#65. Quando a abundância engana
Uma lição que aprendi numa simples lojinha
CERTO DIA ESTOU SUBINDO A RUA AUGUSTA e me deparo com uma loja de discos. Talvez o jovem que me leia estranhe o termo loja de discos. Entendo: está acostumado ao termo mídia física, que evito, acho-o horrível. A expressão me soa muito anti-afetiva e é tão desdenhosa que beira a ofensa. Não sei, remete a alguma tralha dispensável, o que não é o caso aqui.
Tempo houve em que alguém dizia disco ou LP e todo mundo sabia do que se tratava. Havia toda uma cultura em torno. Para quem não sabe como o bichinho funciona, no disco de vinil há finíssimos sulcos prensados em espiral que, conforme a agulha os percorre, da borda para o centro, vai produzindo uma vibração mecânica; esta vibração é convertida em sinal magnético pela cápsula, e esta se converte em sinal elétrico pelo toca-discos, que depois é amplificado por um aparelho externo e, voilà, surge a música na caixa acústica. De modo que o vinil tem o som mais puro, pois está literalmente registrado na bolacha, esperando apenas por um aparelho que o extraia e faça o som viajar ambiente afora.
Mas voltando à loja, entro, olho em torno: milhares de discos de vinil bem acompanhados de fitas, CDs e DVDs. Adoro garimpar nesses lugares, fuçar, procurar... em geral, os donos nem ligam para fregueses como eu, do tipo que percorre prateleiras e vê capa por capa. É de praxe. De resto, os preços eram realmente muito bons ali, de modo que achei umas coisas interessantes, apesar do desconforto das instalações.
Desconforto, pois a loja era bem estreitinha, mal podia passar alguém enquanto outro estivesse diante dos estandes; algo que, imagine, podia gerar umas proximidades um tanto constrangedoras. Noto que as moças que ali entravam logo saíam, coitadas: o risco de uma esbarrada nada discreta era considerável. Já este homem-com-agá aqui precisou se contorcer e se espremer todo para dar passagem a algum outro freguês sem expor-se a, bem, certas raspadelas.
Mas sobrevivi à experiência. Então, separados os itens escolhidos, vou ao caixa. Como é tradição em toda loja pequena, especialmente nesse segmento, o caixa é também o proprietário da loja. Cumprimento o distinto, e mesmo sem conhecê-lo, passo àquelas mesuras e small talks todos para quebrar o gelo e não sair como quem compra drogas ilícitas e mal encara quem as vendeu.
Papo vai e papo vem, comentei com ele do costume que alguns tinham de escrever nas capas dos discos, colocar assinaturas ali. Evito comprá-los, disse; acho uma lástima o que faziam. Não sei por que havia no passado esses maníacos da Bic que não podiam ver uma capa cartonada e tascavam lá um autógrafo ruim: no mais das vezes, de um apelidinho bocó (que não há mais, nem em jogador de futebol, repare; o boleiro de hoje se chama Luiz Augusto ou Enzo Gabriel; lembro quando no Sport Club Corinthians Paulista jogava a dupla Embu e Baré). Ou, quem sabe, repousa ali a dedicatória a uma namoradinha levada no mar do esquecimento.
Tinha até quem rabiscasse o selo do álbum (crime hediondo) e marcava a faixa principal, o hit radiofônico do álbum, como se só aquela canção fosse importante e o resto se tivesse de aturar. Outro crime. Ora, o álbum encerra uma mensagem única, decodificada em cada música: ali está o estado mental-artístico do cantor, da banda, etc.; às vezes, o espírito de uma época. De modo que até a ordem das canções é importante, se não for coletânea de gravadora. Mas nesses discos rasurados, não raro a música conhecida é a mais gasta da bolacha, de modo que, ao reproduzi-la, o LP chia que é uma maravilha. Alguns ruídos chegam a incomodar mesmo, como se ouvíssemos uma fritadeira a trabalhar, com chiado mais alto que a música em si.
Foi isso que perguntei ao veterano que comandava a loja: o que dava naquelas pessoas? Por que rabiscar um item que, à época, não era nada barato? Sim, porque os LPs custavam um bocado de cruzeiros e cruzados. Manifestei a ele meu inconformismo com os vândalos de discos a ponto de atolar uma covarde Bic ali, sem dó nem piedade.
