#48. Tony Kobra
Um conto à brasileira dividido em sete partes
1. O desnaturado
TONY KOBRA DEIXA O ESTÚDIO naquele finzinho de tarde, exausto. Insere a chave no contato da BMW, abre o pequeno cooler e daí retira um energético. Afasta a máscara de retenção — acessório que detalharemos mais à frente — e faz o típico barulho de lata se abrindo, psssssklok, barulho que desde pequeno adorava escutar. Posicionando a abertura da lata no canto esquerdo da boca, deixa o líquido escorrer para a garganta; técnica que desenvolveu para ingerir líquidos.
Expliquemos que Tony Kobra não é nome de batismo, mas de guerra, ou, se preferir, nome artístico. Antônio de Paula Ferreira foi o nome com que a mãe o registrou — a mãe, bem-entendido, e não o pai, que ele jamais conheceu, pois o homem sumiu do mapa quando era ainda lactente. Levou anos para a mãe explicar que o pai foi embora justamente ao vê-lo mamar, pois o desnaturado não suportou ver aquela cena.
A cena. Expliquemos a cena e o drama do pequeno Antônio. Ele nasceu com uma anomalia, ou melhor, duas anomalias: um membro de dimensões absolutamente anormais e uma língua de dimensões absolutamente anormais. Durante a amamentação, quando via o garoto a remexer a enorme língua no seio da pobre mãe, o pai tinha engulhos: o menino revolvia a língua como um cão, sinuoso e elástico, de um jeito repugnante.
Mas Antônio era o filho daquele homem; fosse um bom pai, ele devia achar um médico, ver se algo podia ser feito pelo garoto. Aquela língua comprida, que não cabia na boca e forçava o menino a mantê-la dependurada, aquilo afastou os visitantes da família, que não suportavam olhá-la.
Quando alguma visita chegava para ver se dona Eunice precisava de algo, saltava aos olhos as duas extremidades prognatas do menino na hora de trocar a fralda. Aquilo dava às pessoas medo e asco; era inevitável que pensassem besteiras sem querer, algo absolutamente constrangedor e reprovável em se tratando de criancinhas. Então, ninguém mais veio à casa de Eunice para poder ajudá-la.
Depois, o pai se escafedeu e a mãe viu-se em maus lençóis. Enfrentava agora o drama de mulheres cujos filhos são abandonados pelo parceiro. Antônio era o caçula de três irmãos, todos com uma distância grande de idade. Quando nasceu, o mais velho acabava de se casar e ter filho, de modo que o sobrinho tinha quase a mesma idade do tio.
Sem profissão regular e obrigada a cuidar sozinha de duas crianças — uma pré-adolescente além do pequeno Antônio — dona Eunice começou a costurar para fora e a aproveitar qualquer chance que tivesse para ganhar um trocado ou alguma ajuda para dar de comer aos filhos.
Num velho National, todo dia ela escutava o Beto Barros Show, programa de rádio transmitido pela Esplanada AM. Um dia, o radialista passou o reclame de um tal Grupo Siqueira, uma rede de açougues; disse que os vinte primeiros que aparecessem na porta da difusora levariam grátis um quilo de contra-filé para casa, brinde do patrocinador. Oportunidade de ouro para dona Eunice, que foi mas não conseguiu pegar a carne. O tumulto foi enorme. Desapontada, voltou para casa, triste e cabisbaixa.
No dia seguinte, uma vizinha disse ter arrumado uma tática. Ela sabia de onde a Kombi saía e, contou, bastava chegar bem cedo, escurinho, e dar uma caixinha ao motorista do Grupo Siqueira, ao que ele cederia a carne já devidamente separada em saquinhos. Deu certo. Assim, dona Eunice nem precisou mais comprar carne por três semanas — justo o tempo da promoção do açougue — e isso livrou bastante o orçamento apertado, já que a carne andava pela hora da morte.
