#62. Falo sozinho
Uma crônica de costumes. No caso, um costume meu
Ah, people asking questions
Lost in confusion
Well, I tell them there’s no problem
Only solutions— John Lennon, Watching the wheels
CREIO TER CHEGADO A UMA CERTA FASE DA VIDA, a intermediária, em que não há mais necessidade de pendurar máscaras e lutar por manter as aparências. Não que eu finja não ligar para impressões alheias, mas se ligo, é numa intensidade bem mais modesta que na juventude; e mesmo assim para evitar desgastes, pois todo desgaste é um problema que se prolonga mais do que deveria. Então, evito. De modo que tento não dar más impressões; porém, se ocorrer, será por acidente. Consumado o acidente, o que se pode fazer? O negócio é levantar e seguir em frente após o tropeço vergonhoso.
E nem é de tropeço que trata essa crônica. O caso é que falo sozinho. Desde a infância falo sozinho, não lembro quando comecei. Confesso agora porque há um bom tempo não vejo motivo para vergonha nisso, mas durante muito tempo tentei sustentar uma dignidade vã, impingida, para não ser pego nesse flagrante tão escandaloso.
O caso é que desde que me conheço por gente pratico a arte do diálogo interno, nome mais bonito: por dentro, nunca me senti mal com isso, e jamais achei que fosse um problema. Do tal problema, aliás, eu só ouvia os outros falarem: ele estava sempre na boca alheia, a começar da família.
Quando pequeno, havia o constrangimento de ser pego falando sozinho. Esse é o maior problema, te pegarem. Pegar é o verbo correto, pois para muita gente falar sozinho é uma espécie de crime não-tipificado em lei. Para mim, ser pego falando sozinho era constrangedor porque alguém poderia escutar intimidades do espírito que deviam ficar apenas lá mesmo, no espírito. Ouvir a conversa do falante consigo próprio constitui a pior das violações: a violação espiritual.
Para os outros, problema; para mim, solução. Ora, querem saber? Sempre fui minha melhor companhia. Sempre me dei super bem comigo mesmo, e a mim mesmo posso contar o que penso, sempre entendendo minhas motivações profundas. Eu me compreendo! Às vezes me cobro também, reconsidero as decisões. Eu não me endosso o tempo todo, se assim parece.
Por esse meu modo herdado das estrelas ou sabe-se lá de onde, sempre fui meu próprio terapeuta, a vida toda; e o diálogo interno (não monólogo, pois o eu de dentro responde ao eu de fora; diálogo, portanto), pois bem, o diálogo interno já me mostrou grandes saídas e soluções na vida. Quando errei, e não foram poucas vezes, foi muito mais por não me dar ouvidos e ouvir a outros em meu lugar. Foi por me trair.
Agora, de onde tiraram que falar sozinho é coisa de louco? Preconceito bobo. Mas tento entender esse pobre senso comum, e penso que se referem a esquizofrênicos do mais alto grau. Todo mundo já viu a cena: é andar pelas ruas do centro da cidade e se deparar com um mendigo altercando agressivamente com um fantasma, às vezes com violência. Pois bem, há de vir daí o tal falar sozinho é coisa de doido. Mas o nosso doente mental não fala consigo mesmo exatamente. Ele responde a estímulos malignos, grita a alucinações que o perturbam. Por favor...
De minha parte, garanto, ninguém me verá a praguejar na rua. Minhas falas-para-dentro se dão num nível civilizado. Nessa atividade, inclusive, dou umas pausas necessárias ao pensamento e pratico uma audição lenta e compreensiva, sei esperar a devida resposta do outro lado do eu. Nada de gritos. Nada de escândalos.
Além disso, existe uma distância abismal entre o diálogo interno e o não falar com ninguém. Quando preciso, falo a qualquer um e a qualquer uma. Também escuto os outros (na maior parte porque preciso, mas vá lá). Ocorre que — e digo com toda a franqueza —, quase a totalidade das pessoas com quem falo além do protocolar me parece sumamente desestimulante. Há louváveis exceções, que não contam os dedos da mão. No geral, não sei você, mas as pessoas ao meu redor são bem tediosas e algumas muito limitadinhas além de tudo. Evito chamá-las burras, embora sinta que perco algo falando a elas.
Contudo, não me leve a mal. Estou sereno. Mas é fato, quase ninguém so derredor parece ter um papo estimulante até prova em contrário. Não sei porque é assim, mas já caí em roubadas e hoje despisto. No mínimo porque é bem provável que a pessoa não goste de nada que eu goste, e se eu entrar em determinados assuntos listados em minha órbita mental, ela entenderá patavina. No fim, me achará chato, se não matusquela. Daí, para contornar o problema, eu é que terei de me sujeitar: ajoelhar perante o altar da Grande Trivialidade Brasileira e assuntar uns temas bem ao rés do chão, coisa que a maioria (a mesma gente que abomina o “falar sozinho”) adora: um aranzel de bobagens sem fim.
