#44. Diferença faz diferença?
Cultivar algo que ocorre naturalmente não faz muito sentido
NUNCA ENTENDI MUITO BEM O CULTO À DIFERENÇA. Sou brasileiro, note, e ser brasileiro implica em já nascer com algumas diferenças no pacote: no mínimo três matrizes em uma, em diferentes dosagens. De modo que se houver em Pindorama alguém que não se saiba diferente, é porque não sabe nada, nem de si: nascer ao sul do Equador é nadar de braçada no mar da diferença. E neste país há tanta diferença na praça que, para nós, diferente é o igual deles, exótico entre nós é o homogêneo de outras terras.
Daí o culto à diferença por aqui ser uma estupidez, uma inutilidade. Certo, são palavras fortes. Mas às vezes penso que o Brasil — a entidade política e federativa, digo — é um enorme experimento internacional. Por exemplo, vigora por aqui uma certa democracia, dizem: de dois em dois anos — ora em ano de Copa, ora em ano de Olimpíada —, vamos os brasileiros apertar uns botõezinhos numa maquininha, ato a que chamam votar. Então votamos; e aqui se encerra a parte demo (povo) da nossa cracia (governo do). Depois, os eleitos fazem lá as coisas deles, faturam bastante o deles que afinal é nosso, e certo tribunal supremo decide se deixará tudo passar. Eis toda a cracia do nosso demo.
Então os sábios e entendidos da pós-modernidade — todos bem acoimados na ONU e suas filiais —, dizem que toda mistura é boa, sempre boa, rigorosa e necessariamente boa. Misturar é imperativo categórico, o sumo bem universal e não se discute, dizem os doutores. Será? Não sei... algo me diz que misturar a carne crua da geladeira, o sorvete, o pimentão, o xarope Vicky, o inhame, o bicarbonato de sódio, o feijão de ontem, e bater tudo num liquidificador não deve resultar numa substância lá muito boa.
Pois euzinho aqui acho que o Brasil carece de mais uniformidade. No plural: uniformidades. Pois é, cada um com a sua igualdadezinha predileta sempre ao redor. Se quiser, pois ninguém é obrigado. Mas não morra o leitor sensível de taquicardia, ainda. Antes da síncope, permita-me elaborar um pouco. Inspire, expire…
Seinfeld
Dia desses, assistia eu ao seriado Seinfeld na Netflix. Assisto para fugir da Globo, antes que ela me conscientize das coisas dela. A série americana foi ao ar de 1989 a 1998 — um recorde de duração —, e na Netflix a cópia tem excelente restauração de imagem e som. Recomendo.
Bem, apesar de ser apenas uma série de comédia, ficção e coisa e tal, notei uma coisa ali que me parece bastante verossímil. Jerry Seinfeld e seus inseparáveis amigos têm as mais variadas rotinas e vivências, mas há ali um fundo uniforme de assuntos e afinidades. Seinfeld fala ao vizinho folgado Kramer que fala ao atarracado amigo George que fala com a espevitada amiga Elaine que recomeça o triângulo, e todos estão ali, num certo nível parelho de assuntos, de afinidades e de entendimentos. Seriam eles iguaizinhos, como anões de jardim do Wal-Mart? Não. Óbvio que não.
O que ocorre é que todos na série Seinfeld têm um nível equilibrado de interesses, de assuntos e de experiências; todos falam e todos se entendem. E se desentendem às vezes, mas se reconciliam. O outro nome disso é diálogo. Portanto, se pensaram que sou algum monstro de intolerância, desistam. Apenas tenho outra receita. Posso, não? Democracia, certo?
Que diferença faz?
Se há alguma vantagem na diferença, ela se dá por efeito retardado, por uma inevitabilidade boa, digamos. Algo natural, que simplesmente ocorre, sem perceber, como a brisa no rosto. Então a diferença não é um valor em si, esse é o ponto; diferença não é nada que deva ser implantado por uma manzorra repressiva ou, no mínimo, boicotadora de carreiras profissionais.
A graça da tal diferença está na não-percepção da diferença, esta sublimada pela identificação dos costumes. Capisce? A diferença não deve ser encorajada enquanto tal, como coisa-em-si, de fora para dentro e por sisudas autoridades: “falta uma corzinha na fórmula aqui, falta umas sexualidades ali.” Não. Se a diferença ocorrer, que ocorra, mas num nível minimamente administrável ao senso comum, porque, a passar daí a coisa degringola. A menos que a ONU e suas subsidiárias queiram mesmo degringolar. Seria o caso?
Sei que o tema é escorregadio e corre-se algum risco. Mas quero desenvolver o colóquio com cuidado. Empunharei um bisturi verbal e farei minha incisão com perícia. Adiante.
