#69. Opinião, opinião, opinião
As redes sociais nos viciam em nossas próprias opiniões, e isso cansa um bocado
COMO DIRIA certo brasileiro conhecido e não tão benquisto, nunca na história deste país externalizamos tantos pensamentos como hoje em dia. Falo da opinião nas redes sociais. Quanto a elas, nenhuma novidade: ser e estar nas redes é um dos comportamento típicos deste esquisito século 21. O problema é que a coisa da opinião ali já foi longe, até o ponto da metonímia.
Sim, metonímia. No caso, trocar o fim pelo meio: porque se antes íamos às redes sociais para externar um belo pensamento que trazíamos na mente, hoje o jogo inverteu-se. São justamente as redes sociais que induzem nossos pensamentos, por meio do conteúdo delas mesmas. Acessamos e então nos expressamos, provocados pela dita plataforma. Depois, ficamos ansiosos por nossa recompensa manifestada em likes, corações e joinhas, todos cedidos carinhosamente por nossos seguidores.
Aliás, coisa estranha isso de seguidores. Imagine algo assim na vida real: você vai calçada afora e uns seguidores vêm logo atrás, um grupinho ou grupão: “curti esse pensamento aí, hein!”, grita alguém ali; “joinha pra você, cara!”, berra outro acolá. Deus nos livre e guarde.
De modo que não seria errado afirmar que circula na presente sociedade um típico pensamento de rede social, o qual não prospera fora dali; um esquema que gira em circuito fechado, próprio e inerente, que o sr. Émile Durkheim, vivo fosse, certamente estudaria como complemento à sua clássica teoria do fato social, elaborada no século XIX.
(Pincelo pobremente o fato social de Durkheim: trata-se de comportamento derivado de um grupo; uma espécie de ente que se descola de uma coletividade qualquer e que não se manifestaria se os membros daquele grupo estivessem sozinhos, espalhados. Algo como atos que nascem do grupo e induzem o indivíduo ali presente, e este assume a atitude por coerção sutil. Pense numa torcida organizada: em casa, papai é papai, mamãe é mamãe, José é José, Maria é Maria; no estádio, porém, em meio à catarse coletiva, a pessoa se transforma em torcedor, age de tal e qual modo. Um comportamento que existe por causa do grupo, despertado por este: eis o fato social.)
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Até aqui, nada contra o penso, logo existo ou contra a liberdade de expressão. De resto, pensar faz bem, acho eu. O caso é que esse pensamento meu e seu vira matéria-prima dessas firmas digitais. Então, elas manipulam o pensamento que desejam ali da forma a mais repercutível possível, para que a palavra se espalhe em teia e contagie mais e mais gente, nem sempre de modo benéfico. Ninguém se engane, somos as abelhas operárias de uma colméia bilionária. Nada inocentes, as tribunazinhas digitais viraram um belo modelo de negócio global, e isso já caminha para décadas.
Mas evito o tom de denúncia. Falo no particular e meu ponto é que, nos últimos dias, tem-me vindo certo desânimo comigo mesmo em relação aos meios digitais. Abro o coração: a sensação que me resta é de ser feito de bobo, no fim das contas. Sim, pois no acúmulo dos anos e depois de tanta opinião emitida naqueles meios, qual foi o resultado efetivo? Quero dizer, o que ultrapassou a virtualidade e se materializou positivamente em minha vida? O que eu ganho com isso, ora bolas?
Estendendo o raciocínio, por que nos fascina tanto esse desejo de opinar e de discordar da opinião alheia? Ora, tanta opinião drena a energia. Fazendo as contas, vejo que estou nessa brincadeira há coisa de vinte anos. Depois de tanto tempo, sinto que tenho me repetido, e além disso, incomoda o mecanismo, o sisteminha. Vá lá, há de ser efeito da idade também, quem sabe uma rabugice incipiente. Assumo, mas o fato é que tenho sentido certo tédio meio recorrente nas últimas semanas, tédio digital especificamente. No resto, não.
Claro, nem por isso vou queimar os navios ou rasgar as vestes. Não darei ultimatos, nem prometerei um abandono total, “nunca mais” e coisas assim. Ocorre que, por mais que continue nas redes (e eu continuo, ok), nada mais por ali me encanta, como diria um hermano argentino. A magia se esvaiu. De modo que não me mostro mais indignado com absurdidades atiradas à minha cara, não me sinto mais espicaçado por contradições e hipocrisias alheias que antes tanto me inquietavam. Nem mesmo a familiar e costumeira corrupção brasileira que ali desfila me faz mover o sobrolho, quanto mais levar-me a opinar. Aquilo pipoca na timeline, quer minha reação e eu a sonego. Reagir para quê? Adianta de quê?
