#46. Sabedoria de vida e outros colóquios
Três ensaios curtos com assuntos vastos
NÃO CREIO NA POSSIBILIDADE de se obter sabedoria mediante a pura experiência ou a observação direta da realidade. Não creio numa pura extração da sabedoria mediante o mero desenrolar dos dias, ou mesmo por um efeito natural do passar dos anos. Não creio nisso na atualidade, bem entendido; porque um dia, sim, tudo isso foi possível, sem dúvida alguma.
Para falar em sabedoria de vida, imagine-se a figura de um sábio ancião, um tipo não muito difícil de vislumbrar; um idoso sapiencial, alguém que nessa vida tenha visto de tudo e aprendido valiosas lições. Pois bem, insisto: não creio muito na possibilidade de surgir uma figura dessas hoje sem resvalar na caricatura.
Lembro-me, por exemplo, do velho Tertuliano, protagonista da novela O Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro. Tertuliano era uma espécie de aldeão numa vila de pescadores perdida no litoral baiano. Na velhice, sua vida era distribuir conselhos com gravidade e emitir grandes sentenças existenciais a quem consigo falasse, enquanto se felicitava pela chegada do primeiro neto, homem e macho, depois de uma sequência de netinhas.
O velho sábio. No nordeste brasileiro, aliás, abunda essa figura folclórica, quase mítica, e não apenas na literatura. Fácil lembrar de Antônio Conselheiro, nome óbvio apresentado n’Os Sertões, de Euclides da Cunha; de resto, basta saber que no interior do nordeste já se usou muito o “Jesus” como nome de batismo, como em nenhuma outra parte do território. Todo vilarejo nordestino que se preze tem ou teve algum “seu Jesus” a habitar por ali.
Minha mãe conta de certo velho que, embora não se chamasse Jesus mas Bertoldo, postava-se à porta da tapera e distribuía bênçãos, sentenças e vaticínios aos passantes de onde ela nasceu, no sertão baiano. Barbudo e reverencial, o velho sempre empunhava um cajado pastoril. Crianças de colo eram levadas àquele velho com ares de profeta a fim de serem benzidas. Os mais velhos tomavam-lhe conselhos e orientações, de beberagens contra doenças a dificuldades matrimoniais.
O Brasil profundo já foi assim, até há pouco. Não por acaso: estávamos isolados do resto do mundo até anteontem. Nas últimas décadas, porém, os brasileiros fomos enredados, atrelados e emaranhados às mesmas circunstâncias deste moderníssimo e tecnológico Ocidente globalizado, sobretudo via mídia: primeiro a televisiva e agora a digital. E o monstro só faz crescer.
Daí o que afirmei no início: a sabedoria extraída da própria vida seria possível apenas numa sociedade tão modesta quanto autóctone, uma coisa pura, longe do bombardeio midiático e das talking heads das metrópoles; seria possível obtê-la apenas pelo contato com a intocada natureza circundante e não nesta sociedade tentacular, permeada de influxos midiáticos o tempo todo, toda perfuradinha de opiniões supostamente esclarecidas.
Falamos de influência e é impossível medir os efeitos desta em nosso próprio pensamento. Como medir as consequências profundas deste insuflar de categorias tão sutis quanto não solicitadas, constantemente a penetrar nossa mentalidade sem percebermos?
Note, por exemplo, como os smartphones são tão inescapáveis e obrigatórios: são nossa teletela, de Orwell, ou nosso soma, de Huxley. Até o Estado e as decisões de governo são conduzidas por esses aparelhinhos. Quanto a nós, gente comum, já estamos contaminados. Não faz muito tempo, saiu uma notícia de que os smartphones com internet cobrem todo o território brasileiro. Há mais deles por aqui do que habitantes, propriamente. Meditemos nisso.
Por essas e por outras, não tenho qualquer otimismo em relação a este século 21 que já anda a um quartil, muito embora não haja em mim amargor, propriamente. É que, pesado na balança, o presente século mais tira do que dá, mais sonega do que contribui em termos simbólicos. Também não faço catastrofismo: paira uma aparente calma dos tempos, uma atmosfera pachorrenta, acomodada e alegremente desdenhosa de tudo o que já foi. Eis a grande marca deste século. Isso às vezes me assusta.
Não dar valor parece ser a regra desta época, uma disposição observada especialmente nos jovens, que, por seu turno, não nos dão as novidades que substituiriam aquilo mesmo que eles desdenham. Neles prevalece simplesmente o abandono de certa abundância imaginária de um tudo que, de tão abundante, já teria cansado; todavia, a olhar bem, esse suposto elemento excessivo não só escasseia como simplesmente desaparece, sem esperança de retorno.
