#54. Por que escrever livros?
Por que o mundo precisaria de mais um livro, e justamente o seu?
POUCO ANTES DE ME AVENTURAR na escrita de Francisco Maia, meu primeiro romance a lançar em breve, vi-me num pequeno dilema. Dilema interior, bem entendido; afinal, é lugar comum dizer que o ofício de escritor é dos mais solitários e coisa e tal.
E qual foi o dilema?
Bem, a intervalos regulares desde a idéia geral do livro, fiquei pensando muito se o concluiria ou não, pois pensava, “quem precisa de mais um livro no mundo?”. Porque é verdade: há muitíssimos livros em circulação no país e no mundo, incontáveis deles, e os lançamentos não cessam. Nem mesmo neste país tristemente semiletrado, onde a categoria chamada leitor é quase parte de uma confraria (você mesmo que me lê é meu confrade ou confreira; o feminino para confrade).
Mas explico melhor as circunstâncias. Desde que comecei a juntar as notas e dar andamento ao manuscrito, há contados dez anos, notei o quanto de livro importante e essencial eu mesmo estava por ler; quantos títulos, quantos autores fundamentais eu ainda não conhecia… e isso me deixava de certa forma envergonhado. Porque soube, por exemplo, que dona Rachel de Queiroz leu todos os Dostoiévski ainda em mocinha, antes dos dezoito anos. Que loucura. Eu aos dezoito não tinha lido praticamente nada do que devia ler, e tive de correr atrás do prejuízo anos depois. Correria que permanece plena e ativa até hoje.
Pois é, mas se eu mesmo tinha tanto livro importante por ler, e se havia tantos outros livros que nem em uma vida eu chegaria a ler; e se o mesmo ocorre à maioria das pouquíssimas pessoas que, atípicas que são, frequentam os livros e os lêem pra valer, lêem porque querem e gostam, pois bem, se o mesmo ocorre a elas, meu Deus, por que alguém se arvoraria a escrever um livrinho a mais que seja?
Pois esse era o meu dilema: escrever ou não escrever, eis a questão — para citar de um jeito muito original.
Então, depois de refletir um bocado, sabe-se lá como cheguei a uma resposta, mas cheguei. Já volto à resposta ao tal dilema. Antes, umas considerações.
Vá lá saber o que se passa com o dito autor contemporâneo nesta coisa de escrever o livro ou não. Digo isso porque, do parapeito de minha janelinha, observo o cenário. E daqui noto que o pessoal dito escritor ou escritora não anda lá muito preocupado com essa questiúncula minha, não. Especialmente quando se analisa a quantidade – sobretudo a qualidade – da produção literária de Pindorama, despejada semana a semana no mercado pelas grandes editoras.
Curioso: são as grandes (lembro de três em particular) que têm lançado os piores livros brasileiros. É espantoso. Foi-se o tempo em que havia uma curadoria exigente, uns editores que não passavam o cheque nem ligavam as tipografias se o sedizente escritor não escrevesse algo realmente marcante. Hoje, porém, basta ter nascido no sexo certo, no gênero certo, na epiderme certa, e seu livro será publicado, no matter what.
Dia desses um crítico literário da sinistra disse até que, estando o grupo certo devidamente “representado” no livrinho pão-quente, a qualidade do que vai ali pode até castigar o leitor e maldizer a literatura que isso não faz a menor diferença: o importante é cumprir a cota. É, ele disse isso num evento literário, petiscando uns acepipes. Além disso, o mais importante: o livro-cota serve para tirar o macho-branco do pedaço, ainda que este seja o novo Drummond; bem, a ser assim ninguém o saberá mesmo, pois o cabra está pré-eliminado nas grandes casas. Exceto se for medalhão midiático ou fardão da Academia.
Mas voltando ao meu cantinho, declaro que amo a tal da literatura; a de verdade, digo, de ontem e hoje. Amo com respeito reverencial essa arte que aprimora tanto nossa humanidade mais íntima como nenhuma outra. Foi por isso e por outras circunstâncias que me peguei a pensar se teria o direito (no sentido moral, não civil) de escrever um livro, já que há uma infinidade deles, mais importantes e possivelmente melhores (excluindo aí a turma da cota, bem entendido; ali não sai nada que valha dois cruzeiros).
