#64. Livros, livros, livros
A quantidade de livros sempre anda na frente do tempo para ler. Como lidar com o impasse?
If you’re searching out for something
Don’t try so hard
If you’re feeling kind of nothing
Don’t try so hard
When your problems seem like mountains
Feel the need to find some answers
You can leave it for another day
Don’t try so hard— Queen, Don’t Try So Hard
TODOS QUE LÊEM SABEM como a literatura é necessária para a boa formação do espírito, do imaginário, da compreensão do mundo e da humanidade, etc. e tal. Quem lê com regularidade entende bem a importância do ato de ler, e por isso mesmo recorre aos livros, não só por alguma disciplina ou quem sabe terapia pessoal, mas antes de tudo pelo prazer de ler. Creio ser esse o motivador número um do leitor, e leitura proveitosa para a alma, aliás, será sempre essa movida por gosto pessoal.
No entanto, falta tempo para ler tantos livros quanto queríamos. Mesmo se listarmos os mais essenciais deles, numa lista bem restrita, não haverá disponibilidade para essa lista seleta. E, de certa forma, o pouco volume dessa leitura necessária gerará alguma pressão a cada olhada na estante, com as lombadas sempre a se acumularem. Então, o que era algo a se comemorar – o fato de os livros fazerem cada vez mais parte da vida – aos poucos vira uma complicação até estressante.
Esta modesta newsletter se antecipa a um problema que, entendo, pode acontecer ainda nos próximos meses a muita gente, se é que já não está acontecendo: a saturação dos livros. A cena é mais ou menos conhecida: a moça ou o rapaz enche os carrinhos de títulos todos os anos numa Black Friday irresistível; ou quem sabe assina o clube de livros preferido, talvez mais de um. Daí, os volumes vão lotando a estante, acumulam-se, e chega um ponto em que se sabe que a maioria não sairá do plástico tão cedo.
Entretanto, o bom leitor gostaria de lê-los todos, um a um; mas aquilo parece cada vez mais difícil, às vezes beirando o impraticável. Isso sem contar os títulos importantes que só se acham em sebos (ou, como chamam nossos patrícios, palavra que prefiro: alfarrábios); ou quem sabe surge o livro contemporâneo tão interessante que acaba de sair e pede uma furada na fila…
Convenhamos, isso tudo pressiona, gera cobrança. Enquanto a oferta de títulos só aumenta, os volumes em casa se agigantam. Dizer não, numa hora dessas, parece alguma negligência que cobrará seu preço espiritual lá na frente.
Seja como for, leitura e pressão são palavras que não combinam, ou pelo menos não deviam combinar. Uma vida de leitura regulada por disciplinas impostas desde fora – como a de ler apenas clássicos, moda ditada em certos cantos na internet –, leva inevitavelmente a uma extenuação após um tempo. Não é difícil que isso se reflita mais à frente num mau-humor, despejado injustamente sobre certos autores importantes e não sobre o alvo mesmo do cansaço que é a leitura compulsória, imposta por uma rigidez de comportamento.
Já deu para perceber que falo ao leitor costumeiro de literatura. De quem não lê e tem sempre uma desculpa na ponta da língua para isso, tratei numa newsletter anterior (link abaixo). Mas, quanto a essa pessoa rara que é o leitor frequente, mesmo sem ter à disposição todo o tempo que gostaria para ler, ele ou ela segue lendo e não desiste. A questão é o crescente descompasso entre livro lido e livro por ler. Nesse caso, o perigo é o de cair na estafa mental provocada por não dar conta nunca. E então, largar de vez.
Se o rol de compromissos só parece aumentar, é natural que enfrentemos uma mudança de humores que indisponham à leitura. No torvelinho da rotina, a primeira vítima é sempre a leitura. E a intensidade desse cansaço que faz distanciar da leitura varia conforme idade e circunstância. Entretanto, amigo leitor, considere que você é também humano, logo, sujeito às intempéries da vida; sujeito, inclusive, à fadiga do que quer que seja. De livro demais, inclusive. Até aí, sem problemas.
Seja como for, você sabe que precisa ler, tem essa necessidade interna. Então, como diria certo russo bastante controverso, o que fazer? Para não se perder em mil considerações, saliento duas coisas que entendo serem úteis nessa hora.