São divagações, eu sei. Falava da sabedoria de vida. Bem, a sabedoria em si mesma não morre, de maneira alguma, é verdade. Não somos assim tão poderosos. De resto, creio que ela ainda esteja acessível diretamente nalgum cantão esquecido do planeta, onde, por exemplo, a mídia e a mentalidade ocidental não toquem; sim, haverá lugares como esse no globo terrestre, uns poucos; em nosso caso, no entanto, não creio que a mera vivência automática possa suscitar a sabedoria, nem despertá-la de algum modo. Porque há artificialidade demais em circulação. Exceção, aqui, só via milagre; e, por definição, milagres são fenômenos raros.
Entretanto, dizer que nossa vida burguesa e comezinha de cada dia não pode mais despertar a sabedoria não implica que ela esteja inacessível. O ponto discutido aqui não é alguma inviabilidade irrevogável da sabedoria, mas seu modo de obtenção.
Então, sim, creio que ainda é possível obter a sabedoria. A questão é que essa obtenção dá-se de outra maneira e não sem ajuda externa. Para chegar a ela, é preciso usar a ferramenta certa, como um trabalho de precisão requer.
Que ferramenta seria essa? De pronto, a cultura: literatura, música, pintura e cia.; a arte, da melhor popular que há até a mais elevada possível. Então chegamos num ponto importante: na melhor cultura popular ou na alta cultura não se cai de paraquedas após um sobrevôo incidental; atingi-la demanda uma escalada consciente, como a subida a uma montanha íngreme; buscar por cultura exige vontade sincera e esforço constante, doce esforço, que pressupõe uma decisão tomada desde baixo, desde o sopé da montanha. A obtenção da sabedoria, portanto, não se dá pela via direta mas por esta escalada de tipo referencial, em que as lições dos homens notáveis que nos precederam vão nos guiando pelo caminho.
A vida desse alpinista voluntário que podemos ser, embora esteja impura pelos influxos tóxicos da modernidade, vai-se purificando na escalada, ao aceitar o tratamento profilático que a cultura dos sábios nos dão. Isso penso eu, modestamente; e, se hoje em dia houver caminho diferente para se chegar à sabedoria de vida, que alguém a apresente. Porque eu, sinceramente, o desconheço.
Gostar de clássicos
Gosto dos clássicos da literatura. Também gosto de gostar dos clássicos da literatura e também do gosto por gostar dos clássicos, isso nos outros. Mas (preciso botar um “mas” aqui): mas reconheço algumas situações não muito louváveis que acometem a gente que ostenta — e até fatura — com esse gosto benfazejo e a respectiva defesa dele, isto é, do gostar de clássicos.
Qual é o ponto? Veja, clássicos são monumentos. As pessoas visitam os monumentos, e mais que isso, fazem bem em conhecê-los, ao menos os mais importantes; principalmente os próximos e geograficamente acessíveis. Então os clássicos — da literatura no caso —, são vantajosos porque estão mais disponíveis, diferente dos monumentos literais, que é estar diante deles ou nada feito.
Mas o clássico por si só é língua morta. Quer dizer, como o latim, a maior das línguas mortas, ela contém tesouros a serem descobertos, segredos a serem desvendados. Pode-se dizer, sem exagero, que quem não lê os clássicos não terá lido nada, ainda que leia todos os demais livros.
Não cheguei ao ponto ainda. A partir da minha parca experiência de leitor, defendo que a necessária, boa e importante leitura dos clássicos deve rigorosamente ser intercalada por bons livros “medianos”, contemporâneos inclusive. Sim, porque o sangue que pulsa e o coração que bate na literatura, o frescor da arte, está rigorosamente nessa produção que trata do nosso imaginário mais próximo e presente.
Nesse caso, talvez, o clássico sirva como o pai austero e responsável que tutela a conduta do filho leitor (e até do filho escritor). Esse pai, no entanto, não deve tolher o frescor da juventude no próprio filho nem paralisar sua iniciativa juvenil, manifestada em seu ímpeto natural pela descoberta, sob pena de deprimi-lo e atrofiar sua boa vontade. Para ler clássicos, inclusive.
Ler somente clássicos — ênfase no somente — tira o gosto da surpresa criativa, subtrai aquela busca curiosa e saudável pelo autor (ou autores) do coração antes desconhecidos. Também é preciso dizer que o clássico já foi um contemporâneo um dia, a quem os sisudos da época rechaçavam e admoestavam a tomar saudável distância. Os sisudos de hoje, contudo, os recomendam como santo remédio — outra coisa que o clássico não é.
