#68. Entrevista: Karleno Bocarro
Autor do romance “As Almas que se Quebram no Chão“ e do recém-lançado “O Advento”, o escritor fala à newsletter Prosaica
Findava a década de 1980 quando o jovem Karleno Bocarro, então funcionário do Banco do Brasil, sonhava em estudar fora. Um dia, ele tem uma idéia: mandar cartas a diversas embaixadas mencionando o interesse, e claro, pedindo uma bolsa de estudos. Sem sucesso, conta o sonho a alguém que por acaso conhecia alguém e finalmente consegue uma oportunidade na comunista Alemanha Oriental. Karleno topa a parada: reúne os documentos, paga as passagens e parte rumo à aventura. Quando chega à cidade de Leipzig, onde ia residir, não faz idéia que está a dois meses da queda do Muro de Berlim. Karleno, então, acompanha in loco os desdobramentos daquele evento histórico: a reunificação das duas Alemanhas e a pá de cal na ameaçadora Guerra Fria.
Natural de Fortaleza, Karleno Bocarro apaixonou-se pela literatura desde a infância, lendo clássicos da literatura vendidos nas bancas de revista. Na adolescência, tem como que um sonho ou epifania: tornar-se escritor. Desde então – tendo a experiência alemã no meio da jornada – ele nunca mais parou de escrever literatura.
Da experiência vivida na Cortina de Ferro nasce o romance As Almas que se Quebram no Chão, publicado em 2010 e relançado em 2024, em edição revisada e definitiva, pela Sator. Antes, em 2002, publicara por conta própria Escritos de Obsessão, romance de estréia que serviria de prelúdio ao livro mais famoso. Desde o lançamento, As Almas que se Quebram no Chão virou uma espécie de livro cult, obra com fãs declarados, coisa que Karleno Bocarro rechaça com certo comedimento.
Em janeiro último, lançou seu segundo romance, O Advento. Obra de fôlego (633 páginas), com temática fora do convencional na literatura brasileira, o texto prende a leitura pela atmosfera vertiginosa e angustiante, sem deixar de lado a bondade e alguma metafísica. Com O Advento, Karleno constrói uma tragédia de tinturas nietzschianas, tendo como cenário nosso país tropical. Uma proeza.
Radicado em São Paulo, Bocarro também é tradutor. Verteu ao português obras de autores como Viktor Frankl, George Bernanos, Franz Kafka, Schopenhauer, entre outros. Nesta entrevista, ele descreve seu processo de criação, sua experiência alemã e discorre a respeito dos temas de sua literatura, além de falar aos escritores aspirantes.
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Quando você decidiu “vou escrever romances”? Como foi seu processo de formação na literatura, a passagem do leitor para o escritor?
A decisão ocorreu muito cedo, tão cedo que sinto até um certo constrangimento em falar disso. Leitor ávido eu já era na infância, e esse hábito veio de meu pai, que gostava muito de ler. O incentivo dele, porém, nunca aconteceu de forma explícita, com discursos sobre a importância da leitura, blá, blá, blá; vinha, antes, de sua própria postura: estava sempre lendo e nos comprava livros e revistinhas. Na verdade, meu pai foi uma das pessoas mais despreocupadas que conheci nesse sentido: eu tinha liberdade completa para fazer minhas escolhas.
Voltando ao início da resposta, e à razão do meu embaraço... Minha experiência teve algo de quase à la William Blake, que dizia ter visões na infância e conversar com anjos, demônios e espíritos. No meu caso foi algo evidentemente bem menos constante, mas sonhei com Deus uma semana antes de meu pai falecer vítima de câncer e três dias antes de eu completar treze anos. No sonho, o Velho Moco me dizia que aquele seria o meu destino, isto é, ser escritor. Já viu, que merda! Já adulto, voltei a sonhar com Ele. Uma vez só. Acho até que Ele sonha comigo também, mas se assusta: devo aparecer diante d’Ele como um espectro.