O menino Antônio adorava a carne de panela que a mãe fazia, mas ele vivia a morder a própria língua gigante durante a mastigação, fazendo-a sangrar. O movimento agônico das mandíbulas parecia uma dura musculação e chegava a sufocar o garoto, às vezes. A mãe dava um jeito e desfiava as carnes, deixando-as molinhas, uma papa, e assim o garoto não precisava mais babar no prato, ou, sufocado, devolver desesperado o bolo alimentar mascado, numa cena bem desagradável de se ver. E, principalmente, evitava seu desânimo para se alimentar devido à dificuldade física, algo que aliás vinha acontecendo.
Antônio foi para a escola no início dos anos 90, quando a prática de bolinar com gente diferente era não só aceitável como regra entre os garotos. Ele já ouvira que, em caso de apelidos, bastava assumir a alcunha e a graça logo acabava; também aprendera na ética das ruas que todo moleque tem de se garantir: se der uma, leva outra; desaforo não se leva para casa. Essa era a lei.
No ginásio, os garotos bagunçavam com Antônio, que primeiro recebeu o apelido de língua de boi. Ele aceitou o apelido e na hora que o chamavam assim ele dizia, baboso, “olha aqui o boi”, pressionando levemente a região do baixo ventre; aquilo afastava a bazófia de imediato, de modo que Tony entendeu, de um modo muito estranho, que a anomalia de baixo compensava a anomalia de cima. Pelo menos, o olhar de espanto fazia os provocadores se afastarem.
Durante algum tempo, a mãe deu ao menino três toalhinhas de rosto para apanhar a baba que escorria insistente nas aulas, até que ele aprendeu uma técnica de levantar ligeiramente a cabeça, de modo que a salivação era devolvida à garganta; embora ainda não fosse possível dispensar a toalhinha, especialmente na hora de beber água. Ele tinha sido proibido de usar o bebedouro da escola, com aquela enorme língua a revolver na saída da água; ninguém a queria usar mais por causa dele e, bastava ele se aproximar do bebedouro para ninguém chegar perto por dias a fio. Antônio passou a levar uma garrafinha própria na bolsa, devidamente cheia d’água, por recomendação da direção escolar.
Antônio nasceu com uma anomalia, ou melhor, duas anomalias: um membro de dimensões absolutamente anormais e uma língua de dimensões absolutamente anormais
2. Deus é amor
Muito antes de Antônio virar Tony Kobra, dona Eunice via o filho caçula crescer e contrariar suas esperanças de que as saliências retrocedessem, diminuíssem. Fazia sentido o raciocínio, pois assim ocorre aos globos oculares e às orelhas das crianças, é o que dizem; eles nascem do tamanho padrão e assim permanecem o resto da vida, de modo que a cabeça cresce enquanto orelhas e globos oculares permanecem iguais. Assim, as crianças têm os olhos grandes e também as orelhas, mas conforme crescem as proporções se equilibram e se harmonizam. Dona Eunice cria nisso de um modo intuitivo.
Infelizmente, porém, não acontecia o recesso das extremidades ao filho, pelo contrário. Embora uma delas, a de baixo, podia ser melhor disfarçada, pois a ciência humana da vestimenta de há muito deu um jeito de causar a retração masculina, sobretudo na cultura ocidental. Em tribos africanas ancestrais e em certas populações da Índia, por outro lado, o membro viril sempre foi tratado completamente solto, se não à mostra; de modo que a lei da gravidade contribuiu para que aquele departamento se desenvolvesse muito além do necessário nos homens daqueles lugares. A adaptação biológica decorrente do completamente livre e solto foi transmitida por muitíssimas gerações por lá. E, com efeito, parte daquela herança evolutiva residia no DNA de Antônio, por sua ancestralidade.
No ocidente cristão, por outro lado, a vestimenta ganhou fins de castidade. Os trajes visavam cobrir a vergonha e desestimular a licenciosidade. Michelangelo fez o seu Davi com genitália infantil, e os gregos também assim fizeram antes dele; muito embora o Satiricon de Petrônio, obra pré-cristã, confirma que mesmo na velha Roma o falo proeminente era quase objeto de culto.
Mas basta de digressões. Voltemos ao Brasil.
