#45. Polêmica, quem precisa dela?
Alguém precisa mesmo da polêmica? E dos polemistas?
A POLÊMICA FASCINA. Fascina não exatamente pela beleza ou inspiração que proporciona – por vezes passa longe disso –, mas pelo interesse instantâneo e absorvente que causa às atenções. Viva e candente, a polêmica atrai não pela plástica do estilo, embora possa tê-la, mas antes de tudo pelo efeito psicológico causado na mente do leitor-receptor. Não existe polêmica morna.
Tão antiga como a própria escrita, nos nossos dias a polêmica é a gasolina que move o motor do universo digital – motor a explosão, diga-se. Fácil verificar: que atire a primeira pedra quem passa incólume por elas neste meio de comunicação acessibilíssimo a que, neste exato instante, vossa mercê e eu temos acesso.
A polêmica foi a moradora número um do condomínio chamado internet. Se identificarmos sua estrutura geral, veremos que ela funciona num certo esquema triangular: no vértice A temos o texto polêmico, no vértice B o receptor da polêmica, e no vértice C, oposto a ambos, o alvo (ou alvos) da polêmica. Este é o padrão geral, depois trabalhado criativamente pelo polemista.
Além disso, não há polêmica sem o alvo da polêmica. Todo texto polêmico terá necessariamente um ou mais alvos, seja uma pessoa ou um grupo, seja uma instituição ou instituições. A polêmica terá sempre endereço certo, como uma flecha a voar: de preferência, mira vacas sagradas a que ninguém, em circunstâncias normais, ousaria combater.
Mas se a polêmica é coisa antiga — lembremos as disputatios da Idade Média, por exemplo —, em nossa época ela foi alimentada e encorajada principalmente pelo jornalismo e seu veículo principal, o jornal. Nas democracias modernas, desde o advento da chamada opinião pública, a polêmica tornou-se um instrumento ora necessário, ora injusto e covarde, para desnudar situações, instituições ou figuras da sociedade que, até então, deitavam-se nas redes tranquilas da boa reputação, folgadas e livres de incômodos.
Se a função primordial da polêmica era afiar e aprimorar o conhecimento em torno de certa questão pelo atrito das visões divergentes, a moderna polêmica jornalística tem por função causar repercussão na sociedade. Repercussão significa literalmente barulho que se propaga.
No caso dos jornais, o artigo polêmico dá vibração ao texto, torna-o quente, quebra a monotonia dos informes de rotina. Sem polêmica, qualquer jornal vira um aranzel de letras frias ou de meras ocorrências sem um pensamento, uma voz. Além disso, não esqueçamos que jornal é afinal mercadoria e, portanto, precisa vender: ao leitor, a impressão residual deixada pela polêmica é a de que o veículo em suas mãos tem vitalidade, força, coragem, ou, quem sabe, irresponsabilidade numa dosagem benéfica.
Um jornal que tenha um colunista mordaz, um tipo que não poupe ninguém (claro que poupa), ganha aos olhos do distinto público a aura de independente e, de forma simplificada, que fala a verdade: esta entendida como atirar os pecados na cara dos respectivos pecadores, digamos. Para fazer efeito, a polêmica deverá ter uma agradável peçonha a quem lê aliada a uma cândida ironia (longe de ser cândida de fato). A “boa” polêmica requer também uma inteligência aguda e sensível que saiba tocar os pontos sensíveis com maestria. Operação arriscada, sem dúvida.
O polêmico hábil será aquele que, num primeiro momento, souber tocar o ponto nevrálgico da ferida alheia e, num segundo momento, não tema as possíveis ou prováveis consequências. Calar a matraca do polemista, então, será a missão dos desafetos que este fizer pelo caminho, de modo que a polêmica profissional é tarefa das mais arriscadas e, como veremos, necessárias.
