#71. Contar a própria história
O auto-exame necessário a todo verdadeiro escritor
TENHO PENSADO que não é possível criar nada de valor em literatura sem muito antes contar a si mesmo a própria história de vida. Pode parecer algo simples fazê-lo, mas não é. Ser brutalmente honesto conosco mesmos é tarefa difícil, pois são tantas as máscaras que usamos, tantos os papéis que assumimos e posturas que adotamos, que esquecemos de dar o necessário mergulho interior. Contudo, é preciso examinarmo-nos o tempo todo, sem transferir culpas nem nos penitenciarmos falsamente, com exagero.
Isso se dá na solidão do próprio pensamento, sem audiência nem platéia para projetar impressões, quando o escritor é tão somente um indivíduo — tome a palavra pelo sentido etimológico, ou seja, indivisível, que não se pode dividir.
Então, ao contar a si mesmo sua trajetória de vida, o indivíduo-que-escreve deve estar consciente do próprio ridículo, da vergonha que o faz incorrer nos erros mais estúpidos muitas vezes. Neste momento, ele se dá conta de que não tem mais o direito de julgar a ninguém, pois sua imperfeição lhe pesa e humilha mais que quaisquer deslizes de outrem, mesmo em relação a ele.
Por outro lado, se o escritor se tem em alta conta, e enquanto age como quem calcula qualquer projeção social; se trabalha uma imagem exterior com a qual pretende ser visto, ele não está ainda pronto para este mergulho-em-si. Tudo o que produz não passa de performance, com vistas a aumentar o próprio capital social e a moldar o olhar alheio em relação a si, de um jeito que lhe pareça interessante, conveniente, e no fim das contas, falso.
Metaforicamente falando, o verdadeiro escritor vive como que nu; ele está humilhado e ridicularizado, e não tem mais o que perder, pois já perdeu tudo exceto a vida. Suas posses são apenas o seu ser, seu espírito e sua alma; ele está consciente do quanto todo adereço externo é mundano, postiço e transitório. E o mais importante: ao contar a si mesmo sua história de vida, ao sopesar o que ele fez e o que lhe fizeram, ele, ao fim e ao cabo, perdoa a si e a todos. Aqui, o escritor zera o cronômetro da existência e passa a contar os seus dias deste momento em diante.
Contar a própria história implica em responder, com toda a minúcia possível, com toda honestidade alcançável, as seguintes perguntas: “Por que sou como sou? O que fez de mim ser o que sou? Por que ajo e penso dessa maneira? Sempre fui assim ou isso começou em algum ponto da minha vida? O que houve naquela circunstância para alterar meu comportamento? Como classifico meu próprio temperamento?”, etc. Trata-se de um auto-exame completo que implica, por fim, numa desistência ao invés de uma resistência. Isso porque ninguém pode defender-se de si mesmo.
Se não contarmos nossa própria história, e se nesse processo o mais honesto possível não reconhecermos nossas limitações profundas; se não assumirmos nossas fraquezas e torpezas sem transferir culpas nem responsabilidades; se não absolvermos nossos pais e separar deles o que em nós ficou de bom; se não identificarmos em nossas raízes familiares nossos vícios de origem, enfim: nunca faremos literatura digna do nome. Ouso crer assim.
Daí que o escritor, profundamente consciente de sua humanidade, não escreverá reivindicações fingidas em nome de grupos esse ou aquele. Ele sabe melhor que ninguém a própria miséria, sabe o quanto depende da Graça divina para lhe dar alguma alegria interior que o possibilite simplesmente prosseguir um dia após o outro.
O verdadeiro escritor não ama o mundo nem as coisas que há no mundo (I João 2:15-17). Ele ama a Deus, põe a esperança Nele. Depois, ama o semelhante como a si mesmo, conforme mandou o Cristo, e isto significa: reconhecer a dignidade intrínseca daquela pessoa. Em seu coração, o escritor substitui as pedras do julgamento pela compaixão e compreensão do barro de que cada pessoa é feita, ainda que, no calor da ofensa, ele possa reagir instintivamente. O que vale é a lição que fica de cada situação.
Diante de tudo isso, ele ainda chamará ao mal, mal, e ao bem, bem: sua profunda compreensão releva o pecador (que também ele é, afinal), sem jamais contemporizar com o ato pecaminoso enquanto tal.
