“O VENTO pode levar as tuas palavras”, diz o rei Salomão; “portanto, cuida do que dizes, pois elas podem chegar ao rei”. Leio o provérbio bíblico e associo-o ao adágio romano verba volant, scripta manent (as palavras voam, o escrito permanece, em pobre tradução). Terá algo a ver? Não sei. Minha cultura é um pó na superfície do móvel.
Quanto ao rei Salomão, também não ousaria dizer que o homem mais sábio do mundo pudesse estar exagerando. Sei o tamanho de minhas sandálias. Por vezes, uma pretensa racionalidade diante da sentença forte – em que pese o respaldo da fonte – não passa de uma estupidez satisfeita de si.
Mas fala-se em palavra e eu penso nesse ente misterioso. Desço então ao nível de minha realidade e observo as pessoas: noto titulados e subalternos, e entre ambos, a gente média feito eu. Noto que as pessoas comem, as pessoas riem, as pessoas comem mais, as pessoas riem mais; as pessoas se agregam e se congraçam na alegria necessária do dia após o outro. Contudo, à margem de tudo isso e à parte de todo turbilhão de agitações e vozes, passa nula a palavra, ao largo o texto formado por elas, em brancas nuvens a literatura.
Porque a regra geral observada é simplesmente não ler. Uma vida desperdiçada.
Hoje em dia, quem lê? Quem cultiva o silêncio interior ante a falação do mundo, quem aprecia a sabedoria contida num parágrafo ou vários páragrafos? Ao meu redor, ninguém. Contudo, a palavra persiste e não sucumbe à indiferença geral: ela conserva sua força até o dia do encontro. Alguém a lerá. Então, a palavra espera, sem gritar; ela tem a discrição da donzela, para quem a ignora, e a força do guerreiro, para quem a procura. Ou vice-versa.
Mesmo com tanto desprezo circundante, agora fazem uns robôs que fabricam palavras, como as velhas fábricas que fabricam doces. Inteligência artificial, o nome: robozinhos que combinam palavras segundo uma matemática e uma lógica, como a fábrica sintetiza o sabor da fruta real e inventa um negócio sabor de fruta. E o efeito da novidade desperta uma súbita urgência dessa palavra-feita, uma coisa de não-leitor para não-leitores, uma pilha textual montada por uma inteligência inanimada, inteligência fraudulenta pois não intelige com espírito.
Essas urgentes fábricas de palavras atendem, portanto, a uma falsa demanda. Porque não há tanta fome de palavra como há fome de vê-las juntas numa massa indistinta. Trata-se de uma gigantesca farsa.
Abusam da palavra porque ela não acaba. As palavras abundam, inesgotáveis, e dão-se ao direito de gastá-las, bastando um comando no prompt. Mas, para quê? Para quê empilhar palavras num sistema? Pra quê tanto texto se não há o leitor para os textos?
Por outro lado, a palavra é o insumo da literatura. Porém, a mera justaposição de palavras não resulta em literatura. A literatura entretece as palavras certas para dizer, e a trata, deve tratar, com carinho e critério; o resultado daí advindo é a mensagem e o sentido por baixo delas. Aqui adentramos o algo além que a literatura esconde: uma transformação interior, uma pura experiência humana.
Embora escrita com palavras, a literatura tem força genuína, porque só gente de verdade sente o calor e o sangue por trás daquelas, mesmo séculos depois da escrita. Máquinas e robôs ajuntam signos, mas não transmitem mensagens. São aberrações criadas por doutores Frankenstein, uns loucos querendo dominar o mundo. Porque a mensagem se apresenta no tom por baixo das palavras, e frutificam nas intenções subjacentes a elas. Dotada de sentido, a palavra voa, conforme diz Salomão, e essa é a literatura. E, quando a literatura encontra alguém predisposto, alguém entregue, o efeito se dá.
O texto genuíno guarda uma relação espiritual entre emissor e receptor, e as palavras são o invólucro dessa troca mútua. As palavras, veículos da troca, não funcionam se combinadas por mero cálculo. Literatura é um broto natural, o germe que criou raízes. Palavra é o que ela se torna e o que dela alguém de verdade faz.
