#8. Eu te amo, classe média
O cinema brasileiro devia dizer isso para conquistar definitivamente o grande público
NÃO PARECE, MAS TORÇO PELO BRASIL. Se falo mal, faço-o por desabafo, não por torcer contra. A verdade é que eu queria muito que tudo aqui desse certo, de um jeito nosso, autêntico. Imagine só se tivéssemos uma escola brasileira de fazer coisas ótimas, inimitáveis; algo como dizer “carro italiano” e pensar logo num super bólido, entende?
Não precisávamos ser os melhores do mundo em nada, a princípio; podíamos ser realistas e lutar para chegar a um patamar mediano (não medíocre, outra coisa) e, a partir desse nível intermediário, dar uns pulinhos para alcançar a elevação, aqui e acolá. Já estaria de bom tamanho.
Enfim, o que houve: semanas atrás li uma notícia de certa cota de tela para filmes brasileiros nos cinemas, por autoria do ínclito senador Randolfe Rodrigues. Vai ter filme brasileiro na marra ou teje preso, seu Randolfe manda avisar. Claro, eu exagero. Paga umas multinhas se infligir, café pequeno.
Mas, francamente, cota de tela? Pode haver maior confissão de fracasso? “Mas a Cochinchina fez o mesmo em 1991 e olha só como é hoje” etc. etc. Certo, certo.
Não sou nenhum brucutu com bandeira confederada, nem sou Tio Sam na veia haja o que houver, de modo algum. Não penso “brasileiro que se dane”, nada isso. De resto, sei as dificuldades todas do meio, a falta de espaço para exibição, a cadeia de custos envolvida e tudo o mais, ok, ok, entendo, entendo.
Meu ponto é outro. Permita-me elaborar.
Não é de hoje que todo mundo torce pelo Brasil. Hoje, sua participação é requisitada na mesa dos players globais: é o país da Amazônia, afinal. Contudo, enquanto a Amazônia é o novo Rio de Janeiro em renome e importância internacional, ninguém conhece direito o povo desse lugarzão chamado Brazil, ao menos pelo conjunto da representação artística.
Todos ao redor do globo sabem razoavelmente quem é o francês, o inglês, o espanhol, o italiano, o alemão. O mundo sabe demais da conta quem é o americano e, de modo enviesado via próprio americano, sabe do povo mexicano. Mas o tal de brasileiro, o ente, o povo, lá fora ninguém sabe muito bem quem é.
Só que nem nós, aqui dentro, sabemos muito bem.
Não, não puxarei a gaveta Estudos Brasileiros do arquivo, embora até aprecie um tantinho o tema. Falo de representação artística e, mais especificamente, do cinema brasileiro, o propalado nosso cinema.
Talvez alguém torça o bico, agora.
Pois veja: a marca brasileiro, ou se quiser, nacional adjetivando cinema faz de cara a maioria torcer o bico, mesmo. É uma reação esperada, mas não devia ser. Imagine só como fica depois de cota de tela na canetada por força-de-lei.
Na verdade, nem devia existir uma coisa chamada cinema brasileiro, a catalogação, digo, a indicar “cinema é uma coisa, isso aqui é outra”. Pior, coisa negativa, malfeita, indesejada ou, na melhor das hipóteses, café-com-leite.
“Vamos ajudar, pessoal”
Dia desses vi um ator (Caio Blat) num reclame de certo filme a dizer, como tantos outros antes dele, “galera, prestigie o cinema nacional, venha ver o filme xis, você vai gostar” etc. etc. Faz a parte dele, o Caio Blat. Só que incomoda demais esse constante dá um trocado, tio na hora de ver filme brasileiro no cinema, esses dá uma chance, moço; tem compaixão, senhor; abra o coração, senhora.
Falando polidamente, não evacuo regras aqui, fique claro. Que sei eu? De cinema sei três coisinhas, a saber: assistir, gostar ou não gostar. Ou seja, sou parte do chamado público espectador, nada mais. Então, do alto de meu nadismo ontológico, meneio a cabeça meio rabugento a essa coisa de cotas e de ajudas-aí-tio. Porque, de novo, não precisava ser assim.
