#37. A vida de Tchekhov
Um relato biográfico do famoso escritor russo, por Somerset Maugham
TCHEKHOV NASCEU EM 1860. Seu avô era um servo que poupara bastante dinheiro para comprar sua liberdade e a dos três filhos. Um deles, de nome Pavel, com o correr do tempo abriu uma mercearia em Taganrog no Mar de Azov, casou e teve cinco filhos e uma filha. Anton Tchekhov era o seu terceiro filho.
Pavel, profundamente religioso, inculto e tolo, inútil e egoísta, era um homem brutal. Muitos anos depois, Tchekhov escrevia sobre ele:
“Lembro-me de que meu pai começou a ensinar-me quando eu tinha cinco anos, ou, falando mais claramente, a açoitar-me quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Açoitava-me, dava socos nas minhas orelhas, golpeava-me pela cabeça, e a primeira pergunta que eu fazia ao despertar de manhã era: será que hoje vou apanhar? Era-me proibido participar de brinquedos ou brincar sozinho buliçosamente. Tinha de assistir aos ofícios religiosos monges matutinos e vespertinos, beijar a mão aos padres e monges, ler salmos em casa… Com oito anos, devia cuidar da loja e trabalhar regularmente como moço de recados, o que atingiu o meu estado de saúde, pois me batiam quase todos os dias. Posteriormente, quando fui mandado para a escola secundária, estudava até o almoço, mas do almoço até o anoitecer tinha de ficar na loja.”
Quando Anton Tchekhov contava dezesseis anos, seu pai, carregado de dívidas e temendo a prisão, fugiu para Moscou, onde seus dois filhos mais velhos, Alexandre e Nicolau, cursavam a universidade. Anton ficou em Taganrog para continuar a frequentar o colégio, devendo sustentar-se o melhor que lhe fosse possível como explicador de alunos atrasados. Quando, depois de três anos, prestou os exames vestibulares e recebeu uma bolsa de vinte e cinco rublos por mês, foi reunir-se aos pais, em Moscou.
Resolvido a fazer-se médico, entrou para a Faculdade de Medicina. Era então um jovem alto, com pouco mais de 1,80m de altura, cabelos castanhos-claros, olhos castanhos e boca firme, de lábios carnudos. Encontrou a família morando num porão, em um bairro miserável, onde pululavam os bordéis. Anton trouxe consigo dois colegas de faculdade, amigos do período escolar, como pensionistas da família. Pagavam quarenta rublos por mês, um terceiro hóspede pagava mais vinte, e isto, com os vinte e cinco de Tchekhov, perfaziam oitenta e cinco rublos, com que se alimentavam nove pessoas e pagava-se o aluguel. Em breve mudaram-se para um apartamento maior, na mesma e sórdida rua.
Dois dos pensionistas ocupavam juntos um quarto, o terceiro, sozinho, um pequeno aposento; Anton e dois de seus irmãos uma terceira peça, sua mãe e a filha a quarta, enquanto no quinto compartimento, que servia como sala de jantar e de estar, dormiam os outros irmãos, Alexandre e Nicolau. Pavel, o pai, arranjara finalmente um emprego num armazém com o salário de trinta rublos mensais, e tinha de morar no local de trabalho; assim, por algum tempo, estavam livres daquele homem despótico e bronco que transformara a vida, para eles, num fardo.
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ANTON POSSUÍA O DOM de improvisar histórias divertidas que, relata-se, provocavam acessos de riso entre seus amigos. Diante da desesperada situação da família achou que podia experimentar escrevê-las. Assim fez com uma delas, que enviou a um semanário de S. Petersburgo, intitulado A Libélula. Por uma tarde de janeiro, de volta da Escola de Medicina, comprou um exemplar do periódico e viu que sua história fora aceita. Deviam pagar-lhe cinco copeques por linha. Tomo a liberdade de lembrar ao leitor que o rublo, correspondendo a cem copeques, valia então dois xelins; desta forma, o pagamento oferecido era aproximadamente de um pêni por linha.
