#53. Prosaica entrevista o escritor e editor Diogo Fontana
À frente da Editora Danúbio, o curitibano assume uma tarefa ousada: publicar a nova literatura brasileira sonegada pelas grandes editoras
Tudo começou como uma livraria e café, no centro de Curitiba. O que era para ser apenas um pequeno negócio acabou se tornando uma porta de entrada para escritores estreantes e que levam a literatura a sério. Um dia, o proprietário Diogo Fontana recebe um original do amigo Luiz Cezar de Araújo, o romance “A vida é traição”. Gostou e decidiu publicar, com a cara e a coragem. Nascia ali a Editora Danúbio, em 2013.
De lá para cá, a editora não parou mais. Ao longo dos anos, a Danúbio incluiu em seu catálogo gêneros variados como ensaio, filosofia, história e crítica literária, reunindo autores peso-pesados como Otto Maria Carpeaux, Miguel de Unamuno e Hilaire Belloc. Hoje, a Danúbio se consolida como a editora que mais publica a nova literatura brasileira, mas de um tipo que vai na contramão das grandes casas, cujo critério de publicação tem sido apenas a representatividade identitária de gênero ou cor da pele.
E o trabalho tem dado frutos. Em 2024, a Danúbio esteve entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti, com o romance “O Deus oculto no canto do córner”, de Milton Gustavo, e no início deste ano, promoveu seu primeiro prêmio literário voltado para autores inéditos.
Mas além da função de editor, Diogo Fontana é também escritor. Por sua editora, publicou os romances “A exemplar família de Itamar Halbmann” (2018) e “Se houvesse um homem justo na cidade” (2022). E vem mais por aí. A julgar pela resposta do público, o trabalho do escritor-editor curitibano está apenas no começo.
Nesta entrevista, o escritor faz um balanço da literatura nacional publicada pelas grandes editoras, explica como concilia a missão de editor com a vocação de escritor, e orienta aos jovens autores. E afirma: a nova cena literária nacional já é uma realidade.
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Numa espécie de visão panorâmica, como você avalia a atual literatura brasileira, especialmente a publicada pelas grandes editoras?
É tudo absolutamente desprezível. E olha que eu já tentei, tomado de toda a benevolência do mundo, ler os livros dos tipinhos premiados da nossa literatura. Nada se salva. É preciso virar as costas para essa gente e fazer um trabalho sério em paralelo.
Você acha que a universidade e os acadêmicos têm mais ajudado ou atrapalhado a literatura nacional?
A universidade usurpou primeiro a crítica literária e depois a escrita criativa. Dê uma olhada no currículo e na procedência das pessoas que escrevem, julgam, editam e criticam a literatura atual. São todos professores universitários. Foi a universidade que esterilizou a nossa literatura. O cenário de devastação em que estamos é obra dela. É obra dessa universidade há cinquenta anos tiranizada pela esquerda. Os universitários destruíram a educação básica, o jornalismo cultural, os prêmios literários. Reduziram tudo ao seu próprio tamanho minúsculo. Agora ficam trocando afagos entre si, carnavalescamente, sobre os escombros do que um dia foi a cultura nacional.
A Editora Danúbio tem ido na contramão dessa literatura brasileira mainstream, feita de cotas e ativismos. Como os leitores têm respondido aos livros publicados pela editora? Há demanda por boas histórias brasileiras?
A resposta vem sendo excelente, dentro do pequeno alcance que tem a editora. Alguns livros vendem, inclusive, números expressivos para o mercado de ficção brasileiro. Os meus dois romances juntos (e considerando os dois formatos), por exemplo, já ultrapassaram os 2.000 exemplares vendidos. O pessoal está lendo e eu acho isso maravilhoso. É um nicho pequeno, mas de gente intelectualmente ativa – jornalistas, escritores, artistas, professores, estudantes, influenciadores etc. O impacto cultural acaba sendo relevante. E a realidade é que a Danúbio não tem sede física, não tem escritório, não tem nenhum funcionário. É uma nanoeditora que emprega somente freelancers de ocasião. A rigor, a editora c’est moi. É o que dá para fazer. E mesmo assim, sem nenhuma modéstia fingida, já tem um catálogo melhor do que o de todas as grandes editoras brasileiras.
Já é possível apontar uma nova cena literária em germe, quero dizer, uma contracorrente que dialoga com a tradição literária brasileira e universal?
Essa nova cena literária já é uma realidade, a meu ver. Pequena, mas real. O Luiz Cezar de Araújo e o Fábio Gonçalves já publicaram o terceiro livro. O Alexandre Soares Silva tem uma obra que não é pequena e vem do começo do século. Não é mais apenas um germe, talvez seja um brotinho, que precisa ser regado e cuidado com carinho. Há um público fiel e entusiasmado que lê os meus livros e os livros dos autores que publico. A editora adquiriu um status meio cult.
Quanto aos jovens escritores, não seria exagero dizer que muitos conciliam a descoberta da própria vocação com certo desejo de “fazer algo urgente” em resposta a tanta pseudoliteratura. Você acha que ajuda ou atrapalha essa intenção de “dar uma resposta” na hora de escrever?