Note por exemplo quando — algo recente, dentre inúmeros outros — uma diretora Greta Gerwig faz uma coletiva para promover o seu Barbie, ela não diz “poxa galera, vem ver a gente, dá uma forcinha.” Ela diz — como toda coletiva de filme arrasa-quarteirão sempre diz — “essa é a coisa mais divertida (interessante, importante, emocionante) que você vai ver, foi muito excitante fazer”, por aí vai. A sensação residual do outro lado é “caramba, não posso perder essa”. E não perde mesmo.
Ok, proporções. Cinema em geral é uma coisa, Hollywood é outra. Estão eles de um lado e o resto de outro. Também sei disso.
Então reduzamos o universo da análise: veja o cinema argentino, o dinamarquês, o coreano (ambos em ascensão recente), o alemão... sem contar os tradicionais francês, italiano, espanhol, japonês... não sei dizer a taxa de aceitação interna desses cinemas nos respectivos países; julgo que não seja pouca, muito menos dependa de apelos a “prestigiar”, essas humilhações. Há muito a considerar aqui, e eu peço desculpas por falar de passagem e dar um salto adiante, mas preciso ir ao cerne da coisa: o cinema brasileiro é ruim ou o espectador que é mau?
Infelizmente, a primeira opção. Sem rodeios, direto. No quadro geral, cinema brasileiro bom é exceção, minha gente. Sem pormenorizar, não é verdade que o brasileiro não aprecie sua própria dramaturgia. Ora, quantas novelas globais batem recordes de audiência? E mesmo quando não atingem os picos do ibope, a média permanece relativamente alta. Se fossem fracasso de audiência, jamais haveria a próxima novela, certo? Comprariam as mexicanas e turcas num pacotão e estava tudo resolvido.
O que falta
Eis o que falta ao cinema nacional: representar, e bem, nossa querida classe média. Oh, sim, senhores. Não poderia o público que paga ingresso se ver na tela do cinema? Por aqui há cangaços e favelas e bandidos e ricos jecas de sobra; há pansexualidades e representações de identidade pra vovô Soros nenhum botar defeito, mas nunca se vê a classe média urbana brasileira no cerne da coisa, na essência dramática, por dentro, como ela é.
Em contraposição, há tanta classe média no cinema americano, mas tanta, que sobra até para as porcarias do Adam Sandler (a fazer sempre a mesma cara de bobão bondoso e a contracenar com atrizes-filé; de bobo, o Adam só tem a cara).
Mas aqui, quando a classe média aparece, via de regra vem sempre representada de modo estereotipado, viciado, projetado para demonstrar teses manjadas ad hoc na linha professora Marilena, “é que eu odeio a classe média! Ela é uma aberração cognitiva…”
Bem, ficção depende de identificação: se eu não esquecer que assisto a um filme e entrar na história, aquilo vai me incomodar ao nível do insuportável. Aconteceu com um filme nacional dia desses. Não adianta, não funciona: se chegar a ofender a inteligência, se irritar a percepção, falhou; virá do espectador um inevitável desprezo (o popular ranço) com tudo que se parecer com aquilo. Natural. Depois, será inútil brigar com o respeitável público e dizer que ele está errado; justo ele, que paga?
Irrita por exemplo quando o cinema brasileiro preza por uma inverossímil canalhice onipresente, do drama à comédia. Se tenta exibir virtudes (religiosas, para fisgar este público específico), resvala no piegas e, portanto, no falso. Falta então uma sintonia fina, uma complexidade humana presente nos detalhes; falta observação sensível dos tipos humanos para compor personagens e, por consequência, falta naturalidade nos roteiros. Sobretudo naturalidade falta no cinema nacional. Resultado: não convence.
De novo, não é preciso imitar americanos. Do ponto de vista da criação artística, nossa vida urbana não é bem retratada nas películas nacionais, exceto no que há de pior, sob aquele niilismo de segunda, com decadências caricatas e exageradas que ninguém vê muito no cotidiano, ao menos não tão concentradas.