A partir de então, Tchekhov remeteu para A Libélula uma história quase tôdas as semanas, mas poucas foram aceitas; vendeu-as, no entanto, aos jornais de Moscou, mas estes não dispunham de recursos para pagar senão um preço baixo; mantinham-se em precária situação financeira e às vêzes os colaboradores, para receber seu magro pagamento, viam-se forçados a esperar no escritório que os pequenos gazeteiros dessem entrada aos copeques recebidos na venda avulsa.
Foi um diretor de jornal de S. Petersburgo, de nome Leykin, quem deu a Tchekhov a sua primeira oportunidade. Dirigia um periódico intitulado Fragmentos, e encarregou Tchekhov de escrever semanalmente uma história de cem linhas, a oito copeques a linha. Era uma folha humorística e, quando Tchekhov de vez em quando lhe entregava um conto sério, Leykin queixava-se de que não era isto o que seus leitores queriam.
Embora as histórias de Tchekhov fossem bastante apreciadas e lhe conquistassem alguma reputação, as limitações que lhe eram impostas, quer quanto à extensão quer quanto à matéria tratada lhe desagradavam, de sorte que, para satisfazê-lo, Leykin, um homem bondoso e razoável segundo parece ter sido, obteve-lhe uma oferta para escrever semanalmente um conto mais longo e de espécie diferente, para a Gazeta de S. Petersburgo, pelo mesmo preço de oito copeques a linha. De 1880 a 1885, Tchekhov escreveu trezentas histórias!
Eram “potboilers”. O Oxford Dictionary diz-nos que este termo se aplica pejorativamente a uma obra de literatura ou de arte executada com o propósito de ganhar a subsistência. É uma palavra que bem podia ser riscada do vocabulário do jornalismo literário. Eu diria que o jovem autor, quando descobre em si o impulso criador que o leva a escrever (e como o possui é um mistério tão impenetrável como a origem do sexo) pode esperar que isso lhe dê renome, mas, sem dúvida, será muito raro pensar que possa trazer-lhe dinheiro; e aí andará bem-avisado, pois, no começo, é muito inauspicioso proceder assim. Mas quando resolve transformar-se em escritor profissional com o propósito de ganhar a vida, não pode ficar indiferente ao dinheiro que o seu talento lhe há de conquistar. O motivo pelo qual escreve não interessa aos seus leitores.
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ENQUANTO TCHEKHOV CONCEBIA este prodigioso número de contos, trabalhava na Escola de Medicina para obter o seu diploma. Só podia escrever de noite, depois de uma dura jornada no hospital. As condições em que o fazia eram difíceis. Os hóspedes tinham-se despedido e os Tchekhov mudaram-se para um apartamento menor, mas “no quarto contíguo”, dizia Anton em carta para Leykin, “o filho de um parente meu (seu irmão Alexandre) está chorando, no outro quarto o pai lê em voz alta para minha mãe uma história de Leskow, alguém deu corda à nossa caixa de música e eu ouço a Bela Helena... Minha cama está ocupada pelo meu parente visitante, que a cada minuto se aproxima de mim e põe-se a falar de Medicina... A criança está berrando! Acabo de tomar a decisão de nunca ter filhos. Creio que os franceses têm tão poucos filhos porque são um povo dado à literatura…”
Um ano depois, em carta a seu jovem irmão Ivan, escrevia: “Estou ganhando mais do que qualquer um dos vossos tenentes do exército, mas não tenho dinheiro, nem comida adequada, nem quarto próprio onde possa fazer o meu trabalho… Neste momento não disponho dum ceitil, e estou esperando ansioso o dia primeiro do mês quando receberei sessenta rublos de S. Petersburgo, os quais gastarei imediatamente.”
Em 1884 Tchekhov teve uma hemoptise. A tuberculose grassava na família e ele não podia deixar de saber o que isto pressagiava, mas, temendo que suas suspeitas se confirmassem, não quis consultar um especialista. Para acalmar a mãe aflita, disse-lhe que a hemoptise era devida apenas a um vaso sanguíneo da garganta que se rompera e nada tinha com tuberculose. No fim daquele ano, foi aprovado nos exames finais e recebeu o diploma de médico.
