#9. Saudades da vida besta
Dona Rachel de Queiroz retornou rapidinho para dar um último recado
“SENTEI-ME UM POUCO e lembrei do Carlos no seu poema ‘Cidadezinha qualquer’, uma beleza:
Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar… as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus.
Perguntei à época e ele me disse: referia-se aos dias passados na sua mineira Itabira, em 1920 e poucos.
E de fato, a vida no Brasil daqueles anos que já vão longe se podia chamar de besta. Ainda era tudo terra virgem nas bordas das cidadezinhas, e cá no meio estavam comarcas e vilarejos, rodeados de montanhas e verdes sem fim. Na cidade, no centro, tinha a igreja matriz, a praça e o paço, e todo mundo sabia o nome dos donos dos fazendões, dos barões fazendeiros de uns sobrenomes imponentes, cuja posse de terras remontava ao Império.
O homem de posses mandava o filho estudar fora, era tradição. Anos depois, voltava o rapagão como um lorde para continuar o bom nome da família, com novas e grandes visões. Ligeiro comprava casa na cidade, na melhor rua, perto dos fóruns, cartórios e gabinetes. Virava gente importante o novel dotô da comarca, filho-de-seu-fulano, moço sério com preocupações elevadas e influência nos mandos da cidade; isso se não virasse mandante ele mesmo. Assim, a família mantinha o renome secular, e talvez quem sabe contratasse alguma valentia a soldo para o caso de ameaça e para manter o status de dotô pelas gerações adiante.
E no vilarejo estava o povo, andava o povo: simples a mais não poder.
O povo pouco ligava para aquela gente importante, vivia como Deus quer: reza e trabalha ou vice-versa, ia levando. Plantava num pedaço de chão, punha galinhas no terreiro, bodes no cercado, porcos no chiqueiro. Em dia de festa, abatia o barrão e defumava-lhe o couro com a gordura a rachar nas costas, do que faziam toicinho e torresmo.
Mas naquele tempo a vida era besta mesmo, meu Deus, eu me repito. Carlos tinha lá sua razão, porque no interior todo dia era igual, rotina igual, problema igual, sol igual, falta-de-tudo igual. Ano que entra não difere de ano que sai. Tudo igual.
Foi assim, mas não é mais: a modernidade caiu feito lençol e cobriu o mundo. Cobriu a cidadezinha, o vilarejo e o povo. Outro nome da modernidade é mudança: agora tudo é mudança atrás de mudança. A modernidade é feita de muitos componentes e um deles é a comunicação – levada adiante pelos seus meios, os meios de comunicação – que, a reboque da energia elétrica dos fios e postes, espalhou-se.
Então, moça e moço do vilarejo, cada qual curioso como é próprio da idade, ouvem no rádio que a vida nas capitais lá do sul não precisava ser besta daquele jeito.
Escutavam o rádio o dia todo, esqueciam a vida. E quanto mais rádio se ouvia, mais se sabia; e quanto mais sabia, mais sonhava, e eles se convenciam que a felicidade estava longe dali, naquela capital de onde a difusora transmitia.
Como negar? No rádio saía aquela voz bonita do locutor, com umas palavras todas corretas e prosa envolvente, coisa de gente estudada que não caleja mão em enxada. As vozes das moças lembravam flores, um buquê colorido e – o caboclo não sabia a palavra naquele tempo – charmoso. Mas tudo era um negócio que parecia muito bom e certo de querer.
Aqui, no vilarejo, o sol marcava a quente o couro das costas. Os dias de sofrimento sem fim secavam a natural esperança dos jovens, que, seja pelo rádio (não tinha ainda televisão), seja pelas cartas e fotos mandadas por quem já se aventurava na cidade grande, enchiam-lhes de vontade de se ir logo e mudar aquele destino traçado de séculos.
E na capital nem precisava ser dotô, pois lá na cidade “está assim de serviço”, emprego à vontade: rápido se consegue salário para comprar botinas novas “igual essa que uso na foto”, diziam nas cartas.
