#38. Um homem honesto
Crônica de Machado de Assis publicada na Gazeta de Notícias (1896)
APAGUEMOS A LANTERNA DE DIÓGENES; achei um homem.¹ Não é príncipe, nem eclesiástico, nem filósofo, não pintou uma grande tela, não escreveu um belo livro, não descobriu nenhuma lei científica. Também não fundou a efêmera república do Loreto, e conseguintemente não fugiu com a caixa, como disse o telégrafo acerca de um dos rebeldes, logo que a província se submeteu às autoridades legais do Peru. O ato da rebeldia não foi sequer heróico, e a levada da caixa não tem merecimento, é a simples necessidade de um viático. O pão do exílio é amargo e duro; força é barrá-lo com manteiga.
Não, o homem que achei não é nada disso. É um barbeiro, mas tal barbeiro que, sendo barbeiro não é exatamente barbeiro. Perdoai esta logomaquia; o estilo ressente-se da exaltação da minha alma. Achei um homem. Se aquele cínico Diógenes pode ouvir, do lugar onde está, as vozes cá de cima, deve cobrir-se de vergonha e tristeza; achei um homem. E importa notar que não andei atrás dele. Estava em casa muito sossegado, com os olhos nos jornais e o pensamento nas estrelas, quando um pequenino anúncio me deu rebate ao pensamento, e este desceu mais rápido que o raio até o papel. Então li isto: “Vende-se uma casa de barbeiro fora da cidade, o ponto é bom e o capital diminuto; o dono vende por não entender…”
Eis aí o homem. Não lhe ponho o nome, por não vir no anúncio, mas a própria falta dele faz crescer a pessoa. O ato sobra. Essa nobre confissão de ignorância é um modelo único de lealdade, de veracidade, de humanidade. Não penseis que vendo a loja (parece dizer naquelas poucas palavras do anúncio) por estar rico, para ir passear à Europa, ou por qualquer outro motivo que à vista se dirá, como é uso escrever em convites destes. Não, senhor; vendo a minha loja de barbeiro por não entender do ofício. Parecia-me fácil, a princípio: sabão, uma navalha, uma cara, cuidei que não era preciso mais escola que o uso, e foi a minha ilusão, a minha grande ilusão. Vivi nela barbeando os homens. Pela sua parte, os homens vieram vindo, ajudando o meu erro; entravam mansos e saíam pacíficos. Agora, porém, reconheço que não sou absolutamente barbeiro, e a vista do sangue que derramei, faz-me enfim recuar. Basta, Carvalho (este nome é necessário à prosopopéia), basta, Carvalho! É tempo de abandonar o que não sabes. Que outros mais capazes tomem a tua freguesia…
A grandeza deste homem (escusado é dizê-lo) está em ser único. Se outros barbeiros vendessem as lojas por falta de vocação, o merecimento seria pouco ou nenhum. Assim os dentistas. Assim os farmacêuticos. Assim toda a casta de oficiais deste mundo, que preferem ir cavando as caras, as bocas e as covas, a vir dizer chãmente que não entendem do ofício. Esse ato seria a retificação da sociedade. Um mau barbeiro pode dar um bom guarda-livros, um excelente piloto, um banqueiro, um magistrado, um químico, um teólogo. Cada homem assim devolvido ao lugar próprio e determinado. Nem por sombras ligo esta retificação dos empregos ao fato do envenenamento das duas crianças pelo remédio dado na Santa Casa de Misericórdia. Um engano não prova nada; e se alguns farmacêuticos, autores de iguais trocas, têm continuado a lutuosa faina, não há razão para que a Santa Casa entregue a outras pessoas a distribuição dos seus medicamentos, tanto mais que pessoas atuais os não preparam, e, no caso ocorrente, o preparado estava certo: a culpa foi das duas mães. A queixa dada pela mãe da defunta terá o destino desta, menos as pobres flores que Olívia houver arranjado para a sepultura da vítima. Também há céu para as queixas e para os inquéritos. O esquecimento público é o responso contínuo que pede o eterno descanso para todas as folhas de papel despendidas com tais atos.
