#7. A Questão do escritor
Há em cada escritor um dínamo que o impele a escrever, e disso depende a literatura e os leitores
DIFÍCIL DEFINIR COM EXATIDÃO o que é um escritor. As acepções são variadas, para além do ofício mesmo de escrever. Se examinarmos com cuidado, algo nos dirá que para ser escritor (usarei apenas a forma masculina para facilitar a leitura), para ser escritor é preciso haver algum motor interno, um impulso misterioso que suplante a mera habilidade ou a vontade ocasional ou ainda a demanda externa por textos literários.
Pode-se então afirmar que o verdadeiro escritor não o é apenas no corpo — no trabalho em si mesmo — mas também na alma. Contudo, isso ainda é vago e não basta para defini-lo na essência.
O que confere ao escritor esse impulso do escrever, creio, é a sua Questão interior. Todo grande escritor tem em si uma grande questão (passo à minúscula para não entediar): Balzac, Dostoiévski, Flaubert, Jane Austen, Kafka, Thomas Mann, Tolstói, Virginia Woolf dentre tantos, tantos outros não menos importantes. Toda essa constelação de autores tem, cada qual a seu modo, essa grande questão que lhes serve de dínamo a produzir energia, uma chama interna, um impulso para produzir sua arte. Todos escreveram porque tinham de escrever e não poderia ser de outro modo; publicação e posterior leitura dos demais são outro departamento.
O tema não é exatamente novidade. Elias Canetti, por exemplo, diz que todo escritor traz em si uma ferida. Faz sentido o termo (ora, é Canetti que está dizendo). Mas penso modestamente que a palavra ferida para designar o que move o escritor não funciona muito bem no nosso idioma, pois remeteria a alguma dor, amargura ou algo do tipo. E a questão do escritor, tal como nomeio, não significa um produto do sofrimento, seja material ou existencial — muito embora também haja muito disso —, mas não necessariamente.
John Kennedy Toole
Ademais, falar em ferida pareceria contraditório se lembrarmos, por exemplo, do escritor americano John Kennedy Toole¹, autor do romance mais cômico (ou tragicômico) já escrito, Uma Confraria de Tolos (excelente por sinal, só encontrado em sebos). O próprio Toole suicida-se ainda jovem por ter a publicação de seu livro negada sistematicamente pelas editoras (para variar). Pois é ler a obra e notarmos o quanto de entrega do autor vai ali. Se em Toole houve então essa ferida, como diz Canetti, a abertura dela deu-se posterior à obra, de maneira fatal, pois o romance em si mesmo é hilariante. Foi um caso de tears of a clown, talvez?
A tal questão do escritor não se restringe a um assunto específico que apareça num só livro e não apareça em outros do mesmo autor. Muito menos se refere a algum mal sociológico externo, do qual o escritor assumiria o papel de ativista e se incumbiria de problematizá-lo ad hoc, como anda tão em voga: aquela habita o âmago do indivíduo em si, é assunto exclusivo seu, habita seu próprio espírito. E pode abarcar muitos temas e abordagens indiretas, todas convergentes no fim das contas, identificável no sentido amplo da produção autoral.
Em cada texto — ficcional ou não — a questão estará ali como uma sombra, latente por baixo das palavras. Se vier à tona e aparecer, será sem intencionalidade nem propósito específico, pois, do contrário, a autenticidade voaria janela afora, e com ela a própria arte literária. A questão mostra-se apenas de dentro para fora, nunca o contrário — isto é, se a literatura for mesmo sincera e desinteressada a priori, feita por um escritor na acepção da palavra.
A questão também não se trata de uma dúvida investigativa, um objeto simplesmente. Tampouco é uma formulação lógica ou conceitual de tipo científica. Frequentemente ela não vem enunciada nos seus termos definitivos, pois o escritor a verte sutilmente no espírito da obra, quase sempre sem conclui-la a contento na duração da própria vida. Caberá depois ao estudioso, ao crítico ou ao leitor experimentado, notar e identificar essa questão presente na construção do escritor. A partir do conjunto da obra, é possível vê-la pulsar, como um farol numa ilha distante: basta prestar a devida atenção para vê-la no horizonte, intensa e persistente.
Na obra do escritor, os temas da escrita vão-se afunilando de alguma forma: assim, ao conhecê-las, descobrimos uma verdade do escritor que reflete algo maior, a verdade no escritor. E aqui está o que interessa aos leitores: o contato com essa Grande Verdade, a qual, multifacetada e caleidoscópica por natureza, o escritor oferta a pequena parte dela presente em si mesmo.
A partir de seu enfoque pessoal, sua literatura ajuda não apenas a guardar ideias e conceitos, mas a identificar, como ele antes identificou, a parcela daquela Verdade que habita nosso próprio ser, num processo desencadeado pela troca, pela comunicação entre almas humanas, escritor e leitor. A leitura, então, nos serve de espelho e instrumento indireto para nosso próprio autoconhecimento.
Para tudo isso acontecer, obviamente temos de lê-los. Desse modo, a tal questão do escritor será também nosso farol, nosso ponto de referência em alto mar. Não se trata de panaceia nem há pretensão de sê-la, embora a literatura ajude sim um bocado nisso, mediante a somatória de leituras. Em certos casos, pode ser mesmo vital. Por outro lado, infeliz de quem não lê: seu horizonte turvo e enevoado não deixa ver ao longe aquele farol, impossibilitando chegar ao porto seguro. Sem contato com a literatura, fica-se entregue à própria sorte no mar incerto da existência.