Dona Eunice costura frenética na sua Vigorelli para ganhar o pão dos filhos. Enquanto isso, o velho rádio National lhe faz companhia ao lado da máquina de costura. Mas ela cansou da Esplanada AM e de Beto Barros. Procura outra estação entre os chiados roucos do aparelho. Quase no fim da faixa de frequência, uma voz chama a atenção: um homem rouco clama ao Senhor Jesus, pedindo a cura divina e o fim do sofrimento. A vinheta informa que está no ar “A Voz da Libertação”, e o homem rouco era o missionário David Miranda. Depois do clamor, o homem pede para que os irmãos contem a benção. Então os fiéis relatam curas de dores na coluna, das pernas entrevadas, cura de dores na vesícula, fim do inchaço, recesso das tromboses etc.
A cura divina! Basta ter fé em Deus! O missionário promulga o endereço do templo, na Avenida do Estado, na Baixada do Glicério, São Paulo. Dona Eunice deixa o pedal da Vigorelli, toma a Bic sem tampa, a caderneta, e anota rápido o endereço da cura divina. Seu caçula tinha uma chance, agora.
E lá foram eles, mãe e filho. Na calçada do grande templo, ônibus estacionados em sequência. Vários chegam e despejam desesperados em busca de cura e libertação dos males. No pátio enorme, muitas caravanas; peregrinos com malas e sacolas improvisam uma refeição ali mesmo, à sombra dos ônibus: rasgam e repuxam às dentadas coxas de frango, frias e desumidificadas em farinha de mandioca. Depois do repasto, aprumam-se e partem para dentro do pavilhão dos milagres, numa das centenas de portinholas azuis-celestes em forma de ogiva.
Dona Eunice e o menino veem toda a cena do entorno, um tanto espantados. Ela supõe que aquele lugar devia ter mesmo algum poder, uma aura milagrosa para reunir tanta gente de todas as partes do país: os sotaques eram dos mais variados.
Ela entra com Antônio por uma das portinholas azuis, antecedida por uma fila de paralíticos, cegos, enfermos; vê gente sem pernas arrastando-se em carrinhos, outras sem braços; vê crianças de cabeças desproporcionais e velhos com feridas purulentas, com ataduras que mal absorvem as secreções.
Mas, eis o lugar da esperança: a multidão reúne-se nos bancos enfileirados e olham, muito à frente, o altar que recebe o grande sacerdote dos milagres, altar devidamente protegido por vidros blindados: talvez algum filho do demônio pudesse, no momento do exorcismo, sacar de uma arma e disparar. O vidro visava proteger desse ardil maligno.
O culto inicia, e a música em tom lamentoso suscita gritos e urros catárticos aqui e acolá, um desafogar de angústias há muito abafadas no peito. Ao lado de dona Eunice e do pequeno Antônio — cuja boca está protegida por uma toalhinha —, um sujeito se esboroa no chão, debate-se, espuma, no instante mesmo em que o missionário sobe ao altar blindado: o demônio obsessor não resiste à presença do profeta. Os assistentes removem o possesso para exorcizá-lo num canto. Os trabalhos divinos têm início.
O culto prossegue aos urros e gritos de glória a Deus, que cura cegos e faz mudos falarem. Idosos atiram óculos e bengalas num lençol estendido. Alguns paralíticos abandonam muletas e cadeiras de roda, ensaiam passos: eis a cura divina em plena operação. Gritos, louvores e milagres a ocorrer a olhos nus, ao vivo.
Dona Eunice chega a pensar, pelos prodígios em torno, que a língua do filho pudesse regredir e reduzir-se instantaneamente a proporções normais, a qualquer momento. Imposição de mãos, orações aos perdigotos, frenesi, catarses e clamores, manifestações do sobrenatural em gente comum. Dona Eunice e o menino Antônio vêem de tudo no culto, mas neles, nada. O menino volta da forma como entrou, embora muito impressionado. As saliências, contudo, continuavam como dantes: muito salientes.