Sobre isto de inquéritos, perdi uma ilusão. Não era grande; mas as ilusões, ainda pequenas, dão outra cor a este mundo. Cuidava eu que os inquéritos eram sempre feitos, como está escrito, pelo próprio magistrado; mas ouvi que alguns escrivães (poucos) é que os fazem e redigem, supondo presente a pessoa que falta, como no whist se joga com um morto. Creio que é por economia de tempo, e tempo é dinheiro, dizem os americanos. O maior mal desse ato é não ser verídico, não o ser ilegal ou irregular. Se as dores humanas se esquecem, como se não hão de esquecer as leis? E dado seja simples praxe, as praxes alteram-se. O maior mal, digo eu, é não ser verídico, posto que aí mesmo se possa dizer que a verdade aparece muita vez envolta na ficção, e deve ser mais bela. As Décadas não competem com os Lusíadas.
O ideal da praxe é a cabeleira do speaker. Os ingleses mudarão a face da terra, antes que a cabeça do presidente da Câmara. Este há de estar ali com a eterna cabeleira branca e longa, até meia-noite, e agora até mais tarde, se é exato o telegrama desta semana, noticiando haver a Câmara dos Comuns resolvido levar as sessões além daquele limite. Não é que o não tenha feito muitas vezes; basta um exemplo célebre. Quando Gladstone² deitou abaixo Disraeli³, em 1852, acabou o seu discurso ao amanhecer, — um triste e frio amanhecer de inverno, que arrancou ao ministro caído esta palavra igualmente fria: “Ruim dia para ir a Osborne!” Agora vai ser sempre assim, tenham ou não os ministros de ir a Osborne pedir demissão. E o presidente firme, com a eterna cabeleira metida pela cabeça abaixo. Sim, eu gosto da tradição; mas há tradições que aborrecem, por inúteis e cansativas. De resto, cada povo tem as suas qualidades próprias e a diferença delas é que faz a harmonia do mundo. Desculpai o truísmo e o neologismo.
Mas eu que falo humilde, baixo e rudo, devia lembrar-me, a propósito de inquéritos, que a clareza do estilo é uma das formas da veracidade do escritor. Parece-me ter falado um tanto obscuramente na semana passada acerca das prédicas do Padre Júlio Maria⁴ em Porto Alegre. Alguns amigos supuseram ver uma crítica ao padre naquilo que era apenas uma alusão às palmas na igreja, e ainda assim por causa de meu ouvido, que já está bom, dou-lhes esta notícia. Que culpa tem o padre de ser eloqüente? Ainda agora acabo de ler o discurso que ele proferiu na Santa Casa, em Juiz de Fora, a 5 de janeiro deste ano. O assunto era velho: a caridade. Mas o talento está em fazer de assuntos velhos assuntos novos, — ou pelas idéias ou pela forma, e o Padre Júlio Maria alcançou este fim por ambos os processos. Também ali foi aplaudido. Em verdade, se ele prefere os discursos como os escreve, é natural que os próprios ouvintes de Porto Alegre se sentissem arrebatados e esquecessem o templo pela palavra que enchia. Um ouvido curado faz justiça a todos.
E já que falo em palmas, convido-vos a enviá-las ao Congresso de S. Paulo, que votou ou está votando a estátua do Padre Anchieta⁵. Ó Padre Anchieta, ó santo e grande homem. O novo mundo não esqueceu o teu apostolado. Aí vais ser esculpido em forma que relembre a cultos e incultos o que foste e o que fizeste nesta parte da terra. Os paulistas bem merecem da história. Não é só a piedade que lhes agradecerá; também a justiça reconhecerá esse ato justo. Tão alta e doce figura, como a do Padre Anchieta, não podia ficar nas velhas crônicas, nem unicamente nos belos versos de Varela⁶. Mais palmas a S. Paulo, que acaba de votar o subsídio e a pensão a Carlos Gomes⁷ e seus filhos. Salvador de Mendonça,⁸ um dos que saudaram a aurora do nosso maestro (há quantos anos!), mandou no serum dos cancerosos de New York uma esperança de cura para o autor do Guarani. Oxalá o encaminhe à vida, como o encaminhou à glória. E pois que trato de música, palmas ainda uma vez ao nosso austero hóspede Moreira de Sá,⁹ que teve a sua festa há quatro dias. A crítica disse o que devia do artista, a imprensa tem dito o que vale o homem. Eu subscrevo tudo, tão viva trago comigo a sensação que me deu o seu violino mestre e mágico.
Enfim, e porque tudo acaba na morte, uma lágrima por aquele que se chamou Dr. Rocha Lima*. Não sei se lágrima; quando se padece tanto e tão longamente, a morte é liberdade, e a liberdade qualquer que seja a sua espécie, é o sonho de todos os cativos. Rocha Lima deve ter sonhado, durante a agonia de tantos meses, com este desencadeamento que lhe tirou um triste suplício inútil.