Primeiro, penso que a leitura de literatura deve necessariamente acompanhar o ritmo da vida. Ora, ler não é questão de pressão ou de performance, não maratona ou corrida de 100 metros rasos. Ler é hábito movido por afeição. Daí, tirar três minutinhos para ler um soneto bem lido e bem pensado fará melhor que forçar uma hora a alguns capítulos mal lidos e apressados; a menos, claro, que se possa fazê-lo com alguma qualidade de atenção.
Segundo, dosar a ordem das leituras. Alternar o clássico com o contemporâneo, o necessário com o afetuoso. Inserir poesia nos intervalos para aliviar a carga. E, se quantidade de títulos for o problema, dar uma pausa nas compras em excesso. Optar por escolher títulos um a um, por interesse específico no título e por espaços de tempo mais rarefeitos. Fora que de vez em quando é bom revirar as prateleiras de casa, tirar livros da fila, olhar com calma as coisas boas esquecidas num canto. Quanto ao título novo, que venha se juntar aos demais apenas por um interesse especial ou por alguma motivação que surja de repente e peça uma leitura imediata.
A verdade é que jamais leremos tudo, mesmo. Nem mesmo os títulos mais indispensáveis. Então, para não apagar a chama interior de vez, leia o que seu interesse afetivo orientar no momento. Sabe, aquela curiosidade? Ler por interesse pessoal é o maior motivador que há, repito.
Fica fora disso, claro, a leitura necessária, de estudo ou instrução. Falo de literatura voluntária, da qual só a procura espontânea faz bem.
De resto, há tanto neste mundo que nos faz mal, não? Que a leitura mal empregada não seja outra ruindade neste mundo de contrariedades. A literatura é deleite, escape, benefício interior. Não faça dela um fardo, não. Ela existe justamente para aliviar os fardos da vida.
Brevíssimo manual de como ouvir MPB
De cara, não gosto de MPB, a sigla. Música Popular Brasileira nunca foi popular, mesmo. Chico Buarque, popular? Delírio. Nunca se ouviu um Chico Buarque numa laje brasileira.
Contudo, existem canções boas na dita MPB. E muitas são realmente boas, acho. Há um criteriozinho para identificar a boa MPB: seus melhores representantes não ligam para a sigla, nem se forçam a representantes dela. Por isso são bons.
De todo modo, é possível gostar de MPB? Penso que sim, e aqui há um ponto de partida para se identificar essa boa música brasileira: o músico-cantor-banda brasileira em questão será rigorosamente aquele que não diz “tenho de fazer uma música bem brasileira, axé meu povo, oiê, oiá”, e coisas assim. Não: ele ou ela simplesmente compõe, interpreta e manda o recado. Outra coisa, com belos instrumentos musicais no fundo. Bons cantores sempre contam com bons músicos. Embora valorize a letra, as melhores músicas brasileiras se sustentam pelo arranjo.
Mas ainda há uma teoriazinha que, se errada estiver, ao menos diverte. É o seguinte:
A música brasileira, mesmo a de melhor qualidade, pede um outro tipo de apreciação em relação às demais. Explico: a música em inglês, por exemplo, põe a melodia como prioridade, e só depois vem a letra, bem depois. A letra em inglês pode ter sentido ou não (se for de bom artista, terá), mas também pode repetir um caminhão de I love yous e cia., pois o arranjo e o vocal compensarão a ausência de teor lírico-poético, digamos.
No Brasil, não. Nós captamos a letra no instante. Assim, se a letra não fizer um sentido minimamente poético, digamos, não vai nos interessar nem um pouco. Ainda mais com aqueles sotaques forçosamente carregados para impingir um efeito raiz. Por isso que a música brasileira com letra curta e muito repetitiva, ou a cheia de cacoetes para soar original, tendemos a detestar, nada menos.
Por outro lado, observe: você escuta qualquer yeah yeah yeah no carro, seguido por um solo de guitarra ou sax, e maravilha, que música legal. Mas escute um repetitivo odoiê, oleiá e mais um violãozinho maroto de praia e já caceteia, enjoa na hora.
Por que isso acontece? Primeiro, porque sacamos logo o truque bobo, sem pensar muito. Mesmo um brasileiro bilíngue, embora saiba o que seja um brega I can’t fight this feeling anymore, ele desliga a maquininha de tradução automática no momento em que escuta. Ele ouve e pensa “que legal” por que a melodia se sobressai, o arranjo catchy, tal. O ouvinte assobia, faz nhãnhãnhã anymore e pronto, sai contente e feliz.