Dona Eunice e o menino veem toda a cena do entorno, um tanto espantados. Ela supõe que aquele lugar devia mesmo ter algum poder, uma aura milagrosa para reunir tanta gente de todas as partes do país: os sotaques eram dos mais variados
3. Cidade grande
Prossegue assim a vida do garoto Antônio até que chega a adolescência. Por uma estranha razão, moças mais velhas e até senhoras casadas se aproximam do jovenzinho, fazem-lhe gracejos, dão-lhe agrados. Na saída do colégio, algumas chegam a chamá-lo para acompanhá-las até a casa. Antônio descobre ter certo poder e, mais que isso, um uso bem prático de suas anormalidades; uso que aliás o retribuía, e ele sentia-se útil e gratificado por servir às senhoras depois da aula, no expediente da tarde.
Sua fama espalhava-se discretamente no bairro, e ele, para espanto de dona Eunice, vivia agora atarefado, sempre ausente depois do colégio matutino; mal almoçava ou nem mesmo almoçava em casa; dizia à mãe que tinha trabalhos escolares a fazer, que o colegial era muito exigente, “quase uma faculdade”, e a mãe, que cursara até o terceiro ano primário, aceitava a justificativa.
Mas Antônio, que andava a faturar algum dinheiro com os favores que prestava, tomava ônibus e percorria diferentes distritos da cidade e ia até a cidades vizinhas, para prestar mais novos serviços.
Quase escapou da morte uma vez. Foi se meter com mulher casada, e o marido, uma espécie de dono-de-tudo da cidade, numa gama que ia de postos de combustível a centro de compras, chegou de repente e o apanhou quase em plena atividade. Antonio conseguiu escapar por pouco, de calças na mão; o homem, conhecido na região, não quis atirar para não chamar a atenção da vizinhança. Um corno: evitou espalhar a infâmia da mulher adúltera e calou o escândalo. Mas jurou matar a Antônio se cruzasse novamente seu caminho.
As saliências davam agora orgulho a Antônio, e ele dava usos variados aos dotes. Mas chegava a maioridade e ele precisava se manter. A mãe, uma santa, acreditava em suas justificativas sempre muito fundamentadas, e ela agradecia aos céus por ter um filho tão ajuizado, apesar das complicações físicas que não eram culpa dele, coitado.
Quando Antônio disse que se mudaria para a cidade grande para conseguir um trabalho “de carteira assinada”, a mãe não objetou: só recomendou cuidado com sua língua e juízo com a sua vida — apontou com o nariz abaixo da cintura. A mãe nunca lhe explicou a vida, porque ninguém explicara a vida para ela antes; a vida mesmo trata de se explicar para todo mundo sem que ninguém a explique; à vida, apenas descobre-se.
Dona Eunice não sabia, mas Antônio já tinha descoberto a vida. Ia à cidade grande para tirar vantagem disso. Sem esquecer as máscaras de retenção que a mãe costurara, “se precisar de mais, mando pelo correio.”
Uma santa, a mãe. Mas me repito.
Foi num daqueles dias de muita solidão na cidade que Antônio decidiu algo sem muita certeza — e na verdade com muito medo, por causa da Aids (assustava ver o Cazuza magro daquele jeito na tevê) — que ele, por um impulso inexplicável, foi à Rua da Glória procurar por uma profissional. Encontrou uma simpática moça de cabelos pretos, lisos e escorreitos. Subiram e chegaram a uma espelunca de luz mortiça e cheiro nauseabundo.
A moça olhou e se assustou, mesmo tendo visto de quase tudo na vida. Especialmente por se tratar de duas saliências em vez de uma; saliências eram frequentes em seu trabalho, pois em geral aqueles sujeitos vivem em função da saliência e precisam usá-la sempre, quase por desespero; daí requisitarem os serviços das profissionais. Mas Antônio tinha duas delas, acima e abaixo.
Parte do tempo contratado e até depois disso a moça resolveu conversar com Antônio. O que para ele foi bom, pois há muito não conversava com alguém, sobretudo alguém que não o julgasse mal. A moça revelou-se excelente ouvinte, no fim das contas. Até deu-lhe umas dicas da cidade grande, uns conselhos de irmã mais velha, ao que Antônio agradeceu. Sentiu a ajuda sincera e se despediu da moça com um fraterno abraço e um beijo no rosto. E levou consigo um cartão de visitas que ela lhe passou.
