#39. Os problemas do romance
O verdadeiro compromisso do ficcionista, por Erico Verissimo*
SEMPRE ACHEI que o estilo do livro deve ser ditado pelo assunto. Descobri depois que um romancista inglês já havia escrito isso e me senti roubado. Mais tarde vim a saber que Aristóteles há muitos séculos havia asseverado mais ou menos a mesma coisa e essa certeza me consolou... Para mim, as qualidades essenciais do estilo devem ser as seguintes: clareza, simplicidade e graça. Não precisarei dizer o que é “clareza e simplicidade”; mas se quisesse definir “graça”, confesso que [não] o saberia... Um estilo para o ensaio; outro estilo para o romance. O ensaísta pode, sem prejuízo do que escreve, entregar-se a jogos de linguagem. O que se lhe exige do estilo é que ele seja enxuto, límpido, correto e que tenha a flexibilidade fria e brilhante do aço.
Quanto à linguagem do romancista, é preferível que ela possua a elasticidade quente e sangüínea da carne; e que se amolde perfeitamente ao fato que está narrando. Lembremo-nos, antes de mais nada, que a linguagem é um meio e não um fim. Imagine-se a seguinte história: “Uma senhora comprou uma vassoura para varrer a casa e, por um inexplicável sentimento, colocou essa vassoura numa redoma e passou a pintá-la, a lustrá-la e a tratá-la como uma coisa rara, pouco lhe importando o estado de sujeira do soalho”. O mesmo, posta de lado a caricatura, se passa com os que sacrificam o fato à linguagem. O que importa é varrer a casa e não adorar a vassoura.
A linguagem tem de ser um instrumento móvel, ágil, adaptável a todos os propósitos descritivos. Não sou nem nunca fui partidário do escrever mal. Cultivei os clássicos, estudei a língua, entretive-me até a escrever páginas em que se imitava o estilo dos quinhentistas, dos seiscentistas etc. Foi um ótimo exercício, não há dúvida, mas que seria de mim se eu não resolvesse tomar valentemente da vassoura e transformá-la de coisa decorativa em coisa útil? Para deformar é preciso primeiro formar. Para destruir é indispensável construir antes.
Os que atacam a gramática em geral são os que nunca conseguiram compreendê-la. Desobedecer-lhe às leis de maneira consciente, sempre que isso seja uma imposição do assunto, é coisa diferente. Uma cena de miséria e tristeza descrita com estilo pomposo e florido não comove nem convence. Um colóquio entre pessoas inteligentes num ambiente fino, descrito com linguagem desalinhavada e incorreta, é um contra-senso. Repito: o assunto dita o estilo. Mas, de um modo geral, este deve ser tanto quanto possível sóbrio, para que a atenção do leitor não se desvie da ação do romance para a linguagem do autor.
Finalidade
Para que escrever romances? As respostas a esta pergunta, sempre atual, variam de acordo com o romancista. “Romance por amor da arte”, afirmam uns. “Romance por amor de uma tese, de uma idéia, de uma doutrina”, gritam outros. “Arte por amor de mim mesmo”, declarou corajosamente D. H. Lawrence.¹ Como um homem que vem candidamente trazer o seu grão de areia para o deserto do Saara na ilusão de que o enriquece, seja-me permitido dizer: “Romance por amor da vida”. Os maiores romancistas da humanidade foram grandes adoradores da vida. É um erro pensar que o romancista inventa histórias para fugir à vida. Pelo contrário. O que o leva a escrever romances é o desejo tumultuoso de multiplicá-la.
Creio que nunca se falou tanto em romance de finalidade social como nestes nossos escuros e agitados dias. Há escritores e críticos que negam qualquer valor aos livros que não tratem da questão social, das relações entre capital e trabalho. Outros há que se obstinam corajosamente a fazer literatura da “Torre de Marfim”, desligados dos problemas do momento e animados por um outro ideal de arte e beleza. Com quem a razão? Não se trata, penso, de “razão” ou de “erro”. É uma questão de glândula, uma questão de temperamento a que às vezes as circunstâncias de tempo, lugar, ambiente físico e moral não são alheias.
