#36. Triste fim de Lima Barreto
Os últimos dias do escritor carioca, por Di Cavalcanti (artigo de 1944)*
— LIMA BARRETO,² olhe aqui o Di Cavalcanti.
Foi assim que o Schettino me levou até o grande romancista de Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Lima Barreto olhou-me com seus olhos mortos e um sorriso de mofa no canto dos lábios:
— Vi os seus Fantoches da Meia-noite, com o prefacinho do Ribeiro do Couto.³ Agradeço-lhe o exemplar que me deixou.
Estávamos sentados num cafezinho da rua Sachet. Eu me sentia um pouco contrafeito entre o livreiro e o escritor. Fiquei calado.
Foi Lima Barreto quem resolvera abrir-se a respeito do meu álbum de desenhos que Monteiro Lobato acabava de editar. Para ele, o Lobato demonstrara ter muita coragem, “porque no Brasil essas coisas de livros de luxo não dão resultado, aqui só vinga o futebol.”
Tinha raiva de futebol.
Schettino falou do prefácio de Ribeiro do Couto.
— Está bom o prefácio — disse Lima Barreto com certa secura.
Procurei desviar a conversa para outro assunto. Comecei a falar dos subúrbios cariocas, de meu desejo de fazer desenhos sobre a vida daqueles recantos tão pitorescos. E, através da evocação dos subúrbios, animou-se minha primeira conversa de botequim com Lima Barreto.
Os Fantoches da Meia-noite saíram em fins de 1921. Em fevereiro de 1922 realizou-se a Semana de Arte Moderna. Acredito que meu primeiro encontro com Lima Barreto data de meados de 1922. Foi também nesta época que conheci Capistrano de Abreu,⁴ por intermédio de Paulo Prado.⁵
Ano extraordinário aquele, cheio de grandes aventuras! Abandonei São Paulo logo depois da Semana. No Rio, encontrei-me com o Alberto Cavalcanti ⁶ (o grande cineasta brasileiro, esquecido na Europa), que regressava com a intenção de trabalhar na exposição do Centenário. Seus planos falharam: fomos parar como soldados numa caserna da Vila Militar e a revolta de Copacabana acendeu-me os entusiasmos políticos.
Lembro-me de minhas visitas a Graça Aranha,⁷ preso no quartel da rua Frei Caneca. Preso em sua companhia lá estava também o Elói Pontes, que hoje prefacia as obras de Lima Barreto.
Soldado na Vila Militar e morando em Botafogo, eu acordava de madrugada para chegar às seis horas no 2º Regimento. Era um inferno! E posso dizer, hoje, que era um inferno adorável.
Numa dessas minhas viagens para a Vila Militar, encontrei no trem Lima Barreto, que voltava para casa, cambaleante, sujo, cheirando a cachaça. Meus companheiros, reservistas como eu, olharam com desdém para aquele triste mulato e ficaram surpresos de ver que eu o acolhia com simpatia e mesmo com respeito.
— Quando chegar Engenho de Dentro, avise-me! — disse o boêmio, espichando-se no banco e caindo num torpor barulhento, entre arrotos e uivos.
Queria saltar no Engenho de Dentro para continuar bebendo.
Estava no fim da vida o grande Lima Barreto. Muitas vezes conversei com ele na Livraria Schettino. O livreiro era o seu grande amigo.⁸
Certa manhã, em minha companhia, Schettino abriu a pequenina loja da rua Sachet. E eu vi, espantado, emocionado, com estes olhos que sabem ver, o Lima Barreto emborcado sobre um montão de livros que ele atirara das estantes ao chão. Serviam-lhe de cama e estava roncando.
Schettino olhou-o com os olhos rasos de água. E eu confesso que, ao recordar aquela cena, me vem um nó na garganta.
O drama da vida de Lima Barreto sempre me comoveu profundamente. As inúmeras vezes que conversei com o grande romancista, não raro em companhia de Enéas Ferraz, Schettino, Agripino Griecco,⁹ pude observar que atrás daquele desleixo se escondia alguma coisa de muito puro, nobre, forte. Sua revolta era contra a sordidez e as aparências hipócritas da sociedade, não contra o homem. Para este, ele guardava todas as simpatias, dedicando aos humildes todo o seu amor.
Hoje, Lima Barreto está ao lado dos nossos mestres do romance: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Manuel Antônio de Almeida. A nova geração sabe admirá-lo. Seus livros são reeditados. Seu nome é lembrado sempre.
Teve um triste fim o grande Lima Barreto. Enéas Ferraz me telefonara.
— Você não vai ao enterro do Lima?
Subi a rua esburacada do subúrbio. Ele morava em Todos os Santos. No porão da casa, o pai louco gritava. Chovia muito quando saímos com o caixão pesado escorregando de nossas mãos. O vagão mortuário levou-o da estação suburbana até a Central.