26/ jul./ 1896
*Cara inscrita, caro inscrito: entre dezembro e janeiro/25, trarei artigos de grandes autores que, creio, vale a pena conhecer. Cada um desses textos traz, além da prosa excepcional, um teor interessante alinhado à proposta da newsletter. Seguido ao texto principal, continuam as notas originais, além das citações destacadas na sessão “Quem disse”. Espero que apreciem e aproveitem.
Ferreira de Castro?
(No último dia 19 de dezembro foi-se Seu Messias, Messias Antonio Coelho, fundador do sebo que leva seu nome desde 1964, no centro histórico de São Paulo. Tomei a nota a seguir depois de visitar o Sebo do Messias, no dia 12 de junho último. Que Deus receba a alma do bondoso e dedicado alfarrabista.)
Texto escrito no calor da inspiração corre o sério risco de vir com um jorro de emoção na hora em que se escreve, e depois, lido a frio por alguém, pode ser que a mesma emoção não ocorra. Aliás, é bem provável que assim seja.
Entretanto, não se pode perder o impulso. Veio a idéia, escreva-se.
Bem, estava eu no primeiro andar do Sebo do Messias quando, ao percorrer estantes e lombadas e depois de ver tanto autor gigante que não se publica mais, pensei, “e eu, que ainda quero publicar…”
Os problemas da literatura brasileira não são inéditos, sabemos. Entra ano e sai ano, eles estão lá: falta gente que leia, falta gente que compre, falta gente que publique, sobra gente que escreve: eu, por exemplo.
E ali no Sebo do Messias me deparo com um Ferreira de Castro que quase ninguém sabe mais quem é, dentre tantos autores esquecidos. Tanto o Ferreira já escreveu e ninguém se lembra dele, vai eu querer botar mais livro no mundo? Parece insulto.
Tenho um romance prontinho e devidamente engavetado, perdoem a indiscrição em dizê-lo. Chama-se Francisco Maia e, sou suspeito em falar, mas acho que o filho saiu jeitoso. Assumo que, se não tenho em mim todos os sonhos do mundo, como diz o poeta, tenho um só, o de colocar meu romancinho na mão do leitor e da leitora caridosa o mais breve possível. Quis escrever para o povo ler.
Mas um sonho desses parece até empáfia. Ainda mais num sebo, quando, de novo, vejo um Ferreira de Castro criminosamente desconhecido e forçadamente anônimo nas listas atuais. Nesse momento há editores nos carpetes que jamais ouviram falar em Ferreira de Castro, tenho certeza.
Então, o que fazer? (Se tivesse uma editora, saberia.)
Bem, diz o rei Salomão que não há limites para se fazer livros, que no mundo cabem todos eles. Vou lá eu duvidar? Que todos os livros caibam no mundo há de ser verdade, o problema é eles passarem todos a existir e serem devidamente lidos. É possível que o importante editor nos carpetes, o tal que não conhece Ferreira de Castro, tampouco saiba quem foi Salomão. Alguém duvida?
Pois durma-se com um barulho desses. Comigo querendo publicar, ainda por cima…
Sorte
Quase ninguém admite ter sorte.
“Foi trabalho duro”, dizem; e tome frases de superação. Mentira. Mentirinha.
Há pessoas que dão dois passinhos em direção ao sucesso, apenas dois. Elas não sabem exatamente quantos passos terão de dar rumo ao sucesso, mas sim, elas começam, apenas começam: dão o primeiro passo e o segundo passo.
Então, antes do terceiro passo, uma força do Universo (digamos) recai sobre uma determinada criatura com meios e condições e puxa aquele postulante do chão. Este generoso repentino, com o coração dividido entre o interesse em lucros futuros e desprendimento de ajudar um desconhecido, sente-se inclinado a puxar o aspirante que deu dois passinhos tíbios e diz: “você, é de você que eu preciso.”
A partir daí, a pessoa dos dois passos é adotada pela pessoa com meios e condições. Nesse momento, ao aspirante só é preciso uma coisa: dar conta do recado e, vá lá, ter um pouquinho de talento.
Mas a coisa pode ir longe, e aquela pessoa com meios e condições concorre com outras pessoas com meios e condições. Um eventual concorrente, ao ver aquele que descobriu o novo talento dos dois passos (que agora dá conta do recado e dá lucro), ela fará de tudo para tirar aquele prodígio das mãos do pioneiro, e oferecerá mundos e fundos para o ex-aspirante dos dois passos.