Olhando retrospectivamente para a minha trajetória na vida intelectual, partindo de uma literatura fantasista e sem raízes na realidade, de um mundo imaginário em que só tinham curso as imagens belas e agradáveis e caminhando através do tempo, dos livros, dos homens, das idéias e da experiência até chegar ao estado de espírito que se cristalizou em Olhai os Lírios do Campo — posso dizer que cheguei às conclusões que seguem: Os tempos se tornaram de tal maneira complicados, tão cheios de problemas urgentes e dramáticos de ordem social, que o escritor se faz a si mesmo esta pergunta: “Será lícito ficar eu a construir mundos imaginários, a brincar com imagens multicores, formando quadros de mera e mentirosa beleza, enquanto o mundo se agita em greves, guerras ou ameaças de guerra, desentendimentos, brutalidades de problemas sem solução?”
Está claro que ao romancista não cabe a missão de resolver as dificuldades sociais. Em geral, o ficcionista não tem soluções a oferecer. Por outro lado, porém, não é lícito que ele ignore esses problemas e procure desligar-se deles, uma vez que a vida é a matéria-prima de seus romances. Isso não implica em afirmar que não seja mais possível hoje em dia escrever um grande romance fora desses quadros. E ninguém em boa razão poderá pedir o fuzilamento ou o “boicote” do escritor que, incapaz de se adaptar ao clima confuso e pouco saudável da hora que passa, recuse tomar conhecimento de seus problemas políticos e sociais, preferindo ater-se ao que a alma humana tem de essencial e imutável. O que importa, no fim de contas, é que o livro seja bem-feito.
Quando comecei a escrever Caminhos Cruzados, fiz a seguinte reflexão: é preciso enxergar tudo, fugir à unilateralidade, enunciar da maneira mais completa cabível no caso os dados do problema humano. Com que elementos de drama podia eu contar? Cheguei à conclusão de que os principais eram: — O conflito dos temperamentos. — A inquietação espiritual (Deus, o problema do bem, do mal, da verdade etc.). — As questões sexuais. — As questões econômicas.
Há quem acuse alguns de meus livros de um excesso de realismo. Por que omitir as manifestações sexuais quando elas são a causa de tantos males que assombram as crianças, a raiz de tantos desvios, inadaptações, sofrimentos e desencontros? Está claro que a linguagem absolutamente livre, a descrição pormenorizada de cenas lúbricas, é, além de inútil, repugnante; e ninguém me poderá acusar de ter caído em tais excessos. Foi Flaubert² quem disse que “desde o momento em que uma coisa seja verdadeira, ela é boa. Os livros só são imorais quando faltam à verdade”. O mesmo Flaubert definiu o romance como sendo “simplesmente uma coleção de experiências”. Para Stendhal,³ “romance é um espelho que passeia por uma grande estrada”.
Espelho mágico — devia-se acrescentar —, espelho que vê não só as coisas físicas como também as morais e espirituais, espelho que às vezes deforma e outras corrige, segundo o temperamento do homem que o leva no passeio maravilhoso. Qual, pois, a finalidade do romance? Inúmeras. Podemos escrever uma história com o simples intuito de prender momentos fugitivos da vida de uma pessoa, de uma família, de uma nação. Muitos o fizeram apenas para estudar meia dúzia de caracteres. Outros, para veicular suas idéias políticas, religiosas ou simplesmente estéticas. Há ainda os que escrevem romances com o puro objetivo de oferecer um passatempo aos leitores. E não são poucos os que se atiram à aventura da ficção a fim de se livrarem, através da autobiografia, de fantasmas que lhes povoam a memória. E não podemos esquecer os que se servem do romance como arma de ataque ou de defesa. E os que lançam mão dele para fins didáticos.