Outra coisa: interdita-se a beleza. A vida real tem feiura demais, então faz bem ver beleza na tela, ainda mais se boa e triunfante. De cenários bonitos e gente bonita é que falo. Qual o problema em agradar os olhos? Beleza importa, ora essa; mas parece que a academia brasileira de humanidades, essa triste figura que forma nossos cineastas, ela estraga o estudante para sempre: proíbe a exibição da beleza, nega a existência de gente e paisagens bonitas no país, pois isso decerto “aliena”. Todavia, cinema devia ser escape, não propaganda do partido.
Então, na ponta, o cine-brasil parece dizer: olha, brasileiro, aqui tudo é mesmo feio, mau e canalha. Toma que o filho é teu. Belo, bom e íntegro não existem aqui, nem um exemplar. A mocinha bonita que vence por ser bondosa, que supera o dilema e deixa o espectador mais inspirado? Jamais. Procure o Tio Sam.
Soa burguês demais, alguém diria; muito classe média. Certo, então questiono: por que o cineasta nacional típico deve preferir sempre o esculacho, o pedestre, o submundo? Será que o único bem de que o brasileiro é capaz é de rir, ser bem-humorado? Este é o nível máximo alcançável?
Então, de tanto desencontro e ausência de identificação, o público médio de classe média — que por acaso paga a entrada — com justiça prefere não ver aquilo que se lhe opõe como representação. Zero surpresa. Pior: ele não manda reclamações ao Procon, não bate o pezinho na porta da sala de projeção; simplesmente desloca sua massa de atenção aos dramas das ruas de San Francisco ou se entretêm com a rotina dum escritório de advocacia em Manhattan. Ou seja, dá lá o seu jeito e acaba se satisfazendo com outra coisa. Oferta não falta.
Então, querido cinema brasileiro, se vossa mercê quiser mesmo dar certo por aqui e ter público; e se esta irrelevância aqui pode dizer algo que se aproveite, ouça: esqueça as sociologias uspianas e passe a dizer “eu te amo, classe média”.
Não é puxar saco: amar no sentido filosófico, socrático-platônico: observar o objeto, deixar-se impregnar por suas características reais, deixar-se enternecer pela humanidade ali presente, esforçar-se por compreender. Pode criticar? Claro, mas em contraposição a um valor ideal, um ethos, e não despejar maldades como entulho na sala, sair de fininho e dizer ao espectador, “é isso aí, agora te vira”.
Parece exagerado o socrático-platônico, mas não, é simples. Basta observar com atenção dedicada e retratar com fidelidade, livre de teses a provar; mas antes disso, o principal: ter uma imaginação preparada para tanto. Aqui a coisa pega.
O cineasta brasuca precisa trabalhar a imaginação, urgente. É caso de cura, purificação com leituras mais clássicas e o que mais for bom e proveitoso nessa linha. Pois imaginação é coisa que universidade alguma pode formar, mas deformar, pode. E como pode.
Mário, o modernista barroco
Mário de Andrade foi um gigante gentil. Estranha o fato de ele ter tantos crítico e pegadores-no-pé, de antanho a hoje, sem ter sido inimigo de ninguém. Pelo contrário.
Era uma simpatia, o Mário. E como escrevia magistralmente, muito além do Macunaíma. Importa dizê-lo, pois isso é pouco falado. Mário precisa ser mais lido.
E olha que coisa, um dos maiores escritores pagou do próprio bolso muitos livros que publicou. Mais: colocou-os na malinha e foi bater de porta em porta.
É, Brasil. Se faz isso com seus maiores, que dirá com os menores e menos-que-menores…
Leia só uma cartinha que ele manda a um jovem Drummond¹, pedindo-lhe dois favorzitos importantes:
Carlos Drummond Aqui vai a Escrava [A Escrava que não é Isaura]. É oferta de amizade e admiração, acredite. Você pode distribuir os exemplares que vão juntos, por mim? Faça o favor, não sei a direção dos outros. Tenho ainda outro favor pra pedir. Você não saberá de alguma livraria aí em Belo Horizonte e em Juiz de Fora outra que queiram receber alguns exemplares (poucos) do livro em consignação? Não me incomoda com a porcentagem que pedirem. Andei e ando doente. Deixe eu sarar e responderei longamente a sua carta. O artigo eu já tinha lido. Muito bom. Já seguiu para o Osvaldo [Oswald de Andrade] também. Mário de Andrade São Paulo, 21 de janeiro de 1925
Não sei se o Modernismo do Mário foi bom ou ruim. Há muitos juízes de Modernismo, e surgem mais a cada dia. Sei é que Mário de Andrade tinha seus pecados igual todo mundo, mas sentia intensamente, foi uma alma romântica, um apaixonado pelas artes, pela literatura, pela pintura, pela música brasileira. Mário foi um sujeito controverso e simples-de-tudo; às vezes, era o artista dos rompantes e às vezes o penitente, arrependido e devoto.