Depende. A vontade de escrever algo que preste e esfregar na cara dos imbecis do establishment literário não é má em si. Pode ser um motor bastante potente, uma motivação. Mas precisa ser temperada com boas doses de paciência. Ruim é a pressa em publicar quando ainda não se está pronto. Isso é muito comum e bastante nocivo. Quase sempre esse desejo vem de um problema pessoal, o rapaz quer provar pra família ou pra namoradinha que valeu a pena ficar tanto tempo mergulhado nos livros. Mas isso é imaturidade. Cervantes só estreou aos 37 anos. José Geraldo Vieira aos 42. Sobram outros exemplos assim. Não há motivo de pressa.
No seu primeiro romance, “A exemplar família de Itamar Halbmann”, nota-se a influência de Balzac e da Comédia Humana. No segundo livro, “Se houvesse um homem justo na cidade”, percebe-se um tom mais brasileiro e menos universal, por assim dizer. Quais são as referências literárias do escritor Diogo Fontana, seus mestres no Brasil e no mundo?
Curioso, pois vejo exatamente ao contrário. Acho o primeiro livro mais provinciano, por assim dizer, ao passo que no segundo eu trato de assuntos seríssimos, verdadeiramente universais: o sentido metafísico da História; a gangorra que oscila civilização e barbárie; o pasmo, a revolta ou a resignação do indivíduo impotente diante do desconcerto do mundo. Já em relação às minhas influências, acho que posso chamar de mestres literários aqueles a quem mais recorro na hora de escrever. Você já citou o Balzac, de quem sou tributário confesso no primeiro livro, mas posso mencionar outros como José Geraldo Vieira, Josué Montello, Marques Rebelo e Euclides da Cunha, para ficar entre os nossos. De fora… Talvez o Vargas Llosa e o Michel Houellebecq sejam os que mais me influenciaram até agora.
Como você concilia a vocação de escritor e a missão de editor? Os dois papéis se complementam ou se conflitam em algum momento?
Preferiria ser apenas escritor. Virei editor por necessidade. Percebi lá atrás que não adiantaria nada eu escrever um bom livro se não houvesse para quem enviar. Tivesse eu me dedicado somente à escrita, quando terminei meu primeiro livro, em 2017, teria o submetido a quem? À Companhia das Letras? À Record? Ao Carlos Andreazza? Faz-me rir... Esse pessoal sequer teria lido o meu original. Eles só dão atenção aos amigos e aos famosinhos. O livro teria ficado perdido pra sempre numa caixa de e-mail, ignorado, in saecula saeculorum. Precisei fundar uma editora e estou tentando estabelecer um sistema literário inteiro porque o sistema vigente caducou. Não presta para mais nada.
Nessa cena literária de que a Danúbio faz parte com destaque, o que ainda falta além do óbvio que são bons autores e novos leitores? Crítica literária e revistas culturais, por exemplo?
Falta alargar a distribuição dos livros, em especial nas livrarias físicas, que se não vendem mais tanto quanto vendiam, ao menos funcionam como vitrine para os autores, conferem prestígio, expõem os livros para novos leitores, sobretudo os mais jovens. Além disso, falta debate cultural. Isso é o mais importante. Redes sociais não são o meio para que isso aconteça. É tudo picotado, disperso, e sempre contaminado de uma belicosidade juvenil, uma vontade de dar respostas incisivas e matadoras. Não se faz crítica literária desse modo, é preciso escrever ensaios de fôlego, com várias e várias páginas. Somente uma revista impressa cumpre esse papel. Faz parte dos meus planos fundar uma revista. Mas quando fundá-la terei um problema insolúvel: como debater a produção da minha editora numa publicação da minha editora? Não vai dar, seria crítica chapa branca, mero marketing. Vai ser preciso que mais gente funde outras revistas também.
Os conselhos mais comuns aos escritores aspirantes são “leia os clássicos e aprenda com os mestres” e “domine a língua portuguesa”. Mas e quanto ao conhecimento da realidade do país e do mundo, como você mesmo demonstra ter em seus romances, o quanto é necessário ao novo escritor?
Antes de escrever é preciso aprender a olhar. O olhar do escritor é fundamental. Ele precede à escrita. Escrever direitinho quase todo mundo consegue. Um texto é apenas um meio de transmissão. A captação pelos sentidos é o mais importante. E depois a sinceridade, uma sinceridade brutal. Não basta ver a vida como ela é. É preciso expressá-la sem pose, sem frescura, sem eufemismo e sem concessão. Não pode existir escritor fingido.
Que livro você está lendo no momento, Diogo?
A biografia do Aleijadinho escrita pelo Fernando Jorge.
Vem romance novo por aí?
Sim, vai se chamar “Intransigência”. Falta pouco para terminar. É um drama que envolve um crime e se passa no litoral Norte de Santa Catarina, em Balneário Camboriú e Jaraguá do Sul. Também estou rascunhando alguns contos com tom mais político, inspirados nos acontecimentos atuais do país, no avanço do autoritarismo.
O que a Editora Danúbio considera essencial na hora de avaliar um original para publicação?
Além de saber escrever, o autor tem que ser maduro. Não quero autores que me venham com vaidadezinhas ou molecagem.
Diogo Fontana mantém um canal no YouTube e está no Facebook. O site da Editora Danúbio é o editoradanubio.com.br e o catálogo pode ser conferido aqui.
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