#55. Como se forma um escritor?
Será que existe uma fórmula que os escritores sigam para tornar-se o que são?
NÃO DIGO QUE SEJA o maior mistério do mundo, mas nunca encontrei uma resposta muito satisfatória à pergunta “como nasce um escritor?”. Já vi respostas, no plural, acertadas e equivocadas; a maioria não erradas de todo, registre-se. Em paralelo a essa pergunta, porém, chovem no meio digital conselhos e dicas, por parte de entendidos em literatura ou nem tanto, de como “escrever bem”, como “se expressar”, como “aprender com os mestres da escrita”, etc. etc. Muito bem.
Digamos de saída que, na hora de escrever, toda ferramenta é útil em alguma medida e toda ajuda é bem-vinda; de modo que não vou pela trilha da polêmica, nem sairei acusando oportunismos ou farsas. Também não me vejo no posto de invalidar o trabalho de gente profissional – online, sobretudo – que oferece seus préstimos a quem queira praticar a arte de escrever. Além disso, não contemporizo fazendo-me de superior. Se parece, não é o caso. Ao contrário: penso que é melhor haver na internet quem ensine a escrever do que outros que ensinem coisas deletérias ou inúteis como, sei lá?, pole dance. (Nota: já conheci quem fizesse pole dance; por incrível que pareça, muita gente faz pole dance; enfim, a cabeça humana e seus enigmas.)
Voltando, ensinar a escrever, entendo, não deve ser condenado a priori. Por que seria? Muito embora eu fique um tanto acabrunhado quando vejo professores internéticos a dizerem que essa coisa de ter talento é uma grossa bobagem, e que tudo pode ser ensinado e portanto aprendido, bastando ter dedicação, esforço, e claro, comprar o cursinho em suaves prestações. Um papo localizado entre o moderno discurso coach e o otimismo típico de classe média americana.
Na outra ponta estariam os vetustos guardiões da arte, uns sujeitos de cara feia; uns seguranças de boate, literária no caso, que ficam à porta para barrar a entrada de tipos indesejáveis e novatos em geral. Aqui estão os acusados de elitismo, boicotadores do sonho alheio; seriam aqueles que transformam a escrita literária em coisa de iniciados e iluminados, gestados no mais oculto mistério, e portanto excluindo de cara o mortal que queira se aventurar – por que não? – a registrar em texto o que lhe passa na mente e na alma.
Devo confessar ser raro este segundo tipo, mas creio que os haja; talvez houvesse mais deles no passado, quando a literatura era tão respeitada quanto disseminada nos lares medianamente remediados, e cuja porta estreita não comportava qualquer um disposto a escrever só porque fazia uma cartinha bonita à avó, à tia, à namorada.
Bem, mas cá estamos neste século novo e estranho, com muita rede social e zero cartinha em circulação. Levando em conta o momento presente, no Brasil em particular, vemos que o tópico literatura vem crescendo em interesse, o que é uma coisa boa; por enquanto, interesse relativo e digital, de dentro para fora, como faz o fermento ao bolo. Quer dizer, se o interesse pela literatura não se esparrama a ponto de se tornar papo do churrasco de domingo, entre os crescentes aficionados digitais a coisa vai se incrementando a cada dia que passa. Nesse bojo, surge também o interesse em, mais do que ler, fazer a literatura. Em suma, escrever. É natural. Então, mercado formado, cumpre atender a demanda; aí surgem os diversos cursos e professores de escrita de que falamos acima. Nada contra eles, se assim parece. Chegaremos lá.
A formação
Tudo bem, mas este artigo traz a pergunta “como se forma um escritor?”. Para isso basta escrever direitinho e fim de papo? Basta aprender técnicas, ler apostilas, assistir aulas, fazer exercícios?
