#66. O técnico, uma crônica
Ou: breve história de um auto-exame
“NADA PARA FAZER, pego o smartphone e tiro uma foto repentina, de perfil. Não estou preparado para fotos; aliás, nunca estou preparado para fotos. De modo que quero me flagrar, ver meu estado. Confiro agora essa fotografia sem preparo algum e penso em mim. Não costumo pensar em mim. Vem-me um espanto, embora contido. Sempre contido: há muito tempo, nem sei quanto tempo, venho mantendo esse mesmo espanto contido, essa surpresa calma que apenas finge não se assombrar com coisa alguma, muito embora tanta coisa ainda me espante na mente.
Um desses espantos é o desdém das pessoas. Todos praticam o mais abandonado desdém diante de coisas que eu não me deixo desdenhar: valores, deferências, modos. Generosidades. O contraste entre todos e eu, reconheço, talvez decorra de alguma culpa minha, algo infuso; pecados não confessados o suficiente, embora sempre confessados. Não sei bem. Qualquer um na minha idade está coberto de culpas e de falhas indesculpáveis, de erros velhos que queríamos voltar lá e refazer a rota inteira.
Olho minha foto. Noto o rosto anguloso, poligonal: umas linhas geométricas descendentes, que descem sempre, em ângulos obtusos. Tenho o aspecto tristonho e resignado de quem vive sem expectativas. Confiro essa resignação no semblante e não a noto na alma. Nunca digo a mim mesmo estar resignado, embora pareça na foto.
Envelheço, eis a verdade. Perco a cada dia o ímpeto dos caprichos. A velhice se acerca, sobe o pescoço como hera. Circula no sangue? Não sei, não sinto, mas me sai pelos poros, exsuda. Minha mente está sã, clara, por isso entendo o jovem como se fosse um deles e não o pai deles. Porém, não sou ele, de fato não sou. Fui até há pouco, mas o instante me fugiu.
Examino minha vida até aqui. Lembro que durante muito tempo fui o mais novo dos ambientes em que estive, e que por isso mesmo fui o mais justificadamente ignorado. Entre os tantos nãos que colecionei fui me refazendo, indo após tropeços e esbarrões. Achei um caminho: adotei uma realidade técnica de um técnico, e a realidade técnica de um técnico consiste em cumprir funções e executar serviços. Designei-me o papel de funcionar, portanto, de me oferecer em favor. E quando cumpro a tarefa, dou um grande sim à ordem das coisas.
Se sou inteligente (penso que sou, nalguma medida) e se tenho idéias; se posso ver com clareza filosofal o que ninguém vê na realidade aparente, pouco importa. Não importa a inteligência de um técnico para além da técnica (Pessoa; Lisbon Revisited). Se alimento um pensamento abstrato que não me deixa, ou se julgo importante pensar a respeito do que quer que seja na vida, um bem fundamentado pensamento, um inegável sólido pensamento cimentado com experiência e muitas leituras corretas (que para eles é impensável, ora: leituras!), tudo isso pouco importa. O técnico não existe além da técnica.
A arte do desdém mencionada acima.
Antes, não era ouvido por ser jovem; hoje, por ser velho. Também por ser brasileiro, verifico, por ser moreno e ter sobrenome comum, cara comum, levando aos lugares minha tez subalterna. Levo comigo a sujeição esperada, automática, e tenho costas envergadas pela falta de exercício na juventude, o que logo denota a condição subalterna de quem se acostumou a obedecer e atender ordens.
Poder, qualquer um, nunca o tive. Nunca um poderoso qualquer deu a mim uma nesga mínima de poder, um naco obviamente abaixo de si que indicasse confiança em mim, uma aposta ou crédito justo que aliás tardava em ser reconhecido. Não: o não sempre me foi dispensado com a facilidade do bom dia, como se as rodas da ordem universal rodassem à base desses nãos dispensados a mim com alegre desdém.