Se alegam que o apelo à diferença visa promover o diálogo (sim, diálogo é importante), então os dialogantes devem estar num patamar minimamente nivelado de compreensões; então, as diferenças serão apenas um fundo de contraste que vem grátis na encomenda. De toda forma, jamais seremos clones uns dos outros, mesmo. De modo que a diferença será boa se estiver dentro de uma cercania, inserida numa configuração imediatamente identificável aos membros de uma mesma comunidade de interesses; além disso, fará bem se gerar, de modo intuitivo, uma mínima simpatia prévia de uns para com os outros. Não é difícil entender, convenhamos.
De sorte que quando o assunto é diferença, identificação é a chave. Diferença sem identificação gera indisposição e inúmeros problemas.
Agora, voltemos a falar do nosso Brasil.
Florão da América
Há relativa boa convivência entre os diferentes brasileiros, dizem. Sim, parece que sim, na média. Como já dito, há aqui diferença de sobra. O que falta no cerne dessas muitas diferenças brasileiras é o senso de comunidade, uma identificação por afinidades eletivas, para citar o clássico de Goethe. Um pertencimento que faça respeitar o outro em benefício do outro, e a coisa se retroalimenta. Não temos muito disso aqui, lamento.
Um caso ilustrativo. No último final de ano fui fazer o programa médio do brasileiro médio que sou, qual seja, ir à praia. Descansar, passar uns dias. Precisa dizer que o templo da diferença no Brasil é a praia? Se a ONU me lê já faz esquindolelê.
Fui e fiquei ali, entre o arrependimento e o fazer-valer que o turismo local propicia. Confesso, o ambiente não estava dos melhores. Olhei, olhei, refleti um pouco e disse à digníssima: “olha ao redor, esse pessoal: você tem vontade de, assim, conhecer alguém, dizer um oi?”
Claro que a digníssima já sabe minhas súbitas epifanias e assentiu levemente, talvez para não contrariar. Ordens do médico. Mas ela olhou, escutou, conferiu… e concordou: pois mal eu pergunto, e na turminha ao lado um sujeito digamos não muito bem apanhado gritou “êh! ôh! ééééé!”. Belo discurso, pensei; um Ruy Barbosa praiano. Imaginei intrincadas disputatios com o sujeito do êh-ôh-é. Debates acalorados. Profundidades aristotélico-platônicas, decerto.
Depois, a mãe gentil dos filhos daquele sujeito não se fez de rogada e entoou: “come! vai! eeeita!” — e congêneres. Pensei: “eis aí uma leitora de Spengler, tem toda a pinta”.
Pois ali havia muita diferença, dona ONU e companheiros de viagem. Felizes? Satisfeitos? Contudo, ao pensar no Seinfeld já mencionado, pus-me a pensar “como conversar com gente assim?”. Talvez eu pudesse abnegar do sujeito-verbo-predicado que aprecio e emitir uns grunhidos, bradar interjeições de volta; talvez puxasse um galho da amendoeira que nos sombreava e improvisasse um tacape, e o batesse ao chão como quem descobre a ferramenta sem querer. Faria a abertura do 2001, de Kubrick; talvez inovasse ali um ritual neandertal em pleno quartil de século 21, emitindo urros guturais; talvez eu conseguisse igualar complexidades com a turminha ao lado, num humilde e voluntário rebaixamento dos meus tópicos de interesse. Sim, seria possível; porém, sou fraco para tanta… diferença.
Consegui disfarçar meu desapontamento ante a vacuidade mental daquelas criaturas admiráveis, todas contempladas pelos direitos humanos e pela carta magna. Mas, pensei, como é possível que papai do céu dê um cérebro a cada um de seus filhinhos e tantos dispensem o bom uso do instrumento? Mais, como pode ser a vida diária de quem se comunica por grunhidos e interjeições? E o governo concede títulos eleitorais a tais compatriotas. Viva a democracia.
Aquele país
Eu tinha de falar dos Estados Unidos, nossa eterna comparação, nosso inalcançável benchmark socioeconômico e tudo o mais. Claro, lá existem uns quantos poréns como é próprio da condição humana, todavia contextualizo: é que às vezes a digníssima assiste aos programas de reforma doméstica do americaníssimo canal Discovery Home & Health. Ela aprecia o derribar daquelas paredes de papelão e o ressurgir daquelas casinhas da Barbie todas revestidas em clapboard. Ela gosta; eu aguento.
Mas, vendo aqueles programas, reparei algo. Se alguém contrata, digamos, um carpinteiro para fazer um pergolado no quintal, tenha certeza: o referido profissional não apenas fará o pergolado, mas dará uma aula sobre pergolados. Ele saberá as melhores plantas ornamentais e que melhor época do ano para cultivá-las; saberá a propriedade da madeira escolhida, que produto usar para evitar os cupins; explicará os meandros do ofício e o tornará interessante para além da mera mão-de-obra braçal. Ele saberá, enfim, comunicar-se num mesmo nível com os contratantes. Dirá períodos em vez de grunhidos, sujeito, verbo e predicado. De novo, a regra da série Seinfeld: mesmo nível de comunicação.
Ora, a vida não fica mais interessante assim? Há diferença ali, sim senhores, e ela nem é percebida mas absorvida na convivência mediante a identificação. Pronto, lição aprendida.
