#47. O prazer das palavras
Uma breve reflexão que tive enquanto caminhava pela cidade
SOZINHO E ANÔNIMO, camuflo-me entre os passantes. Observo os humildes, os abastados e os medianamente remediados, mais frequentes onde estou. Noto como as pessoas não estão catastróficas nem enclausuradas com algum medo da degeneração da sociedade, como informam minhas redes sociais. Ao contrário: elas ainda se reúnem, sentam-se à mesa dos restaurantes e cafés, congraçam-se; as pessoas sorriem, comem, bebem; falam e conversam entre si; elas caminham pelo passeio público, juntas e agregadas, até um pouco futilmente, diria.
Gosto de observar de longe, de um modo discreto e insuspeito; sair pela cidade, caminhar em locais públicos e algo movimentados. Não por apreciar a movimentação em si, pois evito a multidão: mas miro os transeuntes como uma paisagem, um pouco ao modo The Smiths, “...because I want to see people and I want to see life”.
Estou no Parque Trianon enquanto escrevo. O Parque Trianon fica na Avenida Paulista, do lado oposto ao MASP. Antes de chegar, percorri a avenida desde o comecinho, da Rua da Consolação. Não nego, me agrada vir aqui. Então, pauso um pouco a caminhada para sentar-me num dos bancos deste parque bastante fresco e sombreado. Lá fora, agitação e movimento; aqui, calma e relativo silêncio. Tiro um livro da mochila e deixo o smartphone guardadinho no bolso. (Aliás, das poucas coisas de que posso me gabar é de não ter o tal “vício das telas”; posso esquecer do smartphone por uns bons bocados; ele é que não se esquece de mim.)
Bem, dali a instantes saio e continuo a percorrer a retilínea Paulista em direção à Livraria Martins Fontes, onde encontro, entre boas surpresas, um Thérèse Desqueiroux, de François Mauriac, pela exata importância de R$ 11,98. Um Mauriac, por menos que um pastel com caldo de cana? Coisas do Brasil.
Eis minhas andanças num feriado prolongado. O que me leva a pensar no que vem a seguir: à margem de tudo isso e à parte toda a agitação e vozes, no entanto, passa batida a palavra, passa ao largo desse viver intenso a presença do texto.
Quem ainda lê textos? Quero dizer, quem da brava gente brasileira ainda se deleita com a palavra escrita? Faz exceção o leitor e a leitora que me lê, evidente. Mas refiro-me ao quadro geral, à média: quem se deixa levar por esse prazer tão barato e acessível, quem ainda se abandona à melhor sabedoria contida num parágrafo ou em muitos parágrafos?
Sim, porque, desde esse campo de observação onde estou, não vejo ninguém como eu. Não obstante, apesar da indiferença geral, a palavra continua, ela persiste. Discreta como o livro que leio, a palavra inspira sem gritar. Recusa-se: tão forte quanto sutil, o texto aguarda paciente a sua vez. Feito a donzela, espera pelo amor. Do leitor, no caso.
E é curioso que, com tanta indiferença dispensada aos textos, deram agora de inventar uns robôs que os geram num simples clique. Propagam essa artificialidade inteligente com entusiasmo, e os endinheirados do mundo despejam dólares aos baldes em sistemas que fabricam frases como as fábricas fabricam doces. Essas máquinas maravilhosas juntam palavras por cálculo, onde cada letra tem um valor numérico oculto; por este cálculo, o robô monta as sentenças por combinação numérica, do mesmo jeito que a fábrica sintetiza a fruta real. Mas sabor sintético de fruta não é fruta. As partes interessadas ainda celebram esse grande simulacro, esse fabuloso parecer-sem-ser, cujo maior triunfo é enganar bem. Justo agora, em que o que menos se sente é fome de leitura…
Porque não é de hoje que sobra palavra e falta leitor na freguesia, e o problema só faz aumentar. Para quê então inventar um troço para juntar frases artificiais, num montante que humano algum pode absorver? Por que tanto alimento se não há tanta fome?
Vai saber. Mas o texto literário, o verdadeiro, digo, não se limita a ajuntar palavras tudo bem calculadinho. Sem dúvida, nós humanos as usamos e as combinamos; mas o espírito é que importa; é a essência da coisa, o teor da mensagem que produz efeito na alma alheia. Sim, há um mistério envolvido na literatura que máquina nenhuma pega, e isso é escrever na acepção do termo. Por isso, o texto autêntico tem vivacidade, tem humanidade pois toca a nossa própria humanidade: porque escrever é puro contato humano, e do melhor tipo, pois buscado livremente: mensagem viva, de gente para gente, que faz o efeito literário acontecer.