H.P. Lovecraft
Dia desses dizia eu no twitter (sim, Elon, twitter) nunca ter lido H.P. Lovecraft na vida. Leio-o agora, e olha, gostei um bocado (antes tarde etc). Tenho certeza de que se o lesse entre os 18 e 25 anos, diria que adorei. Lovecraft é um ótimo autor para se começar a gostar de ficção, especialmente meninos e rapazes (por serem em geral mais imaginativos, ó meninas e moças; nada contra e tudo a favor de vocês; é que eles precisam ler mais, os marmanjos). Mas não só por isso.
De cara, gostei da linguagem: embora os temas de Lovecraft versem a respeito de suspenses e criaturas aterrorizantes, seu estilo soa clássico sem exageros. A leitura embala e você esquece que lê (a melhor forma de ler, não é mesmo?), mesmo na versão traduzida.
De resto, sou contra facilitar demais a linguagem em literatura, embora não defenda o estilo penteadeira da vovó. Bom é o texto elegante na medida, pois, ó raios, onde mais apreciar a elegância textual senão num texto literário? Ali é o lugar certo, como o lugar certo dos remédios é a farmácia. De resto, é preciso haver uma reserva de elegância nalgum cantinho, para não ficarmos rudes e selvagens sem percebermos.
Pois escreve bem pra chuchu o Howard Phillips Lovecraft, e isso levou-me a apreciá-lo: pelo estilo, imaginei que fosse inglês. Fiquei surpreso ao saber que era americano, pois em geral escritores americanos não são tão estilistas como os ingleses (Henry James é exceção: consta que bebeu muito da fonte britânica).
A julgar pela construção, acho que Lovecraft, embora ianque da gema, também educou-se na arte com literatos ingleses, que em geral escrevem como lordes. A ser assim, bom para ele e muito, mas muito melhor para nós.
(Leio numa edição da DarkSide Books², editora amada por uns e odiada por outros. Eu amo: aquelas edições exageradas são belas e divertidas, ótimas para ter em casa e legar aos filhos a partir da curiosidade. Ler (ou começar a ler, pelo menos) pede uma diversão anterior ao texto, algo que convide ao mergulho na obra mediante o visual. Nisso, creio, a DarkSide trabalha bem, e me agrada a proposta.)
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Caê, o totêmico
Informa a internet: Caetano Veloso recebe o título doutor honoris causa pela prestigiosa Universidade de Salamanca, na Espanha.
Honoris causa por causa de quê?
Porque Caetano Veloso é Caetano Veloso, ora paçoca.
Caetano Veloso todo mundo sabe desde o berço que tem de respeitar, pois afinal, ora essa, pois… caramba, como assim não respeitar o Caetano Veloso? Todo mundo sabe, tem de respeitar o Caetano Veloso. Quem não respeita o Caetano Veloso?
Caetano Veloso tem de ser respeitado porque temos de respeitar o Caetano Veloso, ponto. Então, respeite-se Caetano Veloso.
Motivos? Simples: deve-se respeitar Caetano Veloso porque, bem, porque existe respeito e existe Caetano Veloso, então você pega o negócio chamado respeito e entrega ao negócio chamado Caetano Veloso.
Informa a internet: Caetano ficou muito emocionado em Salamanca, como se não merecesse aquilo tudo. E no fim, cantou Genipapo.
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Comunidades Hobbit
Sonhei que os barracos das favelas brasileiras eram todos recobertos de trepadeiras e musgos, de alto a baixo, com florzinhas multicoloridas nos rodapés. Nas portas, floridinhas bougainvilles (que ninguém sabia o nome mas tinha a planta) contornavam os batentes, presas por aramezinhos.
De longe, no conjunto, as favelas pareciam enormes vilarejos hobbit, tudo verdinho, verdadeiras comunidades de bolseiros, e eram mundialmente famosas por isso: havia todo um circuito mundial de turismo a visitar nossos vilarejos hobbit chamados favelas. Tanta vegetação particular-bonitinha não apenas embelezava o conjunto mas equilibrava as taxas de gás carbônico das metrópoles, inclusive.
Tráfico, milícia, violência? Ali não existiam. Havia sim pobreza, mas poética, de uma pureza antropológica que servia de tema a inúmeros estudos ao redor do globo. E o verde onipresente, salpicadinho de vermelhos e amarelos e rosas e lilases, onde habitavam bichinhos e gorjeavam passarinhos, tudo aquilo deixava a vida mais bela, mais digna e menos sofrida. Só um sonho.
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Quem disse?
“Um verdadeiro artista joga o leitor de volta para si mesmo, ajuda-o a descobrir em si mesmo os inesgotáveis recursos que são seus. Ninguém se salva nem se cura a não ser por seus próprios esforços. A única cura autêntica é a cura pela fé.”
— Henry Miller
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“Quem tem personalidade, põe-na onde quer que ponha a mão, e talvez tanto mais quanto mais queira ocultar-se.”
— Miguel de Unamuno
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“A virtude do homem não se mede quando ele faz um grande esforço, mas quando faz as coisas naturalmente.”
— Pascal
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