De todo modo, eu não fazia ideia do caminho que deveria percorrer, nem de qual gênero literário seria realmente o meu. Para minha primeira namorada escrevia poemas; ainda adolescente, entreguei-me aos diários, hábito que mantive nos anos em que trabalhei como funcionário do Banco do Brasil em duas pequenas cidades do interior do Maranhão. Mas os diários e as cartas – sobretudo as que escrevia para uma tia, irmã de meu pai, que morava no Rio de Janeiro e com quem me correspondi durante quase quinze anos — pareciam-me mais uma forma de treinamento de escrita. Foi apenas quando retornei da Alemanha, em 1997, que percebi que o romance seria a minha verdadeira casa. Tanto que fiz imediatamente o que precisava fazer: escrevi meu primeiro romance, Escritos de Obsessão, publicado por minha própria conta.
Como é ser romancista no Brasil?
Quer saber? Talvez tivesse sido melhor que Deus não viesse me atormentar com isso... Porque é um ofício muito difícil, e sinceramente não o recomendo a ninguém. Meu conselho é: a não ser que a pessoa realmente tenha talento e um espírito de louco contrário a todos os outros loucos – isto é, dotado de enorme paciência –, vai sofrer um bocado. Sofrer com os inúmeros “nãos” das editoras, com a indiferença e até com o desprezo daqueles que poderiam ajudá-la. E não espere viver disso, muito menos reconhecimento.
Enfim, só entre nessa se sentir-se realmente chamado por algo muito maior do que você: a tal da vocação. Digo isso porque levei quase duas décadas de persistência, desilusão e até de privações para chegar onde estou hoje, com uma editora séria, a Editora Sator, amparando-me e realizando um trabalho igualmente sério com meus livros.
Há muitas situações reais em suas histórias, vistas ou vividas. O quanto esse lado observador e a memória das próprias experiências dão densidade, consistência aos seus romances?
Eu tive um professor de alemão em Leipzig que dizia à minha turma no Herder-Institut: “não é um gesto muito polido, mas necessário para vocês: ao saírem na rua ou andarem de bonde, aproximem-se discretamente das pessoas e escutem o que elas falam e como falam. Vocês aprenderão bastante o alemão fazendo isso”. Assim também com o escritor: alguém que presta atenção, nos espaços públicos, ao que as pessoas dizem ou fazem.
E é também alguém que não pode ter medo de viver a vida: viajar, frequentar cemitérios, mercados, templos, igrejas, cabarés, arenas, rinhas, botecos... conhecer pessoas. É claro que existem escritores que mal deixaram suas aldeias e ainda assim escreveram livros geniais. Porém, no meu caso, sempre senti necessidade (hoje menos, porque já vivi bastante) de experimentar a vida intensamente, inclusive em situações muito próximas da morte. Acho que foi e continua sendo isso o que torna meus romances tão vívidos, intensos e verdadeiros.
Nos seus livros, há personagens escritores vivendo o drama dos originais guardados e a dificuldade para publicar. Há algo de autobiográfico nisso?
De certa maneira, sim. Ou, dizendo de outro modo: é natural aplicar ao personagem o conhecimento que se tem do próprio ofício, sobretudo quando a meta dele coincide com a sua. Com a diferença de que consegui ir um pouco mais longe do que eles, que desistiram ou acabaram impedidos de publicar. No meu novo romance, Jack Jackie, porém, não haverá mais escritores. Chega! Assunto esgotado.
O escritor brasileiro, em geral, parece receoso de mergulhar fundo e o resultado acaba ficando um pouco pedestre, até medíocre. Nos seus romances, ao contrário — tanto em As Almas que se Quebram no Chão quanto em O Advento —, há personagens como Bocas e Demis Margote, figuras raras na literatura brasileira, justamente porque você parece não ter medo das profundezas da alma humana. De onde vem essa preferência pelo mergulho psicológico e como você avalia sua literatura dentro do cenário brasileiro atual?
