#52. A literatura gentil
Todo leitor aprecia boas histórias. Se vierem embaladas numa prosa agradável, melhor ainda
NA HORA DE ESCREVER, autores há que enxergam neste ato a pura expressão de si enquanto artista, algo separado e independente do leitor; e há autores que, em suas criações, levam também em conta a boa aceitação do público que os irá ler.
Levadas ao extremo, ambas as atitudes geram distorções. De um lado, temos o artista encerrado em si mesmo e que presta satisfações apenas à própria criatividade; senhor absoluto de sua obra, sua disposição resulta numa espécie de narcisismo artístico, uma fatuidade que se distancia de seus semelhantes por motivos que só ele sabe. Tais escritores acreditam que toda arte digna do nome refere-se apenas a si mesma, e deve impor-se ao público com desdenhosa superioridade. No caso da literatura, o leitor de tais obras deve submeter-se e esforçar-se para subir ao pretenso patamar elevado daquelas obras. Tal pensamento ganhou força especialmente no modernismo, em fins do século XIX e início do XX, movimento artístico que sucedeu – e aliás rompeu – com o romantismo antecedente.
Num outro extremo, há o artista comercial, fenômeno mais recente. Ele está preocupado acima de tudo com a freguesia: em suas obras, recusa mergulhos mais profundos na tradição da arte e teme desafiar o público consumidor, sob pena de ser rejeitado por ser difícil de digerir. Escritores assim são de um tipo fordista, de produção em massa; ele apela a recursos superficiais para causar impressões imediatas e emoções baratas, desprovidas de maior reflexão. Por princípio, duvidam da capacidade de seu público e evitam forçar as inteligências. Aqui estão os escritores best-sellers na maioria; fabricantes de um produto chamado livro e que buscam a quantidade, e não a qualidade, de seus leitores. Não se deve negar, todavia, que tal postura é também subproduto da modernidade, a face afirmativa da moeda: aqui, ao invés de contrariar, afirma-se o espírito burguês e capitalista, ao fabricar apenas um produto de consumo em larga escala.
O erro da primeira abordagem está em tratar a escrita como coisa isolada, com um fim em si mesma. Literatura é arte, de fato, mas também comunicação; e esta se efetiva quando une o ponto de partida (a escrita) ao ponto de chegada (a leitura). Imagine, por exemplo, uma literatura elevadíssima que ninguém jamais tenha lido e sequer sabido da existência exceto quem a escreveu. Ela existe apenas como hipótese, mas simplesmente não fará efeito enquanto não for lida por, ao menos, uma pessoa diferente do escritor.
Quanto à segunda atitude, a da escrita fácil para fins de consumo e passatempo, esta trai a arte literária e a nega, pois não enriquece nem nutre o imaginário mais profundo do leitor. Uma leitura que tão somente distraia, que não tenha alguma robustez de linguagem, nenhum exemplo para a vida, e que não ofereça nenhum aprendizado indireto, calcada na verossimilhança? Não passa de perda de tempo e só atrapalha o meio de campo.
Nossa literatura
Semanas atrás eu estava num sebo a percorrer a estante “literatura brasileira”. Ali, entre títulos de autores conhecidos e até obrigatórios, haviam muitos nomes de que pouco ou nada eu ouvira falar. Devo dizer, estes despertam mais minha curiosidade. Então folheio, procuro conhecer aquelas obras; abro aqueles livros bem no primeiro capítulo para sentir a atmosfera da narrativa e ouvir a voz do autor. Parênteses: acho o início dos romances um momento-chave, a recepção, a porta de entrada, um convite à continuidade da leitura, ou não. No início se vê a maneira do autor recepcionar o leitor e o convidar a conhecer as dependências de seu livro, como um anfitrião que apresenta a casa às visitas.
Contudo, mas não é bem o que noto naquelas obras brasileiras em geral. Ao menos para meu gosto, poucas são realmente convidativas, isto é, bem escritas e instigantes de tal modo que sua leitura se faça irresistível. Sabe-se lá as razões que motivaram tais autores a escrever, mas, sejam quais forem, parece que o provável leitor não estava muito entre as prioridades. Dizendo sem rodeios: a maioria das ficções brasileiras mostram-se chatas pra burro; elas apartam o leitor logo nos primeiros parágrafos, e este precisa fazer um segundo esforço para continuar ali, movido por algo maior, alguma necessidade paralela à leitura em si. Note a sutileza quando digo a maioria: significa que há uma honrosa minoria amiga do leitor na literatura brasileira. Mas, de novo: uma minoria.
Os mestres
Graças a Deus, o desdém pelo leitor não é unânime, longe disso: nem todo autor diz “tanto faz” na hora de escrever, e isso não pelo segundo extremo apontado acima (o do escritor comercial), mas por uma espécie de zelo, até de caridade, que leva os autores a prestarem um bom serviço ao imaginário alheio.
Sim, há grandes escritores que, a despeito dos artistas que são, também pensam em quem os irá ler e levam em conta a receptividade do senhor-leitor. Quem já leu Henry James, Tolstói, Dickens, Thomas Mann e grande elenco há de convir: é ler e notar o tom cortês de suas prosas, algo como um convite a uma conversa agradável; conversa nem um pouco frívola ou superficial, pelo contrário. Há prosas que exalam amabilidade mesmo na tragédia.
E isso não se dá sem intenção nem por acaso. Somerset Maugham, por exemplo, assinala em seu “Confissões”:
“Nunca tive paciência com os escritores que reclamam do leitor um esforço para compreender o que eles querem dizer. É só folhear os grandes filósofos para ver que é possível exprimir com clareza as mais sutis reflexões. (...) Duas espécies de obscuridade podemos achar nos escritores. Uma por negligência, outra por puro capricho. Muitas vezes escrevem obscuramente porque nunca se deram ao trabalho de aprender a escrever com clareza.”¹
Qual é o ponto?