Sei que pareço misantropo, quem sabe antipático; e talvez eu seja mesmo em parte, pequena parte, jamais no todo. Nem podia ser: tenho o que se pode chamar de círculo social de classe média: família, parentes, colegas de trabalho e cidadãos em geral conforme pede a circunstância. Nem que eu quisesse poderia ser misantropo.
Outra confusão bastante comum é achar que quem dialoga internamente faça isso o tempo todo. Não, não! Chega uma hora que cansa, também. O tal falar sozinho, ao menos no meu caso, é uma espécie de elaboração do pensamento, uma carpintaria de percepções. Acho que Kant me entenderia: dialogo internamente quase sempre em busca de uma melhor categorização dos incômodos filosóficos do dia. Porque, veja bem, eu filosofo tudo, até pisões no pé; vejo objetos de análise intelectual quando vou ao mercado, à pracinha, à estação do metrô. Daí, elenco as observações e discuto os problemas observados. Para dentro.
Por outro lado, escuto as vozes alheias também, não só a minha: especialmente vozes dos autores literários que aprecio, nos livros, ou vozes prazenteiras nas músicas que gosto; às vezes, vozes de uma boa entrevista num podcast. Tudo na santa normalidade, certo? Então ouço a outros, sim, e graças a Deus existe a bendita internet para nos ajudar: imagine o tormento se meu círculo de interesses não fosse regularmente abastecido por ela. Isola.
Confissão feita, sinto-me mais leve agora. Confissão sem remissão, devo dizer, pois pretendo continuar a falar comigo mesmo enquanto puder. Porque não foi nenhum pecado que acabei de confessar, bom leitor e boa leitora, mas sim uma virtude, coisa que me faz muito bem e que aliás recomendo.
Poderosa Isis
Leio na Folha que Isis Valverde é indicadíssima ao prêmio Framboesa de Ouro como pior atriz coadjuvante. Logo na estréia em Hollywood lhe aprontam uma dessa? Para quem não sabe, o Framboesa de Ouro é o anti-Oscar, ele premia os piores da telona.
Mas o que deu naquela gente? Ninguém interpreta Isis Valverde melhor que Isis Valverde, saibam os doutores. Seu ás na manga é a voz rouquinha-sapeca. Ela sempre faz e funciona. Mas parece que gringo não entende a mágica.
Isis Valverde tem um ar de gata do bairro. Não do país ou universo: do bairro. Que chama a atenção no supermercado. (Para mim, dá e sobra.)
Mas leio a notícia e lembro de algo.
Um dia estou a flanar pelo centro de São Paulo, no pós-pandemia. Várias lojas fechadas, placas de aluga-se para todo lado. Pois vou eu por ali e vejo uma loja improvisada com uma faixa pendurada: “livros por R$ 10”. Entrei.
Então percorro as mesas e fico tentando achar uma flor no pântano dos livros-bomba. Daí acho o quê? Um livro de Isis Valverde. Pois é, José.
Fiz questão de folhear. Devo dizer: chamava a atenção o tratamento editorial que deram ao livro. Papel de primeira, diagramação bonita, cor especial. Caprichou, a editora. Realmente, um livro muito bonito. Tinha uma pilha deles ali, cada um a dez paus.
Eram poemas de Isis. Como a edição é anterior ao ChatGPT, quero crer que ela escreveu mesmo. Pelo que vi, nada que ameaçasse Camões: coisas mais ou menos como “amei/ sofri/ renasci/ agora cuido de mim.” Chuto, de cabeça. Decerto tinha um “que” perdido ali para tropicar a língua.
Então nossa Isis é polivalente: gatinha global e poeta. Agoríssima, atriz de Hollywood. E querem despremiá-la logo de cara? Que maldade...
Vivo fosse, Stanislavski voltaria à escrivaninha após ouvir o rouquinho de Isis Valverde. Que incorporar personagem o quê: ator que é ator interpreta a si mesmo, diria um arrependido Stanislavski, para depois citar quem? Nossa poderosa Isis, ora essa.
Quem disse
“É preciso que nós sejamos dignos e que os outros nos amem. É injusto que nós não o queiramos. Se nós fôssemos razoáveis e com algum conhecimento de nós mesmos e dos outros, então não teríamos senão essa inclinação. Nós nascemos todos injustos. Cada um tende só para si próprio. Isto é contra toda ordem estabelecida. É preciso tendermos para o geral. E a tendência só para nós próprios é o começo de toda a desordem, da guerra, da ação policial, das alterações da economia, etc.”
— Pascal
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“As palavras honestas revelam a honestidade de quem as pronuncia ou escreve.”
— Miguel de Cervantes
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“É na limitação que se revela o mestre.”
— Goethe
Direto do almoxarifado
Prosaica Podcast
Na edição 13 do podcast, reflito um pouco a respeito das redes sociais. Qual é o combustível move esse grande ponto de encontro digital? Por que as redes fascinam tanto? Como dominá-las e não ser dominado por elas?
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