Alguns meses depois, havia economizado dinheiro suficiente para ir pela primeira vez a S. Petersburgo. Nunca dera qualquer importância às suas histórias; escrevia-as por dinheiro e dizia que na feitura de nenhuma delas gastara mais de um dia. Ao chegar a S. Petersburgo descobriu com espanto que era uma personalidade famosa. Por mais leves que fossem os seus contos, os homens de inteligência de S. Petersburgo, então o centro da cultura na Rússia, viam neles frescor, vigor e um ponto de vista original. Trataram-no com grande apreço.
Tchekhov suspeitou que o consideravam um dos escritores mais bem dotados do seu tempo. Diretores de jornais o convidaram para colaborar em suas folhas por preços melhores do que jamais lhe haviam sido pagos. Um dos autores mais notáveis da Rússia incitou-o a abandonar o tipo de conto que vinha escrevendo e dedicar-se a histórias de temas sérios.
Tchekhov ficou impressionado, mas nunca pretendera transformar-se em escritor profissional. “A Medicina” dizia, “é minha legítima esposa e a literatura apenas minha amante”, e quando voltou para Moscou foi com a intenção de ganhar a vida como médico. Deve-se admitir que pouco se esforçou por obter uma boa clínica. Fez uma multidão de amigos, os quais lhe mandavam clientes, mas estes raro pagavam a consulta.
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ALEGRE, SIMPÁTICO, dono de uma risada sonora e contagiante, era figura de proa das rodas boêmias que frequentava. Gostava de ir a festas e de oferecê-las. Bebia livremente, mas, salvo em casamentos, dias onomásticos (o equivalente russo a aniversário natalício) e festas religiosas, raramente se embriagava. As mulheres o achavam atraente e teve muitas aventuras amorosas. Mas nada de sério. Com o correr do tempo, fez frequentes visitas a S. Petersburgo e viagens pelo interior da Rússia.
Todas as primaveras, deixando entregues a si mesmos os doentes que tivesse, metia toda a família numa carruagem e ia para o campo, onde ficava até o outono. Logo que se tornava conhecida a sua condição de médico, acudiam doentes em bandos e, naturalmente, nada pagavam pela consulta. Para ganhar dinheiro era obrigado a escrever histórias. Estas alcançavam cada vez maior sucesso e eram bem pagas, mas ele achava impossível viver com seus rendimentos.
Numa de suas cartas para Leykin, escreveu: “Pergunta-me o que estou fazendo de meu dinheiro. Não levo uma vida dissipada, não passeio trajado como um dândi, não tenho dívidas e nem sequer tenho de manter amante (amor, arranjo grátis), mas, não obstante isso, só tenho quarenta rublos que sobraram dos trezentos que recebi de você e de Suvorin antes da Páscoa, com os quais amanhã terei de pagar uma conta de quarenta rublos. Só Deus sabe onde vai o meu dinheiro.”
Mudou-se para um novo apartamento, onde finalmente tinha uma peça para si, mas precisou pedir a Leykin um adiantamento para pagar o aluguel. Em 1886, outra hemoptise. Sabia que era necessário ir para a Criméia, onde naquele tempo os tuberculosos buscavam um clima mais quente, como na Europa Ocidental o faziam na Riviera francesa e em Portugal – e morriam como moscas; mas não dispunha de um só rublo para a viagem.
Em 1889, seu irmão Nicolau, pintor de certo talento, morreu de tuberculose. Foi um choque e uma advertência. Já em 1892 seu estado de saúde era tão ruim que Tchekhov ficou com receio de passar outro inverno em Moscou. Com dinheiro emprestado comprou uma pequena propriedade perto de uma aldeia chamada Melikhovo, a cinquenta milhas de Moscou e, como de costume, levou a família consigo, o intratável pai, a mãe, a irmã e o irmão Miguel. Munira-se de uma carga de medicamentos e, como sempre, passaram a afluir doentes para consultá-lo. Tratava-os o melhor que podia e jamais cobrava sequer um copeque.