Não há uma doutrina fixa na hora de criar literatura: o que existe são caminhos e escolhas, ditadas em geral pela personalidade do artista e nada mais. Ainda bem. Contudo, ponho meu banquinho e observo de longe os gigantes. Digo o que digo apenas por ser leitor e amante dos livros. Convivo com a literatura e dou-me o direito de pensar a respeito dela, e, a despeito dos critérios de composição, preferir mais a um e menos a outro. O que não invalida nenhum deles; aliás, sequer suponho ter tal capacidade.
É que gosto de pensar que ler livros não deve ser disciplina severa nem ajoelhar no milho. Ler é um ato de prazer. Lembro que a escola quase me convenceu do contrário: ler rimava com sofrer, leitura rimava com tortura. Mas tive a sorte de descobrir que a leitura não implicava em sofrimento: se alguma dificuldade houvesse, que fosse como uma saudável ginástica, algo que fortalecesse. E isso sem recorrer a literaturas boazinhas, mas a boas literaturas. Tem muita diferença.
A boa notícia é que, entre as duas disposições citadas acima, existe um confortável intervalo onde o escritor pode combinar, em diferentes níveis, a autenticidade artística com o paladar do leitor, por assim dizer. É possível amar a escrita e amar quem irá ler a escrita. Trata-se de um ato caridoso facilitar o entendimento e acrescentar alguma eufonia ao texto, isto é, dar às frases um encadeamento prazeroso e agradável. Ainda mais hoje em dia, com a atenção de todos sendo disputada por tantos meios diferentes. É preciso fisgar a atenção do leitor da melhor maneira, e depois, todo o resto: enredo, clímax, camadas de significado...
Então, entre o escritor arrogante e o superficial, creio ser possível transitar numa via intermediária, com boa consciência e sem rebaixar a arte. Talvez vá alguma ingenuidade nisso, quem sabe certo romantismo, mas penso de verdade que o escritor brasileiro, com toda a liberdade artística a que tem direito, poderia pensar mais no leitor e orientar o trabalho pelo gosto da leitura.
Este artigo apela a isso, especialmente à literatura brasileira ainda por nascer: que ofereça, além de boas histórias (fundamental), uma prosa agradável e convidativa na forma; que traga textos mais gentis, por assim dizer. Gentileza que sempre ajudou e nunca fez mal a ninguém.
¹MAUGHAM, W. Somerset. Confissões. Trad. Mario Quintana. 1. ed. São Paulo: Editora Globo, 2006
Leitor infiel
Das poucas coisas úteis que levei comigo da faculdade-de-marketing foi o aprendizado de que não há o cliente fiel. Fiel seria o cliente que compra numa só loja, quer só um produto, consome só uma marca, em suma, que está com alguém e não abre.
Disseram os professores que não há mais isso hoje em dia, o cliente fiel. Já houve em tempos idos, quando, de cada produto ou serviço, não havia mais que duas ou três marcas e cada um queria se identificar com alguma, uma espécie de distinção.
Por outro lado, existe o cliente leal, versão moderna que não chega a ser fiel: a lealdade desobriga o cliente da exclusividade, mas o leva a retornar de tempos em tempos, às vezes repetidamente. Mas não vá o dono do armazém pensar que a freguesia é sua propriedade, pois não é: o freguês sabe porque vai ali e poderá ir a outro local; poderá vagar em busca de novas experiências para depois voltar, contente e fagueiro, à vendinha de sempre.
Assim é o freguês e assim o leitor: ele vem, lê e fica; depois cansa, some por uns tempos, e volta. Se voltar, significa que ele foi conferir as demais freguesias e viu que ninguém tinha o que o primeiro escritor tem.
Quer saber? Um baita elogio esse leitor que volta. Ele experimentou o ruim e reconheceu o que é bom.
Preconceito
Preconceito eu tenho, tu tens, nós temos, eles têm. Quem não os tem, que atire a primeira pedra. E os maiores preconceituosos, não tenham dúvida, são os caçadores de preconceito alheio — ok, provavelmente estes não tenham preconceitos oficiais, carimbados em cartório. Mas têm outros, seguramente.
O preconceito faz parte de nossa nada limpinha natureza humana, como o cerume e a remela; são sujeiras, sim, mas também sinal de normalidade; e exercem uma função, não existem à toa. Se são indesejáveis, são apenas por uma questão de higiene e etiqueta social.
Preconceito vem de uma autopreservação a priori — uma prevenção quem sabe excessiva, talvez irracional. Seria uma prudência mal elaborada, diria. No entanto, ela pode ser útil, claro que pode: evita certas coisas, certos perigos, um local de má fama. Qual o problema? O direito à autopreservação vem em primeiro lugar. Cumpre, talvez, fazer as devidas distinções conforme as circunstâncias. Mas essa já é uma segunda operação.
O preconceito na vida é como a pimenta na comida: não alimenta, mas pode dar um gostinho. O segredo é não abusar.
Quem disse
“Na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. A obra não passa de uma espécie de instrumento óptico oferecido ao leitor a fim de lhe ser possível discernir o que, sem ela, não teria certamente visto em si mesmo.”
— Marcel Proust
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“As boas intenções foram a ruína do mundo. Os únicos que fizeram alguma coisa no mundo foram aqueles que não tinham intenção alguma.”
— Oscar Wilde
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“Quando a arte procura ser obscura para ser sempre obscura perde a sua verdadeira força de expressão.”
— José Lins do Rego
Direto do almoxarifado
A vingança dos barbudos gourmet
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