De maneira que Mário de Andrade, a quem convencionou-se classificar como modernista, tinha a alma verdadeiramente barroca, pois o homem do Barroco era assim: apaixonado pela beleza que aproxima do céu, pecador que acredita em Deus, que ama os santos sem alçar-se à santidade, por saber-se indigno dela.
Assim foi Mário de Andrade, o modernista que biografou a vida do padre Jesuíno do Monte Carmelo, negro, filho de escravos, importante artista brasileiro do período barroco. De maneira que Mário estudou a fundo o barroco: possivelmente ele se identificasse mesmo com o espírito da época.
A importância total de Mário de Andrade o Brasil ainda desconhece. Felizmente, nos últimos anos uma gente competente se empenha em estudar sua obra. Ainda saberemos muito dele, coisas de valor, vale salientar; não picuinhas de alcova e bobagens do gênero.
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Filmes
Por falar em cinema: gosto de ver filmes antigos, década de 1930, 40, 50, preto e branco, por aí. Pelo seguinte: uma das sensações que me vêm quando vejo filmes antigos é a de minha completa insignificância no mundo.
Tive exatamente esta sensação quando vi Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night), de 1934, dirigido por Frank Capra e estrelado por Clark Gable e Claudette Colbert: o mundo funcionava perfeitamente bem antes de minha existência, com todo dinamismo. Em 1934, minha avozinha estava em gestação.
Serve de lição a mim, não mais jovem, e ao jovem: o mundo sempre estave aí, funcionando. Não precisava da gente, deve nada à gente.
Então, se cá chegamos, é um privilégio no fim das contas. Manda a boa educação pedir licença e aprender com quem esteve aqui muito antes de nós. Sem exigir nada, sem caprichos.
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Minha avó e o Bashevis Singer
Minha avó contava muitas histórias. Uma delas, lembro, falava de certo cavalheiro elegante que chegou a um vilarejo num belo cavalo e seduziu a moça mais bonita que lá havia. O tal rapaz engana a todos e casa-se com a moça. No fim, revela ser o Diabo em pessoa.
Ela contou essa história a minha irmã e a mim em 1984. Eu tinha pouco mais de cinco aninhos e não lembro os detalhes, só lembro de ficar impressionado com o jeito com que ela contava.
Décadas depois, leio um conto de Isaac Bashevis Singer que trata de um certo rapaz elegante que chega a um vilarejo, casa com uma moça, ganha a confiança de todos e revela ser o Diabo.
Minha avó morava num vilarejo por muito tempo não mapeado na região da Chapada Diamantina, Bahia. Que eu saiba, jamais leu Bashevis Singer. Mal foi alfabetizada, na verdade. Tinha várias histórias na ponta da língua, numa tradição anterior aos livros, a oral.
Na tardinha da última quinta-feira ela partiu, dormindo, aos 88 anos de idade.
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Quem disse
“O movimento revolucionário é uma profanação porque derruba as velhas imagens; mas essa degradação é sempre acompanhada por uma consagração do que até então era considerado profano; a revolução consagra o sacrilégio.”
— Octavio Paz
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“O intelectual genuíno é por definição perseverante. Ele assume a tarefa de aprender e de ensinar; ele ama a verdade de corpo e alma; ele é um consagrado: ele não renuncia prematuramente.”
— A. D. Sertillanges
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“Para compreender que o céu é azul por toda a parte não é preciso dar a volta ao mundo.”
— Goethe
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Direto do almoxarifado:
¹Bibliografia
ANDRADE, Mário de. A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade anotadas pelo destinatário. 1ª edição. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2015.




Meus pêsames por sua avó. Que Deus console a sua família 🙏