Mas deixando a robótica de lado, lamento que, de todos os prazeres buscados pelas pessoas, falte esse gosto pela leitura prazerosa, falte a busca por esse diálogo escrito que eleve as mentalidades. O bom texto, embora tenha uma força quase sobrenatural, é facilmente ignorável, também.
Uma pena. Sem o prazer do bom texto, a vida não passa de um amontoado patético de acontecimentos em sucessão, uma garrafa a boiar no oceano, perdida e sem rumo.
A sustentável leveza dos gueis
Já pensei bem e não tenho o menor talento para ser guei. No entanto, conheço e sou amigo de gueis, poucos; o que me permite estabelecer alguma comparação.
Como observara o livre-pensador Levy Fidelix, só no mundo hétero há reprodução. Oh, galardão. Não obstante, o guei assumidíssimo tem uma leveza de quem não precisa mais ter – ou fingir ter – o couro grosso para enfrentar a luta à porta do Ateneu; o guei assumidíssimo está desobrigado das muitas capacidades que a dita sociedade demanda do senhor e da senhora respeitáveis e de bem —presumivelmente em nada gueis —, e que só fazem trabalhar, pagar boletos e ostentar, nas poucas horas vagas, uma certa felicidade verbal que justifique a vida de abelha operária que levam.
Sim, violências, é verdade. Poupem as estatísticas. Sei do ódio específico contra gueis e das discriminações tão agressivas quanto burras de que são vítimas. Entretanto, no cotidiano normal, o guei não é cobrado exceto por si mesmo, quando muito. Ninguém diz a ele “ora, tome vergonha, seja guei de verdade! que guei é você?”. Não. E além disso, parece-me, em certo instante da vida o guei começa a se dar conta da ampla liberdade interior de que goza e começa a aproveitá-la com folga; não duvido inclusive que, entre um colorido drink e outro, ele tenha dó de um pobre hétero de cintura dura, quadradão a mais não poder, sem o menor talhe para a típica joie de vivre dos homos.
Livre das carrancas que a moral traz aos pares opostos, posto que a renunciou, no fundo o guei só lamenta alguma solidão temporária, além de certo tédio garantido via tantos direitos dados pelas Instituições Democráticas. Ser guei é um conforto, é que estou dizendo. A inescapável vida performática do hétero, por outro lado, não passa de uma grande usina de infelicidade, infelicidade administrada, quiçá não assumida, e só raras vezes contornada pela solidão, solidão leve e necessária, solidão benfazeja, solidão da paz.
Paz, eu disse? O hétero assumido não sabe o que isso significa, ó mulher e homem guei; ele não tem um minuto de leveza e paz. Isso é privilégio exclusivo dos homos assumidíssimos, saibam vossas mercês.
Dinheiro honesto?
Às vezes penso que devia não pensar assim, mas continuo pensando: acho que ninguém que ganhe certa faixa de dinheiro o ganhe honestamente.
Quero dizer, para se atingir certo patamar elevado – julgue o leitor de que patamar falamos – enfim, para se chegar a este alto ou altíssimo patamar, mais que opcional, é mister ser desonesto, é indispensável deixar os escrúpulos bem guardados na gaveta. Nesta faixa de tutu graúdo, varia apenas o grau de desonestidade, que sempre existirá de um modo ou de outro.
Balzac disse que por trás de toda fortuna há um roubo. Xinguem o francês em vez de mim: a riqueza é sempre desonesta, meu amigo, e acredite, não sou nem um pouco comunista por dizer isso — muito embora não morra de amores pelo modo de produção capitalista. Acho que capitalismo é simplesmente a m. em que estamos atolados, é nossa Matrix, nossa Caverna do Dragão. Isso de capitalismo eu nem discuto: há o sistema e um antissistema pior que o sistema. Então, menos mal o sistema.
Agora, que me perdoe o fandom de rico, essa gente tão candidazinha e esperançosa, mas, dinheiro honesto, só se for pouco, lamento. Principalmente bem pouquinho.
Quem disse
“Não há textos perfeitos. O que parece perfeito a Joaquim, não o será para Manuel. Todo leitor completa o texto lido com a participação de suas emoções e reflexões pessoais. Sempre que o texto coincide com esse cabedal próprio, que cada um de nós traz em si, nos dará a impressão de ter atingido a perfeição ideal.”
— Josué Montello
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“Se amo alguns livros são aqueles em que sinto que o seu autor, que pode ter morrido séculos antes de eu ter sido engendrado, se dirigia a mim, a mim pessoal e concretamente, em confidência.”
— Miguel de Unamuno
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“Nos lugares onde os erros são crimes os crimes são apenas erros.”
— Montaigne
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