#4. Super Xuxa contra a Crackland
De como a sra. Meneghel elucidou uma calamidade social usando simplesmente o poder da semântica
Produzo a mais-valia na região central, em certa firma localizada numa alameda paulistana sem álamos e onde as aves não gorjeiam como lá em Gonçalves Dias. Estar naquele enclave exige abnegação, sobretudo da beleza: haja prédios tenebrosos e abandonados que a pós-modernidade legou à região, cujo subproduto incidental foi a famigerada Cracolândia. Todavia, grafarei em inglês para comover as varandas-gourmet que nunca estão nem aí, exceto se o mal for em inglês: Crackland. Trabalho perto da Crackland paulistana.
Pois então, para acessar o Centro de Incubação de Londres Central - Unidade S. Paulo, portentosa companhia na qual dou expediente, driblo muitas ilhotas de cocô-de-gente que desidratam ao sol e atraem uma fauna de moscas, além de liberar odores nauseabundos no ar. Para além do zigue-zague defensivo, naquelas calçadas de uréia também deparo-me com vários figurantes da série The Walking Dead, ali, na moita, como diria o businessman e cosplay de mano Mano Brown; fumando unzinho, sacumé?
Pois lá ficam eles a consumir o gererê diário em cachimbinhos de anteninhas Telefunken e fornilho de latinhas de alumínio, o tal crack.
Mas voltarei ao crack e sua alquimia singular. Antes, porém, as três leitoras e leitores que aqui frequentam sabem que esta prosaica newsletter trata de literatura, e não de temas mais ao gosto do infame Datena — o qual não trata de literatura; no entanto, abro hoje uma exceção, e trago à baila outra celebridade de mais finesse que o gordote, embora também sem literatura: a sra. Maria da Graça Meneghel. É por um bom motivo, logo vereis.
Desnecessário dizer que dona Xuxa foi sucesso absoluto em fins do século passado, e que ultimamente voltou à ribalta do canal platinado em plena sexagésima idade. Em priscas eras, porém, dona Xuxa fez uma campanha contra entorpecentes, no auge da carreira, lançando um jargão que ficou famoso Brasil afora: “a droga é uma droga”.
Oh, decerto o estilo não agradou aos mais estetas da língua, o que é compreensível. Não traz mesmo bela música o bordão. Ocorre que, se madame Meneghel não brilhou no versejar, revelou por outro lado grande verdade no slogan. Mais, até: foi profetisa inconsciente, pois o dito encerra um fato que leva à conclusão que vem adiante.
Notem que na frase “a droga é uma droga”, a primeira droga é substantivo e a segunda droga, adjetivo. Então droga é uma droga significa “a [coisa concreta] é um [atributo da coisa concreta].” O substantivo é um adjetivo, a frase quer dizer. Parece pouco, mas não é.
Bem, agradeço de público a participação da sra. Xuxa, e agora volto aos crackers, aos cracudos de Crackland, tampando o nariz.
Quando inspiram e prendem a fumacinha de Satã, cuidam os drogadictos absorver um grande alucinógeno. Qual: inalam gato por lebre, inalam contos do vigário os lazarentos. Pois sua droga-substantivo não passa de droga-adjetivo, como Xuxa ensinou.
Não se vá, leitora e leitor, que isso é importante: sabe-se que o tal crack não é produzido em linhas de montagem ao estilo Apple Computer, com uma fila de orientaizinhos de igual estatura em uniformes assépticos a encaixar pecinhas numa enorme esteira móvel, livre de células-mortas e perdigotos. Ora, cuidam os senhores que assim mesmo seria produzida o maldito crack dos cracudos?
Seria razoável supor que na Favela do Moinho — suposto local da manufatura (da qual Regina Casé decerto chamaria Comunidade do Moinho, como quem fala de um feudo nas escarpas de Espanha), pois bem, seria razoável imaginar que há ali uns exímios alquímicos a medir em laboratório, com precisão alopática, a quantia exata da raríssima cocaína misturada a uns bem dosados produtos sintéticos, obtidos em indústrias químicas de proa?
Pergunto, teriam uns traficantes o apuro técnico de elaborar entorpecentes tão bem quanto os relojoeiros da Audemars Piguet montam relógios? Para quê o fariam? Para uns zombies pobres vítimas de si mesmos inalarem a mistureba por anteninhas, para depois, perdão, mijarem no passeio público?
Ora, senhoras e senhores, tenhamos juízo. Tanta perícia alquímica, tanto ISO 9001 caseiro para somente isso? Não, a gente de bem há de concordar.
Então, que fumam os cracudos de Crackland? — pergunta você. Bem, algo grátis e abundante, obviamente. Titicas de pombo. O próprio pombo. Madeiras velhas. Embalagens de isopor. Condoms usadas. Tudo misturado a amoníaco ou uréia — substância similar, barata e logo à mão — mais alguma liga misteriosa que solidifique o troço, depois de exposto ao sol sobre as muitas telhas Brasilit da comuna medieval do Moinho. Separadas em pedrinhas, então, a porcaria poderá ser vendida a dez real ou sei lá quanto.
De maneira que, por este arrazoado, não apenas alerto as autoridades competentes como exorto aos próprios crackers de Crackland que eventualmente acessarem esta missiva num celular surrupiado: fumam vocês um adjetivo como se substantivo fosse, lamento. Sim, ó nóias: sua droga é uma droga, Xuxa disse com acerto, pois isto que em vossos dedos sujos trazeis não é droga de verdade, é droga figurada. De modo que vosso alegado vício não passa de autossugestão, e com isso dou-lhes uma boa notícia: o sr. não é viciado pois fuma apenas um placebo fedorento, nada mais. Não há vício algum aí. Apenas equívoco.