Aí, o homem falou e, não raro, as explicações mais simples são as melhores. Ele explicou como, no auge do mercado de discos, a sensação de abundância fazia com que o pessoal estivesse nem aí para o zelo. Era como se, a qualquer momento, pudessem retornar ao Museu do Disco, ao Bruno Blois, ao Brenno Rossi, ao Eldorado, à Mesbla, ao Mappin (nenhuma dessas lojas existe mais) e comprar outro disco daqueles. Estava disponível o tempo todo, tinha muito, em todo lugar. Opção não faltava.
No início dos anos 90, quando veio o CD – aquela coisa futurista, platinada e iridescente –, os bolachões pretos com um buraco no meio (apud Casseta & Planeta) foram ficando velhos, obsoletos, incômodos; pareciam até ridículos. À medida que o CD se popularizava e barateava por escala, ter um rack na sala só para abrigar aquele monte de bolacha perdeu o sentido. Além do mais, ninguém sabia ou conseguia extrair direito o som puro daqueles discos, o que exigia um equipamento sofisticado e conhecimento apropriado.
O que as casas médias tinham, no mais das vezes, era um três-em-um (toca-discos, rádio e toca-fitas) onde se punha lá o disco pra rodar: nada de pré-amplificador valvulado, agulha importada, limpador de poeira ou lavador de disco (sim, discos precisam de lavagem após um tempo). Eu era criança naquela época: a lembrança que muita criança tinha daquele tempo era do chiado do disco, dos estalinhos da agulha, ou até da repetição do famoso disco riscado que virava gíria nas rodas de conversa boomer: “riscou o disco? Vira o disco, cara”, etc. Diziam isso ao sujeito que vivia a repetir a mesma conversa fiada de sempre.
Quando veio o CD e os mini systems cheios de botõezinhos iluminados, houve uma espécie de corrida para livrar-se dos bolachões e suas caixas de som enormes: dava-se, vendia-se, jogava-se fora. Era comuml ver LPs nas calçadas esperando o lixeiro levar.
Foi quando, em 1996, o último LP foi prensado no Brasil. Até então, CBS Discos, Fonobrás e Sonopress fabricavam as bolachas. Todas fecharam. Os CDs que agora ocupavam o lugar vinham da Zona Franca de Manaus, e as velhas prensas do eixo Rio-SP tornaram-se peças de museu. As máquinas foram desmontadas pecinha a pecinha e vendidas a peso como sucata.
Saltando ao hoje, é verdade que o LP retorna com certo charme, mas nada que se compare à era de ouro. Retorna no estrangeiro, especialmente: vinis são vendidos no Wal-Mart em seções de música como antigamente. Só que não mais como o padrão da indústria fonográfica, mas um souvenir, coisa de puristas, entusiastas e colecionadores. Aos apreciadores brasileiros, domina ainda a velha safra, usada, encontrada em sebos e lojas dedicadas como a que fui. Nelas, há discos raríssimos que chegam a custar uma pequena fortuna.
Entre os garimpeiros, ocorre certa disputa pelo acervo das antigas rádios, não só das grandes emissoras mas as pequenas, de cidades do interior. Aqueles LPs vinham direto da gravadora, de primeira prensagem – a mais fiel no registro fonográfico, pois a matriz estava afiada e fresquinha – e hoje é item raro entre colecionadores. Quem tem um bom set de som sabe a qualidade inigualável que tais discos oferecem. E importante: sem estalos nem chiados. Os LPs não fazem isso pela própria natureza, mas por mau uso e equipamentos inadequados.
Contado o caso, vem a moral da história: a moral é que a abundância nos engana. Quero dizer, se algo de bom parece não ter fim no momento, se hoje tropeçamos numa mesma coisa boa em cada canto; se há disponibilidade até exagerada de alguma coisa no presente, de modo que nem se liga muito para aquilo, é prudente adquirir, preservar, dar valor. Porque um dia tudo isso some num estalar de dedos. E nunca há substituição à altura, nunca, jamais. Quando muito, surgem uns simulacros, e com eles, perdas irrecuperáveis. Toda substituição é uma ilusão.
Falei dos LPs, dos discos de vinil. Mas nessa lista inclui-se também os compact discs, os digital video discs, os blu-ray discs. A razia foi grande. Portanto, quem tem os seus, que valorize. E quem não os tem, convido a que conheça, procure enquanto ainda existem. A abundância engana, repito: principalmente essa abundância virtual e etérea dos streamings e plataformas digitais. Um dia, tudo isso vai sumir, anote aí. E, quando isso acontecer, que “mídia física” você terá para compensar o sumiço?
