#6. Para olhar como Machado de Assis
O segredo do maior escritor brasileiro era tão simples como brilhante e está pronto para usar
O PRIMEIRO LIVRO que li de Machado de Assis foi Dom Casmurro. Minto: na verdade, tinha lido Memórias Póstumas meses antes, mas foi para o vestibular. Confesso que não prestei a devida atenção, justamente por ser ano de vestibular, então pode-se imaginar o caminhão de leituras a fazer, como ocorre a qualquer vestibulando.
Naquela ocasião, o defunto-autor tornou-se a menor das prioridades para mim, para o meu azar: priorizei angiospermas e gimnospermas, ácidos e bases, logaritmos e hipotenusas, glasnosts e perestroikas, e no fim dei com os burros nágua, não passei. Do Memórias, captei apenas o trivial: nomes de personagens e cenas que caem-na-prova. Ler mesmo, no duro, não li. Leria com calma anos depois.
Pois não passei no vestibular nem prestei o exame de novo. As contingências do capital me empurraram para um apressado (pfui) ensino superior pago, o qual tristemente sabemos que de acadêmico tem nada, já que faculdades pagas em geral incumbem-se mais de fornecer licenças para trabalhar mais conhecidas como diplomas. É do jogo, infelizmente. Mas, há um lado positivo em tudo e houve alguma nisso: desobrigado de ler livros de que não gostava — exceto capítulos xerocados que os professores separavam para as aulas — eu me vi livre para ler outros títulos que bem entendesse.
A desobrigação formal não me afastou de Machado, pelo contrário. Sabia que tinha de lê-lo e me cobrava: de alguma forma, sentia que se não o lesse, não teria o direito de dizer a mim mesmo “sou um leitor”, não importa que outras leituras fizesse. Então, dos títulos machadianos, o nome Dom Casmurro chamou-me mais a atenção não sei porque (títulos de livro chamam a atenção, saibam os autores). Além disso, o fato de os vestibulares praticamente não o incluírem nas listas de leituras obrigatórias (soube que constou anos depois), isso incentivou-me ainda mais a lê-lo por livre vontade.
Enfim, ao Dom Casmurro. Não entrarei muito no drama de Bentinho e Capitu. Ok, só um pouco: acho que ela traiu, sim (como não? O narrador diz que a menina era sonsa que só, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Precisa mais? Capitu não era lá flor que se cheirasse, o narrador diz). Bentinho, coitado, era um sujeito meio tacanho. Acho que ele não merecia Capitu, no fim das contas. Quero dizer, não era pra ele. Se bem que o moço se esforçava, mas faltava-lhe um borogodó, um não-sei-quê, um charmezinho mínimo a mais. Numa gíria paulistana abandonada, diria que Bentinho era meio cururu. Xucro, mesmo. Logo, se ganhou um chapéu de touro, indiretamente fez por merecer.
Mas este não é bem o ponto: estava a ler os desencontros de Bentinho e sua Capitu quando algo me ocorreu. Eu nem escrevia nada ainda, apenas lia, mas pensei “caramba, como Machado consegue inventar esses personagens?” Notei que seus personagens não eram criaturas distantes como marcianos, mas gente de verdade que — tem-se a nítida impressão — ele conheceu mesmo e apenas mudou os nomes para não o pegarem a pauladas nas ladeiras do Cosme Velho.
Ou seja, Machado treinou o olhar. E ele não precisou ser nenhum autor muito viajado e cosmopolita, como de fato não o foi: jamais saíra daquele seu pedaço de Rio de Janeiro. Ele extrai os personagens desde uma geografia restrita, um espaço compreendido entre seu bairro, o centro da cidade, e pouco quilômetros em volta. E, sob arguta observação, anota, deriva e cria seus tipos. Depois, conta com a valiosa ajuda de Shakespeare, Sterne, Dickens, Schopenhauer…
Por que ninguém cria mais personagens assim na literatura brasileira hoje em dia? Com essa ‘verdade? Pensando um pouco nisso, concluí algo simples como toda obviedade: porque os autores, acho, não saem tanto à rua para observar calmamente as pessoas com a devida atenção e amor. O que são os personagens da ficção senão as pessoas comuns do dia a dia? A balconista da loja, o vendedor de alho na esquina, o taxista que não perde um jornal do Datena. Cada um que está ali rende um ótimo personagem, bastando olhar e observar bem.