Fazia sentido curtir o próprio couro no sol e padecer de enxada na mão? De modo nenhum: adeus pai e mãe, que eu vou-me embora pra lá, quero vida mió (melhor).
E assim foi, e assim iam. Um ia e chamava outro que ficava, e depois outro ia e chamava outro, e depois mais outro…
O Brasil simples de antigamente foi deixando de ser tão simples – e tão besta, meu Deus. Pois a modernidade chegava, mudando tudo e iludindo a mocidade. A capital, a promessa de vida mió (melhor), foi a cada dia ficando pior: pobreza, falta de moradia, desemprego, violência.
O interior, de besta foi ficando só pacato, sem o barulho agitado da juventude. Até a capelinha com a cruz de madeira entalhada da frente virou símbolo pra turista ver, para além da simplicidade. Mesmo com os fios e postes da companhia elétrica chegando cada dia mais longe, mesmo com geladeiras a entrar nas casinhas, mesmo com os velhos envelhecendo mais a cada dia, a coisa ainda se mantinha lenta, devagar.
Mas vento agita, tempo muda, balança inverte. Lá da capital os migrados agora querem sair, vir-se embora, voltar: mas o antigo vilarejo do pai e da mãe, cadê? Não há. A simplicidade ficou na lembrança de décadas passadas. A terra sem fim agora tem fim e tem limites, toda demarcadinha por cercas e escriturada em cartório. Cada pedaço de chão tem dono, e o dono quer comprar mais terra e ficar mais dono.
Há bem mais dotô que antigamente, é verdade, nenhum barão: brigam entre si para ver quem é mais dotô e mais rico — o sonho deles é ter costa-quente em Brasília.
Na minha antiga terra sei de um que compra tudo e anda a cercar tudo. Diz que conhece deputado federal e com ele ninguém se mete. Diz que o deputado paga as festanças de varar a noite, e chegam no vilarejo um bando de motoqueiros de circo, e com barulho infernal fazem zoada a noite toda, infernizam o sono dos velhos. Acabou o sossego.
O povo de lá anda cansado demais para novidades. Vão-se um a um, findam os dias na terra, um atrás do outro. Os filhos, quase velhos também, há muito estão longe: São Paulo, Rio, Brasília. Os netos não sabem a cara dos avós. E o vilarejo é tomado pela turma do fazendeiro amigo do deputado, em nada igual àqueles do Império, aquela gente morreu todinha e só vivem nos nomes das ruas. Foi-se o amigo do imperador, veio o amigo do deputado.
Com as motos de circo eles fazem rebuliço e mostram quem manda. Assustam as senhoras que voltam das feiras e não respeitam missa nem padre. Às vezes, um comboio de caminhonetes rasga nas ruas, diz que é tudo importado, americano. Exibem uma dinheirama que ninguém sabe de onde vem. E dinheiro chama bandido igual carniça o urubu.
Tanta riqueza exibida trouxe bandidos ao vilarejo, de um tipo que os velhos só viam na televisão – lá tem televisão, faz tempo. Fecham janelas e tramelas, de dia mesmo, que agora precisa fechar.
As casinhas tem telefone e os filhos ligam, dizem que vão voltar, um dia vão. Voltar pra onde? A cidadezinha acaba-se: cada dia Deus chama um velho para Si. Ocupa o lugar uns bandos novos, uns cangaceiros motorizados, gente que não vai à missa: agora lá tem pastor que ora e Jesus obedece, e o pastor obedece ao fazendeiro.
O fazendeiro e a turma do deputado chegam no fim de semana e tomam conta do ar com caixas de som, fazem um estrondo. Na rua de cima, derrubaram as casinhas com trator, e o povo dali ninguém viu, Deus sabe pra onde foi.
Ás vezes dá uma tristeza pensar nisso. Tristeza que poesia alguma compensa, e eu morro de saudade da vida simples e besta: porque não era besta, não, Carlos; no fundo não era. Poeminha belo, mas Deus te perdoe por dizer uma besteira dessas.”