Sabe que isso é quase natural para mim. Explico melhor: à medida que escrevo ou descrevo os atos e reações de um personagem, sinto-me obrigado a mergulhar em sua alma, a tentar compreender o que se passa dentro dela e a levar o leitor a compreender também. É claro que esse aspecto do fazer literário é extremamente cansativo e, às vezes, por incrível que pareça, até frustrante, já que nem sempre se consegue trazer à tona aquilo que inicialmente se imaginava possível alcançar. O inconsciente, a mente, são mais profundos e turbulentos do que a razão é capaz de apreender. Um romance pode, portanto, levar anos até estar inteiramente pronto. O ponto principal, porém, é que simplesmente não consigo fazer diferente. Ou, como gostam de dizer os alemães, inspirados por Lutero: Hier stehe ich, ich kann nicht anders! (“Aqui estou e não posso agir de outro modo!”).
Talvez seja justamente isso que torne minha literatura um pouco estranha em relação ao que muitos escritores fazem, pois (insisto!) exige trabalho, e muito, sobretudo numa época em que a maioria parece preocupada apenas em chegar rapidamente ao ponto final. No fundo, o que existem são duas formas de peregrinação rumo ao Santuário das Coisas que Importam: em poucas passadas alguém pode chegar lá utilizando o bastão leve do clichê, o cantil do português pobre, o chapéu do enredo fácil e a roupa confortável do previsível; ou pode optar por uma viagem mais longa e difícil, apreciando cada trecho do caminho, fazendo demoradas paradas, rezando um bocado e, ao mesmo tempo, sendo acossado por mil demônios, como Santo Antão no deserto.
Mas, quando finalmente se chega ao Santuário das Coisas que Importam, a água do poço cavado em suas imediações possui outro sabor: o de que todo aquele esforço valeu a pena. E até a vela que se acende ali parece brilhar com outra luz.
Outro aspecto que marca seus romances é a presença do mal, sem concessões e de modo até angustiante, que chega a sufocar. Por que esse enfoque no lado maligno que pode acometer a existência humana? Seria um alerta, algo assim?
Mal este presente justamente nos dois personagens – decerto entre os mais demoníacos da literatura em língua portuguesa – que você citou na pergunta anterior... Acontece que vejo o Mal como algo inerente à existência humana (não no sentido de normal ou desejável, mas de algo que está efetivamente presente nela) e do qual não se pode prescindir sem desfigurar a realidade. Ora, a percepção dessa presença surgiu já na minha infância, e jamais consegui abandoná-la. Propor-se a escrever uma obra de ficção – afinal, nem mesmo nas boas histórias infantis o Mal está ausente – sem levá-lo em consideração é como contar uma história pela metade ou tentar voar com uma asa só. O resultado é que não se sai do chão: rasteja-se.
Talvez venha justamente daí a explicação para o fato de boa parte da literatura brasileira contemporânea me parecer tão rasa, tão tomada por pequenos draminhas de classe média alta…
Agora, se retratar o Mal serve como alerta, sinceramente não sei responder. Deixe-me abrir aqui um parêntese: certa vez li que a literatura possui o dom de tornar quem a lê com frequência mais apto a interpretar as intenções das pessoas que venha a conhecer, transformando-o, por assim dizer, num decifrador da conduta e dos propósitos humanos. Acreditei nisso e fiquei feliz em imaginar-me um desses indivíduos. Os anos passaram, porém, e percebi que a coisa não funciona exatamente assim: o Mal é mais forte do que qualquer habilidade que a literatura possa oferecer. Essa experiência acabei transferindo para os meus romances: há sempre neles personagens que acreditam poder domesticar o Mal ou tirar proveito dele. Nada mais equivocado.
Como é seu processo de confecção do romance? Como engendra a coisa, digamos assim? Você esboça personagens e situações, depois desenvolve o enredo, ou se deixa levar pela continuidade natural da história, como se ela o guiasse?
O que acontece, de modo bastante óbvio, é que primeiro penso em possíveis histórias, selecionando ao final aquela que percebo ser a mais apta a se desenvolver. Faço então um esquema de suas diferentes fases ou capítulos, algo como um esqueleto ainda à espera dos órgãos e da pele. A partir daí começo a escrever e, nas horas vagas – ou quando, por algum motivo, preciso interromper a escrita –, continuo pensando nos passos seguintes: situações, cenários, diálogos. Também anoto em cadernos aquilo que a inspiração ou a própria realidade me oferecem, e isso inclui as leituras que faço durante o processo.