Intermitentemente, passou cinco anos em Melikhovo; em geral, foram anos felizes. Ali escreveu muitas de suas melhores histórias e foi bem remunerado, quarenta copeques a linha, o que se aproximava de um xelim. Interessou-se por questões locais, conseguiu que fosse aberta uma nova estrada, e construiu escolas, à sua própria custa, para os camponeses. Seu irmão Alexandre, bêbado contumaz, veio morar com ele, mais a mulher e os filhos; apareciam amigos em visitas que às vezes duravam dias, e embora Tchekhov se queixasse de que lhe embaraçavam o trabalho, não podia passar sem eles.
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POSTO QUE ENFERMO, mantinha-se alegre, afetuoso, divertido e animado. De quando em quando, ia passear em Moscou. Numa destas ocasiões, em 1897, sofreu uma hemoptise tão severa que teve de ser levado a uma clínica, e durante alguns dias esteve às portas da morte. Sempre se recusara a crer que houvesse contraído tuberculose, mas agora os médicos lhe disseram que a parte superior dos seus pulmões estava afetada e que, se quisesse viver, devia mudar de gênero de vida.
Voltou para Melikhovo, mas sabia que não poderia passar lá outro inverno. Compreendeu que tinha de abandonar o exercício da Medicina. Saiu do país, indo para Biarritz e Nice, e finalmente se fixou em Ialta, na Criméia, onde os médicos o haviam aconselhado a viver permanentemente. Com um adiantamento de Suvorin, seu amigo e diretor do periódico que lhe publicava os contos, construiu em Ialta uma casa de moradia. Como de costume, encontrava-se em terríveis dificuldades financeiras.
Para ele foi um amargo revés não poder mais exercer a Medicina. Ignoro que espécie de médico era. Depois de formado, não fizera mais que três meses de hospital e suponho que o seu tratamento dos doentes fosse um tanto rudimentar e rápido. Mas tinha senso comum e sentimento de solidariedade, e, se deixava a natureza seguir o seu curso, provavelmente fazia aos seus pacientes tanto bem como teria feito um homem com maiores conhecimentos. A variada experiência que assim adquiriu muito lhe serviu.
Tenho razões para acreditar que o aprendizado a que um estudante de Medicina tem de submeter-se representa uma vantagem para o escritor. Ali, adquire um conhecimento da natureza humana que é inestimável. Vê-a no que ela tem de melhor e nos seus piores aspectos. Quando as pessoas adoecem, quando sentem medo, tiram a máscara que usam quando estão com saúde. O médico as vê como realmente são, egoístas, duras, cobiçosas, covardes; mas também corajosas, boas, magnânimas, generosas. Olha com tolerância as suas fragilidades, com veneração as suas virtudes.
Em Ialta, embora se aborrecesse, a saúde de Tchekhov melhorou por algum tempo. Até aqui não tive ocasião de dizer que, afora o seu vasto número de contos, Tchekhov já então havia escrito, sem muito sucesso, duas ou três peças de teatro. Por causa destas, veio a conhecer uma jovem atriz chamada Olga Knipper. Enamorou-se dela e em 1901, com amargo ressentimento da família, que ele nunca deixara de sustentar, desposou-a. Combinou-se que ela continuaria representando, e assim ambos ficavam juntos apenas quando ele ia a Moscou para vê-la ou quando Olga, “estando ‘sem cachet’”, como se diz nos meios teatrais, descia para Ialta. As cartas que Tchekhov lhe escreveu foram conservadas. São ternas e tocantes.
AS MELHORAS DE TCHEKHOV não duraram e seu estado de saúde se agravou seriamente. Tossia muito e não podia dormir. Com grande aflição, viu a esposa sofrer um aborto. Havia muito que Olga Knipper insistia com Tchekhov para que escrevesse uma comédia leve, aquilo que o público desejava, e dentro de pouco, sobretudo para agradá-la, penso, ele se pôs a trabalhar. A peça devia chamar-se O Cerejal e Tchekhov prometeu a Olga destinar-lhe um bom papel. “Estou escrevendo quatro versos por dia”, disse em carta a um amigo, “e mesmo isso causa-me um sofrimento insuportável.” Concluiu-a e foi levada à cena em Moscou, no começo de 1904.