Dona Eunice não sabia, mas Antônio já tinha descoberto a vida. E na cidade grande, ele foi para tirar vantagem justamente disso
4. O profissional
O cartão era de uma produtora de vídeos adultos. Antônio não era exatamente fã daquele tipo de filme, e suas necessidades neste particular eram saciadas regularmente por mulheres de verdade com apetites de verdade. Então aqueles filmes lhe davam muita preguiça, no fim das contas; e ele sabia bem que nada daquilo podia ser verdade, pois conhecia a vida em minúcias aos 22 anos de idade.
Seu teste foi um sucesso para os contratantes — se é possível chamar de sucesso trabalhar num lugar daqueles — e os produtores decidiram transformá-lo no novo astro da dramaturgia adulta. Deliberaram e sugeriram o nome Tony Kobra: ele devia imitar uma língua revolvente de lagarto ao entrar em cena. Ele não falaria nunca, ele era o animal; apenas grunhia, pois era o réptil perigoso e predador.
Os filmes de Tony Kobra logo fizeram fama e espalharam-se mundo afora. Em breve ele arrumaria um empresário que negociasse contratos em dólar, já que as produtoras internacionais andavam muito a sondá-lo; aqui, assinaria com outra produtora nacional — a maior do ramo —, que pagava bem e com regularidade os cachês, exigia exames periódicos e aplicava toda a assepsia necessária. Em pouco tempo, Tony assumiria-se como ator de filmes adultos, e o bom dinheiro ganhado possibilita-lhe lidar bem com suas anomalias congênitas. Famoso, sua aparição garantia sucesso em eventos e ele conseguia um bom dinheiro extra apenas com sua imagem. Cortara o cabelo a caráter, um moicano todo espetado, e assumiu de vez o personagem.
Mas era feliz? Não, não, muito infeliz. Não osbtante, tal infelicidade Tony atribuía aos defeitos que não pediu para ter, e finalmente ele se encontrava numa situação em que as desvantagens tornavam-se vantagens. Que mais podia fazer?
Podia rezar. E rezava. Ele rezava o Pai Nosso com muita tibieza, pois sabia-se pecador, muito pecador, miserável pecador.
Era feliz? Não, não, muito infeliz. Não obstante, tal infelicidade Tony atribuía aos defeitos que não pediu para ter, e finalmente ele se encontrava numa situação em que as desvantagens tornavam-se vantagens. Que mais podia fazer?
5. Gênese do Kobra
“Tony Kobra, o homem-animal”. Na época de inversões variadas em que vivemos, tal epíteto podia soar ao ouvido vulgar como um elogio. Antônio mesmo — ou Tony, já que assumira o nome de guerra e se apresentava assim nos círculos que frequentava —, Tony alardeava seus atributos. Fazia uma falsa postura de mau e de quem não dava a mínima à opinião de ninguém. E de fato não daria a mínima se no fundo aquelas opiniões moralistas — tirante o fato de submergir na pura hipocrisia —, não fosse também a sua opinião a respeito de si mesmo. Sabia-se perdido e evocava seu defeito físico como uma fatalidade que deteminava seu destino. Não fosse isso, sua vida seria outra, normal, tranquila e medíocre, como a vidinha comum de todo mundo.
Quando Tony chegou a São Paulo, sabia que enfrentaria uma vida difícil demais, uma vida de durezas. No início, a maior dureza que enfrentou foi a indiferença glacial da metrópole. Que coisa. Ele imaginou que seria tratado como uma aberração e descobriu que, na cidade grande, a maioria das pessoas não ligam quase nada umas às outras. Alguns olhares de soslaio, algum cochicho nos pontos de ônibus, alguma catequese de crentes. Mas era só. Tudo isso era pouca coisa em comparação com a pressão da cidadezinha natal.
