#50. História ou prosa?
Uma breve comparação entre a literatura brasileira e americana do último século
NOTEI QUE VENHO LENDO muita literatura americana nos últimos meses, especialmente a do século XX. Nada proposital. É que, ao olhar a sequência de livros lidos, me dei conta de que a maioria se tratava de obras escritas nos Estados Unidos da América. E, por observar certo padrão no conjunto dessas obras, refleti no que vem a seguir.
Fazendo um apanhado geral, noto certo padrão. Não sei se voluntária ou involuntariamente, os escritores americanos do século passado resolveram dar mais ênfase à narrativa e não à linguagem em si. Quer dizer, nas últimas décadas a literatura americana priorizou mais a história e deixou os efeitos lingüísticos em segundo plano.
Tal padrão contraria até escritores mais clássicos daquelas paragens, como Edgar Allan Poe, Mark Twain, Herman Melville, Henry James, entre outros. Contudo, se partirmos das obras de escritores como F. Scott Fitzgerald, William Faulkner e Ernest Hemingway, (os grandes do século XX), e depois toda a cena, veremos que naquelas obras a linguagem serve inteiramente à narrativa, e não a narrativa à linguagem. Interessante. Dá o que pensar.
No Brasil, na literatura do mesmo período, constato que nossos escritores mais medalhões priorizaram muito mais a prosa, o encadeamento das palavras, as possibilidades da linguagem. Do virtuosismo lírico ao experimentalismo semântico, consideradas todas as coisas, nossos autores parecem não dar tanta bola à narrativa, aos grandes personagens, às histórias emblemáticas. A queixa não é nova: é conhecida a crítica quanto à produção literária brasileira há muito dever o grande romance, a obra fundamental. Talvez seja exagero; não desprovido de sentido, porém.
Pode-se dizer que, tomada em conjunto, a literatura brasileira não retrata exatamente a pessoa do brasileiro, a figura acabada, digo. Exceto algumas representações isoladas, fragmentadas e muito parciais, especialmente nas obras regionalistas. Contudo, o estrangeiro que queira nos conhecer como povo dificilmente terá um panorama bem definido a partir de nossa literatura. Note que enfatizo a produção literária do século passado para cá.
Então pode-se afirmar, não sem risco de simplificação, que em certo ponto a literatura brasileira e a americana tomaram rumos completamente diferentes. Lembrou-me a bifurcação na famosa poesia de Robert Frost, “The road not taken”, abaixo na tradução do poeta português Antônio Simões:
*
O caminho que não tomei
Dois caminhos, um para cada lado:
Ah, ir por ambos na mesma viagem!
Olhei para o primeiro, ali parado,
Nesse bosque de tom amarelado,
Até perder-se longe entre a folhagem.
Mas o outro também me atraía,
Por uma razão diferente, afinal:
Desbastar erva que densa crescia.
Quem por eles passara, todavia,
Os fora desgastando por igual.
E cada um nessa manhã jazia
Com a mesma cor, a mesma frescura
Reservei o primeiro pra outro dia!
Como um caminho a outro levaria,
Duvidei lá voltar noutra altura.
Daqui a mil anos, o que aconteceu,
Suspirando, estarei contando a ti:
Dois caminhos bifurcavam, e eu-
O menos pisado tomei como meu,
E a diferença está toda aí.
*
Alguns segundos para a beleza desse poema.
Diante dessa bifurcação literária, Brasil e Estados Unidos optaram por rumos diferentes, nota-se. Não por intenção, decerto; mas aconteceu. Lá, priorizou-se o contar histórias ; aqui, reinou a prosa em si, e só depois, às vezes muito depois, o teor da história. Disso não decorre que os americanos não tenham qualidade na escrita; também não significa que os brasileiros não saibam contar boas histórias. O ponto é o que ressalta disso tudo, o que mais se sobressai em ambas as produções. No todo, notamos os diferentes modos de se fazer literatura no último século, aqui e acolá.