Então, munida de gestores de carreira, o ex-aspirante é bem assessorado e trabalhado pelos melhores profissionais, os bambas e feras dos bastidores. Agora, o ex-aspirante adentra o mundo da fama, voa cada vez mais alto e ninguém o alcança.
Todo sucesso ocorre assim, tirando um ou dois casos fortuitos: por pura sorte. Mas a pessoa dos dois passos dirá que trabalhou duro. Como vimos, foram dois trabalhos duros, duríssimos: primeiro passo e segundo passo; depois, uma descoberta por alguém com meios e condições; depois, contratação por alguém maior, depois estrelato, fama, fortuna e coisa e tal.
Tudo por causa da sorte, nada menos. Talvez seja meio vergonhoso admitir, talvez não pegue muito bem na biografia, não sei. Mas foi.
Quem disse
“Não se deve adquirir o conhecimento como se adquire uma coisa que ocupe momentaneamente um lugar em nossa memória. Um conhecimento não é nada se ele não se transforma em algo que nos modifique. Assim, ao contrário do que se crê, o conhecimento nunca é senão um meio, não um objetrivo; e o objetivo é descobrir por meio dele uma das potências de nossa vida secreta.”
— Louis Lavelle
*
“À pergunta de saber se sou pessimista ou otimista respondo que meu conhecimento é de pessimista, mas minha vontade e minha esperança são de otimista.”
— Albert Schweitzer
*
“Os intelectuais não têm a obrigação de transformar o mundo; o seu dever é transfigurá-lo pela criação, a criação artística.”
— Otto Maria Carpeaux
Notas bibliográficas
Machado faz referência ao filósofo grego Diógenes de Sinope (412 a.C. - 323 a.C.), contemporâneo de Alexandre Magno. Conta-se que o filósofo saía pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa, em plena luz do dia, com o propósito de encontrar algum homem honesto e virtuoso. Feito um mendigo, Diógenes perambulava em andrajos pelas ruas, por isso era acompanhado por cachorros. Parte de sua filosofia ele retirava ao observar o comportamento dos cães, pelo que recebeu a alcunha de filósofo cínico [do grego ‘kynikós’ = próprio de cão, relativo ao canino].
William Ewart Gladstone (1809-1898), primeiro-ministro britânico por quatro vezes pelo Partido Liberal.
Benjamin Disraeli (1804-1881), escritor, eleito primeiro-ministro em 1874 pelo Partido Conservador. Sucedeu William E. Gladstone.
Padre Júlio Maria de Lombaerde (1878-1944), nascido na Bélgica e naturalizado brasileiro. Foi missionário na Holanda e na Argélia. No Brasil, desembarca em Recife-PE. Percorre várias cidades do norte e nordeste brasileiro em missão, passando depois por cidades do sudeste e sul. Fundou três ordens religiosas no território e escreveu vasta obra literária. É considerado beato pela Igreja; no entanto, os milagres atribuídos a si não foram documentados para possibilitar a canonização.
São José de Anchieta (1534-1597), espanhol das ilhas Canárias, padre jesuíta e fundador da cidade de São Paulo. Padre Anchieta batizou a vila com o nome do apóstolo, pois no dia 25 de janeiro, data da fundação da cidade, comemora-se a conversão de São Paulo. O padre também lutou contra os huguenotes franceses na baía de Guanabara (RJ) e terminou seus dias em Vitória, capital do Espírito Santo. Foi canonizado em abril de 2014 pelo Papa Francisco.
Fagundes Varela (1841-1875), poeta fluminense, patrono da Academia Brasileira de Letras.
Carlos Gomes (1836-1896), paulista de Campinas, foi um importante compositor clássico brasileiro. Levado pelo imperador Dom Pedro II, obteve carreira de destaque na Europa, em especial na Itália. Verdi considerou-o seu sucessor. Sua obra mais importante é O Guarani, ópera mundialmente conhecida.
Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça (1841-1913), advogado, escritor e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Bernardo Valentim Moreira de Sá (1853-1924), violinista e regente português.
*Não foram encontradas informações a respeito.
DE ASSIS, Machado. Crônicas Escolhidas. Org. Fernando Paixão. 1. ed. São Paulo: Editora Ática, 1994. pp. 40-44 v. 1.
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Um excelente Ano Novo, a você e aos seus.