Somadas todas as coisas, tudo me parece uma repetição sem fim, um manjado processo em looping, em que o ontem é igual a hoje e o será amanhã. Então, de que me aproveita corrigir opiniões errôneas, polemizar com uns fulanos e fulanas que mal conheço nem tampouco quero conhecer? O que o juiz e o político de Brasília vão deixar de fazer só porque euzinho discordei aqui no meu prosaico smartphone?
A singularidade digital é uma ilusão. Além de nós, outras pessoas fazem o mesmo e também acham muitas coisas a respeito de tudo; e o que elas acham será necessariamente algo de que se acreditem muito convictas, pelo qual nutrem um sentimento de certeza inabalável e do qual não arredam pé. A pessoa está disposta a discutir, a entrar em labirintos verbais sem fim com disputantes anônimos, a enfrentar de peito aberto qualquer um que tenha a petulância de contrariar suas lindas e delicadas certezas surgidas dali e apenas dali, das redes.
De novo, imagine uma coisa dessas na vida real. A moça escolhe um vestido rosa-choque ou um rapaz decide por uma camisa verde-bandeira. Daí, ao passar pela pracinha da esquina, um maltrapilho grita “vestido chamativo, moça!” ou “camisa brega, rapaz!”. Faz sentido ir lá tirar satisfações? É olhar e ver ali um pobre coitado, um sujeito que precisa de ajuda. Não é nenhum consultor de moda perdido no bairro a gritar consultorias aos passantes.
Mas não é assim que ocorre nas redes sociais? Dou lá meu belo parecer, algo que suponho apropriado e pertinente, e logo surge outro opinador que se vê da mesma forma e ousa desviar o ponto daquele meu pensamento abalizado; não raro, o faz de forma intempestiva e petulante; e, no mais das vezes, burrinha. Tudo porque, afinal, contrariei o afeto que se encerra em seu peito juvenil.
Todos queremos ser únicos e inigualáveis, eis a verdade. E, nesse afã, a rede social nos tira a sensação de nivelamento ao mesmo tempo em que vai nos nivelando. Pronto, eis o vício digital desvendado: ser comum sem se sentir comum. Inigualável e singular são atributos cobiçados neste estranho século 21. São grandes carências em nossa sociedade. “I wish I was special, so fucking special”. Radiohead antecipou a sensação.
Nesse sentido, nossos pensamentinhos nos parecem tão especiais que sentimos a tentação de subir à tribuna digital (onde milhares vão com exatamente a mesma vontade), e lá expressar tudo que está entalado bem aqui, para a apreciação ao distinto público. Imaginamos uma grande platéia, e cada um da platéia também imagina todo mundo como sua platéia, e o ciclo é infinito.
Contudo, por que externalizar impressões a respeito de qualquer porcaria que, se olharmos bem, não nos diz o menor respeito? Esmurrar o vento? Opinar em rede social provoca mudança alguma. Você se lembra da fala mais contundente do ano passado? Ou do post mais brilhante de dois anos atrás? Nem eu.
Não me entenda mal, não me faço de superior. Também não sei o que fazer nessa coisa de opinar e às vezes me sinto muito tentado a fazer isso. Então, lá vou eu. O ponto é que me dou conta da inutilidade disso tudo, pois coisa nenhuma muda com isso. (Mas pode prejudicar: no país dos juízes que tudo podem, lá isso pode. Há tristes exemplos por aí.)
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Suponha que em algum lugar, neste exato momento, uma criatura cometa um crime terrível. Decerto ela não liga a mínima para o que penso a respeito. Pois é, suponha que agorinha mesmo alguém se entregue a uma devassidão qualquer; talvez haja alguém quem mergulhe na degradação neste instante, e, por incrível que pareça, não busca por minha opinião! Mas eu tenho uma, ó degenerado! Até mais de uma!
Então, me examino e descubro que fui ferrenho praticante do esporte opinião, com ardor e afinco. Por muito tempo expressei tudo o que me vinha à mente, para depois ser contradito por outra mente brilhante, figura que a mim parecia patética, lamentável, importuna ou ridícula. No entanto, agora me pergunto se a tal criatura infeliz seria um par mimético. Seria ela um espelho de mim mesmo? Seríamos ambos idiotas tateando num labirinto para idiotas? No fim, postar em rede social é um jogo de soma zero, porque ali o tudo equivale a nada. Somos burros a escoicear no vácuo dos algoritmos, imaginando-nos muito especiais.
De resto, a política nunca terá jeito, a imoralidade jamais vai acabar. Os burros estarão aí, cada vez mais burros e felizes, sem contar os inescrupulosos, crápulas, escroques, imbecis, incompetentes... os piores são perenes e ubíquos; estão sempre bem posicionados, atuantes e muito contentes de si. Os ruins sempre mandarão nos bons e terão poder sobre todos. Más decisões continuarão a ser tomadas por grandes cavalgaduras revestidas de autoridade, causando prejuízo a todo tipo de gente.