Mas este é um artigo de opinião. Longe de pontificar ou ditar regras — quem seria eu para fazê-lo? — quero defender aqui menos linguagem e mais história. Entendo e aceito quem pense o oposto.
Claro, a cultura. Nossa ênfase na linguagem remonta ao barroco, ao parnaso; bem antes disso, nossa herança latina e ibérica extrai música das palavras, brinca com a sonoridade de nossas sílabas abertas e musicais. Sem contar que, ao longo do século XIX, sofremos muita influência da literatura francesa, marcada pelo lirismo e adorno verbal. Resulta daí nossa predisposição a soar grandiloquentes, e preferir encantar com arranjos textuais a contar situações e elencar personagens. Nossa prosa parece tomar de empréstimo uma característica própria da poesia, ao evocar elementos sensoriais, imagéticos e simbólicos a cada linha.
Na ficção, contudo, a intenção é (ou devia ser) contar um acontecimento, real ou imaginário, e retratar uma realidade possível, de modo a fazer o leitor vislumbrar possibilidades humanas, para o bem e para o mal. Por meio de narrativas, a ficção amplia o conhecimento de um povo, e daí, quem sabe, do mundo. Embora tenhamos obras e autores importantes nesse sentido, nossa produção literária não abrange todo o arcabouço de histórias que, aliás, ainda estão por contar.
Mas há outro problema. A linguagem de virtuose acaba por se mostrar enfadonha no instante mesmo em que reclama o respeito. O resultado é que nossa literatura é de fato muito respeitada, mas raramente gostada: apenas calamos diante de tanta grandiosidade verbal, enquanto rarissimamente relemos nossos autores depois de os conhecermos pela primeira vez, no mais das vezes por imposição escolar. Nossa literatura, sisuda e de sobrancelhas cerradas, parece a todo momento erigir monumentos. O efeito colateral no leitor comum (quem interessa, afinal de contas) é o afastamento, por um lado, ou o farisaísmo, por outro. Vale explicar.
Se o leitor comum lê nossa produção literária mais clássica, primeiro por imposição e depois por gosto (a ordem que normalmente acontece), ele tenderá a cultivar certa disposição farisaica, será uma espécie de observador da lei ou zelote literário, enquanto rechaça ou menospreza a narrativa mais modesta que, no entanto, traz uma história interessante, relegando bons ou ótimos autores ao segundo ou ao terceiro time. Por outro lado, se o leitor comum não vai além da lista escolar e não caminha com as próprias pernas, para ele a nossa literatura — com peso verbal paquidérmico e sem enredo de mesmo porte —, tenderá a virar fardo, chatice obrigatória; a tendência desse leitor escolar será abandonar os livros brasileiros tão logo não se exija mais sua leitura. O que ocorre com muitíssima frequência.
Hoje em dia
Atualmente, é possível que boa parte desse público leitor que deixa de lado a literatura brasileira leia o Harry Potter, todos os volumes da série; talvez encare um thriller de mil páginas de um Stephen King ou leia sem percalços a trilogia de uma Suzanne Collins; enfim, esse leitor brasileiro lerá o livro que lhe parecer mais leve, envolvente e interessante, e que, veja só, se parece com os filmes de que ele também gosta. Diz algo?
Sim, diz. Significa que o leitor brasileiro quer histórias via texto, e não apenas o texto; não raro, esse mesmo leitor lerá outros autores como os clássicos russos, ingleses, franceses, alemães, etc.; lerá até o escritor húngaro ou o japonês, mas passará ao largo do brasileiro e de sua linguagem complicada e rebuscada, calculada para iniciados e cultivados.