De um modo geral, já tenho até uma ideia de como será o final, embora, naturalmente, ao colocar tudo no papel, ele possa ficar diferente do que inicialmente pensei. Agora, a primeira escrita costuma acontecer com relativa rapidez; não sei muito bem o que é isso de “dar branco”, de me sentir sem inspiração ou paralisado. Escrevo, enfim, com certa facilidade. O verdadeiro trabalho vem depois, porque sei que a primeira versão jamais será definitiva, e então reviso o texto dezenas e dezenas de vezes. Já pensou o que é isso? É o lado ao mesmo tempo infernal e prazeroso da coisa – um trabalho de gente perturbada. Para se ter uma ideia, reli e corrigi O Advento mais de vinte vezes, o que resultou, ao final, em algo espantoso: cerca de 12 mil páginas revisadas.
E quando está escrevendo, qual é seu método de trabalho, sua rotina de escrita? Escreve um pouco todo dia, para e retoma conforme surgem as idéias…
Até me tornar pai, cheguei a escrever nos três turnos do dia. Para dar um exemplo: durante a escrita de O Advento, houve ocasiões em que trabalhei dezoito horas seguidas, com breves pausas apenas para comer e ir ao banheiro. Era algo bastante insano e também extremamente desgastante. Isso, claro, antes de eu me casar. A verdade é que, como dizia Thomas Bernhard, esposa e filhos roubam um bocado de tempo. Escritor talvez nem devesse se casar; o ofício se assemelha um pouco à vocação dos monges.
Quando as crianças nasceram, tudo mudou. Durante quase dez anos, o que fiz foi basicamente traduzir e revisar o texto de O Advento. Já não dava mais para manter a antiga rotina. Hoje, embora eles já estejam crescidos, preciso seguir um esquema mais disciplinado: escrever pelas manhãs e dedicar as tardes e noites às traduções. Escrevo todos os dias, exceto nos fins de semana.
Agora, como disse anteriormente, não sei muito bem o que é parar por falta de ideias. A região obscura que existe acima – ou talvez dentro – do meu cérebro nunca se fecha: posso tirar dali, à vontade, aquilo de que preciso. O ideal seria poder dedicar o dia inteiro aos meus romances, mas, como não tenho um mecenas e a literatura raramente dá dinheiro, sou obrigado a dividir o tempo com aquilo que efetivamente me sustenta: as traduções.
O quanto sua formação na Alemanha e o contato com a Berlim Oriental influenciaram sua visão de mundo, para usar uma expressão meio batida? Você diria que sua literatura não passou incólume a isso?
Influenciaram bastante, e eu tinha plena consciência disso. Como muitos sabem, deixei um emprego de sete anos no Banco do Brasil, que naquela época era “o” emprego, para recomeçar a vida como estudante na Alemanha. Minha mãe, ainda hoje, não me perdoa por isso... Acho que ela imagina que, se eu tivesse continuado no Banco, hoje teria uma casa com piscina, carro do ano e a aposentadoria de diretor.
Enfim, a vida lá foi um bocado difícil, muito difícil. Mas eu sabia que aqueles anos seriam minha descida ao Hades, a fim de trazer de lá aquilo que moldaria minha visão de mundo como escritor.
Quanto tempo houve de intervalo entre a escrita do As Almas que se Quebram no Chão e O Advento? Como você avalia a mudança em sua prosa e na carpintaria literária entre os dois romances?
Muito curto. Concluí As Almas... e não encontrava editora. E, nisso, contei com a ajuda preciosa de Martim Vasques da Cunha e Érico Nogueira, que ficaram lá enchendo a paciência do Edson, proprietário da É Realizações, para que me publicasse... sem sequer saber se ele aceitaria. Foi nessa época – antes mesmo da publicação de As Almas..., cuja primeira edição sairia em 2010 – que comecei a escrever O Advento, em 2009 (uma vida atrás!).