Quando li Dom Casmurro, a internet não tinha tanta abrangência como hoje. A coisa mais interativa (verbo ultrapassado) que havia era o Orkut e os fotologs, os chats e o MSN (que eu detestava). No entanto, ainda havia o predomínio da televisão e sua overdose de dramaturgia em novelas e filmes, com tipos pensados para o público captar de imediato e não se aprofundar muito. Pois bem: o problema para o ficcionista atual é que, tome-se anos disso, e toda observação do alheio parecerá esquemática, achatada, artificial e sem complexidade.
Nos seus dias, Machado não teve esse problema: para conhecer as gentes, ele ficava entre elas, vivia com elas, sentia-as como energia ativa e matéria-prima de sua ficção. Ouso dizer que, nas andanças do Bruxo, sua imaginação se forçava a captar aqueles tipos interessantes direto na fonte; sem, claro, sofrer o atual refluxo mental das tantas telenovelas e filmes e séries americanas. Então, a pureza ficcional lhe era possível obter in natura.
Por outro lado, as pessoas também expressavam personalidades bem mais autênticas que, imagino, manifestava-se em cada gesto, olhar, expressão e tom de voz. Para um jovem Machado, em início de carreira e com muita vontade de escrever, deixar de documentar aqueles tipos seria um sacrilégio. E, por pensar assim e sobretudo fazer algo a respeito, a sorte foi toda nossa.
No fundo, não acredito que tenhamos perdido a mesma capacidade machadiana de compor personagens. Claro, existem as dificuldades mencionadas, sem dúvida, sobretudo as relacionadas à pureza da observação. Se o olhar está viciado, torna-se difícil não adotar esquemas prontos, soar artificial; então, a prosa torna-se apenas um jogo de palavras e não se atinge o coração, a alma da ficção.
Seja como for, os tipos estão ainda por aí, todos os dias; há muita gente ao nosso redor a nos chamar a atenção, se pararmos um pouco para observar o elemento humano camuflado na paisagem. O mal a vencer nesse caso, creio, é não acreditar muito no estereótipo imediatamente projetado e ultrapassar a barreira enganosa do pensamento pré-fabricado. Não sair reduzindo, julgando com categorias morais sem prestar a devida atenção, eis a primeira regra do bom observador e futuro escritor.
Ultrapassar o estereótipo, não deixar-se levar pelos esquemas da teledramaturgia; amar e sentir com dedicada atenção a humanidade mais essencial dos personagens, sem tratá-los com condescendência nem superioridade de magistrado. Mais: não fazer troça a partir de impressões superficiais e darmo-nos por satisfeitos por isso, de modo a achar que a ironia basta para descrever bons personagens. Literaturas assim são sempre apequenadas, rasas, medíocres.
Não pretendo impor regras a ninguém, o que é isso. Faço uma reflexão para uso próprio e a passo adiante, para que até a discordância ganhe substância e ajude nalguma possível síntese. Mas quero crer que me acompanham neste simples raciocínio uns pesos-pesados da chamada literatura de ficção: uns sujeitos clássicos feito o nosso Machado, que ninguém com algum juízo ousaria menosprezar.
O vendedor de consórcios
Pouco importa a auto-imagem que o homem de meia-idade faça de si mesmo, ele sempre projetará a imagem de um vendedor de consórcios. Inclusive o tratamento que receberá comprovará isso: todos falam a ele como a um vendedor de consórcios.
Se o homem de meia-idade for um tipo esportista e praticar jogging nas ruas do bairro, ele será quando muito um nada admirável vendedor de consórcios que corre, sob a demanda de ninguém. Depois, se vê passar na rua a moça bonita de 27 anos, ele lembrará a si mesmo como está em pleno vigor físico pois sente isso nas veias, e pensará portanto que poderia atendê-la bem em certos assuntos melhor que muito moleque da idade dela. Porém, não se dará conta de que, da parte da moça, as entradas e saídas no alto da cabeça a faz ignorá-lo em modo automático, como a um banal e perfeitamente esquecível vendedor de consórcios.