Na foto, as entradas de minha testa morena rebrilham ante a luz artificial do teto, duas esferas perfeitas acima da cabeça. Imagino o efeito das lâmpadas dos forros dos escritórios sobre mim quando me olham, dando-me o aspecto da típica não-confiabilidade brasileira. Moreno é o não-confiável por excelência, útil para exigir e ordenar, apenas. Moreno risonho não presta, pois não é sério. Moreno sério não presta, pois é perigoso. Moreno é o ponto intermediário da mistura, sem ponto de apoio, coisa paralela entre o alvor dominante de longa data e os súbitos negrões da moda protegidos por lei. Morena é a classe inclassificável, gente entre parênteses da qual recomenda-se suspeitar e negar, ignorar, ter o pé atrás: duvidar a priori, até prova em contrário ou nem por isso.
A gente alvacenta, velhas dominantes de orgulhosos sobrenomes, estão sempre no alto das hierarquias com disposição refratária e olhos enviesados. À minha presença, sacam a lupa suspicaz e sobem uns patamares para falar desde o alto, e perscrutar. Não vêem em mim qualidades celestes como as de si mesmas, e não atenuam a suspicácia nem com os resultados colhidos. Elas se resguardam permanentemente deste… trigueiro indefinido, um Queequeg selvagem que a intuição não deixa simpatizar.
O técnico tem técnica no corpo, não pensamento no espírito, eis a crença geral. Melhor será se for burro-pro-resto fora do ofício. Será excelente se ficar satisfeito por deixarem-no técnico. Assim, será agraciado, satisfeito por ser alguém que trabalha pela chance concedida pelo contratante bondoso. Com seu trabalho dedicado ele confirma a magnanimidade dos alvacentos, seres virtuosos de longuíssima data.
Após décadas, conto os anos: não está longe a aposentadoria. Também meço e comparo e noto que não posso reclamar demais. Podia ser pior. Meu prêmio, medalha e troféu é sempre este podia ser pior.
Chego a uma fase da vida em que contabilizo umas conquistas daqui e dali, coisa mínima; uns poucos feitos pessoais que, por comparação, são bem mais que tanta gente retardatária na realidade próxima. De maneira que tenho do que me comparar, e, tudo pesado na balança, vejo que tive mais aqui e menos ali.
Não tenho sonhos de consumo. Já os tive. Sereno, não invejo nada feito pelas mãos de alguém, nada construído, fabricado ou comprado. Meus consumos não alcançados, esqueci-os. Não lembro deles. Tenho o necessário para viver.
Mulheres, não cobiço. Vejo-as antes da cobiça, elas dão-se muito à visão geral, aparecem, surgem; recompensam-se de seus préstimos virtuais, sendo eu, vez por outra, agraciado com a oferta. Não as tenho e tenho, pois imagino o que a saúde me deixa imaginar.
Sonhos? Os noturnos, não sonho mais. No sentido figurado, anelos e desejos, me esforço em lembrá-los. Tenho talvez intenções distantes, às quais a voz da realidade desmente com dados bem fundamentados, prós e contras, demonstrando-me que aquilo não passa de ilusão.
Não que tudo isso me entristeça, exatamente. Conformo-me à realidade, e ao ouvir sua voz de tabelião, acomodo os músculos da face na direção que aponta para a terra, como a foto mostra. Um dia cairei nessa terra apontada por ela e tudo há de parar. Dia que calculo não estar muito, muito longe.
De modo que não me gabo de nada agora. Não elenco meus tentos insignificantes em público. Há glorinhas pontuais, de estar ali, ir acolá... a maior delas foi entender certas coisas antes que fosse tarde demais.
Para mim, autoridades são ridículas. Edificações imponentes são tijolos empilhados com algum enfeite. Automóveis são aços pintados, plástico, vidro, borracha e espuma. A pose dos sedizentes importantes, respeito apenas enquanto disfarço o meu puro desprezo por eles enquanto gente-de-posição, gente que faz obedecer. Cuspo na terra e bato as sandálias no chão, eis a minha reverência profunda por eles.