Ainda a modernidade
Leio a coletânea de ensaios reunidos no (bom título, a propósito) “A modernidade em um julgamento sem fim”, do filósofo polonês Leszek Kolakowski, cuja obra mais famosa é o seu “As principais correntes do marxismo”. Não falarei do livro no todo, que a leitura ainda caminha, mas da tal modernidade.
Leio o Kolakowski e penso que essa modernidade na qual vivemos é um tempo de impostura, na base: pois imagine, qual sociedade de qual época anterior classificou seu próprio tempo – ou o espírito do seu tempo – atribuindo-lhe certas características e dando-lhe um determinando nome que o identifique?
Que sociedade relatou insatisfações e queixas, não com a vida em si (isto sempre ocorreu), mas com a época vivida? Ou imagine-se o contrário, quem louvou o tempo vivido no presente imediato? Pensava-se sobre o tempo em que se vive de alguma maneira, percebia-se uma coisa dessas? O homem medieval dizia algo como “ó, terrível medievo em que vivo! Ó, má fortuna desses tempos médios…”?
Não, vivia-se apenas; não havia a noção de medieval na dita Idade Média.
E aquele viver-no-agora imperceptível à consciência, creio eu, residia no fato de que modo de viver e época vivida coadunavam-se antes da dita modernidade, feito a planta e a terra que se tornam uma só coisa. Ou seja, humanidade, tempo e natureza eram uma simbiose, uma amálgama, enfim.
O que me leva a concluir que a modernidade não a vivemos no âmago, no espírito. É nosso tempo mas não é uma coisa nossa, desde dentro: nos invade de fora, de cima para baixo, de um lugar desconhecido; foi-nos imposta de modo postiço e antinatural, sabe-se lá como. Por isso, nosso ser incomoda-se, pois por ela é contrariada na sua essência natural, divina, cósmica; chame como quiser.
Todavia, diz o Eclesiastes que não devemos reclamar do tempo em que vivemos — não por ser o melhor dos mundos, nem para virarmos uns doutores Pangloss — mas porque é inútil protestar contra algo que não se pode mudar: calhou de acontecer, vivamos.
Certo, mas descrever a modernidade e seus males, isso pode. E poder-se-á no futuro, creio. Imagine um dia puxar uma cadeira à porta do Paraíso e perguntar a São Pedro, “mas a modernidade, ó Santo Apóstolo, o que foi aquilo, afinal?”
Então São Pedro dirá com humor celestial, “olha, quem pode explicar a modernidade é Lutero, Descartes e Kant”, e arremata, “mas infelizmente eles não estão por aqui.”
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Bivar e a pintora
Li uma entrevista nalgum lugar com o escritor paulistano Antonio Bivar — falecido aos 81 anos em julho de 2020, vítima da Covid-19 — na qual conta ter recebido uma amiga em seu apartamento, pintora razoavelmente bem-sucedida na profissão.
Ela diz ao colega escritor algo assim: “escrever é ruim, né? Porque é muito concorrido, todo mundo escreve. Pintar, não; pintar, pouca gente pinta.”
Bivar disse que na hora não soube responder à amiga. Deu-lhe razão.
Pensei, e se fosse comigo? Concluí que também não saberia responder à amiga. Daria-lhe razão.
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Mulher normal, homem normal
Chuto com toda a certeza: qualquer mulher normal sabe que qualquer homem normal é machista num nível normal; não apenas sabe, mas deseja isso no homem, sobretudo no seu homem: dá uma sensação de segurança reconfortante na mulher normal o machismo contido de seu homem normal, e de certa forma isso a encanta pelo contraste (entre outros mistérios).
Na verdade, o machismo contido do homem normal equilibra a balança do feminismo contido da mulher normal, e talvez seja essa a beleza remanescente da relação afetiva heterossexual, que, apesar da recente baixa nas cotações, necessariamente carrega a espécie adiante.
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Quem disse
“Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos estreando.”
— Karl Kraus
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“Para quem não orientou, de modo geral, sua vida para certo fim, é impossível organizar seus atos em particular.”
— Michel de Montaigne
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“A grandeza do homem consiste em sua decisão de ser mais forte que sua condição.”
— Albert Camus
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