#49. Coração de Quixote
Com seus dois personagens fundamentais, Dom Quixote e Sancho Pança, Cervantes leu nossa própria humanidade
NÃO É INCOMUM que grandes obras nasçam do acaso. Por alguma motivação inexplicável, vem ao autor uma idéia simples a princípio, algo como um vislumbre, um ímpeto ou o martelar de um assunto na cabeça. Então, parte-se para o ato criador: a força daquela súbita inspiração, vinda sabe-se lá de onde, é felizmente convertida em trabalho e registrada, para depois finalmente ser dada ao público. Daí, nas mãos do público, encerra-se o trabalho do autor; no momento da contemplação alheia, aquele sai de cena como operário de sua própria obra.
Tempos depois, o que foi o esmerado trabalho de alguém adquire um certo estabelecimento, um alicerce vital, uma força para além da forma. A arte torna-se fundamento, chave interpretativa, ela cresce em importância; por gerações afora, a mensagem transmitida impacta não somente a quem dela experimenta diretamente, mas, quem sabe, à própria humanidade. Eis o que se pode chamar, na acepção da palavra, de cultura, condensada numa peça singela que alguém, um dia, resolveu executar, obedecendo a um comando misterioso no próprio espírito.
Tais obras são raras, entretanto. E a substância que as fará tão importantes e significativas também é fruto do imprevisível, o que significa dizer que o autor, para além da execução da idéia, ele não podia mensurar, no ato criativo, os efeitos posteriores que sua iniciativa teria nas pessoas. Ele jamais poderia prever o alcance e a abrangência – seja no decorrer do tempo ou no espaço geográfico – a que aquilo chegaria. Veio a idéia, fez-se o trabalho; voz interior obedecida; depois, forma acabada: todo o resto é com o destino.
De todas as artes, na literatura este processo se desencadeia com relativa freqüência, dando à obra imortalizada o caráter de universal.
Um exemplo eloqüente de uma dessas obras é “O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha” (El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha), de 1605, ou apenas Dom Quixote, do lendário espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). O próprio autor do Quixote foi uma figura fascinante, além de escritor improvável. Cervantes lutara na famosa Batalha de Lepanto (1571), episódio que determinou a reconquista do Mar Mediterrâneo aos reinos cristãos contra os islâmicos do Império Otomano. Na batalha, Cervantes levaria um tiro e perderia a mão esquerda, e, por sorte ou pela Providência, sobreviveria. Sua obra-prima, Dom Quixote, foi escrita depois da batalha, contando com a sorte dos sobreviventes; por um triz o soldado Cervantes não daria à humanidade uma das maiores obras literárias de todos os tempos.
O Quixote
Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança são mais do que conhecidíssimos personagens: formam um topos literário, uma dupla arquetípica que se revelou inescapável a tudo que viria depois em matéria de criação literária. O contraste estabelecido entre Quixote e Sancho está presente em toda a humanidade: ou se é Quixote ou se é Sancho; ou se vive o Ideal e se busca o mais elevado (um tipo raro, Quixote) ou se vive a realidade mais comezinha e medíocre, tentando tirar daqui e dali alguma vantagem mínima (um tipo comum, Sancho).
Tal dicotomia cruza os séculos e nos atinge, bem aqui. Há quem viva de modo quixotesco e busque o Ideal; há quem alimente aspirações quem sabe quiméricas e por elas trave batalhas com dragões imaginários. Por outro lado, abundam os sanchos – encarnados em pessoas ou grupos – para demover os outros dos ideais e tentar desiludir, derrubar das nuvens, e alertar o esperançoso para a inutilidade do sonho e da luta pelo sonho. Curiosamente, porém, nada de grandioso nasce sem o sonho e a concomitante luta pelo sonho; nada de elevado pode aparecer, beneficiando a nós e a outros do que vislumbrar o invisível e por ele apear o cavalo e sair a conquistar, ainda que errante, pelo mundo afora.