Não se creia por isso que o homem de meia-idade para nada sirva. Ele serve, e aliás sua obrigação é exatamente essa: servir. Quer dizer, ser funcional. Cumprir com rigor o papel que a dita sociedade reserva a ele, de preferência sem manifestar-se muito, que a etiqueta do século 21 não lida bem com manifestações de homens de meia-idade.
Aliás, homens de meia-idade deveriam trocar a manifestação pela continuidade rotineira, feito um devotado, silencioso e invisível vendedor de consórcios, que tão somente carrega sua pastinha a cada dia, como todos os outros. E depois torcer para que alguém, ao acaso, queira comprar algum consórcio seu. Se fosse a moça de 27 anos que passa na rua, aí seria a consagração. Mas muito dificilmente será, e ele sabe. Na meia-idade, ele sabe.
* * *
Impressões literárias
Não sei onde li que dona Rachel de Queiroz foi exímia leitora de clássicos desde tenra idade. Aos dezoito anos, a mocinha Rachel tinha o cânone na ponta da língua, consta. Bem diferente de mim, que fui sempre leitor trôpego e irregular, sempre li mais o que dava vontade de ler em detrimento do que devia ler. Leio melhor livre de obrigações, se puder escolher o que ler em seguida. Essa liberdade ajuda inclusive a impor-me alguma autodisciplina na leitura, que afinal faz mal a ninguém. Ao contrário.
O primeiro capítulo do Outono da Idade Média, de Johan Huizinga, “A veemência da vida”: um dos mais belos capítulos já escritos num livro de História. É tudo tão belo e mágico que é difícil acreditar que um tempo assim realmente existiu. Huizinga leva-nos pela mão para conhecer a singularíssima humanidade da Idade Média, da qual realmente pode-se dizer, uma sociedade feita de indivíduos (pois é, sociedade burguesa). Leia o Outono da Idade Média, cara inscrita, caro inscrito: capítulo por capítulo, sem qualquer pressa na vida. Será inesquecível, garanto.
O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, dificilmente não será minha leitura do ano. Faz tempo não me emocionava com uma novela. Há muito não encontrava um livro de que eu pudesse dizer “este foi escrito para mim”: sou Giovanni Drogo, o protagonista. Me vi nele e não quero acabar como ele. É, existem livros assim. Com o tempo eles vão se escasseando. Mas O deserto virou um dos meus clássicos pessoais, e ainda o lerei novamente.
* * *
Drops Dulcora
Os áudios dos smartphones tem viciado as pessoas no som da própria voz, acho. Como um reflexo de Narciso no lago — reflexo sonoro, no caso — as pessoas falam para se ouvir, inebriam-se consigo mesmas. Se questionadas, certamente negarão. Mas qual a razão de tantos áudios de WhatsApp, uma praga da atualidade, essa mini-síncope eletrônica entregue via notificação? Pois eis um mal de que ninguém fala nos meios mais chiques.
A direita de hoje, segundo Nelson Rodrigues. A esquerda de hoje, segundo Otto Maria Carpeaux. Que diz Nelson de quem acampa em quartéis e clama a pneus? Que diz Otto de quem fala todes, bem-vindes, e se refere a si mesmo como “corpos”?
Um bom professor de Língua Portuguesa ensinaria sua matéria aos alunos como se ensina Matemática. Um bom professor de Matemática ensinaria sua matéria aos alunos como se ensina Língua Portuguesa.
* * *
Quem disse
“O avanço tecnológico é rápido. No entanto, sem que haja progresso na caridade, o avanço tecnológico é inútil. Na verdade, será mais nocivo do que útil. O progresso tecnológico nos tem apenas suprido de meios mais eficientes para regredirmos.”
— Aldous Huxley
*
“Um puritano é uma pessoa que põe indignação justa em coisas erradas.”
— G. K. Chesterton
*
“O prazer é a felicidade dos loucos. A felicidade é o prazer dos sábios.”
— Barbey D’Aurevilly
* * *