O problema agora era a indiferença. O defeito físico — mais o de cima, que mal se podia esconder — atrapalhava para achar emprego. No início ele fez biscates, de todo tipo; alguns muito humilhantes. Arrumou serviço numa cooperativa de limpeza, trajava um uniforme preto. Sua escala de trabalho dava-se à noite, quando os funcionários dos escritórios estavam fora. Isso o possibilitou ganhar algum dinheiro e não enfrentar tantos olhares. E, no caso dos escritórios, as falsas gentilezas.
Tudo isso como Antônio, não ainda Tony Kobra, o homem-animal.
Quando foi às ruas buscar companhia e algum afeto, foi mais por essa necessidade de falar intimamente com alguém. Ele sabia que as mulheres, apesar de melindrosas, são mais compreensivas. Foi principalmente isso que buscou na Rua da Glória naquele sábado pela manhã.
Depois de conversar longamente com a profissional, ambos sentados à beira da cama de colchão achatado sob um lençol de cetim vagabundo, ela lhe deu seu cartão de visitas, o do estúdio de filmes adultos. Ela compreendeu que, com aquelas duas anomalias, ele não conseguiria emprego estável. As pessoas são muito preconceituosas, disse, e no fim ninguém trata bem a gente muito diferente delas, disse.
Tony foi e ficou. Sempre que chegava ao estúdio de gravação — um velho galpão reformado com pintura em branco neve — , ele vinha com dona Eunice na cabeça, a mãe, que não sabia das atividades do filho. Ele pensava, sempre pensava como ela se sentiria se soubesse sua profissão atual, e pior, na qual era bem-sucedido.
Ele não sabia o destino de suas filmagens. Os produtores diziam que ele fazia muito sucesso fora do país, especialmente no leste europeu e na Indonésia, onde o chamavam Tony Komodo, por causa do dragão-de-komodo; diziam ainda que ele era bem requisitado naqueles países, até solicitavam sua visita pessoal, onde era uma espécie de celebridade da devassidão.
Tony nunca se sentiu confortável com as cenas, não via os próprios vídeos. Nunca se imaginou em vantagem por fazer aquilo, pelo qual tinha de assumir o mais rústico instinto animal para conseguir gravar. Na hora, era preciso esquecer tudo, abstrair, desligar o cérebro, virar só corpo e membros, um animal irracional.
A maneira indecente com que ganhava a vida perturbava-o, especialmente quando chegava a seu aconchegante apartamento, aliás de uma assepsia ímpar e de decoração branquinha e reluzente, clara como nuvens. Ele punha a cabeça no travesseiro após um banho relaxante e quase redentor, e pensava na velha mãe. Mandava dinheiro para os remédios dela e dava-lhe uma quantia mensal que, embora relativamente modesta, ultrapassava o salário regular de muito trabalhador. Não obstante, incomodava a Tony a origem daquele benefício, que, por melhores que fossem os seus efeitos, não nasciam de algo tão limpo como os ambientes de seu apartamento, por exemplo; ator pornô, pecha terrível; um gigolô animalizado que performava diante das câmeras.
Queria mudar de vida, sem porém baixar o nível econômico de que agora desfrutava e que possibilitava ajudar a mãe. Dona Eunice nem sonhava com a presente carreira do filho, e, por ser cardíaca e estar em idade avançada, seria melhor ir para o túmulo sem saber. Tony pensava nisso ao travesseiro e perdia o sono. Então, ia ao armário da cozinha pegar um comprimido tiro-e-queda para dormir, já que no dia seguinte devia se apresentar devidamente recomposto aos, digamos, trabalhos intensos.
Tony nunca se sentiu confortável com as cenas, não via os próprios vídeos. Nunca se imaginou em vantagem por fazer aquilo, pelo qual tinha de assumir o mais rústico instinto animal para conseguir gravar
6. Acerto de contas
No dia seguinte, correu tudo nos conformes. Cenas gravadas, Tony cumprimenta a colega e os técnicos. Toma uma ducha e disse que iria treinar na academia, por isso não podia acompanhar os colegas no almoço. Mentiu: não queria a companhia deles. Evitava ao máximo. Tony atuava como atuava, os efeitos de edição davam às performances os ares mais grotescos, mas, fora dali, ele queria manter distância de todos e esvaziar seus pensamentos, aliviar a carga moral interior que insistia em refluir, ainda que fizesse aquele trabalho há meses.