Evidente que, como o tragicômico Quixote, o visionário não será perdoado por sua ousadia. Será apenas perdoado se, como Sancho, contentar-se com o benefício imediato e logo à mão, sob a desculpa de se estar com os pés bem fixados na realidade e no mundo prático. Entretanto, a realidade de um Sancho não passa de horizonte diminuto, no qual não há qualquer possibilidade para além do que o nariz alcança. Os sanchos não sonham, no máximo ambicionam; sanchos vivem em busca das vantagens que um abastado possa dar, ou esperam um golpe da sorte. Foi isso que motivou o escudeiro a acompanhar o louco porém rico Quixote: a promessa de uma ilhota, só sua, para governar e dominar. A promessa fez brilhar os olhos do gordote Sancho; como todo medíocre, o escudeiro almejava riqueza e poder sem nem pensar em melhoria pessoal; mandar nos outros seria sua glória, e seu triunfo seria submeter independentemente de merecer.
Para o Quixote, entretanto, a glória não estava na posse de uma ilha ou em quaisquer outras posses, das quais aliás já dispunha, pois era rico e fidalgo: o cavaleiro queria superar as mazelas do mundo para ao final encontrar o grande amor de sua vida, Dulcineia de Toboso, a qual ele não conhecia mas em seu coração sonhava encontrá-la. Quixote idealizava a mulher perfeita para si, aquela que preencheria seu coração e o resto de seus dias do mais puro contentamento.
O presente século
Os dois tipos cervantinos falam a nós, nesse esvaziado século 21? Sem dúvida. Até hoje, nossa sociedade é toda feita de sanchos; o mundo e a vida são nosso vale de percalços e dificuldades que atravessamos em nosso cavalo da vida, como o Dom Quixote de Cervantes. E, como o cavaleiro, deparamo-nos com algumas surpreendentes bondades entre muitas maldades. A generosidade inesperada nos ajuda no caminho. Trata-se de um presente da Providência, de novo: não fosse assim, a jornada rumo ao ideal seria impossível.
Como o Quixote, prosseguimos movidos por nossas aspirações, por uma estranha e viva certeza, enquanto, no caminho, a vida nos revela indiferenças e contrariedades. Se prosseguimos, enfrentamos uma sucessão de desencontros e de reveses, e nosso querer é sempre testado. O tempo todo a vida parece nos perguntar: “Quem sois? Quixote ou Sancho? Galardão ou vantagem imediata?”
Então, quem nasceu para Quixote irá avante; alquebrado ou desanimado, continuará, seguirá sempre, baseado numa visão; refará as forças numa ou noutra estalagem e, mesmo com tudo ao redor a indicar que de nada adianta, ainda assim caminhará. Quixote vê o que ninguém vê, e em seu coração pressente o algo mais: um dia, a estrada chegará ao fim, e lá estará a boa Dulcineia a esperar; então, é preciso até ela, ela é o alvo, o objetivo, a meta; chegar a seus braços justifica e motiva a trajetória e os percalços da trajetória.
A pensar bem, o alvo final nem é o mais importante. Para os quixotes da vida, o mais importante é seguir disposto a cada dia, manter a chama acesa, e com bom ânimo ir adiante, prosseguir apenas por prosseguir. Talvez haja uma Dulcineia, talvez não; ao Quixote, caminhar já é vencer, porque caminhando sempre se chega a algum lugar diferente de antes. De resto, para algo mudar, é sempre preciso deixar o mesmo lugar, o mesmo pensamento ou a mesma atitude.
Cabeça de smartphone
A minha geração e a anterior (não há anteriores a nós; a anterior da anterior já morreu); bem, a minha geração e a anterior têm smartphones, apetrechos a que chamamos celular. As gerações posteriores à minha não têm smartphones, mas os smartphones as têm, pois elas vivem e respiram por smartphones. Trata-se de uma relação inversa.
