco é herdeiro de uma fábrica de cintos, bolsas e luvas femininas, a Artigos de Couro para Senhoras Newark, fábrica erguida por seu pai, Lou Levov, que repetira a história do self-made man americano: muito trabalho duro desde baixo, persistência, luta e dedicação ao longo de décadas. Lou Levov compra uma fabriquinha falida e a transforma numa pequena indústria de sucesso, cujo auge se dá no pós-guerra, não por acaso um dos tempos mais prósperos da história americana.
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Estamos nos anos 1960. O menino Seymour cresce, assume a empresa familiar e revela-se bom sucessor: toca a produção depois que o pai se afasta do comando da fábrica. Mas agora enfrenta condições bastante adversas, pois o momento econômico e social caminham desfavoráveis no país. No plano geral, a nação ainda está em choque pelo assassinato de John Kennedy; no plano local, a fábrica de couro pena para não entrar em declínio e sucumbir diante da mudança que os novos tempos e costumes causam nos negócios.
Seymour toma conselhos ao velho pai e se esmera para manter a empresa de pé, num ramo que aos poucos vai se tornando ultrapassado, quase romântico. Além de tudo, a concorrência estrangeira chega agressiva e desafia a tradição da marca em seu modo único de confeccionar tudo à mão e no olho, graças a velhos empregados-artesãos treinados por anos a fio, ali mesmo na fábrica.
Contudo, a mulher americana dos anos 60 já não é mais a dama elegante dos anos dourados; as mocinhas não ligam para luvas e bolsas; querem minissaias e até queimam sutiãs, reivindicam novas liberdades. Seymour se vê obrigado a adaptar a fabricação e a terceirizar parte da produção no estrangeiro para reduzir os custos. Faz um verdadeiro malabarismo para não encerrar de vez o legado da família.
Antes de tudo isso, porém, Sueco vive uma juventude de sonho, bem encaminhada: forma-se na universidade e se casa com ninguém menos que a Miss Nova Jersey de 1949, Dawn Dwyer. De beleza estonteante, a garota é cobiçada por todos, óbvio — mas torna-se mulher do Sueco, o maior troféu de sua coleção. Apaixonados, os dois se casam numa contestada união mista — ele judeu e ela gói, católica de origem irlandesa. A união será aprovada com muitas ressalvas pela família de Seymour, e bastante a contragosto.
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Casados, Seymour e Dawn têm uma filha: Meredith “Merry” Levov. A menina ocupará o centro gravitacional do enredo a partir de agora. Primeiro, a criança esperada, graciosa, paparicada, o centro das atenções. Depois, a adolescente com as transformações típicas da fase; no caso de Merry, mudanças não muito desejadas: a menina desenvolve uma estranha gagueira, manifestada sempre quando contrariada ou nervosa, com a mãe especialmente. Além disso, vive oprimida com certas angústias que, se para os adultos não passam de percalços típicos da fase, para a própria menina serão dramas vitais.
Não bastasse a gagueira nervosa, Merry ainda ganha muito peso, torna-se obesa. A jovem se deixa levar por algum complexo na comparação com a mãe, cuja beleza premiada torna-se inatingível, uma sombra que persegue e angustia a adolescente. Ainda que todos procurassem consolá-la, Merry sente que sua aparência jamais chegará ao nível da mãe Miss Nova Jersey.
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No país afora, eclodem manifestações pelos direitos civis. As ruas exigem igualdade racial; grupos políticos rivais entram em conflito, a polícia reprime com violência, e a polarização política chega aos cidadãos comuns.
Em plena auge da Guerra Fria, a América mete-se num conflito no Vietnã, sem data para acabar e absolutamente desnecessário para muitas vozes influentes. A imagem interna do país é corroída perante o beautiful people e a opinião pública, de um lado; de outro, abundam chauvinismos e o desejo de uma América grande que derrote o terrível inimigo comunista, a União Soviética. Enquanto a corrupção política corre solta no país, a patriotada anticomunista mancha a bandeira com o sangue de milhares de garotos, que vão ao front para jamais retornarem às suas famílias.