Lembro-me da cara branca de adolescente afoito de Enéas Ferraz a olhar para o caixão do seu ídolo. E me lembro também de dois guardas-civis solenes, um deles irmão do morto, montando guarda ao corpo no vagão sacolejante.
Da Central, num carro de terceira classe, o corpo seguiu até o cemitério de São João Batista. Era pequeno o acompanhamento. No cemitério, entre os amigos humildes do morto, entre os que tinham a cara inchada pelo álcool e cortada pela insônia, vi alguns intelectuais: Félix Pacheco,¹⁰ Olegário Mariano,¹¹ Agripino Griecco.
A chuva não parava. A terra caía, enlameada, sobre o caixão negro.
Nunca me esquecerei do grande Lima Barreto, que eu conheci já nos seus últimos anos de vida. Lembro-me dele com uma ternura imensa.
Como uma caricatura dolorosa, é como se eu o estivesse vendo, encostado a uma porta modesta de botequim, a sorrir para a imbecilidade anônima dos bem-confortados…
*Cara inscrita, caro inscrito: entre dezembro e janeiro/25, trarei artigos de grandes autores que, creio, vale a pena conhecer. Cada um desses textos traz, além da prosa excepcional, um teor interessante alinhado à proposta da newsletter. Seguido ao texto principal, continuam as notas originais, além das citações destacadas na sessão “Quem disse”. Espero que apreciem e aproveitem.
Tradução versus original
Dizer que ler no original é melhor que tradução é chover no molhado. De fato, os grandes escritores não apenas escrevem as obras como, no bojo delas, lançam mão de artifícios da língua-mãe só compreensíveis aos falantes nativos. Ou, no mínimo, por estrangeiros muito íntimos do idioma. De fato, linguagem implica num certo peculiar de pensar, além das palavras inclusive.
Também é chover no molhado dizer que algo de precioso se perde nas traduções, mesmo as mais fiéis. Porque os códigos, os subentendidos todos, as piscadelas só captadas imediatamente — truque que confere à leitura tempero e prazer — na tradução tende a se esvair. Às vezes o tradutor sinaliza o recurso estilístico original numa nota de rodapé, contextualizando-a. Bom serviço, muito útil, mas insuficiente: algo como explicar uma piada. Você entende a explicação, mas perde o riso. Melhor rir sem explicação.
Entretanto, um estrangeiro que leia no idioma original, e que tenha desse idioma não mais que um conhecimento referencial para extrair dali um sentido básico, não ganhará o mesmo efeito que um leitor nativo. Portanto, nenhum motivo de orgulho em ler no original, porque, de novo, a piscadela se perde. Às vezes, a graça é pulada sem notar, e se desperdiça uma pepita de ouro atrás da outra na leitura. Nesse caso, a explicação do tradutor é melhor, e portanto ler tradução é melhor, embora não resolva o problema.
Pessoalmente, acho difícil captar o estilo do autor numa língua original. Pelo seguinte: pensamos melhor em nosso próprio idioma. Então suponhamos um brasileiro da gema que leia Thomas Mann e Kafka em alemão: será ele capaz de discernir a diferença entre ambos, a ponto de captar sutilezas e estabelecer preferências?
Bem, sem dúvida haverá leitores fora do idioma germânico que saberão bem o alemão, possivelmente o próprio tradutor; mas captar os detalhes estilísticos requer uma especialidade não exigível de um leitor comum. Aí está o busílis.
Há também o inverso. Nos anos 80, traduziram Grande Sertão: Veredas ao alemão. Eu tenho dó do tradutor, cujo nome desconheço. Guimarães Rosa não escreve em português, mas em português de Guimarães Rosa: nem o brasileiro o entenderá se não ler com bastante cuidado. Como o heróico tradutor fez, sobretudo para entender o espírito do que ia ali? Há palavras só captáveis no contexto, e Rosa faz isso de propósito. Ele quer a naturalidade total, a brasilidade mais viva, e comunica enganando a gramática sem negá-la. Coisa de mestre.
Não sei como fizeram por lá, mas sei que o leitor alemão que leu o Grande Sertão traduzido não leu bem Guimarães Rosa, mas uma, quem sabe, esmerada adaptação. Leu o Guimarães Rosa possível para ele, sem os cheiros, os espíritos, a cara de quem fala e age. Sertão alemão, imagine uma coisa dessas.
Assim se dá conosco em relação aos russos, noruegueses, húngaros; bem menos com ingleses, espanhóis, italianos, franceses. Mesmo assim, perdemos muito.
De modo que a literatura universal que nos chega é sempre referencial acima de tudo. É como visitar um museu: vemos ali o objeto, imaginamos seu uso. Mas, saber exatamente como era, na prática, jamais vamos saber. Evidente que ainda assim vale a pena conhecer, e como vale.