Confesso, fiquei uns tempos com a escrita do livro parada por causa disso. Até que, entre reflexões que vêm e vão, creio ter chegado a uma resposta satisfatória, ao menos para mim. Então a compartilho: quem sabe não seja satisfatória a quem pretenda escrever ou tem escrito um livro? Se for o caso, acompanhe-me no pensamento a seguir.
A mágica
O livro chega às mãos do leitor: alguém recomendou ou ele viu a capa e ficou curioso; quem sabe a sinopse pareceu interessante. Então a pessoa adquiriu, leu e gostou. Talvez tenha gostado muito (ou não; mas vamos ficar no positivo-afirmativo para caber melhor no exemplo). Mais: se o título for relativamente desconhecido, é provável que esse leitor tenha uma pontinha de orgulho por ler uma obra totalmente fora do hype, e daí poder divulgar a outros como um desbravador de tesouros ocultos.
Seja como for, a verdade é que desconhecemos os caminhos que fazem livro e leitor se encontrarem. Sem dúvida que há o trabalho profissional de divulgação e essas coisas todas de marketing que tem lá o seu papel. Mesmo assim, o grande encontro afetivo entre livro e leitor permanece um mistério, especialmente quando não há divulgação alguma. E isso remete a algo mágico, sem dúvida; algo miraculoso, fantástico, inexplicável.
A resposta
Sem mais delongas, digo a resposta a que cheguei para a pergunta “o mundo precisa de mais um livro?”. Resposta: não e sim, ao mesmo tempo.
Primeiro o “não, o mundo não precisa de mais livros”:
De fato, ninguém precisa de mais um livro apenas por ser mais um. Mas essa linha de raciocínio é meramente quantitativa, veja. Mais um livro trata-se de contagem numérica pura e simples. Ocorre que livros não se contam assim. Leitura não é recorde a ser batido, nem leitura é taxa de desempenho. Significa dizer que há quem tenha lido muito e lido nada, por exemplo: muito na quantidade, nada na qualidade. Isso é perfeitamente possível.
Há um aspecto ainda mais cruel e não menos verdadeiro nessa questão: um livro bom deixa para trás muitos milhares de livros ruins. Comboios e comboios deles. E, tenhamos em mente, a quantidade de livros ruins disponíveis na praça é simplesmente inabarcável.
O que nos leva ao outro lado, que é o “sim, é possível escrever mais livros”.
No lado do sim, a relação com o livro muda totalmente de categoria. Aqui, a parte numérica simplesmente não entra na avaliação. Ao contrário do primeiro caso, aqui há quem tenha lido pouco e lido muito: pouco na quantidade absoluta, muito na qualidade e no proveito interior. E isso é notório: a qualidade das boas leituras se deixa ver no próprio temperamento de quem lê. O semblante muda, algo se transforma na pessoa: o interior, os gestos, o modo de pensar, a visão da vida; tudo reflete de algum modo aquele mesmo conjunto de boas leituras. Este leitor vive a se encontrar com autores bons e livros bons e chega uma hora em que este leitor sabe “farejar” o bom livro, sabe sondar, discernir e escolher bem, na maior parte das vezes.
É, portanto, para este leitor que o autor verdadeiro deve escrever. Mas isso exige uma condição: por óbvio, este autor deve ser seu primeiro leitor qualificado, isto é, aquele que no ato mesmo da escrita requererá de si a qualidade da obra que ele exige dos outros. Não importa se iniciante ou experiente, este autor lançará mão dos seus melhores recursos, sem florear nem afetar; buscará a justa medida no que escreve, sem arroubos nem falsas pretensões. Este autor, como disse Vargas Llosa, escreverá o livro que ele mesmo gostaria que outro lhe escrevesse.
Para além de tudo isso, o mais importante: a missão de escrever estará acima da vontade de escrever. Eis o busílis: sobra vontade e falta missão no mercado. O livro-missão, mais que pode ser, deve ser escrito; porque o escritor sente essa cobrança dentro de si, ele tem em si mesmo “a questão” do livro, de um jeito que só ele saberá formulá-la. Mais que saber, só a ele compete formular o que imagina. Lá na frente, obra acabada, impressa e distribuída, então o autor sai de cena: a obra fala por si, e sua mensagem será propriedade do leitor. Como este irá recebê-la, isso já não cabe a quem escreveu. A mensagem ganhou vida, criou asas e voou.