Já tive charme, já fui bonito. Dezoito, dezenove anos. Dentre tantas sonegações àquela altura, noto, faltou-me o apoio que um sem número de imerecedores hoje recebem. Pelos anos afora, contei apenas com a sorte de minha insistência, a sorte de quem esmurra tijolos até os pedacinhos. Uma sorte-não-sorte, uma consequência da força aplicada até o ferimento e o posterior cansaço que faz esquecer quando finalmente se consegue.
Alegrias? Poucas, das quais aprendi a não ostentar. A gabolice atrai seu contrário. A vida odeia os gabolas, arranca de suas mãos o triunfo; a vida não tolera a alegria dos ingênuos que ignoram os males do amanhã. De sorte que minha alegria é prudente, silenciosa e atenta ao mal adiado. Toda alegria é uma concessão temporária da vida.
Acho que posso morrer agora. Todo dia acho que posso morrer agora. E penso que há mais por fazer, às vezes. No meio disso tudo, envelheço: os ângulos da cara e os lóbulos das orelhas evidenciam o fato. Sem dizer os fios brancos que as têmporas entregam, insistentes. Não gosto de mim na foto, não gosto de mim, e agora mesmo imagino o quanto é penoso a alguém me olhar todos os dias por ser inescapável fazê-lo.
Só o técnico não me abandona e não sai de mim. O técnico que há décadas verga-me as costas sob o ofício. Ainda demandam minha técnica pois precisam dela, mas prescindem da pessoa do técnico, de quem no fundo não gostam. Eu os entendo agora quando olho minha imagem.
Posso morrer agora ou depois. No momento, estou bem aqui, situado no perfeito intervalo entre o não e o talvez, e já me dão outra tarefa. De maneira que, sem desânimo ou alarde, e de novo, atendo ao dever.”
Otimismo novidadeiro
Quando ouço alguém manifestar um otimismo contente no “daqui para a frente”, exaltando as maravilhas de como “os tempos mudaram”, não consigo deixar de ver ali duas coisas simultâneas: um moleque e um velhaco, ambos ao mesmo tempo.
Para ilustrar esse otimismo irrefletido com novidades, pegue-se essa coisa de inteligência artificial, a euforia corporativa em torno disso. Os chefes das organizações estão todos lúbricos nas calças com as possibilidades da coisa. “Não precisaremos de gente! A IA chegou! Bateu, prompt!, é gol!”, pensam, por aí.
Outro dia vi um magano desses, um executivo de uma operadora de cartões de crédito a comemorar uma futura não-precisão de humanos, essa coisa ultrapassada: “a IA faz tudo pra mim”, disse sorrindo, “ela automatiza”. Ou seja, economizo em salários e meu bônus engorda. Coisa prática. Mas e quanto ao executivo? A IA vai substituí-lo? Sim, porque ela também pode.
Ah, mas aqui resvalamos na velha teoria do poder, coisa que não se atualiza jamais. “Eu? Eu não! IA pra vocês, não pra mim!”
Pois euzinho confio mais na inteligência artificial que no tal executivo. Ela decerto é mais honesta e mais inteligente, ainda que na teoria. Porque na prática, talvez não seja tão esperta quanto o humaninho que as contratou contra humaninhos outros.
Sabe como é: os tempos mudam, mas não mudam tudo.
Quem disse
“Há questões que não poderíamos superar se não estivéssemos livres dela pela própria natureza.”
— Franz Kafka
*
“Nenhum poder se impõe se tiver apenas hipócritas como representantes.”
— Friedrich Nietzsche
*
“Exatidão em pequenos detalhes é a alma da disciplina.”
— Joseph Conrad
Direito do almoxarifado
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