Outro ingrediente do polemista é a argúcia, a inteligência mordaz e penetrante. Ele possui como que antenas sensíveis que identificam o que os alvos pretendem esconder e que a boa-fé pública ignora ou nem pensa a respeito. A polêmica, então, raspa a douradura, despe as vacas sagradas diante do público, de maneira vexatória ou humilhante. O efeito, se levado a cabo, será a irreverência geral e a desmoralização do alvo, derrubando-o dos pedestais e esvaziando-lhe os prestígios de que antes dispunha sem sobressaltos.
O maior de todos
François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778), há de ser o polemista mais famoso da História. Misto de filósofo, ficcionista, historiador e jornalista, o sr. Voltaire não poupava os grandes consensos de seus dias. Mas ele não fazia a linha censor e moralista como um Catão na Roma Antiga. O autor do clássico Cândido ou O Otimismo gostava mesmo de causar escândalo.
Sua verve e picardia deixava de cabeleira em pé a elite da sociedade francesa de seus dias, do clero à realeza. Não era muito apreciado nos salões o intelectual francês, que, entre críticas pertinentes e provocações levianas, teve até um mandado de prisão emitido contra si, em 1734, obrigando-o a refugiar-se no castelo de certa amiga e, à força das circunstâncias, posterior amante: a marquesa Émilie du Châtelet.
Mas o que causava nos alvos das polêmica de Voltaire os maiores pruridos, até a ira, é o mesmo ingrediente contra o qual os alvos da polêmica se insurgem ainda hoje: o cárater petulante, insolente, iconoclasta, ferino, debochado, leviano, sarcástico, etc. do polemista. E, claro, os prejuízos decorridos dessa repentina quebra de cristais no jantar elegante. Escândalo e zombaria, ambos condensados e ocorridos ao mesmo tempo, eis o produto da polêmica.
No Brasil
Nosso país não coleciona um grande time de polemistas. Mais dado à conciliação, nosso temperamento sempre buscou atenuar o incômodo causado por figuras ilustres nos círculos oficiais enquanto descarregávamos nosso descontentamento nas conversas informais e privadas.
No plano literário ou midiático, oscilamos entre a ironia e a bazófia para nossos desagravos, sempre de maneira indireta e à distância segura. Talvez seja por isso que, tão logo brote um raro polemista entre nós, este suscite surpresa, choque, estranhamento, revolta, etc. por um lado; por outro, ardor, frenesi, apego e até adoração. (Registre-se que mal saímos de um presidente polêmico, figura odiada e amada e vice-versa; figura a quem uns querem glorificar, e outros, ver nas chamas do inferno.)
Por falar em inferno, nosso maior polemista recebeu, não por acaso, o epíteto “Boca do Inferno”. Trata-se de Gregório de Matos Guerra (1636-1696), poeta barroco nascido na brasileiríssima Salvador, Bahia. Gregório de Matos só não colheu a ira das figuras de proa que desancava em seus versos porque o incipiente Brasil colonial mal sabia ler no século XVII. Além disso, seus poemas não foram publicados durante sua vida. Do contrário, talvez o esquartejado Tiradentes tivesse um infeliz antecessor. A justiça do Brasil-colônia não costumava brincar em serviço.
Um pouco corajoso, um pouco irresponsável consigo próprio – duas marcas do polemista de escol –, Gregório de Matos chegava a dar nome aos bois em seus poemas. Como este a seguir, bem endereçado:
À despedida do mau governo que fez o governador da Bahia
Senhor Antão de Sousa de Menezes,
Quem sobe ao alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.A fortunilha, autora de entremezes
Transpõe em burro o herói, que indigno cresce:
Desanda a roda, e logo homem parece,
Que é discreta a fortuna em seus reveses.Homem sei eu que foi Vossenhoria,
Quando o pisava da fortuna a roda,
Burro foi ao subir tão alto clima.Pois vá descendo do alto onde jazia,
Verá quanto melhor se lhe acomoda
Ser home em baixo, do que burro em cima.