Acerca de tudo isso, saibam, tenho belos pensamentos guardados bem aqui. Sim, senhoras e senhores, se me consultarem a respeito, posso dar a todos o privilégio de meu parecer muito bem acertado e fundamentado. No entanto, conformo-me em saber que nenhum dos senhores quer saber nada de meu importantíssimo parecer a respeito do que quer que seja. Minha vingança é que a recíproca é verdadeira.
De modo que opinar adianta de nada, externar pensamentos serve de nada, reitero. Sobretudo essa opinião das redes, gratuita como pisão no pé, opinião pela qual ninguém despende um níquel, numa plataforma disponível a todo mundo com plano de dados e um gadget à mão.
Ora, quem quer ser igual todo mundo? Ninguém, mas todo mundo acha que os outros são todo mundo em oposição ao eu-sou-único. Enquanto isso, o processo se repete, tudo se equivale e se anula, e a ilusão corre soltinha sem ninguém perceber. Até quando, Deus sabe.
Escritor mediano
Confesso minha pretensão: ser um escritor mediano. Não quero ser grande nem pequeno escritor. Quero ser mediano. Continue o leitor com seu monumento inatacável, prossiga a leitora com a autora que a abraça: eu quero estar entre os dois, centralizadinho ali no meio, na linha equatorial desses dois hemisférios.
Digo isso e me vem à mente a canção Paperback Writer, dos Beatles (ouça ou ouça de novo). Pois bem, mediano não é palavrão para mim. Eu adoraria ser lido pela adolescente sonhadora e pelo vovô ranzinza, os dois. Eu quero a lágrima da senhora que assiste novela turca e a risada do marombado que faz crossfit. Mediano não escolhe público. Ele imagina um leitor calvo e acerta na leitora de cabeleira azul. Tudo bem.
O mérito do escritor mediano é ter mais histórias memoráveis que um nome memorável. Quem liga para nome de autor? Todos ligam para a história daquele livro, para a obra que se torna parte da vida de alguém: história que por acaso foi escrita, ora vejam, pelo escritor mediano.
Serei pois este escritor mediano, ó mestres respeitáveis, ó críticos seletíssimos, ó leitores de colossos! Para mim, será um esforço e uma alegria figurar na faixa intermediária da exigente deusa Literatura.
No entanto, se assim ocorrer, faço-o com a mais serena convicção de que o mediano de uma época pode ser um grande doutra época, se sua pena ainda falar, embora o dito-cujo repouse na noite dos tempos.
Então, se quero ser escritor mediano, tentarei ser o melhor mediano que puder. Um bom mediano cumpre a seguinte regra, penso: fugir da vulgaridade, mirar a superioridade, detestar a mediocridade.
Sim, detestar a mediocridade, pois é importante não confundir mediano com medíocre. Nem vou explicar porque um é qualidade, e o outro, defeito. Você é inteligente, e se refletir, vai descobrir.
Quem disse
“O livro é o produto de um eu diferente daquele que exibimos em nossos hábitos, nossa vida social, nossos vícios. Se tentamos compreendê-lo, só o conseguimos se buscamos recriá-lo dentro de nós mesmos, no mais fundo de nosso ser.”
— Marcel Proust
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“O mal é contagiante. Ele jaz adormecido em todos nós, tal como o bacilo antraz no solo, porém quando rompe, sua casca torna-se uma selvática infecção. A violência gera violência. A exposição diária à crueldade ou à pornografia dessensibiliza a pessoa humana em relação ao sofrimento de outros, ao crime, e às mais grosseiras indecências.”
— Morris West
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“O caráter, tanto no domínio das coisas grandes, como no domínio das pequenas, consiste em o homem dar firme continuidade àquilo para o qual se sente capaz.”
— Goethe
Direto do almoxarifado
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Andei sentindo a mesma estafa com redes sociais. Nem sou de emitir muitas opiniões por aí, mas cansei de ficar lendo opiniões alheias e as respostas de terceiros a elas e a discussão inútil que segue, etc. É uma perda de tempo absurda.
Tenho visto um movimento de retorno aos blogs vindo do pessoal da TI. Idealmente, cada um publicaria no próprio site, sem limite de caracteres, sem censuras bestas, no máximo divulgando em outros lugares, e acabou. Quem não tivesse muito a dizer não diria nada por causa do atrito que é montar um site. Vai ver seria melhor pra todos se esse modelo voltasse a ser comum.
Opino que esse foi um dos melhores textos/opinião que já li no opiniódromo do Substack. Me contive para não usar o emoji de aplauso ou até o de foguinho. Parabéns, Fernando!
PS: Essa é apenas a minha opinião.