Note que, no inglês, as sílabas tendem a ser mais “musicáveis”, melodiosas. Sobretudo na música americana isso se deu por causa dos negros nas igrejas. Eles “musicaram” o idioma saxão e adicionaram melodia às sílabas, esticando-as e dando piruetas nas vogais e semivogais, de modo que isso levou a um nível melódico impressionante. No inglês britânico, mesmo sendo o berço de Beatles e derivados, o mesmo não acontece muito. Lá, a melodia é mais minimalista e experimental (não à toa ser ali o berço do progrock). Por isso que alguém disse (e faz todo sentido) que o britânico aprendeu a extrair musicalmente o máximo do mínimo.
Mas no Brasil, a letra ressalta até demais. Ela vem logo de cara. Então, aos nossos ouvidos ela precisa ser razoavelmente elaborada e vir embalada num duo arranjo e voz bastante agradável. A melhor MPB será sempre gentil e não pentelha, mesmo se no gênero rock. Vale a pena escutar a música assim com um bom fone de ouvido para captar os instrumentos, o arranjo de cordas, o piano, etc., porque, em geral, o arranjo gravado no Brasil é bem baixinho. Vai aí um pouco de narcisismo do cantor e da cantora, mas esse é outro tópico.
Claro que falamos da música Made in Brazil entre os anos 60 e comecinho dos 2000, quando discos ainda eram vendidos em lojas. De 2010 para cá, a safra foi caindo, caindo, caindo… Acho que o fim da indústria fonográfica feriu de morte a produção musical no Brasil. Nem falo do artista “democratizado”, que faz tudo do fundo do quintal num software pirata. Quase nada do que atualmente se faz por aqui conhece arranjador, produtor, principalmente um maestro. Mas nas antigas gravadoras isso acontecia.
De modo que, para achar boa MPB é preciso garimpar e ir além dos hits, abrir álbuns antigos de cantores e outros parecidos, descobrir o que ninguém diz. A internet e seus algoritmos dá essa possibilidade a qualquer hora. É importante sair dos sucessos repisados e achar as pepitas escondidas, mesmo dos artistas mais conhecidos. As pérolas estão no fundo, e não na superfície dos álbuns, guarde isso.
Mesmo assim, é capaz de tudo enjoar depois de um tempo. Nessa hora, é melhor dar férias para o ouvido. Música brasileira – a tal de MPB – é uma espécie de poesia tocada; daí que nem toda hora é hora de poesia. Ela se torna melhor quando vamos de coração disposto e ouvidos descansados.
Quem disse
“Somos nostálgicos de um lugar simplesmente porque ali vivemos, bem ou mal, pouco importa, o passado é sempre bonito, e o futuro também, aliás, só o presente é que faz mal, é que transportamos conosco como um abscesso de sofrimento que nos acompanha entre dois infinitos de felicidade.”
— Michel Houellebecq
*
“Poucos são capazes de compreender que é a força de executar suas tarefas todo dia e prontamente que faz santos e heróis.”
— Saul Bellow
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“Habitualmente detestamos o que nos é semelhante e nossos próprios defeitos vistos de fora nos exasperam.”
— Marcel Proust
Direto do almoxarifado
Link
Prosaica #35: Nascidos e não nascidos para ler
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Um bastidor. Eu e minha equipe composta por mim mesmo terminamos essa newsletter por volta da 1h da madrugada do domingo, dia da publicação. Por causa de certos compromissos do dia anterior, por pouco não há newsletter na quinzena. Mas eu não quis furar a data.
Os dois textos que compõem a newsletter estavam em forma de anotação, e eu fiz alguns acréscimos para complementar o sentido global da argumentação (a coisa de uma frase que puxa outra, etc.). Nesse processo, muita palavra saiu repetida, e certos períodos soaram redundantes. Uma revisão atenta, a frio, resolveria esse problema tranquilamente. Infelizmente não houve tempo hábil para isso, e para não perder a data, publiquei assim mesmo, apenas com uma releitura sonolenta tarde da noite.
Peço desculpas pelo inconveniente. É certo que um ChatGPT da vida não cometeria um erro tão primário, mas acontece que não uso ChatGPT ou similares para escrever nem para revisar. Prefiro o método ancestral, que, reitero, não é desculpa para descuido, ainda que nesse caso, involuntário.
Obrigado pela leitura.
Que maravilha de texto!!