Então, ardorosamente os conclamo a largarem imediatamente a ilusão. Voltem às suas casas! Desistam de evacuar em calçadas e, por fim, como admoestou São Pedro ao paralítico na escadaria do templo, digo euzinho a vós outros, desde segura distância: “eu te ordeno, levanta-te e anda”. Chispa, caboco, e tome lá um rumo na vida. Esteja o teu destino onde estiver, complementa Xuxa.
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O gringo e o brasileiro; o brasileiro e o gringo
Não acho e jamais achei que o mundo desenvolvido goste pra valer do Brasil e do brasileiro. Eu disse pra valer. Acho porém que há outra coisa, uma condescendência a priori deles para conosco. Somos uns cafés-com-leite para eles. Isso: nos veem feito um adulto que vê um menininho de paletó em miniatura, a imitar um adultinho de verdade e a falar umas coisinhas sérias que no fundo nem sabe o que significa. Daí o gringo olha o brasileirinho e pensa “olha só que fofo, que diferente, que engraçadinho”. E fica nisso.
Às vezes também acho que o bem-querer gringo para conosco é meio que uma tolerância ligeiramente humilhante, no fundo, “tadinho, deixa ele! Brasileiro, né? Está desobrigado… o Brasil é tão legal… futebol, bossa-nova, Amazônia…”. O pacote de sempre.
Olhe, sei lá eu. Se o gringo nos levasse mesmo a sério, se nos examinasse com uma lupa e sob o mesmo peso de importância de países similares ao seu, ele no mínimo nos desprezaria, não por maldade, mas por puro blasé. Desprezaria-nos pelo distanciamento cultural de abismo, pelas limitações sociais intransponíveis que nunca vencemos e porque, afinal de contas, não pisamos em seus calos pra valer, pelo contrário.
De modo que nunca ser levado a sério é um trunfozinho medíocre que levamos na manga mundo afora; vantagem baixa que, se não atrapalha, também não ajuda em nada de realmente importante.
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Às vezes vejo um brasileiro a ciceronear um gringo aqui em São Paulo. Basta ouvir, nem precisa olhar para sacar qual deles é o brasileiro: nosso inglês com sotaque é bem curioso quando escutado por terceiros. Parece que não temos muito jeito com consoantes, então tudo soa meio martelinho na pedra, pic pec pic pec.
Até aí tudo bem, ter sotaque. Mas noto como nunca escutei um diálogo pra valer entre brasileiro e gringo: sempre parece a brincadeira de bafo da infância, cada um bate a mão na figurinha e vira a sua: primeiro um solta uma frase, depois o outro solta outra; tudo em paralelo, em fileiras e sem imbricações, zero ganchos nem mudanças espontâneas de assunto. Nunca há subentendidos e risos por piadas internas. Não, é sempre um pif-paf que empilha e empilha mas não troca nem mistura, com naturalidade de guia turístico.
Em companhia do gringo, o brasileiro ainda por cima parece querer ser amado por ele, esforça-se com íntimo desespero pela afeição gringa; quer com todas as forças causar a melhor impressão do seu micropedaço de país imediatamente demonstrado, e também tenta provar, ao máximo possível, que não é tão diferente assim dele, que não é tão exótico como dizem, poxa.
O pobre brasileiro que pronuncia a marteladinhas trava uma batalha de nervos para ser percebido pelo gringo como gringamente normal, um legítimo bro para ele. Na volta ao país de origem, se o gringo conseguisse levá-lo dentro da mala, ele toparia, quem duvida?
Bem, de minha parte, não duvido nem julgo. Eu mesmo não recusaria esse tipo de oportunidade.
Tópicos
Não carece, mas também não custa saber: o cachorrinho de Robert Louis Stevenson se chamava Bogue.
Diga que cursa filosofia: seja na USP, no Mosteiro de São Bento ou na UniCarequinha: rirão de você, superiormente. “Coitado, filosofia. Ainda bem que fiz TI.” Certo, mas ouse dizer em público “olá, sou um filósofo”. Subitamente você verá o — quero crer — o valor simbólico que dão à filosofia, num esquizofrênico cavalo-de-pau valorativo: “que absurdo alguém se dizer filósofo”, ou, “o autodeclarado filósofo Fulano”. Um ultraje, um atrevimento sem paralelo filosofar no Brasil. Ué, mas a filosofia existe para ser praticada, não? Filosofia não é a santidade, embora paguem por ela como pagam a santos dos pés descalços.
Muito mais fácil não escrever. Facílimo não querer, não tentar, não sonhar, não buscar. Sempre mais fácil não se aventurar, tampouco se atrever. Melhor jamais começar, sequer intentar. Muito polido não ousar, louvado é não se colocar. Favor desistir: querem a Avenida das Tentativas livres de você, para passarem como quem se arrasta, como quem não merece. Amam o não-brilho, o inofensivo. Ao perene e eterno, ali próximo a si, querem improdutivo e morto. Anseiam a auto-anulação do anônimo para que não vire ex-anônimo. A quem louvam? A todo estéril que adere.
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Quem disse
“Um homem é tanto mais essencial e necessariamente solitário quanto mais ocupe uma posição elevada na hierarquia da natureza. Então é um verdadeiro gozo para esse homem que a solidão física esteja relacionada com seu isolamento intelectual. Se isso não é possível, a frequente vizinhança de seres heterogêneos molesta-o tornando-lhe funesta, porque lhe rouba o seu ‘eu’ e não tem nada que lhe oferecer em troca.”
— Schopenhauer
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“Poder e autoridade são dispensados aos dominantes, mas a todos os homens é dado amor, força e coragem.”
— Joseph Conrad
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“Os otimistas escrevem mal.”
— Paul Valéry



