#57. Para quem ainda não lê literatura
Um recado para quem nasceu para ler literatura, mas ainda não foi despertada para isso
DEFENDO QUE HÁ GENTE que nasceu para ler e gente que não nasceu para ler. Inclusive já discorri sobre o tema numa newsletter passada (edição 35; link abaixo). Mas, e quanto a quem nasceu para ler e ainda não despertou, ainda não se descobriu leitor? O que dizer a essa pessoa para, não digo convencer, mas despertá-la para a leitura de literatura sem cair no piegas ou no moralismo?
Abordar o tema dá pano para manga, como diria vovó. Tanto assim que, de fato, há inúmeros tratados que versam a respeito da dupla leitura e literatura, e que, se pensarmos bem, parece mesmo uma combinação mágica em seus efeitos. Falemos um pouco desses efeitos, portanto.
Há algo de mágico em ler literatura. Isso se dá porque, em muitos sentidos, a linguagem literária parece ter um poder próprio, singular, diferente de quaisquer outras modalidades artísticas (sem prejuízo de cada uma em suas características peculiares): é que, na literatura, a linguagem consegue de alguma forma morar em nós, fazer parte de nossas pensamentos e memórias, sem darmos por isso. Também é misterioso o fato de que, digamos, metabolizada a literatura em nós (cujo excipiente da fórmula é a linguagem empregada), ela transforma nossa própria maneira de ser, não por fazer de nós marionetes de algum ente invisível, mas, ao contrário, tornando-nos mais “nós mesmos”, mais autênticos, personalizados, e, no bom sentido, individualizados.
E o mais fascinante é que esse processo de transformação lenta proporcionada pela literatura não é nada difícil de se obter, ao contrário de uma dieta rígida, por exemplo, ou de um tratamento doloroso, ou uma disciplina ascética muito restrita. Para haver essa boa transformação em nós, basta pegar o livro e ler; mas, antes disso, amar a idéia de ler literatura. Ah, isso é indispensável: ter em si a inclinação que antecede o abrir do primeiro livro transforma a leitura num hábito incorporado e natural, aos poucos, como almoçar todos os dias. E é dessa prática diária que nosso interior – e até o exterior, de algum modo – ganha novas conformações, sem que percebamos. Quando nos damos conta, é porque a transformação já ocorreu, e agora continua a operar os seus efeitos.
Mencionei mágica, mas talvez possa usar o termo sobrenatural. A linguagem literária é uma espécie de símbolo que faz a ponte entre o natural e o sobrenatural, isto é, algo que está além da percepção imediata; um código, cuja chave é a leitura, e que condensa em si mesma uma série de conhecimentos possíveis que se vão revelando conforme a circunstância e a necessidade. Justo aqui nos deparamos com os aspectos mais práticos da vida diária, contrariando certo senso comum bastante equivocado de que uma coisa é ler, outra é viver: ora, ler caminha com o viver; e esse bom viver – da melhor maneira possível e não como quem tateia na selva escura da vida –, depende inescapavelmente de boas leituras.
E quanto ao escritor?
Nesse sentido, o escritor, do aspirante e do iniciante ao mais experimentado, precisa atingir o estado que se chama “domínio dos meios de expressão”. Ou seja, sua melhor linguagem no momento, aquela que consegue exprimir, no limite do possível das palavras, a substância de pensamento que se deseja transmitir ao leitor.
Para isso, primeiro é necessário uma consciência muito clara da mensagem que se deseja passar (seja direta, de forma ensaística; de forma indireta, por meio da ficção e da analogia que ela faz; ou de forma sensível, musical e imagética, como na poesia). Depois, é necessário um segundo esforço para encontrar a melhor palavra e a melhor frase, e ao compô-las, chegar ao período que concorre para o sentido final, o sentido da mensagem, ainda que não expressamente declarado no texto.
Desnecessário dizer que só se chega a tal estado com muita leitura, dedicação e treino. Além disso, muita sensibilidade e autopercepção, as quais confluem à seguinte pergunta, “quem sou eu e o que quero realmente dizer?”.
De resto, se disso puder ser decalcada uma forma, um tom identificável, um jeito particular de encadear as palavras e apresentá-las a quem lê; se, em suma, daí decorrer um estilo, será este um efeito posterior e nunca o elemento motivador inicial. Quer dizer, o escritor não adota um estilo para dizer o que pretende: ele diz o que pretende e daí aparece o estilo. Estilo é portanto chegada, não partida. Se assim for, estamos diante da maior qualidade do verdadeiro escritor: a autenticidade.
Literatura e vida pessoal
Voltemos ao leitor. Longe de esgotar o assunto, o leitor será beneficiado por ler também pelo seguinte motivo: a leitura de bons livros consegue fazê-lo enxergar os próprios pensamentos, como quem tem um mapa diante de si.
Diferente do não-leitor, o leitor consegue não apenas querer algo, mas saber porque quer algo, com clareza; seus pensamentos e vontades vão-se ordenando melhor, de tal modo que suas inclinações ficam organizadas, por assim dizer, e isso o ajuda a conhecer-se melhor a cada dia. Análogo a isso, ele também enxergará melhor os outros ao redor de si, trocando o julgamento grosseiro pela compreensão mais cordata e humana. O leitor, portanto, saberá praticar melhor o segundo mandamento, que é amar ao próximo como a si mesmo.
Claro que, sendo humano, essa intimidade com a leitura não é isenta de confusões e falhas. Significa que voltamos à estaca zero? De forma alguma. Primeiro que, numa matemática simples, a visão ampla que a leitura dá faz incorrer em cada vez menos erros do ponto de vista quantitativo; e, com o aprimoramento do caráter que ela proporciona, torna-se mais fácil reparar eventuais falhas, a partir de uma visão clara de nossa fraqueza e do efeito disso em quem foi prejudicado por nosso erro.