Pensava no assunto essa semana. O processo de formação dos mestres do passado, como se deu? Já pensou? Porque, óbvio, um dia os grandes começaram igual a qualquer um de nós, cheio de dúvidas e titubeios, falhos e trôpegos. Muitos duvidaram de si, rasgaram pilhas de papéis sofregamente preenchidos; à beira da morte, Kafka mandou seu amigo Max Brod juntar tudo que escrevera e tocar fogo, dar fim de vez. Graças ao bom Deus, o amigo o desobedeceu; por isso hoje podemos ler o Kafka. Herman Melville, ouvi dizer, escreveu três mil das seiscentas páginas que compõem seu Moby Dick; se não erro a conta, duas mil e quatrocentas folhas foram ao cesto antes do resultado final. Então, não era bem um super-homem o sr. Melville. Seu gênio exigiu o esforço. Os exemplos são inúmeros.
Juntando os pedaços e comparando situações, concluo que a formação do escritor se dá, acima de tudo, por um complicado processo de gestação, como o bebê na barriga da mãe. Formação, aqui, não se trata de diploma, canudo e beca, mas de gênese, feito um complexo agrupamento célula a célula, depois, de consciência espiritual e concomitante formação orgânica; enfim, é questão de vida – o maior dos mistérios que há.
Como na vida, tudo parte de um encontro afetivo, como os casais felizes que nos geraram, papai e mamãe. De início leitor, o futuro escritor passa a ler e amar a literatura a partir do que leu. Até aqui, muitos chegam e ficam. Sem problema: são os leitores de literatura, importantíssimos, fundamentais, e nem todos precisam passar ao outro lado do balcão ou provar algo além do ato de ler. Está tudo muito certo.
Contudo, há quem de maneira inexplicável seja levado a outra situação, não diria superior, mas diferente, paralela. Trata-se de uma minoria, com efeito; para estes, surge qualquer ímpeto de dentro, uma voz, uma disposição especial que os faz descobrir que têm algo a dizer, e que podem fazê-lo, reúnem o ferramental, têm a disposição necessária. Ler os mestres, para estes, é mais que contato, é absorção. Como o alimento, a literatura lhes dá uma energia que deve ser convertida em movimento; e quanto mais movimento (a escrita), mais força e mais necessidade do alimento literário. Por isso, escritor é aquele que lê, e muito, antes de propriamente escrever.
Nesse sentido, (prometi voltar à resposta), a técnica serve não como substância formadora, mas como um modo externo de organizar a força criadora e dar um método de trabalho, um jeito de fazer. Isso porque, uma vez chegado ao terreno da literatura como produção efetiva, descobre-se que a arte é coisa antiga, vem de há muito, e ela contém postulados testados e aprovados por séculos – a chamada tradição da arte. Pueril é supor que a mera inspiração é tudo o que se precisa para o ofício, bastando o desejo de fazer. Não. A substância interior precisa de orientação, de mediações qualificadas, numa gama que vai do próprio livro lido ao conselho de bons professores (pois há os ruins; mas não entro no mérito).
Outro jeito de ver
Lembremos o poema do espanhol Antonio Machado (1875-1939), na íntegra, pois vale a pena:
*
Caminante no hay camino
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.
Nunca perseguí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse…
Nunca perseguí la gloria.
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar…
Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso.
*
Caminhante, não há caminho; se faz caminho ao caminhar. Ouso dizer que nenhum escritor de fato foi à literatura com intenção direta de sê-lo, como um concurseiro que lê apostilas só para concorrer ao emprego público. O conjunto de leituras que inescapavelmente precedem o desejo de escrever não começam com um objetivo, nem é instrumento. Jamais. No início tudo é encanto, fascínio, espanto, enamoramento; e assim permanece ao longo da trajetória.
Significa que o escritor em germe não sabe ainda que será escritor, sequer pensa nisso. Descoberta a literatura em sua vida, ele simplesmente caminha com ela, sem destino certo; segue, vai em frente, sem pensar em resultados e metas definidas. Enquanto isso, o talento, se houver, irá se metabolizando e se formando de algum modo; de novo, gestação.