Então, de novo, por que escrever o livro? Porque só ao autor cabe escrevê-lo; só o autor pode dizer o que tem a dizer; porque alguém lá fora precisa lê-lo; e se o autor não o escrever, terá sido negligente à sua instransferível incumbência. E disso, nalgum dia, prestará contas a Deus.
Não se trata de nenhuma lei ou doutrina religiosa, mas de algo que creio com sinceridade: fazer literatura é missão e não vontade caprichosa (diferente de disposição ao trabalho); muito menos agenda política, verdadeiro logro intelectual e diabolice pura. Que a escrita seja verdadeira, que venha de dentro e cumpra a missão da melhor maneira possível, conforme a capacidade de cada um, sempre debaixo do guarda-chuva da Verdade.
Missão cumprida, é não se preocupar: o mais é com Deus e Sua soberana vontade.
Dois encontros
Dois encontros improváveis que, dizem, aconteceram:
Sêneca e apóstolo São Paulo: ambos foram contemporâneos em Roma. Quem os teria apresentado foi o irmão do filósofo estóico, Gálio. Ambos teriam se correspondido por carta, mas não há comprovação disso (embora as supostas cartas fossem preservadas). Seja como for, há quem identifique o estoicismo e até algum estilo de Sêneca em Paulo. Ou seria o oposto?
Dom Pedro II e Nietzsche: esse é comprovado. O imperador falou em alemão com o bigodudo e ambos trocaram umas boas idéias. O imperador, naturalmente, leu o Nietzsche e lhe fez apontamentos, disse impressões. Este, por sua vez, teria dito que Sua Majestade era um homem muito simpático.
Mediano
Creio ser uma obsessão justa e digna o querer se tornar um mediano ótimo, um mediano excelente, o melhor mediano que já se viu. Porque a mediania é a única coisa elevada a que alguém pode aspirar, o ser mediano da melhor forma possível. Pois ser grandioso ou insignificante, dois extremos, isso não compete ao próprio sujeito, mas a um julgamento alheio posterior.
Quem é o mediano? Note, ele não é medíocre, que é algo ruim. Mediano é o trabalhador competente. Ele é disciplinado pelo trabalho: faça chuva ou sol, frio ou calor, o trabalho deve ser feito e compete a ele fazê-lo, para além de sentimentos pessoais ou circunstanciais.
É preciso portanto abandonar a má conotação da palavra mediano. A arte, profissão no sentido mais nobre do termo, precisa ser levada adiante haja o que houver. Numa tarefa dessas, mediano será aquele que a cumpre como um dever.
Aquilo que no mundo que simplesmente funciona, em que o necessário está lá, disponível e funcional, e que sempre salva na hora do aperto, saiba, isso é obra do mediano, este ser silencioso e negligenciado.
Então, um viva aos gênios, mas que abundem os medianos. O planeta gira por causa deles.
Quem disse
“Então minha intuição não me enganou. Aqui, ao nosso lado, em meio à aparente legalidade, no tempo da paz universal garantida pelos tratados vigentes, consumava-se um crime de arrepiar os cabelos.”
— Bruno Schulz
*
“O homem não nasce para ser feliz. Ele faz jus a sua felicidade, e sempre através do sofrimento. Nisso não há nenhuma injustiça, pois o conhecimento e a consciência da vida são alcançados por meio da experiência do pró e do contra, o que cada um tem de fazer por si próprio.”
— Dostoiévski
*
“Propriamente só aprendemos algo de livros que não podemos julgar. O autor de um livro que pudéssemos julgar deveria aprender conosco.”
— Goethe
Direto do almoxarifado
Prosaica Podcast
Na edição 11, comento a respeito da obra Os Demônios, de Dostoiévski.
Contribua sem compromisso
Quero agradecer a você que tem contribuído com meu trabalho. Muito, muito obrigado por sua contribuição tão generosa. Recebo sua doação com reverência e responsabilidade para realizar um trabalho cada vez melhor.
*
Amiga e amigo inscrito, se você entende que este conteúdo agrega valor a você e gosta de recebê-lo gratuitamente em seu e-mail, considere fazer uma contribuição sem compromisso com este trabalho.
Acredite, produzir um conteúdo assim demanda tempo, pesquisa e muita mão na massa.
Segue meu código pix: fernandolimacunha@gmail.com
Se preferir, use o QR Code:
O valor você decide, com toda a liberdade. Agradeço de coração.








