#56. A quantas anda a literatura no país
Há uma boa notícia e uma má notícia; por sorte, a boa notícia tende a ganhar a briga
UMA BOA NOTÍCIA: aos pouquinhos, mais e mais brasileiros parecem despertar para o mundo da literatura, dos livros e até da escrita. E isso já vem de algum tempo: como nunca antes – parafraseando certa figura exaustiva de nossa história recente – como nunca antes, o país tem falado e lido a literatura a cada dia mais, especialmente a ficção.
Gêneros ficcionais não importam tanto a esta análise. O leque pode ir de trilogias adolescentes a romanções parrudos de um Tolstói ou Dostoiévski. As editoras comemoram, claro, embora bastante discretas; afinal, é abrir um desses livros e verificar que andam pela dezena de reimpressões, o que indica a boa vendagem. De novo, boa notícia.
Lembro que, em 2001, nos idos do governo FHC, o Ipea publicara um estudo apontando deficiências do ensino brasileiro, especialmente no quesito leitura (isto é, a proficiência a ser adquirida na escola). O estudo foi amplificado pela imprensa – já que os números eram bastante alarmantes –, e entrou em circulação no país o termo analfabetismo funcional, constante daquele estudo. Para ficar no terreno literário, no mesmo 2001, ler clássicos da literatura era coisa de vovôs em cadeira de balanço ou vovós com xales nas pernas. Do lado juvenil, literatura era coisa de vestibulandos e as pesadas listas obrigatórias das provas.
Entretanto, desde 2010 mais ou menos a situação foi se transformando. Passamos a associar a leitura de clássicos a meninas na casa dos vinte anos, mocinhas bonitas, com ar estudioso e de família: elas passaram a fazer canais literários no YouTube e, do aconchego do lar, comentam o livro da vez, listam seus “10 mais” ou promovem “tour pelas estantes”, com vários exemplares novinhos e marcadinhos com adesivos.
E, verdade seja dita, essas moças influenciam mesmo; há tempos as editoras mandam exemplares a elas, para que leiam e comentem; algumas fazem publis e cobram por vídeos promocionais, e daí segue-se um mercado em plena atividade. Hoje, não há departamento de marketing editorial que não tenha suas booktubers ou bookstagramers parceiros para divulgar os lançamentos.
Acompanho este fenômeno internético desde o começo. Não apenas acompanho: sem risco de exagero, posso dizer que fui capturado por esse contexto, acho-o fascinante. Embora, no meu caso, não passei a ler graças às moças do YouTube; já lia livros antes da internet surgir, ainda menino, e conheci mais bibliografias pela revista-catálogo do Círculo do Livro do que pelo mundo digital. Mas noto o quanto a coisa de falar em literatura cresceu um bocado depois das plataformas digitais. No meu caso, a internet serviu principalmente para não me sentir um marciano caído na terra e descobrir que gente com os parafusos no lugar também podia gostar de ler, ou seja, livro não era mania de matusquelas ou nerds deslocados.
Então, se estabelecermos o ano de 2010 como o início do fenômeno, concluímos que estamos há década e meia com atividade literária intensa, e não só na internet. De lá para cá, novas editoras surgiram (estrangeiras vieram, inclusive), além de pequenas casas, às dezenas; muitos clubes de leitura nascem a cada dia; clássicos ganham nova roupagem, traduções ganham em zelo e importância; livros por assinatura revivem o fenômeno dos anos 1980; novas bibliografias aparecem; feiras de livro espalham-se país afora, etc. etc.
E a coisa já pula o balcão. Além de ler, muita gente tem escrito e publicado, sobretudo com a facilidade da impressão on demand, de custo relativamente barato e sem estoques: a cada dia, novos escritores surgem a partir dessa nova vivência com a literatura que o ambiente digital puxa feito locomotiva, e, via redes sociais, aqueles podem formar um público, com amizade, simpatia, e sem aquela pompa de celebridade. Tudo muito bom, com efeito.
Bem, dando um salto e fazendo um prognóstico, penso que a coisa mal começou e ainda há muito para crescer. Tudo isso vitaminado pela força dos algoritmos e a chegada das novas gerações, incentivadas pelos pais que são os leitores ávidos de agora. E o que é melhor: não se trata de intromissão política de timoneiros ideológicos, mas de iniciativa própria, espontânea, de gente para gente; ainda que em número reduzido na população geral, o fenômeno demonstra ter consistência e densidade; como um núcleo atômico, vai cada vez mais atraindo “partículas” e ganhando massa.