No noticiário da tevê, vê-se as ruas em chamas; nos bairros prósperos de outrora, criminalidade e miséria crescente; estudantes, artistas e porraloucas saem em constantes passeatas; Panteras Negras entram em ação; surgem ícones e porta-vozes em vários cantos do país, com discursos inflamados; a propaganda revolucionária circula, contagiante ou provocadora, a depender do ponto de vista da audiência.
A velha América dos Founding Fathers vive agora, na segunda metade do século 20, uma fase de novos heróis e novos mitos, amplificados via broadcast. Sujeitos comuns são elevados à categoria de bastiões da moral por grupos organizados a quem pretendem representar. Torna-se difícil para o jovem estudante não tomar posição num cenário de opinião pública tão turva e intoxicada. Agora, dizer-se bom e honesto não basta; a situação demanda posições rígidas e intransigentes. Estar no meio-termo significa estar do lado inimigo.
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Pôster da adaptação para o cinema (2016)
Na casa dos Levov, essa é a visão da jovem Merry. Aos dezesseis anos de idade, a garota é seduzida pela propaganda ideológica e internaliza aquele discurso. Torna-se alguém com um lado: sua nova profissão de fé passa a ser a indignação permanente contra o sistema capitalista, a injustiça, a opressão; entretanto, sua vida particular não tem nada a ver com injustiças, ao contrário; Merry vive num ambiente harmônico e seguro, a despeito de toda a decadência lá fora. Mesmo assim, ela resolve se engajar numa batalha que não precisa ser sua de maneira alguma, a partir das cenas do noticiário e dos discursos de líderes radicais no rádio e nos panfletos.
Entretanto, eram gente comum os Levov, americanos médios de uma geração anterior cujos valores simples baseiam-se no trabalho e na vida honesta. Nunca se mostraram chauvinistas ou reacionários, nem engajados ou mobilizados. Mas a discrição pequeno-burguesa não é bem aceita pela nova geração radicalizada, que precisa extirpar o Mal do sistema vigente onde ele estiver.
Enquanto a mídia oferece debates acalorados entre lados divergentes, Merry precisa achar culpados por tudo que está aí. A menina quer um fio condutor que ligue as injustiças todas que a exasperam. E a ponta desse fio condutor ela identifica bem ali, na mesa do jantar: o pai e a mãe.
Para ela, o pai não passa de um burguês explorador, mesmo inconsciente; uma peça no motor da exploração capitalista; um privilegiado, que se vale da injustiça racial e social e lucra com a mão-de-obra de negros e pobres. A mãe, submissa e auto-anulada, não passa de uma mulher fútil e alienada, também. Nada disso corresponde à realidade. Para a jovem, no entanto, pouco importam nuances e sutilezas.
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Merry está convencida que precisa ser uma agente de transformação, ser parte da mudança. Não vê outra alternativa a não ser fugir de casa, sumir, ganhar as ruas e lutar contra as opressões. É o que ela faz: vai embora, sem ter idéia do alto preço que está prestes a pagar.
A família desespera-se. Sueco sai pelos buracos e espeluncas da cidade para encontrar a filha. Não bastasse a agonia por não saber onde anda a menina, ele vê na televisão a notícia de que uma bomba caseira mandou pelos ares uma mercearia perto dali. O artefato teria sido fabricado por certa Meredith Levov — sua doce Merry. Um absurdo. Como a menininha frágil construiria um artefato assim? A mando de quem? Como planejou? Com qual propósito?
Em torno deste acontecimento a trama se desenrolará. No seio da família Levov, segredos indesejáveis e manchas do passado vêm à tona. Enquanto isso, Seymour tenta resgatar a filha e evitar sua prisão; luta para manter a família coesa, salvar o casamento, manter a companhia funcionando. Quando tudo ao redor parece erodir, o Sueco luta para restaurar seu sonho americano: seguro, harmônico, próspero e feliz. Resta saber se ele conseguirá.
