#70. O narrador-deus
Uma reflexão acerca da voz em terceira pessoa na literatura
EM MATÉRIA DE FICÇÃO, há certo perigo inerente à narração em terceira pessoa. Digo perigo no sentido de algo delicado, que demanda cuidado e delicadeza no trato. Para ilustrar a situação, pense numa cirurgia, por exemplo.
A voz em terceira pessoa é também chamada de narrador onisciente, como um deus ou divindade que tudo sabe e tudo vê. Ou melhor: ele tudo pode saber e tudo pode ver. Pois o onisciente, embora tenha em si o atributo desse conhecimento total, ele pode simplesmente não querer saber, por alguma razão, embora consiga. O verdadeiro Onisciente que é Deus, por exemplo: Ele não enxerga mais nossos pecados depois que os confessamos, por decisão própria, embora Ele os saiba um a um. Ele viu tudo na hora, de modo flagrante, conhece o antes e o depois, mas agora decide não mais lembrá-los, pois assumimos nossas culpas e as confessamos, arrependidos.
Mas não é de religião que se trata este colóquio. O ponto é que a onisciência é um atributo divino por definição, e da mesma forma, a voz em terceira pessoa é como alguém que acompanha passo a passo um personagem, ele ou ela, e não um eu. O narrador onisciente é, portanto, essa espécie de “deus” que enxerga o personagem-objeto com olhos externos, é um outro incumbido de nos dar a ver o que seu caractere observado faz, pensa, sente, etc.
Pois bem, mas nessa dinâmica triangular entre narrador - personagem - situação pode incidir um equívoco ao escritor, que, em executando mal a narrativa, gerará aquele distanciamento superficial e irritante, num texto repleto de estereótipos, cacoetes e preconceitos fáceis. Isso quando não descamba, por falta de habilidade ou atenção, na mera fofoca, quando o ele se torna aquele, e ela, aquela. Ou seja, a distância entre narrador e narrado aumenta mais que o necessário, e os personagens, o invés de se humanizarem, se “coisificam” durante a narrativa. Este mau narrador não demonstra compromisso com o que narra, mas parece menosprezar, subestimar aquilo que relata.
Sendo esse “deus onisciente”, o narrador não pode agir como um magistrado num tribunal – que tem diante de si um réu pronto a ser condenado ou absolvido – ou como um trocista banal que conta casos num bar, ileso e descompromissado, a apontar dedos enquanto entorna uma cerveja gelada.
Sendo deus – tiro as aspas para não cansar –, embora não seja ele mesmo o narrado (aí teríamos a voz em primeira pessoa), o narrador adentra as câmaras do coração do personagem e o compreende em profundidade; o narrador-deus ama, portanto, e ali, movendo-se na alma do objeto amoroso, enxerga as motivações profundas do ente narrado.
De modo que esse narrador agirá sempre movido pela compaixão e retidão, o que difere da mera complacência, da simples aquiescência. Se o narrador não pode ser juiz, também não deve ser advogado. Tampouco ele defenderá uma causa em abstrato, tendo o personagem como pretexto ilustrativo para suas convicções ou objetivos pré-determinados.
Isso significa que o narrador onisciente tem num prato da balança o coração e a alma de seus personagens; no outro, a virtude, os princípios morais universais que a mera particularidade não anula. O narrador-deus oscila entre o rigor e a misericórdia (para citar o nome genial de um álbum do Lobão), e em geral, faz prevalecer a misericórdia, sem deixar de mostrar as consequências eventualmente cometidas pelo personagem.
No seu trato, o narrador em terceira pessoa olhará para os atos de seus personagens tendo por base aqueles princípios imutáveis que regem a humanidade desde sempre, e sua voz exprimirá experiência e sabedoria, de um modo sutil, diáfano. Ele jamais irá sentenciar ou pontificar, nem eximir culpas. Seus personagens são vivos, autodeterminados e têm livre arbítrio, fazem o que escolhem fazer. Se o juízo se torna inevitável, ele fica subjacente na narrativa, separando o certo do errado nos atos e decisões do personagem.
Não é tarefa fácil, com efeito.
Sempre por trás das cortinas, em off, o narrador onisciente conta a trajetória do personagem colocando-o em paralelo ao que ele mesmo, narrador, sabe de antemão ser a melhor atitude, embora o personagem possa tristemente não fazê-lo e errar o caminho. Aqui está o cerne mesmo do drama: o narrador-deus deixa insinuada aquela imperfeição, camuflada sob os desdobramentos da trama.
Outra coisa que o narrador onisciente jamais fará é pouco caso do personagem, como se este fosse uma coisinha estúpida bem abaixo do Monte Olimpo narrativo. Aqui há um detalhe fundamental: sendo espírito, o narrador está dentro e não acima do personagem; invisível, ele deve passar despercebido enquanto o leitor vivencia o drama e o sente durante a leitura, vibrando ou sofrendo com o personagem. É isso que torna a leitura instigante para quem lê.
Quando bem executada, a narração em terceira pessoa faz o personagem ganhar densidade real, fá-lo um ser humano memorável, próximo, acalentado; ele desperta a afeição do leitor. E isso mesmo quando falha, mesmo na tragédia. Afeição como efeito da leitura: se for esse o resultado final para quem lê, a história funcionou e cumpriu o seu papel. Parabéns ao escritor.
O amor e o repertório
Existe uma grande diferença entre amar a literatura, tê-la no coração e ter somente um repertório literário. Na aparência, ambas se confundem; aliás, pode ser que a segunda se destaque mais do que a primeira, a depender da habilidade de cada um em exteriorizar sua bagagem literária e marcar presença, por assim dizer.
Seja como for, o repertório atende apenas a fins exteriores, e se reporta a uma espécie de preparo: se perguntarem, tem-se a resposta na ponta da língua. Mas a coisa fica nisso.