Opinião nacional
Nós os brasileiros somos muito opinativos. A coisa passa da conta, realmente. Trata-se de evidente defeito, erro decerto já apontado por gente de quilate. Mas por que somos assim, tão “achantes” de tudo?
Pensei por dois minutos e arrisco um palpite: por causa do nosso meio externo.
Sim, meio externo. O nosso derredor. O subdesenvolvimento brasileiro manifesta-se na cara feia do entorno e nossas visões do espaço exterior variam do mal-feito ao horroroso, às vezes beirando o vil.
De sorte que essa feiúra circundante nos obriga a viver dentro de nossas cabecinhas. Ao opinarmos sobre tudo, tentamos aplacar aquela perturbação tácita causada pelo ambiente deformado, feio ou caótico e as reações deformadas, feias ou caóticas que elas ensejam.
Tivéssemos beleza suficiente à disposição do olhar, uma beleza nossa, desfrutável a cada palmo de chão; tivéssemos cidades bonitas e subúrbios bonitos à mera abertura da janela; tivéssemos uma harmonia geral estável e docemente tediosa, olharíamos e nos conformaríamos mais com a vida em geral. A beleza aplaca a angústia. No máximo agiríamos como o gringo que apenas exclama “oh, my God” a alguma estranheza e logo volta à rotina.
Mas o Brasil nos obriga sempre a viver e reagir a partir de dentro, via opinião. Opinar é nossa muleta, nosso apoio para não endoidecer. Como do lado de fora estamos irremediavelmente vencidos, damos então esse nosso jeito para não morrer de tristeza.
Quem disse
“Aqueles que sabem que estão dotados de uma razão sólida e de um juízo reto, sem ter o sentimento de possuir uma inteligência superior, não devem retroceder ante os longos estudos e investigações laboriosas; com isso poderão elevar-se sobre os homens, ao alcance dos quais estão os dados universalmente conhecidos, e penetrar em regiões apartadas, acessíveis só às atividades dos sábios.”
— Schopenhauer
*
“Quase todas as nossas desditas provêm do desprezo que temos por tudo que fazemos com naturalidade, com facilidaade e com prazer, a fim de nos dedicarmos com muito esforço a algum objeto para o qual somos pouco aptos e que não temos condições de alcançar.”
— Louis Lavelle
*
“Não busques que os acontecimentos sejam como queres, mas queira que os acontecimentos sejam como são, com o que serás feliz.”
— Epicteto
Direto do almoxarifado
Notas bibliográficas
Publicado originalmente no jornal Folha da Manhã em 27/6/1944. Do livro Figuras do Brasil: 50 Autores em 80 Anos de Folha, Publifolha, 2001 (pp. 68-71).
Di Cavalcanti (Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque, 1897-1976) começou sua carreira em 1914, na revista Fon-Fon. Mudou-se do Rio para São Paulo, para cursar direito; em 1922, seria um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna. Pintor dos mais conhecidos do Brasil, foi também poeta, memorialista, caricaturista e articulista.Lima Barreto (Afonso Henrique de Lima Barreto, 1881-1922), jornalista e escritor, publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma em 1915, seu livro de maior sucesso. Autor de vasta obra literária, entre romances, novelas, contos e crônicas, é considerado um dos maiores escritores brasileiros e da língua portuguesa.
Rui Ribeiro do Couto (1898-1963), diplomata, romancista e poeta. Foi um dos precursores do movimento modernista.
João Capistrano de Abreu (1853-1927) foi historiador, geógrafo, jornalista e professor.
O paulista Paulo Prado (1869-1943) foi escritor, mecenas, poeta, cafeicultor e investidor.
Alberto Cavalcanti (1897-1982), cineasta, fez carreira na França e na Inglaterra. Voltou ao Brasil nos anos 50, para trabalhar na Vera Cruz.
José Pereira da Graça Aranha (1868-1931), escritor, autor de Canaã (1902) e membro da Academia Brasileira de Letras.
Livraria e Editora Schettino, de Francisco Schettino, amigo de Lima Barreto. Fundada no Rio de Janeiro em 1922, foi a responsável por publicar trabalhos do escritor carioca.
Agripino Griecco (1888-1973), um dos principais críticos literários do país nas décadas de 1930 e 1940;
Enéas Ferraz (1896-1977), adolescente à epoca, tornou-se escritor na maturidade: escreveu História de João Crispim, biografia romanceada do seu grande ídolo Lima Barreto.Félix Pacheco (1879-1935), escritor, jornalista e ministro das Relações Internacionais de 1922 a 1926.
Olegário Mariano (1889-1958), poeta e compositor de músicas populares. Compôs para Ary Barroso e Joubert de Carvalho, entre outros.
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