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É o primeiro romance de Philip Roth que leio. Antes disso, dele li apenas um ensaio sobre Kafka, espetacular, publicado na revista Serrote nº 30. No Pastoral, Roth às vezes soa prolixo e cansa um tantinho, achei. Em muitos trechos é preciso respirar, parar e retomar a leitura com calma. Sua linguagem e ritmo narrativo são envolventes, algo entre o literário e o jornalístico. Roth não soa como um estilista, mas um narrador persistente e de fôlego.
Ganhador do Prêmio Pulitzer em 1997 e parte da chamada Trilogia Americana (junto com Casei com um Comunista, de 1998 e A Marca Humana, de 2000), o livro de Roth é literatura contemporânea, vale dizer. Saliento este ponto, pois um esporte muito praticado é o desprezo à literatura contemporânea enquanto tal. Pura tolice: eles podem ser bons e até muito bons. Ademais, o romance comprova que a novidade em si mesma não interfere na qualidade da obra. (De minha parte, considero contemporânea toda ficção publicada de 50 anos para cá, de maneira que a data se move ano após ano.)
Por fim, a fichinha, sem a chatice das monografias: Pastoral Americana (American Pastoral no original) é publicada no Brasil pela Companhia das Letras, e traduzida pelo mestre Rubens Figueiredo. O ponto final está na página 478. Meu exemplar, consta, está na 4ª reimpressão, feita em 2021, o que mostra que o livro de mr. Roth é razoavelmente bem lido no Brasil. Nada mais justo; afinal, trata-se mesmo de um livraço.
Nota: 4 de 5
FERNANDO PESSOA fantasiado de Álvaro de Campos diz, no melhor poema do mundo, o Tabacaria: “não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”.
Exagero poético: Pessoa bem sabe que invejar mendigos seria um vitupério para qualquer sujeito que tenha teto, cama, chuveiro e três refeições ao dia.
Lembro o verso porque tenho certa inveja, também. Mas não de mendigo: não vou tão longe na inveja regressiva, não. Confesso que invejo certo dono de uma banca de frutas do bairro, que socialmente falando nem está tão distante assim de mim.
Explico: na caminhada matinal passo pela banca, cedinho. E lá está o homem a descarregar as caixas da velha perua, a ajeitar as frutas em pequenas pirâmides. Então, chega a freguesia: dona Maria que fala da nora, seu José que fala do vizinho.
O dono da banca ouve todo mundo, devolve gracejos e gravidades, vende, pesa, ensaca, pega o dinheiro, dá o troco, até logo dona, até mais senhor. Fim.
Por isso o invejo: na banquinha não há calls nem follow-ups; não há heads nem associates nem demandas; há zero gestor, zero avaliação de desempenho; não há planilha, deadline, cobrança, pressão; não há reuniões online com headsets; o fruteiro jamais alinha nada, não starta coisa alguma.
Mas antes de escurecer ele desmonta a banca, devolve as mercadorias à Kombi guerreira, fecha o caixa, apura o dia e vai-se embora. Até amanhã.
Não conheço o dono da banca, nunca falei com ele. Não sei se é feliz ou se ganha bem. Sei que ele está ali há uns bons anos e, tudo indica, não sairá dali tão cedo.
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Quem disse
“Há palavras que são pronunciadas com a simples intenção de agir sobre os outros homens e de produzir algum efeito: o que sucede também quando se escreve. Elas não têm valor: as únicas palavras que contam são as pronunciadas tendo em vista a verdade e não o resultado.”
— Louis Lavelle
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“Não é realmente corajoso quem teme parecer ou ser, quando isso lhe convier, um covarde.”
— Edgar Allan Poe
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“Qualquer ser humano tem sempre capacidade suficiente para realizar aquilo de que está convencido.”
— Goethe
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Do almoxarifado:
A Curadoria Particular: um breve manifesto






Obrigadíssimo, caro @Roger Prado 🙏