De umas décadas para cá, o narrador em terceira pessoa virou persona non grata para muitos escritores. O ponto de vista onisciente passou a ser visto como irreal e até ideológico, já que a onisciência carrega consigo uma espécie de pretensão à "verdade" — coisa que desagrada a muita gente. Mas não gosto dessas posições meio de manifesto, do tipo: "não escrevemos em terceira pessoa; apenas em primeira, a única perspectiva honesta" etc. De todo modo, concordo os riscos que a terceira pessoa carrega e que o FLC apontou muito bem.
Uma solução muito bem-vinda é aproximar o narrador dos personagens e do contexto, tornando-o menos um "Deus" e mais uma espécie — na falta de expressão melhor — de "encosto": uma onisciência nem tão onisciente assim, que observa os personagens de perto, e não de uma distância etérea e eterna. Curiosamente, isso faz com que o próprio narrador adquira algo de personagem — como se circulasse por ali, mas sem uma presença suficientemente materializada para se tornar gente de carne e osso.
O que, por sua vez, conduz a outra consequência interessante: esse narrador não se confunde com o autor. Aliás, nunca deveria se confundir, embora isso aconteça com frequência no caso do narrador onisciente puro. Pode parecer paradoxal, mas esse narrador-personagem, ao ganhar vida própria, transforma o escritor num simples meio — o que exige deste bastante humildade e controle para aceitar seu papel coadjuvante.
Tão ruim quanto o narrador "Deus-julgador", arrogante e sentencioso, é o escritor que não se contém e infunde nesse narrador preconceitos, taras e pontos de vista estritamente pessoais que não pertencem à obra. Não por acaso, um escritor pode criar histórias extraordinárias e ter, ele próprio, uma vida banal e desinteressante.
Excelente, meu amigo; excelente.
Agradeço de coração, caro Samuel.
De umas décadas para cá, o narrador em terceira pessoa virou persona non grata para muitos escritores. O ponto de vista onisciente passou a ser visto como irreal e até ideológico, já que a onisciência carrega consigo uma espécie de pretensão à "verdade" — coisa que desagrada a muita gente. Mas não gosto dessas posições meio de manifesto, do tipo: "não escrevemos em terceira pessoa; apenas em primeira, a única perspectiva honesta" etc. De todo modo, concordo os riscos que a terceira pessoa carrega e que o FLC apontou muito bem.
Uma solução muito bem-vinda é aproximar o narrador dos personagens e do contexto, tornando-o menos um "Deus" e mais uma espécie — na falta de expressão melhor — de "encosto": uma onisciência nem tão onisciente assim, que observa os personagens de perto, e não de uma distância etérea e eterna. Curiosamente, isso faz com que o próprio narrador adquira algo de personagem — como se circulasse por ali, mas sem uma presença suficientemente materializada para se tornar gente de carne e osso.
O que, por sua vez, conduz a outra consequência interessante: esse narrador não se confunde com o autor. Aliás, nunca deveria se confundir, embora isso aconteça com frequência no caso do narrador onisciente puro. Pode parecer paradoxal, mas esse narrador-personagem, ao ganhar vida própria, transforma o escritor num simples meio — o que exige deste bastante humildade e controle para aceitar seu papel coadjuvante.
Tão ruim quanto o narrador "Deus-julgador", arrogante e sentencioso, é o escritor que não se contém e infunde nesse narrador preconceitos, taras e pontos de vista estritamente pessoais que não pertencem à obra. Não por acaso, um escritor pode criar histórias extraordinárias e ter, ele próprio, uma vida banal e desinteressante.