Em junho desse ano, a conselho médico, foi passar uma temporada nas águas minerais de Badenweiler, Alemanha. Um jovem literato russo escreveu uma narrativa de seu encontro com Tchekhov, à véspera da partida. Transcrevo as linhas seguintes da biografia feita por Magarshack:²
“Num sofá, apoiado por almofadas, metido num casacão, ou chambre, e com um grosso cobertor de lã sobre as pernas, estava recostado um homem magro e aparentando baixa estatura, de ombros estreitos e rosto fino, descorado – tão macilento e irreconhecível ficara Tchekhov. Eu jamais havia imaginado que um homem pudesse mudar tanto. Estendeu a débil mão de cera, para a qual eu temia olhar, e fitou em mim os olhos doces, mas não mais risonhos.”
“— Parto amanhã — disse. — Vou-me embora para morrer. “Usou uma palavra diferente, uma palavra mais cruel do que ‘morrer’ que me desgostaria repetir agora. “— Vou-me embora para morrer — sublinhou, — Diga adeus aos amigos por mim... Diga-lhes que me lembro deles e que a alguns sou muito afeiçoado. Deseje-lhes êxito e felicidade em meu nome. Nunca mais tornaremos a encontrar-nos.”
*
A PRINCÍPIO, melhorou tanto em Badenweiler que se pôs a fazer planos de ir para a Itália. Ao cair de uma noite, depois que se deitara, e como Olga tivesse passado o dia inteiro com ele, insistiu para que ela fosse dar um passeio no parque. Quando voltou, Tchekhov pediu-lhe que descesse para jantar, mas Olga respondeu-lhe que o gongo ainda não soara.
Para matar o tempo, ele começou a contar-lhe uma história sobre uma estação de férias apinhada de elegantes veranistas, banqueiros gordos, norte-americanos, sadios ingleses. “Ao anoitecer de certo dia, todos voltaram para o hotel e souberam que o cozinheiro fugira e não havia jantar à espera.”
Tchekhov continuou descrevendo o efeito que o golpe causara em cada uma destas pessoas mimadas. Inventou uma história divertidíssima e Olga Knipper riu às gargalhadas. Voltou para junto dele depois do jantar. Tchekhov descansava serenamente. Mas, de repente, piorou, e Olga mandou chamar o médico. Este fez o que pôde, mas embalde. Tchekhov morria. Suas últimas palavras foram em alemão: Ich sterbe [estou morrendo]. Estava com quarenta e quatro anos.
Alexandre Kuprin, em suas reminiscências de Tchekhov, escreveu: “Penso que não abriu o coração nem o deu completamente a ninguém. Mas a todos via com bondade, independentemente do sentimento da amizade — e ao mesmo tempo com grande interesse, um interesse talvez inconsciente.”
Isto é singularmente revelador. Diz-nos mais de Tchekhov do que qualquer um dos fatos que, na minha breve narrativa de sua vida, tive ocasião de relatar.
*Cara inscrita, caro inscrito: entre dezembro e janeiro/25, trarei artigos de grandes autores que, creio, vale a pena conhecer. Cada um desses textos traz, além da prosa excepcional, um teor interessante alinhado à proposta da newsletter. Como esta edição ficou um tanto extensa, as demais sessões voltam no próximo número.
Notas bibliográficas
William Somerset Maugham (1874-1965), escritor de origem britânica, nasceu na embaixada inglesa em Paris. Foi romancista, contista, ensaísta e dramaturgo. Autor de vasta obra literária, era também médico e prestou serviços ao Serviço Secreto Britânico durante a Primeira Guerra Mundial.
Texto publicado originalmente em Pontos de Vista (Points of View): Editora Globo: Porto Alegre, 1964. Tradução: Juvenal Jacinto (pp. 118-125).
David Magarshack, autor da biografia de Tchekhov de onde Maugham adaptou seu relato de forma resumida.
Para efeito de edição, abriu-se mais parágrafos em relação ao texto original. O título também é adaptado. Este texto é a parte quatro de um ensaio em seis partes intitulado “O conto”. As divisões com asterisco e negrito também foram feitas visando a uma leitura mais confortável em tela.
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