Quanto à mudança de prosa... Não porque seja um livro menor em número de páginas, mas As Almas... me deu menos trabalho de escrever, pois eu já vinha havia anos com o propósito bastante definido de criar um romance ambientado em Berlim na época da Queda do Muro. A história ruminava na minha cabeça havia muito tempo.
Com O Advento foi diferente. Eu tinha apenas uma ideia inicial, o de um homem abandonado pela amada, e alguns tópicos em mente – sacrifícios, pedofilia, promiscuidade, seitas, ritos satânicos, tipos pervertidos e perversos etc. –; quer dizer, o esqueleto. Mas nada muito claro sobre como a narrativa se desenvolveria. Foi, em grande medida, um tatear no escuro.
Quanto ao estilo, em O Advento eu já estava mais confiante. Isso me permitiu recorrer a uma prosa mais incisiva e, por vezes, torrencial, composta de frases longas e diálogos extensos, sempre evitando clichês e banalidades. Houve também a preocupação de fazer com que o real adquirisse, especialmente nas cem páginas finais, um aspecto sombrio, como se exalasse o hálito fétido de um demiurgo cósmico, à beira de um delírio metafísico.
Foram justamente essas páginas as que mais me exigiram. Ao relê-las, algumas vezes me senti mal e cheguei a pensar que havia escrito um livro pesado, brutal, que exige muito do leitor, assim como exigiu muito de mim. Ora, perdi nele umas oito gramas das vinte e uma que pesam minha alma.
Você é tradutor. Já pensou em escrever em outro idioma seus romances, vertê-los para o inglês ou outra língua estrangeira?
Apesar de possuir um bom domínio de alguns idiomas, não. Minha língua é a portuguesa, a única que domino por completo e na qual me sinto como alguém que reencontrou um paraíso perdido, e que talvez o perdesse para sempre caso se aventurasse a escrever em outra língua. O que penso em fazer, se um dia isso acontecer, é acompanhar de perto possíveis traduções de meus romances, numa espécie de vigilância de minha parte.
Que análise faz da literatura brasileira contemporânea? Costuma ler, acompanhar? E da literatura brasileira de forma geral?
Não compartilho da ideia de que vivemos uma era de declínio da nossa literatura, nem de que o papel do escritor, entendido como uma espécie de guerreiro cultural, seja apenas salvá-la das investidas dos walking dead wokianos, regenerar a língua ou colocar-se automaticamente ao lado de minorias e causas da moda. É claro que há muita porcaria, frequentemente dotada de uma visibilidade excessiva, mas profundamente injusta em relação àqueles que procuram realizar um trabalho consistente e duradouro. Ainda assim, existem excelentes escritores, e nosso papel é justamente fazer com que sejam lidos. Há muita gente escrevendo, e isso é positivo, pois é dessa legião que sairão os poucos destinados a permanecer. E não falo apenas dos romancistas: a poesia hoje feita no Brasil é de primeira linha, assim como há também excelentes contistas.
O que me parece faltar, em geral, é uma percepção mais aguda da complexidade da vida humana, do quanto ela é atravessada pelo desmedido, pelos embates contra o destino e por seus aspectos mais sombrios, que não podem ser deixados de lado. Essa é, ao menos em parte, uma lacuna que procuro enfrentar em meus romances. Fala-se tanto da nova adaptação que Christopher Nolan está realizando da Odisseia; talvez este seja o momento ideal para voltar a Homero e compreender a visão de mundo dos gregos: a existência é trágica e instável, mas ainda assim digna de ser cantada, apesar da inevitabilidade do sofrimento e da morte.
Quais são seus escritores preferidos, aqueles de quem você lê tudo que chegar às mãos?
Curzio Malaparte, Ernst Jünger, Knut Hamsun, Louis-Ferdinand Céline, August Strindberg, Thomas Bernhard, Guimarães Rosa, William Faulkner, Cormac McCarthy... Isso para ficar apenas entre os “modernos”, porque entre os classicãos estão Dostoiévski, Homero, Shakespeare e Cervantes – este último, minha luz e minhas sendas...