O outro lado
Até aqui, parece que vivemos no país das maravilhas literárias. Mas não, infelizmente há o outro lado: inconveniente, fraudulento – sombrio, até.
Primeiro, vejamos o que acontece nas grandes editoras, uma situação inquietante para dizer o mínimo: se dividirmos a linha editorial das grandes em literatura universal e literatura nacional, constatamos um fenômeno esquisito. Acompanhe.
No departamento literatura universal, nossas majors têm caprichado nas edições e traduções. Sim: abundam no mercado as capas-duras com impressões sofisticadas, além de edições esmeradas e atraentes. Aqui, o público-alvo parece ser os leitores que acompanham as influenciadoras citadas acima e que, como elas, desejam abastecer as próprias estantes com livros tão importantes quanto bonitos, colecionáveis. Uma coisa aesthetic, como dizem os gringos. Então, podemos dizer que a literatura universal anda muito bem tratada por nossas editoras-âncora, que dão o tom do mercado e servem de referência às pequenas casas.
Pois é, mas então passamos ao departamento literatura nacional. Aqui, os muros estão mal caiados. Vemos paredes pichadas, portas em farpas, maçanetas ausentes. As grandes têm imprimido a literatura nacional apenas para disputar os gordos editais do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático, do MEC). Ou seja, ali, literatura brasileira tem servido apenas às compras governamentais, arriscaria dizer na ordem de 90%.
E qual é o problema? De resto, o problema é que o PNLD não aceita criação autoral espontânea ou artística, simplesmente. Lá, os doutores estipulam o tipo de livro que desejam comprar. À moda soviética, o conteúdo exigido é definido por um misterioso comissariado do povo; então, para atender aos ditames mui democráticos do edital, as editoras encomendam e publicam apenas as obras que, abre aspas, respeitam as minorias oprimidas, tratam da questão ambiental, denunciam injustiças históricas, e, eterna cereja do bolo, criticam as desigualdades sociais. Ou seja, para os doutores do governo, literatura serve para inculcar problema e denunciar mazela, ponto; sob estrito filtro ideológico, registre-se. Imaginário, lirismo, boas histórias, prazer de ler? Esqueça. O negócio é educar, mas educar ao modo maoísta.
Censura que chama? Você decide.
Daí abundar os pseudo-escritores wokes de última hora e sua manjada inépcia literária. Às pressas, estes escrevem sob encomenda e assinam contratos antes de pipocar algo na cachola; nesse processo, a arte literária nacional é solapada sob a desculpa de “a escrita é péssima, mas a necessidade é urgente”. E os pobres aluninhos – muitos deles tendo o primeiro contato com os livros por essas ciladas editoriais –, saem da escola mais detestando que gostando de ler. A coisa parece intencional.
Por causa disso, as grandes casas não diversificam o leque de autores nacionais. Seja por medo de cancelamentos (sobretudo o de não concorrer aos editais ou romper contratos milionários por publicar as pessoas erradas), seja por ideologia convenientemente adotada, mesmo. Eu apostaria numa combinação de ambos: para não arriscar, as editoras contratam avaliadores saídos daqueles comissariados do povo, quem sabe camaradas deles; assim, a fórmula só pode dar certo. Enquanto isso, o pensamento brasileiro vira saci e pula numa perna só, a esquerda; e se o leitor quiser diversificar, que compre uma tradução na próxima Black Friday.
Reação espontânea
Na contracorrente desse processo, microeditoras surgem para publicar a literatura brasileira banida das grandes casas. Sua força está na divulgação dos posts em redes sociais que se ampliam via compartilhamento, um a um. Essas editoras – que atendem do público infanto-juvenil ao adulto, passando pelo acadêmico – caracterizam-se por certo carinho que ganham dos leitores, numa relação de troca e confiança. Existem até autores cult nesse meio, gente que simplesmente não passaria nem na porta das grandes, embora vendam mais que muito autor celebrado e engajado delas, empurrado goela abaixo do público leitor.
Ajuda a proximidade entre autor e leitor, ou entre leitor e pequena editora. Nessa dinâmica benéfica, os livros não são impingidos, mas editados a pedido; e se vem de autor estreante, escritor e leitor já estão devidamente apresentados pelas redes sociais e plataformas digitais, de modo que, ao lançar, o livro já sai com um pequeno núcleo de leitores-apoiadores que entendem o recado da obra.