Então, vai à garagem e entra em sua BMW branquinha. Arruma a mochila. Olha à frente, depois ao volante, e suspira fundo. Antes de ligar o carro, pega a lata de energético no cooler junto ao console. Abre, toma um gole. Aqui retornamos ao início de nosso relato.
Ia virar a chave quando alguém esmurra o vídeo da janela, estilhaçando-o. Uma pistola gelada encosta na bochecha esquerda de Tony, mal protegida pelo retentor de tecido afastado do rosto.
— Comeu minha mulher, desgraçado? Hein? Vai levar um balaço na cara pra aprender. Tony Kobra, é? Pois eu mato a cobra.
Tony está teso, paralisado, colado ao banco. O coração dispara, ele se mantém imóvel. Não olha ao homem. A lata ainda está na mão direita.
Um tiro.
O sujeito tomba ao chão com a pistola em punho. Novinha, o aço polido reluz ao sol do meio-dia. Parece aquisição recente. Teria comprado só para matar Tony?
— Quem é esse cara, Tony? Por que veio atrás de você? — o salvador é o diretor da produtora que chegava ao estacionamento. Ele andava armado e abatera o sujeito pelas costas.
Tony tremia de alto a baixo, tenso e eletrizado. A lata amassava na mão direita, o líquido derramava no banco. Ele abre a porta e sai, larga a lata ao chão. Olha o sujeito: olhos semicerrados e revirados. Um cadáver.
— É da minha terra, um cara empresário. Transei com a mulher dele uma vez, eu era adolescente ainda. Consegui fugir e ele me jurou de morte. Acho que viu meus filmes, achou a produtora, não sei, cara. Que loucura... quase morro agora, cara… minha mãe, cara… minha mãe… — começa a chorar.
O diretor guarda a pistola no coldre e ampara Tony. Dá uns tapas em suas costas, tenta acalmá-lo; sente seu tremor.
A polícia chega e todos vão à delegacia prestar depoimento. O corpo é removido.
“Comeu minha mulher, desgraçado? Hein? Vai levar um balaço na cara pra aprender. Tony Kobra, é? Pois agora eu mato a cobra”
7. Vida nova
A péssima experiência fez Tony abandonar de vez os filmes adultos. Voltou à terra natal para cuidar da velha mãe. A cidadezinha mudara rapidamente nos últimos anos, cresceu, tomou corpo, prosperou. Tony abre uma pequena agência e produz vídeos curtos para o comércio local divulgar nas redes sociais. Não dava dinheiro como antes, mas cobre as despesas. O mais importante é ser algo digno, que não envergonha a pobre mãe.
Mãe que veio a falecer no ano seguinte. Tony passou a viver sozinho na casa pequena mas de um terreno enorme — que a mãe chamava terreiro — repleto de plantas, arbustos, galinhas, frangos, e um velho galo despertador. Tony fez algum pé de meia na velha vida e reformou a propriedade. Se refez, entrou para uma igreja evangélica; uma daquelas espalhadas como franquias país afora. Continuava a usar o retentor de tecido no rosto e percorria outras igrejas da região, contava seu testemunho de vida. Agora, com a mãe junto a Deus, ele podia contar o que fez na capital e pelo qual muito se arrependera.
Conheceu uma moça. Morena bonita, meio indiazinha, de uns olhos rasgadinhos. Casaram-se. Tony pesquisou na internet e descobriu um cirurgião plástico que podia diminuir sua língua imensa. A clínica ficava na Suíça. Fez as contas, juntou economias, vendeu a BMW. Marcou tudo e partiu a Zurique com a mulher. A cirurgia foi um sucesso.
De volta ao Brasil, Tony fazia sessões de fonoaudiologia para recuperar a pronúncia certa das palavras e o tom adequado da voz. Finalmente, Antônio de Paula Ferreira sentia-se leve, em paz e feliz. Quanto à outra anomalia, a mulher o demoveu de tantas intervenções. Ele concordou.
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