Quanto ao ofício da escrita propriamente dito, este escritor não será apenas um contador de histórias criativas, portanto. Ele será como um arauto, uma testemunha de realidades profundas e verdadeiras. A ficção, aí, funcionará como meio e excipiente da fórmula, de modo a facilitar a “absorção” das lições subjacentes na narrativa. A ficção do verdadeiro escritor sempre fará o leitor compreender.
Como se vê, trata-se de um exercício espiritual esse contar a própria história. Para isso, é preciso a ajuda de Deus. Só Ele pode limpar e purificar o nosso interior. Quanto ao escritor, ao sentir a miséria de sua condição pecaminosa, ele pode finalmente sentir a miséria alheia ao redor, e relatar aquela imperfectibilidade humana em seus aspectos ruins e bons, também. Sua literatura, então, ilustrará os efeitos do pecado original e apontará a porta de saída, qual seja, a redenção.
Se assim for, a literatura desse escritor será forte e verdadeira. E entregue à leitura dessa literatura, o leitor estará em boas mãos, conduzido pelo indivíduo que antes viu a luz em si mesmo, e agora ajuda a outros por meio de parábolas, ou seja, a narrativa de ficção.
O Cortiço
Quero aqui defender O Cortiço, e seu autor, Aluísio Azevedo. Não que ambos precisem da defesa deste mais absoluto ninguém. Mas, já leu a leitora e o leitor O Cortiço? “Sim, no tempo da escola”. Não, não, por favor, esqueça a escola: releia-o agora, sem questionários nem provas. Leia apenas por ler, por gosto e decisão, pensando em nada; deixe-se levar, que todo livro digno do nome deve ser lido assim, ler por ler e mais nada.
Leia O Cortiço porque sim e pronto, basta.
Pois eu li O Cortiço desse modo, sem pretensão. Pouco me importei com a escola literária a que pertenceu, mandei às favas o dito naturalismo, seus entusiastas e detratores; não quis elucubrar intenções do autor exceto esta: a de que ele sentou, escreveu, quis contar uma boa história e conseguiu; e por tabela, ali resumiu o Brasil do presente e do futuro.
Pois nosso país, moças e moços, está n’O Cortiço de Aluísio Azevedo.
Não goste do livro quem decida não gostar; mas ninguém negue que nossa territorialidade e povo foram bem compactadinhas lá dentro. O sr. Aluísio foi um visionário, como aliás o são os grandes escritores. Fosse o mesmo livro feito na Rússia, ele não receberia por aqui nada além de elogios e zero controvérsia.
Voltemos a ler O Cortiço. Uma das maiores obras da literatura brasileira e, arrisco-me a dizer, também mundial.
Apontamentos quiçá precisos
Algo clássico no Brasil: enaltecer virtudes urgentes de um pequeno, não por admiração ao pequeno, não por querer-lhe genuinamente o bem, mas para usá-lo de aríete contra um grandioso invejado. Vindo o mal ao grandioso invejado, despreza-se imediatamente o pequeno enaltecido.
*
Não se traia a ponto de aparentar aos outros algo que você mesmo sabe não ser verdade em seu interior. Não dissimule, não faça nada “porque que esperam de mim”, “porque fica bem”. Ninguém liga, no fundo. Prefira manter sua consciência, ainda que com brutal honestidade e senso de insignificância.
*
Quando você compra um carro vermelho, passa a ver trocentos carros vermelhos na rua. Quando dá um determinado nome a um personagem, depara-se com trocentas pessoas do mesmo nome.
*
Fizeram a inteligência artificial. Quero ver fazerem a sabedoria artificial.
*
As pessoas adoram consultar quem quase sabe das coisas. Quem sabe mesmo, elas preferem evitar.
Quem disse
“Na minha experiência pessoal fui verificando que o meu esforço consciente só resultava em insatisfação, ao passo que o que me saía do subconsciente, numa espécie de transe ou alumbramento, tinha ao menos a virtude de me deixar aliviado de minhas angústias.”
— Manuel Bandeira
*
“Homem feliz é aquele que, ao despertar, se reencontra com prazer, se reconhece como aquele que ele gosta de ser.”
— Paul Valéry
*
“Soberba, e refinada, é abster-se de obrar para não se expor à crítica..”
— Miguel de Unamuno