Essas duas gerações posteriores à minha se orgulham muito da maravilhosa proeza de ter e saber que tem mil apps utilíssimos que resolvem digitalmente qualquer coisa ao simples arrastar dos dedinhos, tarefas que a minha geração e a anterior ainda se dignam a usar os membros do corpo, os cinco sentidos, e a contar com os estados físicos da matéria.
Mas eu dizia, as gerações posteriores não apenas têm mas vivem nos smartphones. E o pessoal sequer pensa nisso, como o peixe não pensa na água, apenas vive nela. Só pensa na água quem está fora dela e a vê desde fora.
Essas gerações que vivem nos smartphones têm uma característica peculiar: o que não está lá não é digno de atenção; não existe nem precisa existir, nem sequer se deve pensar nisso, porque, meu Deus, haveria alguma necessidade externa a smartphones? Óbvio que não, senão estaria bem aqui, na luzinha do aparelhinho.
Acho diabolicamente genial o sujeito que inventou tal prisão mental ao ser humano, prisão de vidro e luz led multicor, prisão em que o prisioneiro nem percebe que está aprisionado. É a prisão perfeita: o sujeito está preso e feliz, pertencido, atual e normal. Errados são os outros, esquisitos são os outros, os livres que não passam de uns chatos (ou vice-versa).
Tento pensar numa vingança contra aqueles mandarins ou num jeito de despertar do sono letárgico a geração smartphônica. Mas, bobagem: enquanto matuto, meus cabelos enbranquecem, e a cada momento pareço mais rabugento e mais dispensável em meus conselhos e vaticínios de gente ultrapassada.
De resto, já vai para um século que os engenheiros sociais jamais perdem; e, por saber disso, eu devia me conformar e não sei porque não me conformo de uma vez por todas.
Autor amigo
Ninguém precisa ter um amigo autor, mas todo mundo devia ter um autor amigo. Todo leitor deve buscar um autor amigo: se não o tem, cumpre ir lendo e ir procurando, até achar algum.
De verdade, imagino que devia ser este o ideal de quem lê com frequência: encontrar aquele autor ou autora que, para além de qualidades previsíveis como dizer “nossa, como ele/ela escreve bem!”, o leitor se depare com algo mais pessoal, íntimo, relevante, profundo, significativo. Daí o amigo: não importa se o autor tivesse vivido antes de Cristo ou até a década passada. Pessoas passam; almas são eternas.
Então este autor-amigo então será aquele de quem o leitor lerá tudo que ele escreveu e lhe chegar às mãos, pois daquele encontro brotou uma amizade sincera, uma identificação pessoal, uma simpatia profunda e um diálogo constante no nível da alma. Tudo alimentado pela leitura. Então, leitor, leitora: vale a pena buscar até achar um autor assim.
Quem disse
“E agora, para seu bem, farei a seguinte sugestão: jogue no ralo sua atitude superior, sua sagacidade e seu sarcasmo, e nas suas relações com os outros tente trazer à tona toda a bondade do coração, a dedicação, a devoção que há em você, e verá que retribuirão da mesma forma. Não importune as pessoas de seu convívio com observações geniais e mordazes, mas lhes dê prova de seu verdadeiro espírito, que é naturalmente gentil e afável, e você descobrirá o verdadeiro espírito dos outros, talvez tímido e desajeitado, mas, com certeza, afável, amoroso e de boa vontade.”
— Jacob Burckhardt
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“Um grande pensamento pode nascer acerca de todo e qualquer fato. Em toda contemplação, nem que seja a de uma mosca ou de uma nuvem passando, há oportunidade para reflexões sem fim. Toda réstia de luz pode levar ao sol, toda passagem aberta é um corredor para Deus.”
— A.D. Sertillanges
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“Os intelectuais não têm a obrigação de transformar o mundo; o seu dever é transfigurá-lo pela criação, a criação artística.”
— Otto Maria Carpeaux
Direto do almoxarifado
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