Entretanto, faço a crítica com tato e cuidado. Passo às ressalvas. Não faço tábula rasa de nossos vultos e monumentos das letras. Machado de Assis é rei, Guimarães Rosa é príncipe, etc. etc. Graciliano não é difícil de ler, convenhamos, mas é sisudo, grave; mesmo caso de Josué Montello ou Autran Dourado, por exemplo. Então, respeitemos os mestres e, como diz Flaubert, não lhes raspemos a douradura.
De resto, sei o déficit abismal de leitura de que sofre a sociedade brasileira, e não defendo, jamais defenderia, um nivelamento por baixo do quesito produção literária. Ao contrário. Não ajuda nada facilidades rasteiras, nem programas governamentais do tipo ‘literatura para todos’, no qual a ênfase seja afagar o analfabetismo funcional crônico de nosso povo com improvisos sem fazer o certo que é consertá-lo. Mil vezes não.
O ponto, creio, é do enfoque na hora de criar: caprichar na história ou na verbosidade? Eis a questão. Bem, já temos grandes escritos em nossa tradição; faltam-nos as grandes histórias. Faltam personagens cativantes e tipos emblemáticos, inesquecíveis. Para isso, dói nada descer dois degrauzinhos na linguagem e subir outros dois na narrativa, caprichar mais na trama bem construída e interessante, acessível a qualquer faixa de público medianamente escolarizado.
Histórias bem contadas, aliás, puxam consigo a linguagem que as recobre, por si mesmas, a partir da complexidade da trama. É isso, sem segredos. Então descobrimos que uma coisa não exclui a outra, se é o que dá a entender, mas apenas faz reposicionar os elementos num certo equilíbrio, numa proporção razoável.
No fim das contas, narrativa e linguagem auxiliam-se, complementam-se. O mal, então, está na alta dosagem de uma e baixa dosagem de outra. O ideal é a harmonia: ao invés de alternar crateras e montanhas, aplainar o terreno para que o leitor possa caminhar tranquilamente, sem fadiga nem desânimo. O leitor conta, oras.
Neste sentido, creio que poderíamos aprender um pouco com a literatura americana já citada. Mesmo hoje. Não se trata de cópia ou viralatismo, mas de olhar certa referência, custa nada. A literatura autoral requer autenticidade antes de tudo, e os livros devem existir porque as histórias assim reclamam, e não porque os textos precisam ser escritos. Tudo isso não precisa excluir a qualidade da escrita de modo algum, ao contrário; a boa história, contudo, faz o texto “desaparecer” para a narrativa emergir e tomar a dianteira do processo.
Pessoalmente, prefiro uma clareza elegante a um texto empolado. Na literatura de ficção, a eficácia se mede pelo que ela deixa plantado no imaginário do leitor e não por sensações imediatas. Se a literatura vier embalada numa linguagem bela e de bom gosto, tanto melhor; mas que, acima dela, a história sempre prevaleça.
Dopamina
Está na moda falar em dopamina, substância química que nosso corpo produz. E anda na moda falar no vício da dopamina que as telas causam, com razão (desculpe por isso, leitora e leitor; eu quereria muito que me lêsseis em papel).
Dizem os doutores que a dopamina é liberada quando temos uma sensação de recompensa, um estímulo de prazer no cérebro. Pense no gol do seu time: é gritar gol e a dopamina dispara, dando uma satisfação gostosinha, um alívio do bom.
O problema é que as telas nos dão muita dopamina à toa, banal, sem motivo; e nosso cérebro, uma vez viciado, só quer saber dela. Foi por essa dopamina-à-toa que a senhorita comprou a bugiganga que não precisava naquele site chinês, e que, na hora da propaganda, pareceu que precisava. A dopamina faz a gente de bobo mesmo. E em demasia, emburrece.
Serei eu viciado em dopamina? Vamos ver. Admito, tenho alguma mania de telas, sim, mas em minha defesa afirmo que sou velho o suficiente para achar smartphones um tanto idiotas, apesar do smart.