Por isso, ela jamais será “sequestrável” por corporações vorazes entupidas de dólares. Tentem aprisioná-la o quanto queiram: será inútil.
Voltando à Bíblia Sagrada, diz o apóstolo São Paulo que “a letra mata, mas o espírito vivifica.” O espírito dá vida às palavras. O conjunto delas é a literatura, que quebra a casca das palavras e traz a essência delas, um algo além misterioso que máquina nenhuma alcança, não importa quanto dinheiro possam os endinheirados do mundo despejar nisso.
Recompensa versus satisfação
O homem é movido pela recompensa. A mulher, pela satisfação. De modo que, para o homem, a recompensa é sua satisfação, e para a mulher, a satisfação é sua recompensa.
Pela recompensa, o homem sacrifica o presente em nome do futuro. Pela satisfação, a mulher sacrifica o futuro em nome do presente.
O homem se move pela recompensa porque, imbuído da sensação de ter tudo em potencial, admite perder um pouco agora para obter a recompensa depois. A mulher se move pela satisfação, porque, imbuída da sensação de ter nada em potencial, busca bocados no agora, pois pode não haver um depois.
Se não há esperança de recompensa no futuro, o presente do homem não faz sentido. Se não há esperança de satisfação no presente, o futuro da mulher não faz sentido.
Num mundo feito de imediatos, a mulher tem a vantagem. No pretérito mundo em construção, o homem tinha a vantagem.
É examinar por aí e ver a quem pertence o futuro: a quem extrai do presente seu prêmio, e vai subindo, degrau a degrau de satisfação, a escada da vida. Logo, à mulher.
Isso até o mundo se desestruturar pelo excesso de uso e pela indisciplina do prazer imediato: após uma grande guerra, por exemplo. Aí, tudo retorna ao começo. Quem sobreviver, verá.
Lojinha
A lojinha velha e decadente:
Produtos sujos pendem das prateleiras.
A loja escura, quase sem freguês.
A cidade grita lá fora, fere o silêncio.
O tempo passa lá fora. O carro passa lá fora.
A ambulância canta, estridente, pede abertura:
De tudo acontece na via suja.
A lojinha parada, sempre aqui.
Sempre invisível. Sempre aberta.
Não sente o tempo, a ruga na cara dos outrora jovens
E o agito da geração sem nenhuma chance.
A cidade que não melhora,
Toda a gente que não muda:
O grosseiro, o crente, o mendigo,
A moça na bicicleta, o louco que grita
Com o demônio que só ele vê.
O homem sanduíche, envolto em sua placa.
A mulher distribui papéis cujo destino é o chão:
Lógica previsível, fato inevitável.
Esta é a cidade, assim é a avenida
E aqui, a lojinha. Aqui jaz a lojinha.
A prateleira triste, tão empoeirada!
De quê o senhor vive, se quase nada vende?
Mas entrei aqui. Avisto um item raro:
É meu! Não resisto: comprei.
Minha vinda à lojinha valeu a pena, enfim.
(24/2/2017)
Filigranas
Reconhecer-se pecador é fácil. Difícil é assumir um único erro.
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A esquerda é uma metrópole. A direita, uma pracinha.
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Decadência é se vender ao sistema e o sistema não comprar.
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Patriarcado: “fique bom nisso e talvez eu te dê uma chance.”
Matriarcado: “te dou uma chance e talvez você fique boa nisso.”
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Há a inteligência artificial. Não haverá a sabedoria artificial.
Quem disse
“Na tragédia de não poder mudar o jogo espúrio das coisas, e na comédia, constantemente renovada, com as mesmas cenas e os mesmos personagens, de ter de rir à força como último remédio, ele contempla o circo de seu país e o circo do mundo: com seus palhaços fatigados, com seus acrobatas enganadores, com suas feras domesticadas, não mais por domadores, mas por um tédio que hoje parece dominar até os animais.”
— Ângelo Monteiro
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“A própria vontade não se satisfaz nunca enquanto não tenha tudo que ela almeja. Mas se satisfaz no instante que a tudo isso renuncia. Com ela será sempre um descontente; sem ela será mais contente.”
— Pascal
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“Deveras bom é o homem raro que nunca censura as pessoas pelos males que lhe acontecem.”
— Paul Valéry
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