Literatura no coração também consiste em repertório, sem dúvida, porém vai mais a fundo: o conjunto de leituras é absorvido e se torna todo um jeito de ser e de viver, um modo de enxergar a existência. Torna-se uma ética.
As rotinas todas se parecem, e as obrigações da vida se repetem para todos; porém, para quem traz a literatura no coração, a maneira de elaborar a vivência na cabeça e portanto no modo de agir tem a influência marcante das leituras, do conjunto internalizado delas. Algo metabólico, mesmo.
Literatura no coração não faz do leitor um quixote delirante, longe disso. Dom Quixote, o próprio, sofreu agruras por seu atavismo, por querer ser os heróis de cavalaria de seus romances. Um diagnóstico moderno apontaria algum transtorno de personalidade, certamente.
Depois, não se trata apenas de romances essa literatura que habita o coração, mas de uma absorção saudável todos os gêneros literários proveitosos ao ser: filosofia, teologia, poesia, ensaio, teatro, etc. etc. Trata-se, enfim, de uma substância interior que só a boa leitura proporciona.
Por outro lado, o leitor por repertório está mais preocupado com o efeito exterior das leituras. Ele acumula uma cultura livresca protocolar para atender a uma necessidade de performance. No fundo, compara-se a alguém, quer empatar ou superar aquele rival indireto, ou acena positivamente a algum grupo, a uma turma em oposição a outra.
O leitor por repertório quer apenas ser aceito e bem posicionado. Sua leitura, sempre enviesada, é o preço que ele tem de pagar. Uma tristeza, no fim das contas.
Apontamentos
Leio contemporâneos se me despertam o interesse numa dada circunstância. Noto, porém, que não aprecio escritores em quem não percebo ou intuo um coração derramado e desinteressado de si, notoriamente bondoso, e que demonstre amor pela verdade. Se querem saber (talvez não queiram, tudo bem), acho mesmo que a literatura não é bem o lugar destes tipos. Estão perdidos, é provável. Espero que um dia notem o equívoco.
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O quesito “escrever bem” é dos mais confusos e controversos na percepção dos leitores. Não raro, com “escrever bem” quer-se dizer escrever o que eu gosto de ler, trazer a idéia que eu aprovo, tal. Mas isso não é propriamente a coisa. Escrever bem implica em saber expressar a mensagem por meio das palavras, com algum tempero próprio. E chegar ao efeito desejado, seja pró ou contra. Tanto o santo quanto o canalha podem escrever bem. Inclusive enquanto tais.
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Um paradoxo: quando algo parece muito difícil, está na verdade fácil. Basta entender os meandros desse difícil-fácil e adotar a disciplina necessária para chegar ao alvo. Por outro lado, quando algo parece fácil, assim parece a muita gente, e aquilo torna-se, então, difícil. Sobretudo difícil de proporcionar valor e proveito.
Quem disse
“A verdadeira vocação é aquela que não depende do louvor alheio para perseverar. Portanto, mesmo sem aplausos, agarre a sua tela, o seu pincel e a sua caixa de tintas e vá pintar. Fique certo de que esta luz também é sua e que não há aplauso alheio que se compare ao que nos advém de uma emoção particular.”
— Josué Montello
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“Vou dizer-lhe o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não creio mais, quer se autodenomine meu lar, minha pátria ou minha igreja; e tentarei expressar-me em algum modo de vida ou de arte tão livremente e tão integralmente quanto puder, usando como defesa as únicas armas que me permito usar — silêncio, exílio e astúcia.”
— James Joyce
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“Não se desapaixonem, porque a paixão é o único vínculo que temos com a verdade.”
— Ricardo Piglia
Direto do almoxarifado
Podcast Prosaica
Na edição 15 do podcast, falo a respeito de como driblar (pois já está mais do que na hora de driblar) a hipnose dos algoritmos. Ouça no Spotify ou no Apple Podcasts.









Excelente, meu amigo; excelente.
De umas décadas para cá, o narrador em terceira pessoa virou persona non grata para muitos escritores. O ponto de vista onisciente passou a ser visto como irreal e até ideológico, já que a onisciência carrega consigo uma espécie de pretensão à "verdade" — coisa que desagrada a muita gente. Mas não gosto dessas posições meio de manifesto, do tipo: "não escrevemos em terceira pessoa; apenas em primeira, a única perspectiva honesta" etc. De todo modo, concordo os riscos que a terceira pessoa carrega e que o FLC apontou muito bem.
Uma solução muito bem-vinda é aproximar o narrador dos personagens e do contexto, tornando-o menos um "Deus" e mais uma espécie — na falta de expressão melhor — de "encosto": uma onisciência nem tão onisciente assim, que observa os personagens de perto, e não de uma distância etérea e eterna. Curiosamente, isso faz com que o próprio narrador adquira algo de personagem — como se circulasse por ali, mas sem uma presença suficientemente materializada para se tornar gente de carne e osso.
O que, por sua vez, conduz a outra consequência interessante: esse narrador não se confunde com o autor. Aliás, nunca deveria se confundir, embora isso aconteça com frequência no caso do narrador onisciente puro. Pode parecer paradoxal, mas esse narrador-personagem, ao ganhar vida própria, transforma o escritor num simples meio — o que exige deste bastante humildade e controle para aceitar seu papel coadjuvante.
Tão ruim quanto o narrador "Deus-julgador", arrogante e sentencioso, é o escritor que não se contém e infunde nesse narrador preconceitos, taras e pontos de vista estritamente pessoais que não pertencem à obra. Não por acaso, um escritor pode criar histórias extraordinárias e ter, ele próprio, uma vida banal e desinteressante.