Que livro está lendo no momento?
Como muita gente faz, leio mais de um livro ao mesmo tempo... Estou relendo Viagem ao Fim da Noite, de Céline, um livro de crônicas de Alexandre Leidens, os poemas escolhidos de Gregório de Matos, a Bíblia – algo que, juntamente com as tragédias de Shakespeare e Vidas Paralelas, de Plutarco, sempre leio quando pretendo escrever, ou já estou escrevendo, um romance. Mas todas essas leituras (crônicas, poemas, capítulos da Bíblia) acontecem de forma esparsa ao longo do dia. Além disso, também preciso ler livros ligados aos artigos que escrevo para a Revista Valete. No momento, por exemplo, estou lendo, para isso, A Literatura e o Mal, de Bataille.
Na verdade, apesar de parecer muito, não é tanto assim. Isso corresponde praticamente às leituras de um mês. Eu gostaria de ler mais; há ainda uma infinidade de coisas que desejo ler...
Há algum romance em andamento? Pode dar um resumo não comprometedor, digamos?
Sim, acho até que mencionei isso anteriormente... Comecei a escrevê-lo em 2024, mas, como precisei reler de maneira atenta e rigorosa, para publicação, As Almas que se Quebram no Chão e O Advento, acabei interrompendo a escrita. Pretendo retomá-la dentro de duas semanas.
Meu Deus, sou ruim demais para falar dos meus próprios romances... Bem, desta vez a protagonista será uma jovem – na velha tradição de Tolstói, Flaubert, Henry James, José de Alencar e Alberto Moravia, todos autores de romances com protagonistas femininas –, e acompanharei sua vida desde o nascimento difícil. Ela nasceu de oito meses, o que já me sugere uma certa inadequação originária à vida; toda a sua trajetória será marcada por um desajuste em relação ao mundo comum, carregando consigo vulnerabilidade, excepcionalidade, mas também estranhamento. Uma vítima ideal para os Jack Jackie – título do romance.
A narrativa acompanhará sua odisseia pelo interior de São Paulo, por favelas em Recife, até sua chegada a São Paulo Capital, quando cai nas garras de um estranho casal que tentará aplicar nela, como forma de educação, uma teoria dos tipos existenciais. O romance tratará então de sua luta para libertar-se dos dois, e do que virá ou não depois disso.
O que diria para quem está começando na ficção e pense “um dia quero escrever como Karleno Bocarro”?
Meu Senhor, meu Deus, não sei. Talvez eu dissesse: não procure escrever como Karleno Bocarro, nem como qualquer outro. Não siga grupos ou manadas, não se alinhe automaticamente a propostas políticas ou religiosas; seja apenas você e suas circunstâncias, você e sua suprema liberdade de ser indivíduo. Mas, antes de tudo, avalie bem se é realmente isso o que deseja, se possui talento e, sobretudo, força para suportar as inúmeras pauladas que inevitavelmente virão ao seu encontro. A literatura é quase um pacto; adentrar nela se assemelha a atravessar o pórtico do Inferno descrito por Dante Alighieri: depois de entrar, você nunca mais será o mesmo.
*Karleno Bocarro é escritor e tradutor, autor dos romances Escritos de Obsessão, (autopublicação), As Almas que se Quebram no Chão e O Advento (Editora Sator). Traduziu obras de Viktor Frankl, Kafka, Riboulet, Schlattner, Bernanos, Nietzsche, Schopenhauer, Joseph Ratzinger e Jacob Burckhardt. Também traduz artigos para a Swissinfo, unidade internacional da Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão (SRG SSR). É graduado em História, Ciência da Cultura e Filosofia pela Universidade Humboldt de Berlim, onde concluiu mestrado em Filosofia, com pesquisa dedicada à estética de Nietzsche. Nas redes sociais, está no Instagram, no Facebook e no Substack.




ótima entrevista de um gigante escritor... maior do que a sua modéstia
Parabéns pela entrevista. Foi muito bom saber mais sobre o Kerleno.