#63. Estudando o conto
Um breve exame desse gênero literário tão ancestral quanto fascinante
DIA DESSES VI UM COMENTÁRIO de uma agente literária falando a aspirantes a escritor: “não comece escrevendo romance, comece pelo conto”. Já escutei este conselho de outras bocas, e não digo que seja mau conselho, mas ao mesmo tempo, é; intencional ou não, penso que o pobre conto tem sido injustiçado por essa visão superficial a seu respeito, sempre tratado como coisa secundária e menor.
De cara, a noção generalizada de que conto é fácil, romance é difícil há de fazer sentido pela medida: o conto mede uma fração do romance em número de palavras. De fato, seu tamanho é bem mais curto; logo, supõe-se, mais fácil e prático de fazer. Algo como uma refeição congelada, que leva só três minutos no microondas.
Mas será isso mesmo? Conto é assim coisa tão secundária e instantânea? Não me parece justo. É verdade que o mestre do gênero, Anton Tchékhov, dizia que um conto não deve levar mais que três dias para ser escrito. Mas essa relativa rapidez para escrever pode implicar semanas, meses de elaboração na cabeça do escritor. Quem sabe até mais tempo.
No caso do romance, escrever um que valha o nome é realmente complicado, trabalhoso, meticuloso. Demora mesmo. Já cheguei a me perguntar porque se leva tanto tempo para escrever um romance (ao menos os melhores deles). Descobri então que a demora não se dá bem em quantidade, mas em qualidade de tempo. Não raro, para achar a ‘cola’ dos capítulos, ou mesmo para decidir – e bem – o que determinado personagem irá fazer no instante seguinte, leva-se semanas ou meses. Pode-se levar dias e dias para fechar um parágrafo ou continuar uma cena. Às vezes, capítulos inteiros não servem, não convencem, e precisam ir impiedosamente ao lixo ou a narrativa não funciona. O romancista pode ser tudo, menos indulgente consigo próprio. Senão, fará inescapavelmente má literatura.
Tudo isso para chegar à tal da verossimilhança, o famoso não é verídico, mas bem que podia ser. Verossimilhança é item obrigatório na literatura de ficção, o que a torna, não raro, um retrato acabado da vida e do destino humano em si mesmo: por isso que Bentinho, personagem ficcional, é mais verdadeiro que qualquer político de Brasília, personagem real.
Então fazer romance é difícil, está certo. Mas daí não decorre que o conto seja fácil. Fácil é inventar historinhas, outra coisa.
Por baixo do conto verdadeiro sempre há um significado. Há uma questão de fundo ali, ou algumas questões. Não me refiro à situação patente do conto, por exemplo, um casal em crise (algo que suscite imediatamente um “oh, esse casal não se entende nunca!”; isso é óbvio e nem precisa de conto para saber que problemas são corriqueiros em casamentos).
Como o conto trabalha com impressões imediatas, o cenário desempenha nele um papel fundamental. De igual modo, o clima, o ambiente apresentado, o humor ao derredor. Depois, a disposição, o espírito dos personagens – sempre poucos, às vezes um só. Tudo precisa conter um fundo maior por baixo, um substrato geral que abranja a narrativa apresentada. No conto, cada mínimo detalhe demonstra um sentido sem explicá-lo nos pormenores, como, de novo, ensina Tchékhov: “não me diga que a lua está brilhando; mostre o reflexo da luz num caco de vidro”. A frase original é bem mais longa.
O conto é dos gêneros mais tradicionais da literatura. É herdeiro das fábulas de Esopo e das parábolas de Cristo. Nosso Senhor faz inclusive um exercício meta-literário ao declarar que prefere usar parábolas para ilustrar Seus ensinamentos. (cf. S. Mateus 13:10,17; S. Marcos 4:11,12). A maioria das parábolas de Cristo se encontra no evangelho de São Lucas, não por acaso o único escritor de ofício dos quatro evangelistas (além de médico).
De modo que o conto fala na superfície enquanto diz no fundo: para captar sua mensagem, é preciso lê-lo com calma e atenção. Seu proveito estará no que ilustra, mais do que no narrado em si. Por isso, é gênero complexo, sim, dos mais difíceis de se fazer. E a narrativa, claro, contém uma certa intencionalidade do escritor. Deixemos a inocência. O conto não se trata de uma historinha para distrair, a esmo, por mais criativa que seja. É ler os grandes contistas e conferir que sempre há algo ali.
Voltando à orientação de nossa agente literária, diria em minha modesta opinião que ela está equivocada. Não que cometa um erro clamoroso, mas trata-se de uma confusão bastante comum o de achar conto simples de fazer.
O escritor, antes de sentar e escrever o conto, precisa refletir mais de uma vez, algumas, muitas vezes: o que meu conto quer dizer? O que pretende ilustrar? Algo que pulse em seu espírito e precise “ser expulso” pelo conto.