A alegria de ler livros passa pela descoberta do antigo e também do novo, do clássico e do bom contemporâneo (não necessariamente o urgente). Ler com alegria é sempre a verdadeira leitura, a única proveitosa para a vida.
Então, ler bons livros é a regra, clássicos e contemporâneos, elevados e medianos. De resto, se eu tivesse de aconselhar algo ao leitor, diria o seguinte: evite textos ruins e sem vida. Clássico ou contemporâneo, os textos devem dar prazer, e não pena e fardo. A vida é curta, amiga leitora, amigo leitor. E ler não é sofrer.
Do poder
Gente há que deseja ter o poder pelo poder, como o Gollum de O Senhor dos Anéis. Uma gente que, como o Gollum, chamam o poder de “my precious”.
Querer o poder é como querer o um anel. Valioso, para essa gente o poder é objeto, e sua posse é cobiçada enquanto tal. Olhe para Brasília e veja do que estou falando, aqueles de sempre. Falo deles e daqueles.
Quem quer o poder, não quer fazer bem nem mal a priori; quer tê-lo simplesmente, custe o que custar; quer a detença, a custódia do objeto. Trata-se de obsessão doentia e tudo o mais é desculpa, sobretudo quando, para obter esse poder, o cobiçoso depende de outros e precisa engambelar a outros. Em nome do desejo, inventa-se qualquer mentira, dribla-se qualquer escrúpulo.
Então, uma vez obtido o anel — dado por outros que não fizeram qualquer questão de ceder o objeto —, o Gollum da vez primeiro deslumbra-se, enamora-se dele. Depois, a depender da pressão do meio externo, pode ser que o dono do poder faça algo para disfarçar e despistar a atenção vigilante, mas o que ele quer mesmo é ter poder, a posse pela posse.
Não há talento, capacidade, competência nem atribuição intrínseca de que o sujeito se cobre tanto quanto esse querer o mando, o domínio, essa busca pela prevalência sobre os outros. Gente assim é tão cobiçosa porque, ora porque… porque o poder é precioso pra ela E isso basta por si, e a tudo justifica. Definitivamente tudo.
Filigranas
Quer escrever literatura? Só a boa literatura mediana ensina a escrever literatura: Vargas Llosa mais que Stendhal; Morris West mais que Allan Poe. Por outro lado, os clássicos ensinam a admirar a grandeza da literatura, muito mais que escrevê-la. (Duvidam? Duvidem. Há quem esteja tentando o inverso há anos, sem sucesso. A fé sem obras é morta.)
Chegará o dia em que europeus brancos e cristãos migrarão para a Sudamérica para serem europeus brancos e cristãos em paz. Nesse dia, a Europa – amante de Zeus na mitologia grega – estará se chamando Al Sidi Mbganza ou algo do tipo.
Psicólogos, um recado. Quem lida com a psique humana devia ser sapientíssimo, um verdadeiro cérebro de cérebros. Eu não me deixaria analisar por um sujeito que fosse menos inteligente que eu, ou que leia menos do que eu. Pela ordem, melhor seria se eu o analisasse.
Sempre pergunto à minha filha: “filha, você tá feliz?”, e ela, “sim, papai, muito feliz.” Minha vida toda vale a pena nesse pedacinho de momento.
O que mais tem hoje em dia é gente perdendo as ilusões sem jamais ter se iludido.
Quem disse
“Se alguém vem ao mundo com muita coragem, o mundo tem que matá-lo para poder dobrá-lo, e de fato o mata. O mundo dobra qualquer um e muitos continuam fortes mesmo nas partes que foram dobradas. Mas os que se recusam a serem dobrados ele mata. Mata os muito bons e os muito delicados e os muito corajosos. Se você não é nenhum desses será morto também, mas não há pressa.”
— Ernest Hemingway
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“A literatura é um baile com casaca obrigatória. Um cavalheiro de terno branco pode forçar a porta e entrar. E pode dançar, se divertir muito, e ser citado pelos cronistas elegantes, todavia, estará sempre sujeito a ser posto para fora do salão.”
— Marques Rebelo
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“Lembrar é uma questão de honra. Nos entulham de coisas, informações, para que não se possa reter nada, concluir nada, e ficar à mercê dos que nos dispensam a ração.”
— Paulo Francis
Direto do almoxarifado
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