Não só por rabugice. Tenho só 46, não estou em tal fase. Acho além disso as telas tediosas em certo sentido, porque, com o perdão da carteirada irrelevante, sei programá-las um tiquinho. Sim, posso desenhar esta tela e estes sinais gráficos que tendes em mãos.
Então, resta em mim a sensação do funcionário da fábrica de salsichas, entende? Sei do que elas são feitas e como são feitas. No caso das telas, de pura ilusão: as luzinhas e sinaizinhos que pipocam em vossas faces são o que se chama, em programação, WYSIWYG. Não, não é uma cidade de um romance de Faulkner. A sigla horrível significa “what you see is what you get”, algo como “o que você vê [no código de programação] é o que você tem [na tela]”.
Quer dizer, na programação das telas, é possível ver no ato da compilação a “imagenzinha” que os códigos montaram por meio de um programa intérprete desses códigos, isso que vemos aqui. Em português, também há o termo “programação orientada ao objeto”, diferente por exemplo de uma calculadora, já que ela não te “dá” imagens, mas exibe os sinais dos resultados calculados. Mas esse é um assunto chato.
Sou da geração 90 no mercado de trabalho. Desde então trabalho muito com o que, à época, representava o futuro: a computação pessoal. Dizer “trabalho com computador” era muito chique naqueles dias. As pessoas te olhavam meio diferente, supunham que você ganhasse uma grana. O sonho de qualquer garoto urbano com água encanada em casa era ser um “analista de sistemas”. A designação “TI” veio depois.
Mas sinceramente, não entendo tanto fascínio com telinhas. Tela por tela, prefiro a do velho monitor do meu computador grandalhão. E ademais, para um hard user de mouse e teclado como eu, usar os dedos e engordurar a tela do telefone é um negócio nada nobre e aliás nojento. Tela é para olhar, não tatear. E tatear pouco, por favor, que muita dopamina faz mal. É sério.
Filigranas
O Kindle com aquela letra horrorosa que mais parece a fuça do sr. Bezos, aqueles buracões sem hífen ao longo das linhas. Todo livro em Kindle parece um pdf pirata. Mas o pessoal que compra adota a divisa mental “preciso dizer que gosto porque paguei caro”, tal e coisa. Compreendo.
A imprensa já está censurada no Brasil, mas ela só vai descobrir isso quando falar contra. Então vai demorar. A favor não tem censura.
Santo de esquerda é o sujeito que na juventude desceu chumbo grosso em velhinho e, quando ele vira velhinho, deseja paz, harmonia e amor a todos os povos. E não tem um passado.
É próprio do jovem ser petulante. Em maior ou menor grau, a empáfia é um defeito próprio da fase, a coisa do se afirmar, tal. Mas a juventude da minha geração, também petulante, realizava algo de concreto, ainda que pouco. Já a atual juventude se orgulha do que não consegue fazer.
Há grandes editoras brasileiras que, tenho certeza, boicotam a boa literatura nacional para não melindrar a má literatura nacional.
No edifício da engenharia social, no último andar, após o hall da recepção, passando pelo enorme corredor e finalmente na sala de reunião, vê-se inscrito na parede, enorme: “comece com as mulheres, termine com os homens”.
Quem disse
“A quem quer que tenha a ambição de se fazer ouvir numa concentração de pessoas é mister empurrar, apertar, abrir caminho e subir, com incansáveis padecimentos, até se por acima delas com certo grau de altitude. Ora, em todas as assembléias, por mais que os presentes se acotovelem, podemos observar este curioso fenômeno; qual seja, que sobre suas cabeças há lugar de sobra; como chegar lá é que é o grande problema, sendo tão árduo se livrar da multidão como do inferno.”
— Jonathan Swift
*
“É muito difícil a cada homem chegar a uma situação satisfatória com os erros de sua época. Se os combatemos, ficamos sozinhos. Se nos calamos, não colheremos nem honra nem alegria.”
— Goethe
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“Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive.”
— H. L. Mencken
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