Se o autor sabe o que vai narrar mas não o que a narração quer dizer, transmitir, ilustrar, deixar subentendido etc., então ele não tem um conto. Tem, quando muito, um esquete, umas cenas, e tome frasezinhas espertas e recursos textuais para rechear os parágrafos. Vá lá, nenhum crime; em geral, sete de cada dez livros de contos nacionais são assim. E, infelizmente, ficam abaixo do gênero.
O ficcionista não apenas inventa narrativas, insisto. Ele comunica algo ao leitor, algo a que a imaginação atenta deste chegará, seja em parte ou no todo (e nisso a crítica literária desempenha um papel fundamental, mas este é outro tópico). A história narrada será apenas o excipiente da fórmula, o veículo que contém o ingrediente ativo do fármaco e facilita sua ingestão.
A literatura não é um balão solto no ar. Ela sempre deixa algo com o leitor: se não as respostas, ao menos as perguntas. E este já é um grande passo! O escritor precisa se deter profundamente num problema da existência para saber como questioná-la de modo pertinente, penetrante.
Então, seja no conto ou no romance, a genialidade do autor se dará na medida do quanto sua narrativa transmite ao leitor a questão subjacente ao texto.
Sem dúvida há algo de enigmático nisso, embora não muito: se o leitor enxergar a questão embutida em cada conto, significa que o texto foi bem lido, e o trabalho do ficcionista, bem executado.
Essa é toda a graça da coisa… é isso que torna a literatura tão instigante e proveitosa: trazer ao leitor um tesouro escondido.
Batatas!
Entendidos dizem, e eu confio: a batata tem origem sul-americana, mais especificamente andina, no Peru. Teriam os deuses astronautas plantado o tubérculo há coisa de oito mil anos por ali.
Soube disso há pouco tempo. Quer dizer então que a batata é cosa nostra neste cantão de meu Deus?
Explico porque falar em batatas a uma hora dessas: é que o tubérculo é ingrediente tradicional de muitas culinárias do outro lado do Atlântico. Isso me deixou encafifado.
Ora, o prato mais tradicional e característico da Inglaterra, consta, é o tal fish and chips. Peixe e batatas fritas. Na terrinha nossa irmã, Portugal, o prato nacional é o Bacalhau à Gomes de Sá, repleto de azeite, azeitonas, ovos e batatas, além do misterioso peixe (quem foi o sr. Gomes de Sá, aliás? Não vou pesquisar; há graça em ignorar algo).
A batata vai em pratos mui tradicionais da França (a versão sautée, na manteiga, sem contar o purée, bem amassadinho). Também há versões na Itália (ingrediente do popular gnocchi), e até em terras européias mais remotas, como Grécia ou a obscura Romênia. Há versões belgas, holandesas; e a Alemanha tem lá a sua Kartoffelsalat, a famosa salada de batatas. Das fries americanas, cá em nosso continente, nem se fala. A batata é patrimônio mundial.
Se estudasse antropologia numa federal e tivesse o cabelo azul, diria que a Europa fez uma apropriação cultural e colonial. Falaria isso alisando um gato e tomando uma kombucha no meu apê em Santa Cecília.
Mas fica a questão: os europeus levaram daqui o tubérculo e aquilo mudou sua alimentação para sempre. E antes? Comiam o quê os colonizadores sem conhecer nossas bolotas amareladas?
Circulo até chegar ao ponto que é o seguinte: a considerar a chegada da batata por lá, as tradições culinárias da velha Europa não remontam mais que meia-dúzia de séculos. O que significa que nós, pobres colonizados deste lado do mar onde submergiu Atlântida, não somos assim tão júniores em relação a eles. Se no Brasil temos uma culinária que remonta a quase seis séculos, por exemplo, eles também não passam muito longe disso.
Então podemos falar de igual para igual, ora vejam. Quero dizer, ao menos na culinária que envolva nossas queridas batatas. No resto, é verdade, a gente ainda precisa melhorar um tantinho para um possível tête-à-tête.
Quem disse
“Quem carrega livros deve esquivar-se de rixas. Afinal, ninguém tem obrigação de prestar atenção às bobagens de um transeunte qualquer. Perder-se em palavreado é o pior perigo que pode ameaçar um sábio.”
— Elias Canetti
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“O último refúgio do oprimido é a ironia, e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapará a ela. O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade.”
— Millôr Fernandes
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“Todos vivem e agem, em parte, segundo os próprios pensamentos e, em parte, segundo o pensamento dos outros. A proporção em que as pessoas vivem segundo os próprios pensamentos e segundo os pensamentos dos outros constitui uma das principais diferenças entre as pessoas.”
— Tolstói
Direto do almoxarifado
As celebridades e a histeria coletiva
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Gostei do texto, e concordo. Obrigada
Ótimo texto, atualmente estou lendo O Bom Mal de Samanta Schweblin e é perceptível como os contos tem profundidade, especificamente entre a conexão das emoções dos personagens com os elementos apresentados (objetos, animais) e o desenvolvimento das trama em si. Quanto ao que mencionasse dos contos deixarem respostas ou perguntas, acredito que a Autora consegue trazer ambos em um mesmo conto.
Inscrito ao seu sub Fernando, gostei muito!