Então parece mesmo uma maravilha esse negócio de ler literatura, não? E como custa pouco se considerarmos tanto benefício. Contudo, uma ressalva: tudo isso é verdade num caráter bom e não baseado em malícia. As leituras, sejam quais forem, não servem de verniz para encobrir desvios de personalidade, nem torna os erros decorrentes da soberba egocêntrica em acertos, nem legitimam a má índole. O fato é que, quem ama a seu próximo, amará mais adequadamente com a ajuda da literatura, não há dúvida.
Isso porque, devidamente decodificada pelo ato de ler, a linguagem literária arranja e dá um jeito no que já é bom dentro de nós, aprimorando nossas qualidades inatas e adicionando outras virtudes que esperavam um desabrochar, digamos. Quanto às personalidades ruins e tortuosas, porém, o mais aconselhável antes de pegar o primeiro livro é fazer um autoexame e se confessar, botar os pecados para fora com sinceridade. Mas este é trabalho que requer sacerdotes, não escritores.
A literatura tem um poder próprio, sim, que fique claro. Mas só irá melhorar quem já trilha o bom caminho.
Sobre a moda
A moda surgiu para destacar a individualidade. Bem, ao menos devia ser assim. Nos dias Made in China em que vivemos, porém, ela tornou-se o oposto: hoje não há nada mais nivelador que a moda. Quando inova, apenas troca uniformidades de ontem por uniformidades de hoje. A isto chamam tendência.
Curiosamente, isso em nada incomoda o consumidor. Ele sequer percebe o que acontece. E não incomoda precisamente porque, sendo humano, no fundo, ele não busca singularidade, mas homogeneidade; quer parecer e pertencer, sente prazer no mimetismo. A moda é mimética, portanto: um processo inconsciente, de modo que estar na moda é ser igual a alguém difuso e imaginário, senão de carne e osso. Quando não se imita o gosto da sociedade em geral, imita-se um grupo de referência, talvez a atriz da novela; mas imita-se, o tempo todo: logo, mimetismo.
Então descobrimos que a indústria da moda não quer dar autenticidade de fato; por isso, gasta milhões para na verdade vender a ilusão de autenticidade, e a vende muito bem, por sinal. É seu maior triunfo.
Se as pessoas buscassem uma marca pessoal no vestir, retornariam aos costureiros, como antigamente. Passariam longe de lojas e shopping centers. Liquidação? Bateriam na madeira.
Velho sábio?
Uma das figuras que de modo inexplicável habitou meu imaginário infantil foi a figura do velho sábio. Não sei de que maneira misteriosa esse grande modelo se assentou em meu pensamento, de modo que, aos poucos, fui atribuindo a todo cabelo branco uma sabedoria infusa adquirida pela experiência.
Há de ser próprio da fase infantil. Nessa idade, achamos os adultos muito capazes e sagazes, por exemplo, pois eles conseguem fazer coisas que nem sonhamos fazer. Imagine cozinhar com panelas ao fogo, pintar paredes, dirigir carros, sair e ganhar dinheiro. Quando crianças, nossas melhores brincadeiras consistiam em imitar esses adultos prodigiosos. Eu, por exemplo, gostava de pilotar uma vassoura e fingir que era motorista de ônibus ou de caminhão.
E, para além dos adultos, haviam os velhos. Estes já não tinham tanta habilidade física, é verdade. Mas, apesar da pouca agilidade, pareciam guardar muitos segredos acumulados pela longa vivência, e o semblante circunspecto atestava isso.
Claro, era um estereótipo. E, como tal, é uma imagem acabada que simplesmente se assenta em nosso imaginário, de modo inexplicável.
Mas então crescemos, viramos o tal de adulto. Chegamos ao agora. E daqui observo e não vejo, para minha decepção, o tal velho sábio lá da infância. Nem velha sábia. Claro, permanece o devido respeito aos anciãos; ocorre que, na relação com os eventuais idosos com quem me deparo, não há nenhuma frase que me desperte o pensamento, nenhuma sentença que pareça ter muita sabedoria adquirida. Ao contrário: há um cansaço de um senso comum surrado e debilitado, visível nas faces e maneirismos todos. Além disso, os pobrezinhos ainda acreditam em coisas como a idoneidade de juízes supremos ou nas sobrancelhas cerradas de um William Bonner.
Paciência. Já não fazem velhos como antigamente, talvez seja por isso. Então, o melhor a fazer é respeitá-los e esperar que, ao chegar a minha vez, eu seja um velhinho mais sapiente, nem que seja um tiquinho assim.
Quem disse
“Na verdade, o homem não busca nem o prazer nem a dor, mas sim apenas a vida. O homem procura viver intensamente, completamente, perfeitamente. Quando conseguir fazer isto sem lesar a liberdade alheia e sem nunca ser lesado, quando todas as suas atividades só lhe proporcionarem satisfação, ele será mais saudável, mais normal, mais civilizado, mas si mesmo. A felicidade é a medida pela qual o homem julga a natureza e avalia até que ponto está em harmonia consigo mesmo e com o ambiente.”
— Oscar Wilde
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“As coisas não podem ser como as desejamos, embora tenhamos frequentemente a impressão de que as dispomos segundo as determinações de nosso sonho e de nossa vontade.”
— Josué Montello
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“Um leitor inteligente descobre frequentemente nos escritos alheios perfeições outras que as que neles foram postas e percebidas pelo autor, e lhes empresta sentidos e aspectos mais ricos.”
— Montaigne
Link:
Prosaica #35: Nascidos e não nascidos para ler
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