Ódio que não morre
Por vezes o polemista atrai um ódio tão irracional quanto prolongado; não raro, numa extensão que ultrapassa a própria morte do dito-cujo. Caso, por exemplo, de Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, conhece? Paulo Francis para os íntimos. Jornalista, articulista, romancista, dramaturgo, erudito, crítico de arte. Há de ser mais: poucos no país tiveram a amplitude cultural – e a verve – de um Paulo Francis.
Talvez não seja exagero dizer que o germano-carioca tenha sido nosso Karl Kraus (outro grande polemista: Karl Kraus que, até onde se sabe, é respeitado e regularmente publicado lá fora). Francis, aqui, é nome que a intelligentsia detesta com asco. Não por menos: ele desmascarava a turma da causa em suas ótimas colunas, não só de forma mordaz, mas, especialmente, acertada. Diziam-no de direita, no intuito de xingá-lo: ser de direita, nos anos 70, equivalia a apoiar os porões da ditadura. Nada mais falso: Francis foi preso pela ditadura, foi trotskista e até o fim da vida manteve um quadro de Trotski em sua biblioteca. Francis sempre foi de esquerda; apenas, em certo momento, desistiu da utopia.
O que ele descobriu – e denunciou – foi o caráter matreiro e farsesco da elite esquerdista lotada nas universidades, uma tchurma que construía um privilégio sacrossanto baseado na proteção grupal, enquanto, na essência, tratava-se de figuras intelectualmente ineptas ou desonestas. Contribuía para sua execração o fato de Francis ostentar um ar arrogante e petulante que intimidava os oponentes intelectuais, que se manifestavam contra sua figura individual por meio de abaixo-assinados a muitas mãos e manifestos coletivos, confirmando assim o que ele afirmava. E a raiva só crescia.
Falecido há quase trinta anos, ainda hoje Francis é persona non grata na roda de uma turma do Ainda Estou Aqui. Tanto que o jornalista é literariamente silenciado – para usar um termo caro aos justice warriors de plantão – e não se imprime uma única linha sua há mais de década. Aliviados por sua morte física, os eternos mandarins da sinistra (como ele chamava as esquerdas) tem promovido sua morte autoral, despudoradamente.
Quem quiser lê-lo, terá de ir aos sebos; nas grandes editoras, no entanto, seu nome está proscrito. Ninguém quer tê-lo por perto nem ser associado a ele. No Brasil de 2025, a cantada democracia significa pensar igual, da sociedade civil ao supremo tribunal. E por este igual, entenda-se, rigorosa e inescapavelmente à esquerda.
Como diria o próprio Francis (numa expressão que viraria sua marca registrada): waaal…
A polêmica, para quê serve?
Taxativo como um polemista, digo que não há inteligência num país sem polêmica. Mais: não há democracia sem polemistas em circulação. Sua função vai muito além de incomodar, provocar ou agitar o lodo no fundo do lago – o que seria suficiente por si só.
A polêmica torna o pensamento nacional melhor, pois força a uma disciplina das posturas de destaque. Quem quiser escapar ao feroz escrutínio do polemista, tratará de não dar-se a politicagens e apegos marotos ao esprit de corps, mas se portará à altura do lugar importante que ocupa; fará jus à confiança que o cargo e a posição reclamam em essência.
De onde se depreende que um país livre de polemistas – competentes, cirúrgicos, penetrantes – é um país onde a desfaçatez e a hipocrisia prevalecem, recobrindo de falso verniz uns quantos farsantes que se valem tanto de cargos quanto menos sejam dignos disso.
No Brasil de hoje não há polemistas como um Paulo Francis ou Gregório de Matos com voz ativa, nem perto disso. Uma lástima. Daí abundar a falsidade dos discursos e a afetação “democrática” dos doces tiranetes nos palácios e tribunas oficiais; daí sobrar a velhacaria e a pura pose de oportunistas midiáticos e uns sortudos investidos de renome, porém ocos e opacos.