Então, não há caminho para se tornar escritor. Há o caminho da literatura, ponto, e nele se caminha; nesse caminho, há placas indicativas, sinalização no asfalto, há postos de reabastecimento – os cursos e auxílios especializados de que falamos. Mas o caminho é o potencial escritor quem caminha, sem objetivo nem alvo a princípio. O trajeto é percorrido de maneira suave, com prazer, sem cobranças nem precipitações.
Enquanto isso, a própria caminhada desperta e depois forma o escritor. O posterior dever de escrever surge como autodisciplina, algo de dentro.
Trata-se de um processo natural a que o destino conduz, misteriosamente (desculpe a insistência nesse termo). Então, todo o segredo está neste caminhar na literatura, apenas. O trajeto mesmo se incumbe de revelar e formar o escritor, e tudo o mais está inserido nesse caminho, é parte dele. Escritores nascem daí, portanto: dessa caminhada literária e as transformações por ela operadas ao longo do trajeto.
Contemporâneos, modo de ler
Creio ter encontrado uma boa maneira de ler literatura contemporânea. Não digo ser um método infalível (existe isso?), mas uma abordagem que facilita bastante e melhora a relação com os livros lançados nos últimos 25, 15 anos ou na semana passada: basta pensar que eles são clássicos.
Então vá ao contemporâneo pensando ser clássico, simples. Abstraia, suspenda o pré-julgamento. “Este é um clássico, vou ler um clássico agora.” A leitura ficará mais fluente, garanto.
Agora, uma medida anterior: leia o autor contemporâneo que respeite a tradição literária, faça o favor. Ler gaiatos, gaiatas e gaiates não vale, não funciona. Será desgosto na certa.
Breve confissão
Talvez seja verdade que a gente fique bobo à medida que fique velho. Como sou meio-velho e meio-novo, então me assumo meio-bobo. Não vou exagerar, também. Todo exagero é afetação, mesmo na autoproclamada bobagem.
Então que seja bobagem minha, vá lá, mas sou tomado nos últimos tempos de uma compaixão desmedida pelo tal de ser humano. Claro, não vou emprestar minha coxa ao beliscão alheio, assim, de graça. O caso é que observo o drama humano nas minudências do dia a dia e peso as dificuldades que as pessoas carregam. Basta olhar, os semblantes não mentem.
Viver é muito difícil, constato. E, por vezes, a falta de uma simples informação no momento certo, a ausência de um encaminhamento tão acessível leva as pessoas a um turbilhão de descontroles, de provações às vezes sem retorno. Hoje em dia, não culpo mais ninguém.
Claro que a maldade humana existe, ora essa. Porém, no mais das vezes, a maldade é mais fruto da burrice vitimadora que da malignidade acintosa. Pouca gente é objetivamente má, de fato, pois mau é algo muito trabalhoso de ser. As pessoas agem mal porque estão mergulhadas no equívoco. Poucos, pouquíssimos são culpados: na maioria das vezes, as pessoas são vítimas de si mesmas, de seus próprios desatinos. E reagem de acordo, em diferentes graus, espalhando os efeitos da próprias agruras que não conseguem evitar.
Quem disse
“Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação.”
— Rainer Maria Rilke
*
“A tolerância dos ideais alheios é virtude suprema dos que pensam. É difícil e inacessível para os semicultos. Exige um perpétuo esforço de equilíbrio ante o erro dos outros; ensina a suportar essa consequência legítima da falibilidade de todo juízo humano. Aquele que se esforçou muito para formar suas crenças sabe respeitar as dos outros.”
— José Ingenieros
*
“A maioria das afetações oculta alguma coisa, no fim das contas, embora às vezes não o faça desde o início.”
— F. Scott Fitzgerald
Direto do almoxarifado
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