Há controvérsias, dirão alguns chatos. Ora, sempre as há. Mas o recado está dado: sobra diferença e falta homogeneidade ao Brasil. Faltam níveis equilibrados de compreensão e comunicação. Falta sujeito, verbo, predicado nas falas dos verde e amarelos. E sobram diferenças, e sobra a ONU a aporrinhar, e sobram ruys barbosas de praia com suas interjeições: êh! ôh! ééééé!
Filigranas
Em geral, quem diz gostar do que o autor escreve gosta da pessoa que escreve. E quem não gosta do que o autor escreve, em geral não vai muito com a cara do autor em si. Examine-se o leitor. Não é verdade? De toda forma, na hora de escolher o que ler, o rei sentado no trono é sempre a afeição. Tudo bem. Afeição não faz mal, tampouco engorda;
No estrangeiro é comum que as capas dos livros tragam o nome do autor em letras grandes, e o título, em letras menores e mais discretas. Parece que lá as pessoas confiam no escritor e se deixam levar por suas “propostas”: ficam curiosas para saber a história da vez que ele ou ela contará. Aqui, o nome dos autores fica pequenininho nas capas, pois o rarefeito leitor brasileiro busca livros pelo título (ou tema ou recomendação), mas diversifica absolutamente os autores. Há uns poucos fiéis por aqui, verdade; mas são raríssimos;
Quem tem espírito e criatividade usa jogos de palavras para se expressar; diferente de quem não tem espírito nem criatividade, e por isso usa apenas jogos de palavras para se expressar;
“A gente era feliz e não sabia.” De fato, quando somos felizes, nunca o sabemos. No momento em que se está feliz, se está ocupado demais com a felicidade para pensar nela;
Gravidade numa criança = picardia numa mulher = queixume num homem.
O escriba, agora publicado
Desde 2023, quando pus o ponto final no meu romance “Francisco Maia”, fiquei a pensar como e onde estrear para valer no mundo editorial. Entre prós e contras, possibilidades e impossibilidades, pensava seriamente na Editora Danúbio, de Curitiba, casa vibrante tocada pelo ótimo escritor e corajoso editor Diogo Fontana. Li seu romance “Se Houvesse um Homem Justo na Cidade” e gostei muito. Proporia a ele meu livro, pensei; mas daí ele aceitar seriam outros quinhentos.
Em janeiro, entrei em contato com a editora. Simpático, o editor dissera já ter lido e apreciado alguns textos dessa modesta newsletter, para minha surpresa. Pediu-me para enviar o original do livro, ao que atendi prontamente.
No mesmo dia, Diogo Fontana entra em contato e aceita publicar o meu romance, destacando trechos de que gostou. Ainda leria mais do livro nos dias subseqüentes e topa assinar o contrato. Sorte a minha; generosidade a dele.
Assim a Danúbio resumiu a obra que irá publicar, agora divulgada nas redes sociais da editora. Melhor sinopse eu não faria:
“Com uma narrativa envolvente e rica em detalhes históricos, o livro acompanha a trajetória de Francisco Maia, um jovem idealista que atravessa as turbulências políticas e culturais do Brasil ao longo das últimas décadas.
A história mescla drama, política e humor, numa estrutura inspirada nos grandes romances de formação.”
Sediada em Curitiba e fundada em 2013, à época como livraria, a Danúbio tem se destacado desde então como uma editora que abriga a nova literatura brasileira, sem nenhum exagero. A casa publica também títulos de não-ficção, com nomes de peso como Miguel de Unamuno e Otto Maria Carpeaux. No catálogo já figura um indicado ao último prêmio Jabuti, o caso de “O Deus Oculto no Canto do Córner”, de Milton Gustavo, além de escritores de expressão na cena contemporânea, como Alexandre Soares Silva.
Enquanto as grandes casas editoriais se engalfinham com ideologias hegemônicas, representatividades compulsórias e cotas disso e daquilo, a Danúbio dedica-se a publicar tão somente literatura autêntica e boas histórias, pensando tão somente, imaginem só, nos prazer dos leitores.
Então, caros inscritos, assim que “Francisco Maia” estiver na praça, divulgarei. Por ora, conheça o catálogo da Danúbio clicando aqui.
Quem disse
“Analisa-te então a ti próprio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperança te aflige o ânimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mantém igual a si mesma, isto é, plena de elevação e contente de si própria, então conseguiste atingir o máximo bem possível ao homem!”
— Sêneca
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“A devoção perpétua ao que um homem chama de seus empreendimentos só pode ser sustentada pela negligência perpétua a muitas outras coisas. E não é de modo algum correto que os empreendimentos de um homem sejam a coisa mais importante que ele tem a fazer.”
— Robert Louis Stevenson
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“Ai do tempo em que a arte não faz a terra vacilar e em que, diante do abismo que separa o artista do homem, o artista é tomado por vertigens e não o homem!”
— Karl Kraus
Direto do almoxarifado
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