Contra tudo isso, a arma de um bom polemista é bastante simples: feito a criança na fábula de Andersen, simplesmente olhar com os olhos da cara e exclamar o que vê, na mais pura honestidade: “o rei está nu!”.
Nojinho
Não inventaram melhor maneira de lidar com o nojinho que ter filho: cocô, xixi, catarro, cuspe. Ter filho é trabalhar o nojinho nosso de cada dia.
Inevitável lembrar da minha mãe numa hora dessas.
Às vezes, lá em casa, a gente dava uns ataques de nojinho. Minha mãe de pronto respondia “sabe de onde você saiu?”, insinuando a região corporal correspondente. Digo insinuar, porque era ela começar a frase e a gente virar a cara, nem olhar. E depois a gente respondia um “tá bom, mãe” e encerrava a discussão (dizer “tá bom, mãe” sempre encerrava a discussão).
Mas o tempo passou e agora sou pai: do primeiro há um tempão, da segunda há um tempinho. Não aponto regiões corporais de origem a eles, fiquem as senhoras sossegadas. O caso é que aprendi a lidar bem com o nojinho, diferente de muito antes, na flor da idade.
Cocô, xixi, catarro, cuspe. No fim das contas, a gente também é feito disso.
O destino de Luan
Valo Velho, extremo sul da capital paulistana. Um jovem de quinze anos lê um livro no pátio. A inspetora se aproxima:
— Tudo bem, menino? Como você chama?
— Luan, inspetora. Tudo bem, sim. Tô lendo esse livro aqui.
— Ah, tá.
Três dias depois, Tammyres, a professora de português, encontra o aluno no intervalo, lendo.
— Tudo bem, Luan? Tá aí, quietinho...
— Sim, professora, tudo. Estou lendo aqui.
“ ‘Estou’… que fala certinha... fofo, mas…” — a professora Tammyres se vai, inquieta.
Na outra semana, vem a inspetora, a professora de português e o diretor da escola, que fala:
— Oi, Luan! Tudo bem com você, Luan? E lá na sua casa, tá tudo bem, Luan?
— Oi gente, tudo bem, sim. Eu leio esse livro aqui no recreio e já está quase no fim, olha só. Falta pouco.
O coordenador faz cara de espanto: Eugénie Grandet, Balzac.
No dia seguinte, Tammyres chama o aluno Luan.
— Então, Luan, cê gosta de ler livro, né? Mas cê tem que ler isso aqui, parça! Não aquele livro lá!
O menino olha a capa: Capão Pecado, Ferréz.
— Mas desse aqui eu não gosto, professora.
— Mano, como assim, véi? Você é preto periférico, ‘tendeu? Você vai gostar desse sim, tem que honrar a quebrada, véi! Esse livro aqui te representa! Aquele lá é dos branco eurocêntrico! De branco, véi!
*
Isso foi em 2015.
Naquele dia, Luan ficou com vergonha por ler o livro errado e também não leu o Ferréz e nem leu livro mais.
Hoje trabalha de motoca. Fim de semana faz batalha de rap num coletivo. Largou a segunda facul à distância no primeiro bimestre e avisou a mãe que não vai trabalhar em escritório de branco nenhum: “não me representa, véi”.
Quem disse
“Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta. Para mim o poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações Públicas. O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor. E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre o leitor, que o revela a si mesmo.”
— Mario Quintana
*
“A personalidade é uma coisa muito misteriosa. Nem sempre um homem merece apreço por aquilo que faz. Pode respeitar a lei e mesmo assim ser torpe. Pode violar a lei e ao mesmo tempo ser delicado. Ele pode ser mau sem ter feito nada de mal. Pode pecar contra a sociedade e, justamente por este pecado, alcançar a sua própria perfeição.”
— Oscar Wilde
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“Eu detestaria concluir que, sem Deus, a vida não tem sentido e, depois de dar um tiro nos miolos, ler no jornal do dia seguinte que Ele foi encontrado.”
— Woody Allen
Direto do almoxarifado
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