O romance, repito, é um vasto mundo. Tolos são os que pretendem marcar-lhe limites estreitos. Penso que o romancista não deve ter partido político. A vida é múltipla e, no fim de contas, onde está a verdade? Acho que a preocupação moral do escritor deve ter como objetivo principal a causa humana. No dia em que o homem de letras estiver sinceramente convencido de que a Verdade está com o catolicismo, com o protestantismo ou com o budismo, ninguém o poderá censurar se ele utilizar o livro como meio de propaganda do budismo, do protestantismo ou do catolicismo. Faço aqui uma confidência desagradável: não tenho nenhuma fé religiosa. Digo isto sem orgulho e até com uma ponta de melancolia. Mas hei de sempre me opor com todas as minhas forças a esse pavoroso espírito do “crê ou morre”.
Dos tantos sistemas políticos que andam hoje pelo mundo, não sei qual será o melhor. O que sei é que sou decidido partidário do livre-exame e do livre-câmbio de idéias, razão pela qual não me seduz o fascismo nem o comunismo. Não creio que um dia o crime, a guerra e as diferenças sociais possam ser de todo eliminados. Mas acredito firmemente num mundo melhor, em que os homens possam viver numa relativa harmonia e felicidade. Tenho conhecido os mais estranhos e variados tipos humanos. Tenho visto muita maldade, muita injustiça, muita covardia e muita abjeção de caráter.
Por outro lado, porém, criaturas nobres, corajosas e desinteressadas atravessaram milagrosamente o meu caminho. Fazendo um balanço de minha experiência, verifico que o saldo contra a espécie humana é enorme. Razão para pessimismo? Não. Eu me obstino em acreditar no homem e na dignificação da vida. Talvez se possa dar a isso o nome de Fé. É uma idéia que me consola…
Se o que se convencionou chamar alma não morre com o corpo, se depois desta vida tivermos de dar contas de nossos atos na Terra a um Derradeiro Tribunal, creio que poderei comparecer sem susto perante o Grande Juiz, e minha defesa constará apenas destas palavras: “Aqui estou. Fiz o que pude e sempre fui sincero”.
*Cara inscrita, caro inscrito: entre dezembro e janeiro/25, trarei artigos de grandes autores que, creio, vale a pena conhecer. Cada um desses textos traz, além da prosa excepcional, um teor interessante alinhado à proposta da newsletter. Nesta edição, excepcionalmente não haverá notas adicionais, nem as frases da seção “Quem disse”.
A newsletter volta com textos originais no domingo, dia 19/1/25.
Notas bibliográficas
*Publicado originalmente no jornal Folha da Manhã em 13/8/1939. Do livro Figuras do Brasil: 50 Autores em 80 Anos de Folha, Publifolha, 2001 (pp. 46-50).
Erico Verissimo (Erico Lopes Veríssimo, 1905-75) é autor da trilogia O Tempo e o Vento (1949-62), um dos marcos do romance brasileiro do século passado. Em sua numerosa obra, incluem-se, entre outros, Olhai os Lírios do Campo (1938), Incidente em Antares (1971) e Solo de Clarineta (1973). O texto acima reproduz duas seções completas da palestra “Confissões de um Romancista”, pronunciada na Associação Rio-grandense de Imprensa.
Para fins de edição e conforto para leitura em tela, abriu-se alguns parágrafos não constantes no artigo original.
D. H. Lawrence (1885-1930) é o autor de Mulheres Apaixonadas (1920) e O Amante de Lady Chatterley (1928), entre outros livros de ficção e ensaio.
Gustave Flaubert (1821-80) escreveu Madame Bovary (1857) e Salammbô (1862), entre outros livros definitivos da literatura francesa do século 19.
Stendhal é o pseudônimo de Marie-Henri Beyle (1783-1842), autor de O Vermelho e o Negro (1830) e A Cartuxa de Parma (1839), entre outros.
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