O saco de vinhos
“Comprei este maravilhoso saco de vinhos. Inventaram, fabricaram, puseram à venda: então comprei. Sim, comprei, e quero dizer que estou satisfeitíssimo com meu saco de vinhos. A tecnologia é maravilhosa, facilita muito a vida.
Antes eu tinha o incômodo de ter vinhos em casa, garrafa por garrafa. Garrafa física, coisa mais ultrapassada… eu nem percebia o quanto era idiota por guardar vinho em garrafas físicas, pois o que importa é o líquido vinho, não a garrafa física. Eu bebo o vinho, não como as garrafas. Então, pra quê garrafa? Para isso surgiu essa coisa prática que é o saco de vinhos. Funciona assim:
O saco de vinhos é feito de um plástico tecnológico. Quando peço vinhos pelo app, chega o motoboy que abre a garrafa em minha porta e despeja o líquido vinho por um buraquinho e enche meu saco de vinhos. Então, rosqueio levemente o saco e devolvo a garrafa física pro motoboy do app. Ele já sabe o serviço: chega em casa, toca a campainha, vou lá eu com meu saco de vinhos. Daí ele abre a garrafa e despeja o líquido, apenas o que interessa.
Um dia, o motoboy do app de vinhos viu que eu tinha um resto de vinho no meu saco de vinhos. Era um cabernet da semana passada. Daí ele viu o líquido balançando (o saco é transparente), e disse: ‘vai misturar, chefia? Também é merlot esse aí?’. Daí eu disse, ‘não, mas manda bronca, Jedson. Vinho é tudo igual, o importante é o líquido.’ Daí ele misturou. Vinho é tudo vinho, mesmo.
Uma vez foi engraçado. Ele misturou um Chianti 5 anos com um restinho de Sangue de Boi. Ficou docinho! O saco de vinhos facilita muito na hora de beber vinhos.
Tem uns puristas chatos que criticam o saco de vinhos. São uns burros. Eles não sabem que tecnologia existe para ser usada. Se inventam, tem de usar, porque se não fosse para usar, não teriam inventado.
Depois, tudo nessa vida é a mesma coisa, não? Todas as coisas são a mesma coisa, não tem diferença entre coisa e coisa: os vinhos, eu, você, o Champinha, a Sydney Sweeney, a barata do bueiro. Tudo é a mesma coisa, o importante é que a tecnologia facilita tudo.
Um dia, meu pai disse: ‘meu filho, leve minha biblioteca para sua casa. Estou muito velho e quero deixar meus livros raros com alguém que saiba cuidar. E leia-os, também!’ Daí eu disse: ‘não preciso, papai. Tenho todos os livros que preciso bem aqui, no meu aparelhinho de livros.’ Coitado do velho, não entende tecnologia.
Praticidade, né? Eu bebo o vinho, não como a garrafa. Eu leio palavras, não o papel em que são impressas. Tenho meu saco de vinhos e meu aparelhinho de livros. Tecnologia está aí para se usar.”
Quem disse
“Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta ‘Para quê?’, é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê heróico, ou então uma vitalidade muito robusta.”
— Thomas Mann
*
“Um governo paternalista, baseado na benevolência de um governante que trata seus súditos como crianças que não cresceram, é o maior despotismo concebível e destrói toda a liberdade.”
— Immanuel Kant
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“É bom, vez por outra, ensinar aos felizes deste mundo, mesmo que apenas para humilhar por um instante seu tolo orgulho, que há felicidades superiores às suas, mais vastas e mais refinadas.”
— Charles Baudelaire
Direto do almoxarifado
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Excelente
Gostei dos textos.
Lembrei do medo que tinha para pôr um disco no toca-discos, por isso eu não fui fisgado pelo prazer da audição nessa mídia. Fiquei no toca-fitas e walkman. Naturalmente curti muito a era dos CDs.
Tecnologia está aí para ser usada, porém, até, hoje eu não consegui me adaptar à leitura digital ou audiolivros. Sinto como se houvesse uma deficiência na experiência.
Nem sabia da existência do saco de vinho, pode ser algo de ingênuo, mas eu acreditei na informação do texto. Eheh.
Ótima news.