Este é o atual retrato da literatura no Brasil. Difícil dizer se e quando as coisas vão mudar, para onde o vento apontará. Diria que chegará uma hora em que as grandes terão de publicar a contracorrente, ao menos em parte, pois não poderão enterrar a qualidade e preferir a fraude o tempo todo; além disso, os comissariados do povo não devem durar para sempre, pois nem na Rússia duraram. Quanto à publicação de autores estrangeiros, clássicos ou não, isso só tende a aumentar com o concomitante aumento de leitores.
No fim das contas, o principal é saber que o país tem lido e lerá mais. Atenção: tudo ainda em efeito concentrado, muito mais que ampliado; contudo, é fato. Além disso, novos escritores de verdade têm surgido no país, e o público leitor já sabe que livro woke não presta mesmo, embora o governo e um par de mecenas ricaços insistam nisso, levando as grandes casas a reboque.
Seja como for, alguma coisa há de mudar em breve, e para melhor, pois o vento sopra onde quer e não onde o mandam soprar. O poder sempre se acha muito poderoso até sucumbir. De nossa parte, sigamos em frente e estejamos atentos, preparados: a demanda por literatura autêntica só tende a aumentar, e isso nos diz respeito.
Sam, o confuso
Sam Altman, chefão da inteligência artificial ChatGPT, disse num podcast da própria firma que seus filhos jamais serão inteligentes como as IAs. Com isso, estende o raciocínio a toda a humanidade, decerto.
Bem, não sei o que o sr. Altman entende por inteligência: o prefixo latino in-, para dentro, devia lhe informar algo. Mas deixemos a semântica: entendo o Altman.
Ele diz que nenhuma criança será capaz de fazer o que as IAs farão, nem terão tanto acúmulo de dados articulados como as IAs. Perfeitamente. De início eu fiquei um pouco assustado com a frase, mas isso durou o quê, uns cinco minutos.
Pois lembrei: em 1991, a prefeitura inaugurou uma biblioteca no meu bairrinho. Eu era um meninote, e ia lá para ler gibis do Asterix e do Tintin, que custavam os olhos da cara. Os de lá eram novinhos, e eu os lia de graça, já que biblioteca é lugar que quase ninguém vai.
Bem, aquela biblioteca, seu Altman, era mais inteligente do que eu jamais seria. Sim. Somando toda a informação potencial armazenada naqueles livros e estantes, e que eu jamais saberia na totalidade, só posso concluir que a biblioteca municipal era um colosso de inteligência perto de minzinho.
Entende a lógica? Energia potencial não é igual energia aplicada, doutor. O mesmo vale para dados acumulados: eles precisam de um comando para virem à tona, uma pequenina parcela cada vez. Se ninguém pedir, eles não aparecem; logo, “não existem”, pois não se efetivam na realidade presente.
Inteligência é ato presente, in, dentro; é vontade advinda do ser. O Altman faria bem se lesse uns Aristóteles de vez em quando. Isso o ChatGPT não resolve.
O livro e o humor
Dizemos que o livro é bom ou ruim, às vezes mais ou menos: um julgamento que todo leitor tem o direito de fazer.
Tudo bem até aí, mas nessa avaliação esquece-se de um fator essencial: o humor do momento. Vou usar um anglicismo: o mood do momento. Trata-se da disposição da hora, dos sentimentos que orbitam o leitor naquela circunstância ao puxar o volume da estante. Tudo depende do clima, do estado de espírito, entende?
Assim, por vezes o julgamento do livro tem por base esse humor circunstancial: consideramos ruins ou bons não a obra por si mesma e seus méritos (ou deméritos), mas porque nossa circunstância interior assim determinou.
De modo que, se uma leitura não engatar mas a obra em si for importante, o melhor a fazer e descansá-la um pouco mais: não chegou a hora de lê-la ainda.
Antes pôr de molho mais um pouco que insistir, tomar ranço da coisa e depois fazer julgamentos imprecisos.
(Por falar nisso, preciso retomar o Lolita, de Nabokov. Um dia, um dia…)
Quem disse
“Vê-se muitas vezes que a humildade não só não ajuda, mas prejudica, especialmente se usada com pessoas insolentes que, por inveja ou outra razão qualquer, conceberam ódio por nós.”
— Maquiavel
*
“Para cada alma há uma idéia que lhe corresponde e que é como a sua fórmula; e andam as almas e as idéias procurando-se umas às outras.”
— Miguel de Unamuno
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“Um homem deve ler segundo suas inclinações o conduzem; porque o que ler como tarefa não vai fazer-lhe bem.”
— Samuel Johnson
Direto do almoxarifado
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